Entrevista realizada com Flávia Biroli e Luciana Tatagiba por ocasião da nova diretoria na Associação Brasileira de Ciência Política

Quais são, no entender da nova diretoria, os principais desafios da associação nos próximos dois anos? Quais são as metas prioritárias? 

Nossa prioridade é o fortalecimento institucional da ABCP, dando prosseguimento ao trabalho realizado nas gestões anteriores. Essa direção nos leva a investir em duas frentes prioritárias: a valorização da diversidade constitutiva da Ciência Política brasileira, em sua expressão regional, linhas de pesquisa e abordagens teóricas e metodológicas, e a ampliação de nossa atuação internacional, a partir da intensificação dos vínculos com associações de outros países, sobretudo na América Latina.

A área de Ciência Política se ampliou muito nos anos recentes. Entendemos que a ABCP tem o papel de estimular diagnósticos qualificados sobre a área e seus desafios. E pretendemos fazer isso numa perspectiva comprometida com o enfrentamento das desigualdades que conformam o campo. Para colaborar na compreensão do impacto das assimetrias de gênero na profissão, estamos trabalhando em um projeto editorial que discute a relação entre ciência, poder e gênero no Brasil, mobilizando um forte time de pesquisadoras de diferentes regiões do país. O livro, resultante dessa colaboração, será lançado no nosso próximo encontro, em 2020.  Além disso, vamos propor uma comissão permanente na ABCP para debater as desigualdades de gênero e raça e estimular iniciativas voltadas a minimizar seus impactos em nossa área.

Também nos parece fundamental a atenção para as especificidades da Ciência Política nas diferentes regiões do país. A criação das Diretorias Regionais pela gestão anterior ampliou a visibilidade, assim como os instrumentos de que dispomos para compreender os desafios nas regiões e colaborar, dentro das nossas possibilidades, para seu enfrentamento. Pretendemos fazer isso em um diálogo – que já está em curso – com o Fórum dos Coordenadores e com a Coordenação da área na Capes.

Diante da expansão da área de Ciência Política no país nos últimos anos e da alta demanda por novos grupos de trabalhos e áreas temáticas consequentes deste aumento, como foi o processo que levou à criação da AT de relações raciais? Como se decide pela criação de uma nova AT?

De fato, a Ciência Política brasileira é diversa e plural e as ATs –atualmente em número de 17 – expressam isso. Ao lado de áreas consolidadas que continuam mostrando extraordinário vigor, o que pode ser evidenciado pelo alto número de propostas de trabalho submetidas e pela densidade das pesquisas apresentadas, temos visto ao longo dos últimos encontros uma ampliação significativa das nossas ATs, respondendo à crescente demanda dos nossos associados. A proposta de criação de uma nova AT pode ser realizada pela Diretoria Nacional da ABCP ou por um conjunto de associados, sendo que, em ambos os casos, sua aprovação deve ocorrer em duas Assembleias gerais da Associação. A AT de Relações Raciais, coordenada pelos colegas Luiz Augusto Campos (IESP/UERJ) e Cristiano Rodrigues (UFMG), teve sua aprovação final no nosso último Encontro em Curitiba. Trata-se de uma área que possui ainda pouca tradição de pesquisa na Ciência Política brasileira e esperamos que a criação da AT possa dar maior visibilidade às pesquisas existentes e estimular mais pesquisas e reflexões em torno desse tema tão relevante para o fortalecimento da democracia, que é a questão racial.

Sobre o projeto de regras de alternância nas coordenações das ATs, qual o diagnóstico que levou à confecção desta proposta? Há um critério regional e outro relacionado ao gênero? Como eles funcionariam?

 Nossa proposta de criar regras para a alternância na Coordenação das ATs está ancorada no diagnóstico de que o crescimento da área e da Associação exigem novos passos na institucionalização da ABCP e dos nossos encontros. Trata-se de definir regras que sirvam como apoio e referência para as áreas e seus coordenadores e, também, de induzir práticas voltadas a minimizar as assimetrias regionais e de gênero no cotidiano de nossa Associação. Atualmente, há acentuado desequilíbrio regional na composição das coordenações, embora na questão de gênero tenhamos tido no último encontro um quadro mais paritário. Entendemos que, como Diretoria, devemos, respeitando a autonomia das ATs, induzir processos que favoreçam a rotatividade nas coordenações e uma representação plural. Contudo, as formas pelas quais essas mudanças ocorrerão serão ainda objeto de debate junto aos nossos associados.

Neste último encontro houve a primeira experiência com a Comissão de Acolhimento para lidar com possíveis casos de assédio e/ou abuso. Como vocês avaliam essa primeira experiência?

A primeira experiência foi muito positiva. Ela contou com uma parceria importante entre a ABCP, a Comissão organizadora do encontro realizado em Curitiba e a Universidade Federal do Paraná. Sabemos que assédios e abusos são práticas, infelizmente, ainda presentes nas universidades e em encontros acadêmicos. Parece-nos fundamental a adoção de medidas, como a criação da Comissão de Acolhimento, pelas quais as instituições assumem responsabilidades no apoio e encaminhamento de denúncias, ao mesmo tempo que contam com a colaboração de associados e associadas para que possamos eliminar o desrespeito e a violência. Nomear o problema também tem sua importância. Formas de violência que são naturalizadas, por estarem ancoradas em hierarquias que têm organizado as relações cotidianas, precisam se tornar visíveis como problemas para que possam ser superadas.

Pelo menos desde a crise que levou ao impeachment de Dilma, é possível observar o retorno do tema da democracia como tema central dos debates públicos. Como vocês avaliam que o campo da Ciência Política tem reagido a esse contexto? Vocês consideram que a ABCP pode cumprir algum papel nesse debate?

A Ciência Política brasileira tem oferecido contribuições importantes para o debate acerca dos desafios enfrentados por nossa jovem democracia. Desde diferentes pontos de vista, nosso campo tem prezado pela qualidade do debate público, colocando a serviço da opinião pública o sólido conhecimento acumulado sobre o funcionamento das nossas instituições políticas. Da mesma forma, nossa Associação tem desempenhado significativo papel através dos seus congressos, onde o tema da democracia sempre teve centralidade, assim como nas suas notas públicas, nas quais perfila-se ao lado dos que defendem a democracia como regime e forma de vida. Nesse sentido, destacamos a nota pública da ABCP, publicada em 25 de setembro, intitulada “Manifesto da ABCP em defesa da democracia”.