Resenha de: MICELI, Sérgio. Sonhos da Periferia. São Paulo: Todavia, 2018.

Ivo Paulino Soares[1]

Sonhos da Periferia, novo livro de Sérgio Miceli, publicado no início de 2018, foi apresentado, grosso modo, como uma análise da inteligência argentina realizada a partir da compreensão do caso modernista e do mecenato privado no país. Em resumo, na Argentina, entre as décadas de 1920 e 1930, floresceu um projeto vultuoso de vanguarda com ambições cosmopolitas, fomentado pela iniciativa privada e oriundo da fração cultivada da elite patrícia do país, disposta a rivalizar com os empreendimentos culturais europeus em torno da criação de um projeto estético próprio, pretensamente desgarrado da conjuntura política nacional. Foi um projeto expresso exemplarmente em torno da revista Sur, fundada pela magnata e escritora Victoria Ocampo em 1931, publicação na qual intelectuais diversos se aglomeraram, reunidos pela mesma valoração estética e, como mostra Sérgio Miceli, pela mesma origem social. Nas três décadas seguintes, a revista veio lograr êxito em padrão internacional, tornando-se o principal lugar da arbitragem cultural de um país que estava em franca pujança de produções fomentadas também pela imprensa e pela indústria cultural.

Substancialmente, este é o ponto de partida mobilizado pelo autor para compreender as diferenças dos casos dos modernismos argentino e brasileiro e justificar a publicação sobre o que aconteceu do lado das terras portenhas. E, mais diretamente, tocar o cerne da fortuna crítica tributária da vanguarda, caracterizada pelo silêncio a respeito do solo político e social que configurou essa fatura estética. Ou seja, o livro se refere à natureza ímpar do caso comparado, originário de uma experiência social de classe e de uma conjuntura política específica, na qual a ausência da intervenção estatal no debate cultural, isto é, de políticas públicas fomentadas pelo dinheiro público, tornou possível a emergência de um grupo privilegiado no cenário de amplas restrições políticas.

No caso de Sonhos da Periferia, a explicação dos condicionantes sociais das obras é radicalizada para a construção de um objeto de vasto interesse acadêmico, o reconhecimento da formação do campo intelectual na Argentina. A possibilidade de existência desse campo é o tema central do livro, propício à observação de Sur e de outros fenômenos que lhe foram contemporâneos. Um assunto compreendido em termos conceituais como um processo de solidificação de um espaço regido por regras próprias à atividade cultural, dirigido por seus pares e distanciado das demandas políticas e econômicas imediatas, que Miceli matiza pelo cruzamento de duas visadas sobre o caso. De um lado, observa a diferenciação ocorrida entre as classes sociais e suas posições correspondentes no espaço cultural, ou seja, entre as iniciativas particulares de mecenato e àquelas abertas pela profissionalização da atividade cultural no país. De outro, observa o fomento da iniciativa privada no bojo das alterações dos quadros políticos na Argentina, entre as décadas de 1920 e 1930. Em suma, trata-se de uma pesquisa que não tergiversa sobre o custo da dominação dos integrantes de Sur.

Na explicação politicamente sóbria de Sérgio Miceli, não há acusação ou tomada de partido desses agentes, mas o reconhecimento do seu sucesso em um período turbulento, posterior ao golpe de Estado do General Uriburu em 1930, estendido até 1943. A explicação é erigida em três eixos explicativos tecidos em oportunidades diferentes e derivados do envolvimento do autor na última década com pesquisas comparativas entre Brasil e Argentina, revelando como a eminência do mecenato privado contrasta com o fenômeno contemporâneo ocorrido no Brasil, de cooptação dos intelectuais pelo Estado. Sonhos da Periferia é iniciado pela contextualização da vanguarda argentina entre a derrocada da hegemonia do Partido Radical e a ascensão do nacionalismo da elite criolla. Segue com a inflexão para a observação da revista, com a análise da morfologia social da elite de Sur e das contendas políticas que marcaram a geração ensaística da publicação. E, por último, é debruçado ao conjunto de intelectuais renegados pelos membros dessa elite, dependentes das possibilidades de trabalho abertas pela indústria cultural, entre os quais Robert Alt, Horácio Quiroga e Alfonsina Storni. Se essa última parte escancara o argumento presente na anterior, a origem de classe de Sur, ela também demonstra justamente a fragilidade desse campo na sua formação. Talvez, esteja nessa parte a comparação mais profícua do livro, na qual o leitor poderá se deparar com os diferentes destinos sociais dos produtores culturais dessa estrutura social, tendo a possibilidade de perceber o quanto a consagração de uns e a tragédia de outros, observadas com o distanciamento necessário, podem se revelar mais aproximadas do que até então foi imaginado pelo ponto de vista desses agentes. Em termos analíticos, enfim, Sonhos da Periferia ultrapassa a compreensão da natureza social da autonomia cultural, problema de investigação já tradicional na crítica de cultura de matriz sociológica, para se dedicar à uma investigação propriamente sociológica da cultura que, sobretudo, conhece a sedução do seu objeto.

[1] Doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).