Transição sitiada

Natália Mello[1]

As eleições de 2020 nos Estados Unidos foram repetidamente chamadas de “a life changing election” (uma eleição transformadora da vida). A julgar pela mobilização recorde de eleitores nas últimas eleições não parece exagero supor que estava na mesa opções que teriam impactos profundos.

Joe Biden tomou posse em uma cerimônia que foi cuidadosamente planejada para marcar uma virada de página. No primeiro dia, além dos cerimoniais habituais, Biden já assinou, ou prometeu para os próximos dias, uma série de ordens executivas que representavam a retomada de práticas de aliança e do multilateralismo (o reingresso dos Estados Unidos na Organização Mundial da Saúde e no Acordo do Clima de Paris), o estímulo à economia (um pacote de quase 2 trilhões de dólares) e a inclusão social (projeto de acesso à cidadania para 11 milhões de imigrantes indocumentados, a revogação da proibição de Trump de que transgêneros servissem às Forças Armadas, a revisão da atual situação de equidade racial e a criação de um plano de ação).[2]

Os indicadores de virada não conseguiam esconder, todavia, as características de uma transição sitiada que se sucedeu à invasão do Capitólio no último dia 6 de janeiro, durante a cerimônia de certificação da eleição. Cerca de 25.000 membros da Guarda Nacional foram chamados a Washington, D.C para reforçar a segurança da posse. Desde a véspera, a capital encontra-se em estado de emergência, quarteirões foram fechados, o comércio protegido com tapumes e barreiras. Na semana passada, uma dúzia de homens convocados pela Guarda Nacional foram dispensados por suspeita de comportamento questionável e/ou simpatia a grupos extremistas.[3] 

Contra qualquer imagem de uma passagem de poder cerceada, ex-presidentes dos dois partidos (Obama, Bush Jr., Clinton) e líderes republicanos compareceram e deram ares de normalidade ao processo. O discurso inaugural de Biden empenhou-se em destacar a prevalência da democracia, a resiliência da Constituição e a força da nação. Reconheceu que poucas vezes na história a presidência deparou-se com tantos e tamanhos desafios: a pandemia, o grito por justiça social, o desastre ambiental, o declínio da classe média, a universalização do sistema de saúde. Além de desafios, Biden elencou como inimigos o ódio, o extremismo, o racismo sistêmico, a manipulação de fatos. Pediu, entretanto, um fim à “guerra não civilizada” entre democratas e republicanos, cidades e zonas rurais, conservadores e liberais. Demandou, conforme esperado, união e prometeu ser o presidente de todos os norte-americanos. Ao fim, prometeu que os Estados Unidos voltariam a ser o farol do mundo.

Depois de uma eleição conturbada, é difícil imaginar os Estados Unidos como um modelo de orientação para um mundo profundamente abalado por crises políticas, econômicas e sanitárias. O pleito foi contestado por opositores, inflamados pelo ex-presidente Trump. Alegações de fraude se sucederam a questionamentos judiciais, um ataque violento ao Capitólio, mais de 60 manifestantes presos, 5 mortos e a aprovação de um processo de impeachment contra Trump, ainda não concluído. O processo de certificação das eleições em 6 de janeiro ficou marcado ainda pelos votos contrários de 8 senadores e 139 deputados federais, números totalmente anômalos na história de rituais meramente formais de confirmação dos resultados das votações. Para finalizar, o ex-presidente Trump quebrou um padrão de 152 anos consecutivos em que todos os mandatários no poder participaram da cerimônia de posse de seus sucessores.

Contudo, há sinais que talvez antecipem alguma movimentação do atual bloqueio político. O segundo impeachment de Trump foi apoiado por 10 deputados federais do partido Republicano, enquanto o primeiro impeachment não havia conseguido nenhum voto dos adversários. Mais significativo ainda, o líder republicano no Congresso disse privadamente que o presidente cometeu ofensas passíveis de impeachment e, na véspera da cerimônia de transição do poder, disse que a multidão que invadiu o Capitólio foi provocada por Trump que lhes encheu de mentiras.[4] Ontem, 17 congressistas republicanos – incluindo alguns que fizeram objeções aos resultados eleitorais-, enviaram carta a Biden afirmando que gostariam de trabalhar junto com ele diante dos desafios da economia e de alívio às famílias na pandemia.[5]

No lado democrata, por sua vez, há um esforço em expandir e reforçar a coligação. De um lado, o presidente mais velho a assumir um mandato nos Estados Unidos (78 anos de idade), com experiência de 36 anos no Congresso, 8 anos como vice-presidente e que optou por indicar para cargos de alto escalão uma série de nomes que já atuavam no governo Obama (Antony Blinken como Secretário de Estado, Janet Yellen como Secretária do Tesouro, Merrick Garlan como Secretário de Justiça, Tom Vilsack como Secretário de Agricultura, Denis McDonough como Secretário de Assuntos relacionados a Veteranos, Alejando Mayorkas como Secretário de Segurança Nacional, Ron Klain como Chefe de Gabinete, William Burns como Diretor da CIA, Avril Haines como Diretora de Inteligência Nacional, Linda Tomas-Greenfield como Embaixadora na ONU, John Kerry como Enviado Especial para o Clima e outros).

De outro lado, escolheu a primeira mulher Secretária do Tesouro, o primeiro negro Secretário de Defesa, a primeira mulher e primeira indígena Secretário do Interior, o primeiro candidato abertamente gay como Secretário do Transporte, o primeiro latino Secretário de Saúde e Serviços Humanos, o primeiro latino e imigrante Secretário de Segurança Nacional, a primeira mulher Diretora de Inteligência Nacional, o primeiro negro Chefe da Agência de Proteção Ambiental e o mais jovem Assessor de Segurança Nacional. Há de se reconhecer, entretanto, que a estratégia é antiga. Os governos de Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama também indicaram representantes de minorias a postos e cargos; além do mais, o último presidente democrata personificava, ele mesmo, a promessa da inclusão. Ainda veremos o quanto estas indicações representarão renovações políticas de fato.

Vale a pena destacar, por fim, que 2020 iniciou-se com uma disputa mais intensa sobre quem seria nomeado candidato a presidente pelo partido democrata e agora vemos Biden acomodando diversos dos seus ex-adversários. Kamala Harris foi escolhida como sua vice-presidente – aliás, a primeira mulher e primeira negra e de origem indiana a ocupar este posto. Pete Buttiegieg foi escolhido Secretário do Transporte. Amy Kobluchar, por fim, abriu a cerimônia de posse de ontem. Mas é significativo que os pré-candidatos mais à esquerda, Bernie Sanders e Elizabeth Warren, não tenham sido indicados para cargos.

Biden foi empossado na presidência um dia após os Estados Unidos alcançarem o número de 400.000 mortos por Covid-19. Em poucos dias, haverá mais mortes por Covid-19 do que vítimas norte-americanas na Segunda Guerra Mundial. A marca simboliza de forma significativa o esgotamento social e político do sistema em vigor no país. Resta saber se os Estados Unidos serão capazes de mudá-lo e aceitarem sua nova condição internacional ante os limites de suas possibilidades.

Notas:


[1] Professora do curso de Relações Internacionais da PUC-SP. Doutora em Ciência Política pela USP, tem experiência como pesquisadora visitante na Universidade de Harvard (2015-2016).  É pesquisadora do CEDEC, do INCT-INEU e conselheira editorial do Boletim Lua Nova.

[2] Joe Biden rejoins Paris Agreement, requires masks on federal property in swift Day 1 directives: https://www.usatoday.com/story/news/politics/2021/01/20/joe-bidens-day-1-orders-reversing-trumps-most-egregious-moves/6641289002/

[3] Biden toma posse: cerimônia será sob risco de atentado e com mais militares do que público: bbc.com/portuguese/internacional-55730969

[4] McConnell is said to be pleased about impeachment, believing it will be easier to purge Trump from the G.O.P.: https://www.nytimes.com/2021/01/12/us/mitch-mcconnell-trump-impeachment.html

Deepening Schism, McConnell Says Trump ‘Provoked’ Capitol Mob: https://www.nytimes.com/2021/01/19/us/politics/mcconnell-trump-capitol-riot.html

[5] 17 new House Republicans tell Biden they want to work together: https://www.cbsnews.com/news/house-republicans-biden-letter/

Referência imagética:

Deutsche Welle (DW). Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/eua-refor%C3%A7am-seguran%C3%A7a-para-posse-de-biden/a-56201803 (Acesso em 21/01/2021)