Resenha de: ARUZZA, Cintia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99% – um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

Barbara Cristina Soares Santos[1]

Em 8 de março de 2019, foi lançado em oito países o livro Feminismo para os 99% – um manifesto, escrito conjuntamente pelas teóricas Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser. A versão brasileira foi publicada com capa vermelha e um interior de letras e margens roxas, mostrando já nas cores a proposta principal do projeto: um feminismo radicalizado de caráter anticapitalista em resposta ao feminismo liberal que dialoga com o atual sistema neoliberal.

Talíria Petrone, que assina o prefácio à edição, se encarrega de oferecer um sentido aproximado do manifesto aos olhos brasileiros. A professora de História e deputada federal descreve a atual situação política do país a partir de diferentes histórias de mulheres brasileiras, exploradas, marginalizadas e silenciadas, na certeza de defender a importância de um feminismo que seja por todas elas.

Após o prefácio, há uma introdução denominada “Encruzilhada” que demarca o contexto histórico no qual o livro é escrito: por um lado, uma conjuntura de crise capitalista neoliberal que fortalece o hegemônico feminismo liberal, e por outro lado e em resposta a isso, o surgimento de uma primavera feminista que se reverbera em greves por todo o mundo, de caráter antipatriarcal e anticapitalista. As teóricas, com isso, chamam todas as leitoras e leitores à responsabilidade de posicionamento e comprometimento político no caminho que se seguirá a essa encruzilhada. Assim, o manifesto é uma escolha definida, com ethos radical e transformador, de um feminismo que promova outra sociedade, não como utopia, mas como realidade viável.

Para isso, o objetivo proposto pelas autoras é mostrar a partir de 11 teses, em vez de capítulos, porque o caminho certo a seguir é o das greves internacionais feministas e porque é imprescindível que esse movimento se una a outros agrupamentos antissistêmicos para finalmente se tornar um feminismo para os 99%. As teses começam com um chamado internacional, no qual as autoras indicam o início dessa nova onda do movimento grevista feminista, que teria ocorrido em 2016, quando mais de 100 mil polonesas paralisaram e seguiram em manifestação contra a proibição do aborto. Essa marcha se estendeu até a Argentina com o movimento Ni Una a Menos e se disseminou pelo Brasil, Itália, Turquia, Peru, Estados Unidos, Chile, México entre muitos outros países. Tal movimento transnacional ganhou mais força em 8 de março de 2017, quando o Dia Internacional das Mulheres foi repolitizado por meio de uma greve geral que retomava as origens históricas da classe trabalhadora e do feminismo socialista do começo do século XX, em oposição à constante despolitização da data causada pela publicidade.

Ao longo das teses, é possível notar uma ponte que as autoras buscam destruir: o populismo reacionário e o neoliberalismo progressista que fazem aliança com o feminismo liberal. O populismo de direita, vigente atualmente em muitos países, intensifica práticas supremacistas brancas, além de o monopólio da violência do Estado que assassina diariamente a população negra e pobre. As respostas de algumas vertentes do feminismo branco e liberal a esse contexto são desastrosas, pois se mostram racistas – ao apoiar projetos imperialistas com a falsa ideia de libertação das mulheres de suas culturas tradicionais – e, por consequência, universalizam as questões de mulheres brancas e de classe média. Além disso, muitas vezes priorizaram o gênero em detrimento de um reconhecimento racial para produzir uma falsa igualdade e solidariedade entre mulheres.

O neoliberalismo aparece como a versão progressista do populismo reacionário, constituindo sua outra face. Ele debilita silenciosamente todos os movimentos radicais em favor da classe trabalhadora enquanto incita alternativas compatíveis com sua ideologia, como o feminismo liberal, uma corrente perigosa e danosa à luta das mulheres focada no Norte global e numa pequena parcela de mulheres privilegiadas, as quais conseguem altos salários e cargos burocráticos e empresariais iguais aos homens de sua classe, ajustando-se à ideia de “diversidade corporativa” e meritocracia em detrimento de ideais de liberdade e igualdade para todas. Portanto, o feminismo liberal contribui diretamente para o crescimento da desigualdade e ainda terceiriza a opressão ao compactuar com a precarização do trabalho de mulheres racializadas, de baixa renda e de outras etnias, que, na maioria das vezes, realizam o trabalho doméstico e de cuidado para mulheres brancas privilegiadas.

 As autoras reafirmam, todavia, que o feminismo liberal não é historicamente a única via feminista. Na verdade, esse movimento interseccional que as teóricas propõem já teria um longo caminho, traçado há muitas décadas pelas feministas negras e marxistas: “As feministas negras produziram reveladoras análises sobre a intersecção entre exploração de classe, o racismo e a opressão de gênero, e recentes teorias materialistas queer desvelaram importantes elos entre o capitalismo e a reificação opressiva de identidades sexuais” (ARUZZA; BHATTACHARYA; FRASER , 2019, p. 120).

Seguindo então a tradição da luta das mulheres negras, as teóricas defendem que é impossível a libertação das mulheres, e consequentemente de todos, em uma sociedade racista e imperialista. Paralelamente, consideram que a origem de todas essas formas de opressão é o capitalismo, promotor da ideologia do trabalho livre e assalariado fundamentado no apagamento de populações exploradas, saqueadas e escravizadas pela colonização das terras africanas e indígenas.

Por conseguinte, para as autoras, é no sistema capitalista que se origina não somente a exploração de uma classe dominante sobre outra, como também a opressão de um gênero sobre outro. Sendo assim, o sexismo é parte fundante na estrutura capitalista. Muito embora a subordinação das mulheres já existisse anteriormente em outras formas de sociedade, o capitalismo moderniza o sexismo a partir de novas estruturas institucionais, promovendo feminicídio, homofobia e transfobia. Por isso, é central no livro a crítica à dicotomia fundamentada na divisão de gênero e que se reflete na separação entre trabalho pago e não-pago.

Sendo um tipo de trabalho não remunerado que envolve criar, cuidar, educar e desenvolver seres humanos, a reprodução social é mundialmente realizada por mulheres; porém, esse trabalho, na sociedade capitalista, não tem reconhecimento material, de valor de trabalho. Isso se torna mais perverso porque o trabalho de produção de pessoas é vital, complexo e essencial para a produção de lucros, sendo posteriormente instrumentalizado em favor de projetos imperialistas. Portanto, a reprodução social , enquanto trabalho doméstico e de cuidado, contribui diretamente na possibilidade de cada sujeito trabalhar fora, de forma assalariada, o que, segundo as autoras, seria a chamada “força de trabalho” de Marx. É a criação e o cuidado da formação de pessoas que encarnam e moldam a vida e a força de trabalho dos seres humanos, de modo a produzir sujeitos normalizados e moralizados que sejam subservientes ao serviço do capital. Assim, a reprodução social torna-se entrecruzada com a dominação e sua luta para superá-la.Por essa razão, para se fortalecer, o capitalismo depende da opressão de gênero, da organização da reprodução social alicerçada numa divisão racial, sexista e heteronormativa, o que provoca às mulheres uma violência fundida entre espaço público e privado, atravessada interseccionalmente, forçando as mulheres negras e imigrantes ao trabalho doméstico e de cuidado precarizados.

Diante disso, no lugar da ortodoxa visão da luta de classes nas fábricas, as autoras conferem centralidade ao que designam como “reprodução social” na sociedade capitalista. Essa discussão sobre o marxismo tradicional é feita no posfácio do livro que, bastante embasado no debate marxista, retoma uma das suas referências bibliográficas fundamentais, o Manifesto Comunista de Marx e Engels, publicado há cerca de 170 anos. Por isso, as autoras fundamentam algumas transformações teóricas necessárias dessa obra, levando em conta a contemporaneidade, que oferece novos desafios.

As autoras complexificam o pensamento de Marx ao defender que o capitalismo esconde algo além da mais-valia: ele encobertaria sua própria origem, que seria a mão de obra não remunerada de reprodução social de pessoas, sem a qual o capitalismo não teria trabalhadores para explorar. As duas formas de produção, a de lucros e a de pessoas, são, portanto, reciprocamente constitutivas, e sua distinção é analítica e hierarquizada, o que se dá em função do capital. Por isso, o objetivo principal das lutas de reprodução social é priorizar a produção de pessoas no lugar da produção de lucros.

A tentativa, portanto, de Feminismo para os 99% – um manifesto é repensar e reinventar uma luta de classes marxista. Enquanto muitas correntes da esquerda se mantém defendendo um entendimento abstrato e homogêneo de classe como unificador e enxergando movimentos feministas e antirracistas como separatistas de uma luta maior, Arruzza, Bhattacharya e Fraser defendem que a própria conjuntura política mostra que a figura tradicional do trabalhador branco e militante é insuficiente para dar conta da realidade – o que anteriormente já se colocava como problema. A questão é justamente não permitir o apagamento e a banalização dessas diferenças, o que só contribuiria para o neoliberalismo se apropriar cinicamente do ideal de “diversidade” enquanto mascara o caráter predatório do capital. Diante disso, o manifesto rejeita tanto o reducionismo de classe de esquerda como o neoliberalismo progressista, reivindicando, em contrapartida, um universalismo que se origine da multiplicidade de lutas vinda das classes baixas.

Referências bibliográficas

ARRUZZA, C.; BHATTACHARYA, T.; FRASER, N. Feminismo para os 99 % – um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2015.

[1]     Mestranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).