Resenha de Tese – War is peace: the US security discursive practices after the Cold War

Resenha de tese de Doutorado em Relações Internacionais defendida no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas em 2018.

Bárbara Vasconcellos de Carvalho Motta

Cheerfulness, the good conscience, the joyful deed, confidence in the future – all of them depend, in the case of the individual as of a nation, on the existence of a line dividing the bright and discernible from the unilluminable and dark; on one’s being just as able to forget at the right time as to remember at the right time; on the possession of a powerful instinct for sensing when it is necessary to feel historically and when unhistorically. This, precisely, is the proposition the reader is invited to meditate upon:  the unhistorical and the historical are necessary in equal measure for the health of an individual, of a people and of a culture.
(Nietzsche – Untimely Meditations)

E pluribus unum. Like a lot of 20th-century kids, I learned that phrase from “The Wizard of Oz.” For most of their history, American movies have responded to crisis and conflict with visions of harmony. The consistent message from Hollywood (…) has been that we are all in this together.” (…) War, of course, suggests one kind of universal value — we’re all in this together against a shared enemy — that often seems otherwise missing in these Divided States of America.
(DARGIS, Manohla; SCOTT, Anthony)

Ao ler os discursos estadunidenses no Conselho de Segurança da ONU que legitimaram a intervenção dos EUA no Iraque, por várias vezes me questionei a respeito do que as figuras políticas queriam dizer quando usavam palavras como “democracia”, “liberdade”, “justiça” e etc., especialmente quando as utilizavam com significados diferentes para intenções igualmente diversas. Mais interessante foi notar que, mesmo em suas distintas conotações, tais palavras tinham a capacidade de mover o debate, organizar argumentos contingentes em uma narrativa compreensível e, especialmente, congregar múltiplas audiências nacionais com interesses e visões de mundo e dos Estados Unidos por vezes opostas.

Apesar do alcance de significado que essas palavras podem assumir em um debate, todas elas produzem um sentimento de origem comum e, portanto, uma sensação de harmonia. No entanto, considerar essas palavras como meras disposições suficientemente fortes para estabelecer uma “narrativa operacional” para legitimar as ações de uma pessoa, ou de uma nação, seria apenas uma explicação incompleta do porquê elas eram (e ainda são) tão importantes nos processos de tomada de decisões dos EUA. A íntima relação que elas possuem com o “nós” americano foi o principal componente que me levou a pular da questão de “como as narrativas moldam e estabelecem as decisões dos EUA” para “como a identidade, através de suas narrativas, é traduzida em práticas políticas específicas e, principalmente, em decisões de política externa nos EUA”. A necessidade de pensar a identidade transcorreu devido à percepção de que tanto a linguagem quanto o eu (mesmo quando esse eu é um Estado) têm uma relação intrínseca; um relacionamento que impede que consideremos um dissociado do outro. Além disso, quando se assume que a linguagem não é um mero epifenômeno, é possível percebermos que sua relação com a identidade se desdobra de modo circular: uma produz ao mesmo tempo em que é produzida pela outra.

Nesse sentido, a tese intitulada “War is peace: the US security discursive practices after the Cold War” tem como um de seus principais objetivos apresentar o modelo da “identidade-em-jogo”, o qual propõe uma avaliação em três níveis da identidade em sua força para produzir ações concretas, como ações de política externa. No primeiro nível, são estabelecidos os pontos-âncora da identidade: as expressões mais gerais e abstratas que têm capacidade de “ancorar” ou “cimentar” a identidade e sustentá-la discursivamente; ou seja, que conseguem reforçar, evoluir, sustentar, emergir e até mesmo corrigir a identidade quando em momentos de fragilidade. No caso dos Estados Unidos, pela sua trajetória liberal, entende-se que, dentre outras, as ideias de igualdade, liberdade, individualismo e democracia podem ser elencadas enquanto pontos-âncora da identidade norte-americana. 

O segundo e terceiro níveis, por sua vez, são estabelecidos a partir de casos empíricos. No segundo, a tese traz a lógica da produção de “lugares-comuns”, qual seja, a proposta de que cada governo (re)trabalha os pontos-âncora da identidade norte-americana para seus contextos específicos, de modo torná-los mais inteligíveis ao seu tempo, mesmo que tal movimento reduza os pontos-âncora em seu conjunto de significados e os tornem menos complexos. No terceiro nível, a tese se volta para uma análise ainda mais micro e se propõe a avaliar como os “lugares-comuns” são operacionalizados para legitimar aos olhos do público nacional (mas também perante o público internacional) intervenções pautadas no uso da força. Assim se desdobra na tese a avaliação dos processos de tomada de decisão para quatro intervenções defendidas e lideradas pelos Estados Unidos no pós-Guerra Fria: guerra do Golfo (1990/1991), Kosovo (1998/1999), Afeganistão (2001) e Iraque (2003).

Ainda, enquanto referencial teórico, os trabalhos de Pierre Bourdieu são contemplados na tese com um duplo objetivo. Primeiro, por meio da sua teoria de estruturação, conceitos como habitus, campo, tipos de capital e doxa são importantes para construir um entendimento de como, apesar do tempo histórico e das suas intempéries, o ambiente social é majoritariamente estável. Não se trata, portanto, de apresentarmos regularidades e com isso posicionar a tese no campo dos argumentos estruturalistas que, no geral, abrem pouco espaço para a agência e a mudança, mas sim de considerarmos processos de estabilização. Para isso, é fundamental a proposta bourdiesiana de estruturas estruturadas (enquanto efeitos e desdobramentos de práticas sociais passadas) e estruturas estruturantes (relacionadas a emoções, ações e percepções presentes).

Segundo, a partir desse arcabouço teórico podemos atualizar o debate do campo das Relações Internacionais sobre a ideia de causalidade em estudos que se localizam no campo pós-positivista. Nesse sentido, aventa-se a proposta de que a interconexão entre identidade e práticas políticas é uma de causalidade-em-constituição, ou seja, os discursos políticos largamente assentados em um vocabulário que remonta à identidade estadunidense não só constituem essa mesma identidade, via processos de reificação e transformação, como ao mesmo tempo moldam o debate nacional de tal modo a produzir as condições suficientes (logo, causal) para que certas práticas políticas e ações de política externa possam acontecer.

Considerando a parte empírica, ao avaliar de modo mais detido as construções dos “lugares-comuns” e suas devidas operacionalizações, cada caso apresenta uma constelação própria de como as ideias de liberdade, igualdade, individualismo e democracia são trabalhadas e, por vezes, uma dessas ideias é alçada à posição de fio condutor de toda a narrativa para a intervenção. Desse modo, a tese possui um segundo e subjacente objetivo: apresentar a capacidade dos pontos-âncora da identidade norte-americana enquanto meios para transladar os Estados Unidos de momentos de insegurança ontológica de volta para um momento de segurança ontológica. Em outras palavras, como a operacionalização dessas ideias e as intervenções militares por elas autorizadas tem condições de restabelecer uma sensação de segurança para os Estados Unidos. Deste modo, os capítulos empíricos não são organizados de forma cronológica, mas sim de acordo com um gradiente de menos insegurança ontológica, até momentos em que insegurança ontológica e insegurança física se sobrepõem, a saber: Kosovo, Guerra do Golfo, Afeganistão e Iraque.

As narrativas vencedoras foram, assim, não só aquelas que melhor conseguiram falar a linguagem da identidade, mas também aquelas que melhor se propuseram a restabelecer o sentimento de segurança. No entanto, como extrapolação para o futuro, quando essas mesmas narrativas se utilizam dos pontos âncora da identidade norte-americana mas rompem com algumas das bases fundantes dessas ideias (quando nos escândalos do uso de tortura por soldados norte-americanos) essa sensação de insegurança ontológica se mantém. A incapacidade de fechar as feridas do 11/9 pode fazer com que os EUA se comportem, como diria Nietzsche, “como um homem sangrando até a morte por causa de um arranhão”.