Essa gente, de Chico Buarque

Leonardo Octavio Belinelli de Brito[1]

Texto publicado em parceria com a Revista Escuta[2]

À primeira vista, Essa gente, sexto romance de Chico Buarque, parece ser uma novela escrita em forma de diário pelo protagonista, o escritor Manuel Duarte, no qual são anotadas relatos e mensagens enviadas e recebidas entre dezembro de 2016 e setembro de 2019. Porém, não se trata apenas disso, pois o livro contém passagens em que outros personagens são autores dos trechos. No procedimento, há um elemento caleidoscópico que evoca o que o próprio Chico Buarque chamou se “onirismo desperto”[3], também presente, de formas diferentes, em romances como Estorvo e Leite derramado.

No geral, o enredo aborda as peripécias da vida familiar, amorosa e profissional de Duarte, escritor conhecido que enfrenta uma crise criativa. Na procura por inspiração – da qual, aliás, o leitor do romance de Buarque pode duvidar -, Duarte perambula pelo Leblon e se relaciona com suas ex-mulheres, Maria Clara e Rosane, com seu filho, com um ex-amigo de escola, sugestivamente chamado Fúlvio Castello Branco, com um salva-vidas (Agenor) e sua mulher holandesa (Rebekka), por quem passa a sentir forte atração física, além de editores, a quem pede socorros financeiros. Como, porém, o livro é escrito a partir do “onirismo desperto”, técnica que permite aos personagens em primeira pessoa misturarem realidade e devaneio, essa descrição geral da trama está longe de explicar o seu interesse substantivo. Se fosse necessário reduzir em uma fórmula a razão pela qual o livro de Chico Buarque desperta nossa atenção, diríamos que isso ocorre  pela combinação da  sua maestria técnica, que não permite ao leitor uma identificação imediata do que ocorre, com a matéria sócio histórica com a qual lida, que exige igual cuidado no seu desvendamento (Brito, 2016, p.111).

Um exemplo particularmente feliz da sofisticação técnica do livro é dado por Arthur Nestrovski (2019) em sua resenha do romance: em certa passagem, Duarte mostra a Rebekka um “texto onírico erótico” (termo de Nestrovski) em que ela própria é a personagem desejada pelo seu autor, o próprio Duarte. Ocorre, no entanto, que havíamos lido páginas atrás a mesma passagem como componente da novela, o que configura uma espécie de ficção dentro da ficção. Como o livro é escrito, frequentemente, em primeira pessoa, não seria descabido imaginar que Essa gente poderia ser o resultado dos devaneios de Duarte (Brasil, 2019) – personagem cujo sobrenome possui sonoridade que lembra a de Buarque (Rodrigues, 2019), com quem também compartilha o hábito de andar pela zona sul carioca. Essa tez borgiana do livro exige excepcional domínio técnico, que Buarque possui como poucos.

Porém, o virtuosismo ficaria diminuído, quase diria incompleto, se a matéria sobre a qual trabalha fosse desprovida de complexidade equiparável. Felizmente (do ponto de vista novelesco), esse não é o caso.  Os romances de Chico Buarque se caracterizam pela aguda percepção das sutilezas ideológicas dos personagens retratados. Como não ver, por exemplo, a cordialidade brasileira em Fúlvio Castello Branco, que se propõe a ajudar o protagonista quase ao mesmo tempo em que, sem culpa, espanca um mendigo na saída do Country Club?[4] A naturalidade com que é feita a passagem do companheirismo à violência mais bruta encontra seu efeito pleno na possível intimidade com a qual o leitor lê a cena – o que confirmaria, como já advertiu Roberto Schwarz em ensaio sobre Dom Casmurro (Schwarz, 1997), o perverso efeito de naturalização da violência entre nós como um dado do cotidiano nacional que embota a sua percepção. Outro exemplo retirado do livro: o contraste entre os incentivos populares recebidos por Duarte quando caminha na rua empunhando uma arma e a reprovação sofrida no momento em que percorre o passeio público com um copo de uísque em mãos. Impossível não perceber nessa construção uma referência direta, embora não panfletária, ao contexto ideológico do Brasil bolsonarista. Como indiquei em outra ocasião (Brito, 2016, p.124), o tema da “descivilização” do Brasil contemporâneo já era matéria-prima do primeiro romance de Chico Buarque, Estorvo[5]. É como se, finalmente, o discurso avesso à civilização tivesse chegado a um novo patamar, em que a ameaça do extermínio físico, embora já existisse antes, torna-se a própria linguagem pela qual os sujeitos se percebem no mundo. Diferentemente do regime inaugurado em 1964, em que a violência era identificada a partir da combinação do Estado com a direção das Forças Armadas, estamos diante de um cenário em que ela surge como que espontaneamente da própria sociedade civil. “Em 1964 houve um golpe de força; em 2018, uma eleição. É duro admitir que a defesa da ditadura e o ataque a políticas sociais bem-sucedidas possam ganhar no voto —mas podem.” (Schwarz, 2019)

Além de afinidades técnicas com romances anteriores, Essa gente retoma algumas questões permanentes na obra literária de Chico Buarque, entre as quais poderíamos citar, sem compromisso de exaustão: a abordagem do problema racial no país, o Rio de Janeiro como cenário, o problema do intelectual declassés, o jogo entre o passado e o presente. Não é, porém, a mera reiteração desses temas que empresta diretamente unidade à sua obra ficcional inaugurada em 1991, ao contrário: em parceria com outros, parecem funcionar como ângulos pelos quais o romancista consegue “radiografar” o estado atual das coisas no país. O compromisso vigoroso de Chico Buarque com a atualidade pode ser percebido, por exemplo, pelas referências ao bullyng sofrido pelo filho de Duarte, acusado pelos colegas de ser filho de comunistas, e pela união de Maria Clara e sua ex-enfermeira, com quem vai morar em Lisboa, uma espécie de novo refúgio das classes média e alta brasileira. São passagens inteiramente impensáveis em romances anteriores[6].

Em sentido mais amplo, a novela dá continuidade à verve irônica que Chico Buarque passou a adotar a partir de 1970, momento a partir do qual parece ter percebido que a utopia modernista bossa-novista teria feito água (Altman, 2019; Coelho, 1991). Se é assim, a distância entre o lirismo dos anos 1960 e o recolhimento da fase mais recente da produção artística de Buarque é decorrente do estranhamento de um sujeito que passa a se desidentificar, de modo crescente, com o processo social no qual a sociedade em que vive se vê enredada. O afastamento, claro, não é absoluto; caso contrário, não seria possível ao autor penetrar nas artimanhas psicológicas de sujeitos tão brasileiros como seus personagens. É nesse indispensável compartilhamento de algo entre o escritor e a matéria social, cujas incompatibilidades éticas são completas, que radica os melhores efeitos da ironia, produtores de certo amargor nesse romance enganosamente leve, carente de qualquer perspectiva redentora.

[1] Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador associado do Centro de Estudos da Cultura Contemporânea (CEDEC).

[2] https://revistaescuta.wordpress.com/2019/11/20/essa-gente-de-chico-buarque/

[3] Barros e Silva, 2004, p. 122.

[4] Sobre a afinidade da cordialidade e a lógica do Estado de exceção nos romances de Buarque, ver Brito, 2016.

[5] A ideia é retirada da argumentação de Paulo Arantes sobre a regressão civilizacional brasileira ocorrida desde o golpe de 1964 (cf. Arantes, 2014, p.284-5).

[6] Como referência, vale lembrar que estudos sobre a visão de mundo associada ao discurso político da direita brasileira nos anos 1990 indicavam que o anticomunismo não era um tema mobilizador dos seus simpatizantes (cf. Singer, 2000, p.145).

Bibliografia:

ALTMAN, Fábio. Novo livro de Chico Buarque impõe reflexão em torno de um Brasil rachado. Veja, 12 de novembro de 2019. Disponível em: https://veja.abril.com.br/entretenimento/novo-livro-de-chico-buarque-impoe-reflexao-em-torno-de-um-brasil-rachado/

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.

BARROS E SILVA, Fernando. Chico Buarque. São Paulo: PubliFolha, 2004.

BRASIL, Ubiratan. Em ‘Essa Gente’, Chico Buarque oferece retrato tragicômico do Brasil atual. Estadão, 8 de novembro de 2019. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,em-essa-gente-chico-buarque-oferece-retrato-tragicomico-do-brasil-atual,70003080468

BRITO, Leonardo Octavio Belinelli de. O Brasil contemporâneo em dois romances de Chico Buarque. Plural (USP), v.23, n.1, 2016, pp.108-127. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/118392/115944

COELHO, Marcelo. Estorvo. Folha de São Paulo, 3 de agosto de 1991. Disponível em: http://www.chicobuarque.com.br/critica/crit_esto_coelho.htm

CONDE, Miguel. ‘Essa gente’, de Chico Buarque, é sátira e devaneio para segurar o rojão. O Globo, 8 de novembro de 2011. Disponível em:  https://oglobo.globo.com/cultura/essa-gente-de-chico-buarque-satira-devaneio-para-segurar-rojao-24068949

NESTROVISKI, Arthur. Pequeno grande romance escrito por Chico Buarque resume o estado do país. Folha de São Paulo, 8 de novembro de 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/11/pequeno-grande-romance-escrito-por-chico-buarque-resume-o-estado-do-pais.shtml

RODRIGUES, Sérgio. Orelha. In: BUARQUE, Chico. Essa gente. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SCHWARZ, Roberto. Duas meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SCHWARZ, Roberto. Neoatraso bolsonarista repete clima de 1964, diz Roberto Schwarz. Folha de São Paulo, 15 de novembro de 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/11/neoatraso-bolsonarista-repete-clima-de-1964-diz-roberto-schwarz.shtml

SINGER, André. Esquerda e direita no eleitorado brasileiro. São Paulo: Edusp/FAPESP, 2000.

Referência imagética:

Chico Buarque. Disponível em: https://jornalggn.com.br/literatura/chico-buarque-conquista-premio-literario-roger-caillois/ (Acesso em 17 nov. 2019)