Resenha de: GRESPAN, Jorge. Marx e a crítica do modo de representação capitalista. São Paulo: Boitempo, 2019.

Bruna Della Torre[1]

Para baixo, na toca do coelho. Quando Alice adentrou o país das maravilhas, notou que havia acontecido tantas coisas fora de lugar que pouca coisa parecia ser de fato impossível.[2] Assim como Alice segue o coelho, Grespan segue Marx na investigação desse mundo invertido, de ponta-cabeça, opaco, onde as coisas não seguem a lógica tradicional e acontecem fora de lugar, que é o mundo capitalista. Aqui também pouca coisa parece impossível: o que não é vivo ganha vida; o que não tem valor ganha preço e as relações sociais tornam-se coisas. São as determinações da opacidade desse mundo, seu modo de representação, em analogia ao modo de produção capitalista, que Grespan busca explicar.

Marx e a crítica do modo de representação capitalista é um livro sobre os desdobramentos do fetichismo da mercadoria, conceito que percorre O Capital de ponta a ponta. E, embora disfarce um pouco esse segundo propósito, é também um livro sobre a dialética. Por meio da mobilização das categorias de “apresentação” [Vorstellung] e de “representação” [Darstellung], nos diversos usos que delas faz Marx, Grespan debruça-se sobre o seu método crítico. São 295 páginas que visam demonstrar como a crítica, em Marx, não se apresenta como desvelamento da verdade, conforme acusam muitas vezes os seus opositores, mas decompõe o seu objeto, percorrendo suas determinações. Trata-se de distinguir, nesse processo, causa de efeito, essencial de acessório. Para isso, Grespan acompanha o argumento de Marx do livro I ao livro III de O Capital, no que reside o primeiro dos inúmeros méritos do livro.

O fato de Marx não ter terminado o segundo e o terceiro volumes de O Capital, editados e publicados por Engels depois de sua morte, impôs de certa forma as condições de recepção dessa obra no mundo inteiro. O primeiro livro ganhou, assim, mais centralidade que os subsequentes, conferindo protagonismo à esfera da “produção”, bem como à questão do trabalho e das classes sociais. Com o risco que corre qualquer exagero, é possível afirmar, no entanto, que essa leitura ensejou um marxismo de cunho mais trabalhista e focado no tema das classes sociais. O livro de Grespan previne esse tipo de viés na leitura de O Capital. Marx trabalhou ao mesmo tempo no que viriam a se tornar os três volumes de O Capital e pensava sua obra, conforme retoma Grespan, como “um todo artístico” resultante de “articulações dialéticas”, no qual os momentos da produção, da circulação e da distribuição da mais-valia são igualmente fundamentais e sempre acompanhados do desdobramento do fetichismo. Apenas a leitura do livro I não seria suficiente para apreender o argumento de Marx em sua totalidade, pois não se trata apenas de entender a exploração do trabalhador pelo capitalista e a origem social do valor, mas também os mecanismos de inversão e ocultamento produzidos pela sociedade capitalista. O que está em jogo é a compreensão, no fundo, de como se funda e se desdobra toda a sua sociabilidade. A importância do livro de Grespan consiste justamente em investigar os três livros em conjunto, orientado pelas mais recentes pesquisas e publicações da Marx-Engels-Gesamtausgabe 2 (MEGA2). Essa pesquisa cuidadosa realizada nas fontes originais, prática rara no marxismo brasileiro, consiste em outro grande mérito do livro, que recorre à mais recente bibliografia alemã sobre o tema e que percorre o trabalho de Marx em seu caráter inacabado, porém não descontínuo.

Problemas espinhosos da leitura de Marx como as formas do mais-valor, bem como as condições de sua distribuição por meio da equalização produzida pela concorrência entre os capitais, o papel do capital a juros para a compreensão da fórmula trinitária e a transformação do valor em preço são pontos de maior interesse para quem conhece ou quer conhecer a obra de Marx em profundidade. A passagem do valor ao preço é explicada por meio da autonomização da forma de valor e da propriedade privada como forma social. Grespan mostra como não se trata aqui de um problema meramente econômico, mas da própria apresentação do conflito imanente ao capitalismo, a partir de suas formas. “Forma” aqui ganha um sentido preciso: ela diz respeito ao modo como as relações capitalistas se movem a partir da contradição, por isso a forma e a dialética são ao mesmo tempo conceito, método e realidade efetiva.

Aqui entra o terceiro grande mérito do livro: a análise da relação entre Marx e Hegel. Mais do que tendências idealistas de Marx, fica claro que o recurso de O Capital a Hegel obedece a uma demanda do próprio objeto: o capital apresenta-se como um “tipo geral”, um sujeito que cumpre o papel do “conceito” hegeliano, que absorve todas as formas sociais, tornando-as conforme a ele. Seria como dizer que a própria realidade é hegeliana… O recurso a Hegel é fundamental para entender também os movimentos de apresentação e representação. Partindo do capítulo I de O Capital, Grespan analisa como na discussão sobre a mercadoria, a forma ainda se ligava à substância do valor. A concorrência dos capitais, bem como as regras distributivas da mais-valia sob a forma do lucro produz a separação progressiva entre forma e substância. A forma do valor então passa a agarrar-se a qualquer coisa monopolizável – a propriedade privada ganha um protagonismo – e alastra-se por toda parte. “Tudo o que recebe essa forma se “apresenta” como tendo valor, mesmo um valor apenas “representado”.[3] O que não tem valor, portanto, que não é produto do trabalho, ganha preço.

Do fetiche à trindade, portanto. Grespan percorre os desdobramentos do fetiche para chegar ao maior deles – a fórmula trinitária trabalhada e retrabalhada pela economia política clássica e criticada por Marx. Ela é resultado desse processo complexo de apresentação do capital diante e através dos agentes sociais e das figuras de representação por ele geradas. Ao colocar, lado a lado, o capital, a terra e o trabalho, iguala a contribuição dos três elementos para a produção da riqueza capitalista, ainda que só um desses a crie. Trata-se do que se imprime na consciência dos agentes, não por um movimento de falseamento, mas pelo simples fato de que estes estão atados à representação capitalista, à sua superfície aparente. Crítica da economia política aqui, transforma-se em crítica da ideologia. Marx demonstraria que há um gap entre a prática dos agentes e o modo como representam o processo que vivenciam. Grespan explica: “a experiência dos agentes nunca abrange o todo dessa articulação complexa, cujas mediações contraditórias vão invertendo a cada passo o sentido anterior”.[4] Um novo significado de ideologia emerge desse tipo de formulação e diz respeito à vivência dessa contradição a partir da qual se funda a sociabilidade no mundo capitalista. Novamente: não se trata de falsa consciência, mas de impossibilidade socialmente necessária de compreensão do todo, das condições materiais da opacidade da realidade social. Mais do que desvelá-la, trata-se de decompô-la. Grespan poderia ter se alongado mais sobre esse assunto. Suas consequências são amplas não só para a interpretação da obra de Marx, mas para o marxismo. Segundo essa leitura, a verdade não se apresenta como “ponto de vista de classe”, não confere nenhum privilégio epistemológico ao proletariado e se apresenta antes de tudo como uma espécie de crítica negativa… Para alguns, isso pode soar claustrofóbico. Porque é mesmo. Talvez Marx concordasse com o provérbio polonês: “abra-te Sésamo, eu quero sair”.

[1] Editora executiva da revista Crítica Marxista e pós-doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

[2] CARROLL, Lewis. Alice’s adventures in wonderland. Chicago: VolumeOne Publishing, 1998, p. 9.

[3] Grespan, Jorge. Marx e a crítica do modo de representação capitalista. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 235.

[4] Grespan, Jorge. Marx e a crítica do modo de representação capitalista. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 254.

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