O bolsonarismo é um fascismo?

Bernardo Ricupero[1]

A eleição de governos de extrema-direita em países tão diferentes como a Hungria, a Polônia, as Filipinas, a Itália e os EUA, trouxe o tema do fascismo de volta à agenda. Não tem faltado quem chame a atenção para analogias entre o momento histórico que vivemos e os anos 1920 e 1930. Afinal, se tentou, no entre guerras, restaurar o laissez faire anterior à Primeira Guerra, o que levou à instabilidade e à depressão econômica, contribuindo para o desgaste da democracia parlamentar e a ascensão do fascismo. Já o fim do “socialismo real” abriu caminho para uma desregulamentação dos mercados que reverteu boa parte das políticas de inclusão implementadas em quase cinquenta anos de Estado de Bem Estar Social. Nessa referência, não é difícil identificar boa parte dos eleitores da extrema direita com os “perdedores da globalização”.

A entrada do Brasil no “clube da extrema-direita”, com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), tem alimentado preocupações semelhantes. Antes mesmo da vitória do ex-capitão, o caderno “Ilustríssima” do jornal Folha de São Paulo perguntava: “Afinal, Jair Bolsonaro é ou não fascista?”.

Aqui, como alhures, a resposta dos bem pensantes tem sido quase unânime: não vivemos um renascimento do fascismo. Os motivos para tanto são bem sintetizados por Dylan Riley num artigo recente da New Left Review sobre um fenômeno aparentado ao bolsonarismo, o trumpismo. Lembra o autor que as condições dos dois momentos históricos são na verdade muito diferentes, pois o fascismo seria “um produto do conflito intra-imperialista e da crise capitalista, combinado com uma ameaça revolucionária pela esquerda”. Ele apareceu em potências de segunda ordem, excluídas da divisão imperialista do mundo, num contexto de acirramento da luta de classes, em que se organizaram milícias paramilitares para defender a propriedade.

Em direção contrária, Umberto Eco, num artigo escrito há quase vinte e cinco anos, pouco depois da primeira eleição de Silvio Berlusconi como premiê da Itália, com apoio dos ex-neo-fascistas da Aliança Nacional, sugeriu a existência de um fascismo eterno. O semiólogo esforçou-se para delinear 14 signos do que batizou de ur-fascismo: 1) o tradicionalismo; 2) a rejeição ao modernismo; 3) o culto à ação pela ação; 4) a rejeição à divergência; 5) o medo da diferença; 6) o apelo a uma classe média frustrada; 7) o nacionalismo; 8) a hostilidade a inimigos imaginários ou reais; 9) a visão da vida como luta; 10) um elitismo popular; 11) o culto ao heroísmo; 12) o machismo; 13) um populismo seletivo; 14) o uso de variações da novilíngua à maneira de George Orwell.

Eco admite que muitas das características que destaca não são precisas, além de poderem se contradizer. No entanto, explica a abrangência no uso do termo “fascismo” justamente por sua capacidade de assumir um ou outro desses atributos, que podem até se chocar entre si. Lembra que, não por acaso, “nazismo” é uma palavra muito menos utilizada para se referir a diferentes experiências políticas.

Mais do que palavras, o que talvez melhor expresse um fascismo que transcende a história são algumas imagens. Até porque, como percebeu Walter Benjamin, o fascismo leva a uma estetização da política. Em tempos de redes sociais, a espetacularização possivelmente seja ainda maior, dando margem ao aparecimento até de um “Mito”.

No caso da recente campanha eleitoral brasileira, a imagem que me parece melhor indicar a presença de algo como o fascismo, verdade que combinada com uma estética mais de acordo com os novos tempos, é a de um comício em Petrópolis, filmado por celular e postado nas redes sociais. A imagem trêmula, mostra um jovem musculoso vestido de amarelo junto de um homem mais velho, também vestido de amarelo. Ao fundo aparece outro jovem também musculoso, vestido com uma camiseta negra com o rosto de Bolsonaro estampado, que discursa. O bombado de amarelo começa a gritar insistentemente: “pega a placa, pega a placa”. Finalmente a placa é produzida para deleite da multidão, enquanto que o orador explica que ele e seu companheiro foram à Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, e quebraram a placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco, mulher, negra, lésbica e favelada. Logo depois, com a eleição, os três brutamontes se converteram no deputado estadual Rodrigo Amorim, no deputado federal Daniel Silveira e no governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel.

[1] Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Nota da editoria do blog: a imagem utilizada nessa coluna é a reprodução de um trecho de um vídeo disseminado nas redes sociais. A autoria não foi reconhecida.

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