Francisco de Oliveira: contundência sem sectarismo

Leonardo Octavio Belinelli de Brito[1]

Ontem, dia 10 de julho, faleceu Francisco (Chico) de Oliveira, autor de alguns dos ensaios mais provocantes da história da economia política brasileira. Talvez porque, na sempre lembrada observação de Roberto Schwarz, Chico era um “mestre da dialética” (SCHWARZ, 2011, p.23).  É o mesmo Schwarz quem nota que seus ensaios carregavam um misto, tão raro, de contundência sem sectarismo. Como isso é possível?

Não sei a resposta e o mínimo que se pode dizer é que se trata de uma posição difícil. Arrisco, no entanto, uma hipótese: dialeticamente, Chico de Oliveira estava sempre ao nosso lado e o demonstrava pensando contra nós – contra o senso comum, em especial, o da esquerda.

Esse foi o caso, por exemplo, de seu ensaio mais conhecido, “Economia Brasileira: crítica à razão dualista”, publicado em 1972. Nele, as contribuições de Celso Furtado, amigo e autor a quem dedicaria numerosos ensaios, foram postas à prova a partir de um ângulo novo e polêmico. Não restava dúvida, no entanto, que Oliveira estava ao lado de Furtado nas batalhas travadas pela redemocratização.

Saltando no tempo, o mesmo pode ser dito da relação que Oliveira estabeleceu com o partido que ajudou a fundar, o Partido dos Trabalhadores (PT), depois da sua saída em 2003, momento em que se juntou a outros militantes, políticos e intelectuais na fundação do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Fez pesquisas e conduziu debates para demonstrar que as políticas implementadas pela equipe de Lula aprofundavam a lógica capitalista. Oliveira foi um porta-voz da crítica à esquerda em um período em que a divisão se dava entre os simpatizantes do programa do PT, que viam nele o que era possível fazer, e os crítico de direita, que o interpretavam como mera compra de votos com programas sociais e demagogia econômica. Não é à toa que o melhor debate da década tenha ocorrido com André Singer, autor que, embora de outra forma, incorporava a tensão proposta por Oliveira.

Enfim, o elemento decisivo está no fato de que a atuação de Oliveira sempre nos forçava a reagir. Nunca aceitou o aparente ou o conveniente. Nos anos 1970, o dualismo; nos anos 2000, o lulismo. É claro que podemos discordar das conclusões de Oliveira, mas o que realmente importa é que ele ousava pensar, questionar, duvidar e, assim, nos estimulava a melhorar nossos argumentos ou abandoná-los em procura de outros melhores. Sem sectarismo, era contundente. Uma posição verdadeiramente esclarecedora, que faz falta em tempos tão cheios de certezas como o nosso.

Breve nota biográfica[2]

Nascido em 1933, na cidade de Recife, Chico de Oliveira graduou-se em Ciências Sociais em 1956, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Durante sua graduação, entrou para o Banco do Nordeste, um banco de desenvolvimento regional, onde trabalhou e fez estudos em Economia. Aquele era o momento em que a preocupação com o desenvolvimento e com o planejamento estava em alta, com as formulações da CEPAL e, em especial, de Celso Furtado.

Logo depois, Oliveira saiu do Banco do Nordeste, sediado em Fortaleza, de onde retornou para Recife. Lá, trabalhou na Comissão de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, que lhe propiciou a chance de fazer um curso de especialização no Rio de Janeiro, organizado pela CEPAL e por outras instituições, dentre as quais o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Nele, conheceu Celso Furtado.  Em seguida, veio para São Paulo, onde trabalhou no setor privado, experiência que, por sua própria decisão, durou pouco.

Informado de que Celso Furtado, recém-nomeado presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pretendia criar a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), instituição na qual atuou entre 1959 e 1964. Depois do golpe de março de 1964, Oliveira chegou a ser preso, junto com os demais dirigentes da SUDENE. Fugindo da perseguição, atuou como consultor internacional em alguns países da América Latina, momento em que também se juntou também ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Depois, retornou a São Paulo, onde trabalhou com consultorias privadas até ser convidado por Fernando Henrique Cardoso para participar de um projeto de planejamento nacional no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), instituição em que formularia seu trabalho mais conhecido, o artigo “A Economia Brasileira: crítica à razão dualista” (1972) e atuaria por longo tempo, até meados dos anos 1990. Em 1974, foi preso novamente.

Nos anos 1980, tornou-se professor do curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e, no final da mesma década, ingressou como professor do curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Em 1995, junto com outros docentes, fundou o Núcleo de Estudos dos Direitos da Cidadania (Nedic), rebatizado, em 1999, como Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic). Seus trabalhos no Cenedic resultaram em diversas publicações, entre as quais se destaca o ensaio “O ornitorrinco” (2003), publicado em edição conjunta com seu ensaio de 1972.

[1] Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), editor do blog Boletim Lua Nova e autor de “Os dilemas do patrimonialismo brasileiro: as interpretações de Raymundo Faoro e Simon Schwartzman” (Alameda/Fapesp)

[2] As informações recolhidas abaixo se baseiam no artigo de Marco Antônio Perruso, “uma trajetória dissonante: Francisco de Oliveira, a SUDENE e o CEBRAP” (Caderno CRH, v.26, n.67, 2013).

 Referências bibliográficas:

PERRUSO, Marco Antonio. Uma trajetória dissonante: Francisco de Oliveira, a SUDENE e o CEBRAP. Cad. CRH [online]. 2013, vol.26, n.67., pp.179-192. Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-9792013000100012

SCHWWARZ, Roberto. Prefácio com perguntas. In: OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista/O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2011.

Referência imagética:

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/morre-o-sociologo-francisco-de-oliveira/ (Acesso em 10 jul 2019)