Bolsonaro e as redes sociais: nas eleições e depois

Alexandre Arns Gonzales[1]

Álvaro Okura de Almeida[2]

Rafael Sanches[3]

Thatiane Oliveira Moreira[4]

Ainda levaremos alguns anos para reconstruir os processos de mobilização social que, juntos e desordenadamente, resultaram na eleição de Jair Bolsonaro (PSL). Podemos aventar uma série de hipóteses e variáveis políticas e sociais como possíveis explicações para a improvável vitória do deputado sabidamente racista, machista e apoiador da ditadura. Entre as razões, é necessário reconhecer a relevância de alguns eventos, como o ciclo de protestos inaugurado em 2013, o golpe contra Dilma Rousseff (PT), os efeitos das fases da Operação Lava-Jato, a prisão de Lula (PT), o antipetismo e a impopularidade absoluta de Michel Temer (PMDB). Desta longa lista, nos ocuparemos de uma em particular: o papel das múltiplas plataformas de comunicação digital na disputa eleitoral de 2018.

A discussão em torno da relevância – e mesmo do protagonismo – das redes sociais e dos aplicativos de comunicação nas eleições presidenciais de 2018, tais como Facebook e Whatsapp, de certa maneira, retoma um tema clássico na reflexão política, ou seja, a relação entre regimes políticos e tecnologias de comunicação. Dos jornais à TV, do microfone ao rádio, muito foi produzido a respeito dos impactos do avanço tecnológico sobre os regimes políticos, sejam eles autocráticos ou democráticos. Nos anos 1990, por exemplo, na aurora da popularização da internet, muita esperança foi depositada no potencial emancipatório e democrático dos meios de comunicação digital. Eles eram considerados ferramentas que aumentariam a capacidade de fazer denúncias, de vigiar e se dirigir diretamente às autoridades, de organizar horizontalmente a ação política, de influir ou mesmo participar diretamente na tomada de decisões em nível estatal. Esse imaginário tecnopolítico rende frutos na teoria política contemporânea, com conceitos como o de Democracia Monitorial[5].

Depois de quase três décadas de expansão, entretanto, parece evidente a ambivalência dos efeitos dessa arquitetura comunicacional, que é a internet, para as democracias. Desse modo, como ela tem influído na participação e representação política são questões em reformulação constante. Continuamente são inventadas e testadas propostas ligadas tanto ao ideário democrático-participativo (descentralização e horizontalização) quanto modelos tecnocráticos e elitistas (centralização e hierarquização) no horizonte das novas tecnologias digitais de comunicação. Assim, é preciso estar atento aos agenciamentos particulares, incluindo os usos maliciosos ou ilegais, que atores políticos e sociais fazem dessas ferramentas, especialmente no que diz respeito à natureza e os efeitos de suas aplicações disponíveis.

Neste sentido, a vitória de Bolsonaro parecia indicar a súbita (e desejável) perda de centralidade relativa dos meios tradicionais de comunicação política e marketing eleitoral. O modelo custoso e hierarquizado de broadcasting daria lugar a modelos mais interativos, de baixo custo, horizontais e descentralizados. As milionárias peças de publicidade e propaganda em rádio e TV seriam substituídas por comunicações mais diretas, verdadeiras e menos custosas. Um pronunciamento do então candidato é revelador neste sentido: “O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes.”[6]

Na construção de sua autoimagem, Jair Bolsonaro interpreta sua atuação no ciberespaço como a encarnação mais fidedigna e direta da expressão da vontade popular. Na condição de representante dos simples, iguais e comuns, contesta a autoridade e a veracidade das informações postas em circulação pelos poderosos e descentraliza a capacidade de pautar o debate. No contato direto com seus eleitores, reduz a distância entre representantes e representados. Apresentando-se como outsider da elite política e econômica, exibe a mobilização em torno de si como uma articulação bem-sucedida de indivíduos insatisfeitos na sociedade contra um “sistema” injusto e poderoso. A união dos insatisfeitos, dos sem voz e sem poder contra as mídias manipuladores e poderosas, corrompidas e comprometidas pelo poder e dinheiro.

Não é exagero afirmar que Bolsonaro foi o político que melhor se adaptou às novas mídias sociais. Investindo pesadamente na criação de uma identidade virtual desde, ao menos, 2014, chegou às vésperas da eleição como o candidato mais procurado nas ferramentas de busca do Google. Ele também foi o mais mencionado no Twitter e seu nome foi o mais associado na criação de páginas e grupos do Facebook. No Whatsapp, Bolsonaro participava diretamente, segundo declaração própria, de “milhares de grupos”, além de inúmeros outros que o apoiavam ou homenageavam.

No entanto, a despeito do engajamento social voluntário, a campanha presidencial de Jair Bolsonaro foi marcada pelo abuso consciente da potência perniciosa das aplicações de mídias sociais à democracia. Com financiamento ilegal, estimado em dezenas de milhões de reais, foi colocada em marcha uma campanha escusa de marketing digital, que importava técnicas conhecidas do setor comercial com vista a influenciar a formação da preferência política dos eleitores. Nesta estratégia de marketing eleitoral profissional, cada uma das aplicações de mídias e redes sociais funcionou como plataforma de integração em uma campanha multinível[7]. Os vídeos no Youtube cumpriram o papel da educação política-ideológica e de produção de conteúdo, o Twitter e Facebook foram fundamentais na disputa de narrativas e pautas, assim como para o aumento da rede. Por sua vez, o Whatsapp funcionou na organização dos apoiadores e na distribuição efetiva das mensagens, as quais eram, em boa parte das vezes, notadamente falsas.

Desse modo, as estratégias profissionais de marketing nas mídias e redes sociais para fins políticos evidenciam alguns dos riscos postos aos procedimentos democráticos e, neste caso, particularmente para os processos eleitorais. Em primeiro lugar, as plataformas de comunicação mais utilizadas e que conformam a maior parte daquilo que otimistas chamam de “esfera pública digital” são ambientes de interação emulados em plataformas proprietárias. Ou seja, são controladas por atores privados, cuja lógica de circulação é permanentemente (re)desenhada por algoritmos e permanece opaca para os usuários. Além de controladas por pouquíssimas empresas, associadas ao capital financeiro de alto risco, estas aplicações visam oferecer uma experiência personalizada e gratuita aos usuários, que tem como contrapartida uma infraestrutura de comunicação voltada para a extração, processamento e análise de dados pessoais com fins econômicos e políticos.

Convidado a prestar assessoria como “conselheiro eventual” nas redes para a família Bolsonaro, os métodos pouco republicanos de Steve Bannon já eram conhecidos à época das eleições. No caso do Brexit, Bannon foi acusado de construir um método de processamento ilegal de dados em larga escala, obtidos por coleta automatizada e não-consentida dos dados dos usuários, além do uso de softwares maliciosos, como jogos e questionários, que atuavam disfarçadamente como testes e mapeamentos psicológicos. Dados que depois eram utilizados em estratégias de microtargeting.

Até muito recentemente, as estratégias das campanhas eleitorais, na busca por traçar um perfil do eleitor, se apoiavam, fundamentalmente, em pesquisas de opinião via survey e comportamento de grupos sociais amplos, além de dados sobre eleições passadas. Tanto pelos altos custos de organizar um banco de dados confiável quanto pela limitação técnica de produção, gestão e análise de grandes bancos de dados, estes meios tinham alcance limitado. Com as novas plataformas de comunicação, houve uma sensível diminuição do custo de seleção, armazenamento, gerenciamento e análise os dados. Através disso, avatares digitais muito mais detalhados e precisos de cada um dos usuários tornaram-se possíveis. Munidos destes perfis, os profissionais das campanhas eleitorais passaram a criar modelos que acreditam ser capazes de prever o comportamento e os anseios dos cidadãos e, a partir daí, criar propagandas customizadas.

Ao lado da forma técnica, a campanha vitoriosa também colocou em marcha uma milícia digital de impulsionamento de conteúdos falsos. Assim como nas campanhas do Brexit e de Donald Trump, para a conquista e conversão de votos, houve manipulação de fatos e invenção de opiniões adversárias. Além isso, também ficou marcado o uso automatizado de robôs em mídias sociais para fraudar as medições quantitativas do engajamento político cibernético, criação e impulsionamento de fontes jornalísticas inexistentes para notícias inverídicas.

Desse modo, para além da dimensão legal e ética deste tipo de marketing digital, os acontecimentos da última eleição colocam em primeiro plano a racionalidade técnica e comercial dessas aplicações e seus impactos para a ação política. Em princípio, a lógica econômica que orienta o funcionamento desse ambiente comunicativo visa o registro das ações que lançam mão de seus serviços. O incentivo ao compartilhamento e ao engajamento com os conteúdos veiculados não é apenas desejável, mas, sobretudo, estimulado continuamente pelas empresas e seus algoritmos. Portanto, o que se observa é a estruturação de meios de interação voltada, prioritariamente, à produção de estímulos, visando cada vez mais volume e intensidade nas interações sociais mediadas digitalmente. Uma das consequências diretas dessa arquitetura é a valorização de técnicas de comunicação que favoreçam a “viralização” de conteúdos. Nas recentes campanhas eleitorais foi possível observar que os conteúdos que mais se adéquam a essa dinâmica são aqueles que produzem indignação, raiva ou medo.

Da maneira como se configura hoje o ambiente digital, a eficácia da comunicação não se refere à capacidade de compreensão mútua, de correspondência entre os sinais emitidos e o sentido recebido. Seu sucesso é medido pelo alcance e engajamento, na capacidade de ser o assunto, de emergir na rede como relevante –  o trending topic do dia ou da semana. Acima de tudo, mais do que ter a mensagem ouvida com clareza a fim de seja compreendida, a estratégia de marketing político almeja ser visualizada, vista e comentada. Na frieza matemática do sucesso nas redes digitais, gerar uma boa quantidade de engajamento importa mais do que a qualidade da opinião, a polêmica é melhor do que o assunto e a polarização mais importante do que a pluralidade de posições. Juntas, essas características podem nos ajudar a compreender três fatos que marcaram a corrida presidencial: a simplificação na caracterização do cenário político; a polarização extrema do debate e a radicalização dos atores.

Considerados conjuntamente, esses elementos levantam o problema da criação de “públicos artificiais” e das “câmaras de ecos” nos quais usuários interagem. O que o filtro bolha, as timelines e as fake news têm indicado é a capacidade técnica de seleção, gestão e entrega de conteúdo personalizado. Atividades condicionalmente mediadas por algoritmos se contrapõem radicalmente à imagem de uma rede aberta, descentralizada e livre. Ou seja, aquela destinada a interconectar diferentes públicos, ampliando o debate de ideias e, com isso, a contribuir com a autonomia cidadã e a produção democrática de resultados políticos.

Embora este conjunto de questões já tenha sido observado em diferentes partes do mundo, a missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acompanhou as eleições no Brasil, emitiu relatório informando que o caso brasileiro representou a primeira vez em que a técnica de disseminação de desinformação ocorreu por aplicações de mensagem privada, como pelo o Whatsapp[8]. A tática de difusão de fake news, cujo rastreamento da origem é dificultado pela tecnologia de criptografia ponta-a-ponta, parece ter tido eficácia em razão do ambiente receptivo no qual as informações circulavam. Dos grupos de familiares aos de amigos que “não podem estar mentindo!”, a disseminação de fake news chegou a sobrepor o fluxo de notícias da mídia tradicional, fazendo fluir à margem do mainstream uma torrente de conteúdo (ou armas de guerra híbrida) confeccionado com o intuito de inflamar e confundir.  Além de, é claro, servir para fortalecer a narrativa da existência de um inimigo comum que precisaria ser combatido a qualquer custo para execução da antiga promessa de “ordem e progresso”.

Como se pode aventar a partir destas reflexões iniciais, há um dilema para os cidadãos, inseridos em ambientes algorítmicos estrategicamente manipuláveis por um conjunto de tecnologias de produção de conhecimento, canais de comunicação e ventilação da informação, propícios para iniciativas políticas questionáveis. Ambientes que também, simultaneamente, ampliam as possibilidades, ainda que limitadas, de participação, mobilização e controle social do poder político. Mais do que isso, outro ponto que se coloca no horizonte é o do uso não-eleitoral das ferramentas de comunicação digital por atores políticos. Logo após o fim do pleito, era de se esperar que esses mecanismos de produção de posições políticas temporárias, com fins eleitorais, fossem desativados. No entanto, convencido de sua eficácia e legitimidade para angariar adesão e popularidade, o novo governo parece disposto a alçá-los como meio privilegiado de comunicação e interação entre governo e sociedade.

Desde o início do mandato, o que se pôde observar foi um aumento de instituições estatais envolvidas na produção de conteúdo para as plataformas digitais. Não só o presidente, mas também ministros e generais assumem esse espaço como meio oficial de comunicação com a população. Se convertido em mais que mera estratégia de marketing eleitoral, com temporalidade definida e também com objetivos demarcados, considerado enquanto meio privilegiado de divulgação de informação oficial e propaganda governamental, sem limites entre um e outro, a distância entre o Diário Oficial e o Twitter do presidente começa a encurtar.

O uso das redes sociais como principal instrumento de comunicação por parte do presidente – e seus familiares –, além de denotar o adensamento da centralidade das redes cibernéticas para a vida social e política contemporânea, é condizente com sua estratégia de desvalorização contundente e de ataque às mídias tradicionais, com a valorização da imagem de homem-comum (fora do sistema), que elimina as ideias de representação tradicional, simulando um contato direto entre ele e seus eleitores. O uso quase exclusivo destes meios – Facebook, Twitter, Youtube – obrigatoriamente redireciona os meios tradicionais a replicá-lo e a citá-lo a partir dessas fontes. Há também nisso outro aspecto relevante, o de borrar as fronteiras tradicionais entre a vida pública e privada, em que as liturgias e as obrigatoriedades vinculadas à presidência da república são desvalorizadas: a vida do presidente é uma social life, vivida nas social medias, com estrutura narrativa simples e de fácil engajamento.

Nos Estados Unidos de Donald Trump, o uso presidencial do Twitter já provocou decisões judiciais que determinaram que as contas pessoais em redes sociais, uma vez alçadas à condição de meio de comunicação do presidente, não deveriam conter bloqueios de acesso, tanto para jornalistas quanto para cidadãos comuns. Isso mais uma vez coloca o problema da privacidade e da publicidade da vida e dos atos presidenciais. Neste cenário, onde começam e terminam questões de foro íntimo?

O post e a foto do enfermo presidente em uma “seção” de fisioterapia em 2019 causa espanto e, talvez, simbolize com clareza a natureza dos desafios vindouros. Sinal da pouca habilidade com a ortografia, erro banal ou manobra astuta de um marketing político bem sintonizado com as estratégias comerciais de captura de nossa atenção? No espírito desta coluna de estreia, os pesquisadores da seção “Tecnologias Digitais e Sociedade” se dedicarão, em intervenções pessoais e coletivas, a pensar nos inúmeros desafios postos à democracia e ação política num mundo cada vez mais acostumado à presença destas tecnologias nos processos políticos, seja em eleições, no desenho de políticas públicas ou nos processos de tomada de decisão.

[1] Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).

[2] Doutorando em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

[3] Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

[4] Graduada em Filosofia (Unicamp) e especialista em Administração de Empresas (FGV).

[5] KEANE, John. Democracy and Media Decadence. Cambridge University Press (2013).

[6] Em discurso proferido na cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral.

[7] Hipótese inicialmente apresentada por Francisco Brito Cruz e Mariana Giorgetti Valente em É hora de se debruçar sobre a propaganda em rede de Bolsonaro. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/18/opinion/1539892615_110015.html (acessado em 22/02/2019)

[8] Acessar relatório em: <http://www.oas.org/documents/por/press/Relatorio-Preliminar-MOE-Brasil-2o-Turno-Portugues.pdf> e notícias sobre ele em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/para-oea-difusao-de-noticias-falsas-no-brasil-nao-tem-precedentes >.