Ivan Henrique de Mattos e Silva1
27 de setembro de 2026
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Dando continuidade ao Especial Eleições 2026, Ivan Silva apresenta uma análise das transformações recentes na política do Amapá. O texto examina o avanço eleitoral da direita no estado, o enfraquecimento das tradicionais dinastias políticas amapaenses e a reconfiguração das disputas em torno da agenda ambiental. Para conferir os outros textos da série, clique aqui.
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Introdução
Embora a Amazônia Legal seja uma região constituída por uma pluralidade de trajetórias políticas e institucionais, além de distintos padrões de competição eleitoral e estruturação partidária, há um traço aglutinador importante: a despeito das suas especificidades, todos os nove estados da região observaram um robusto realinhamento eleitoral nos últimos anos. A partir de 2002 (e, de modo mais evidente, a partir de 2014) seus padrões de voto caminharam cada vez mais rumo à direita do espectro ideológico para todos os cargos e em todos os pleitos, conforme dados produzidos pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal.
O Amapá tampouco constitui uma exceção a esse movimento. Antigo território federal até a promulgação da Constituição de 1988, o estado consolidou, desde sua instalação como unidade federativa, no início da década de 1990, um padrão eleitoral fortemente marcado pela predominância de partidos situados à esquerda do espectro político. Essa hegemonia se manifestou de forma particularmente expressiva nas eleições de 2006, quando 96,2% dos votos válidos para o Governo do Estado, no primeiro turno, foram destinados a candidaturas desse campo ideológico. Entretanto, o cenário político contemporâneo revela uma inflexão significativa: as duas candidaturas que atualmente concentram ampla vantagem nas intenções de voto para o Palácio do Setentrião (e que, juntas, reúnem mais de 90% das preferências do eleitorado) — Antônio Furlan (PSD) e Clécio Luís (União Brasil) – se situam em partidos de direita.
A crise do capital político da esquerda amapaense convive, ainda, com outro elemento central: o ocaso das principais famílias políticas do estado – aqui consideradas a partir do conceito de dinastias políticas (Bourdieu, 1996), ou seja, como grupos políticos nos quais a transmissão do capital político se dá a partir do vínculo familiar. As dinastias políticas que centralizaram as disputas pelo Executivo amapaense e, em grande medida, também as disputas pela prefeitura de Macapá durante quase três décadas, também estão de fora do palco central da disputa deste ano.
Ao longo das últimas décadas, dois partidos hegemonizaram consideravelmente as disputas pelo Governo do Amapá, vinculados a duas tradicionais dinastias políticas amapaenses: o PSB, vinculado à família Capiberibe, e o PDT, vinculado à família Góes. O atual ministro da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes (PDT), foi governador por quatro vezes. João Capiberibe – principal liderança do PSB – foi governador por duas vezes, e seu filho, Camilo Capiberibe – atualmente deputado federal pelo PT, após deixar o PSB na sequência de décadas no partido -, foi governador por uma vez. Em 2022, pela primeira vez, desde 2002, nenhum dos principais concorrentes ao governo do Amapá era filiado a um desses partidos – que, aliás, sequer figuraram como cabeças de chapa.
Quando considerada a última pesquisa do Instituto Real Time Big Data, publicada no dia 24 de julho, o cenário da disputa pelo Palácio do Setentrião é de polarização entre duas candidaturas. O governador Clécio Luís (União) – apoiado pelo Presidente Lula (PT) – aparece com 30% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD) – apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) –7 chega a 66%, com amplo favoritismo. Para o Senado, o peso eleitoral de Furlan se verifica novamente. Rayssa Furlan (Podemos), esposa de Antônio Furlan, aparece com 32% das intenções de voto; o senador Randolfe Rodrigues (PT), com 18%; e o senador Lucas Barreto (PSD), que também fará parte da chapa de Antônio Furlan, tem 12%.
No caso da da disputa pela Presidência da República o Amapá também apresenta um padrão de polarização que replica o contexto de 2022: o presidente Lula (PT) aparece com 36% das intenções de voto no primeiro turno contra 31% do senador Flávio Bolsonaro (PL), seguidos, de longe, por Ronaldo Caiado (PSD), com 8%, e Renan Santos (Missão), com 7%. No segundo turno, Lula chega a 42% e é ultrapassado numericamente por Flávio Bolsonaro, que chega a 44%, configurando empate técnico.
O cenário eleitoral deste ano no Amapá indica a consolidação de dois padrões importantes no estado: por um lado, parece confirmar a trajetória de conversão à direita do voto – aprofundado pela migração do governador Clécio Luís (quadro historicamente ligado à esquerda amapaense) ao União Brasil, sob as bênçãos do atual presidente do Sneado senador Davi Alcolumbre (hoje, um forte aliado do governador); e, por outro, o enfraquecimento político e eleitoral das principais dinastias políticas amapaenses.
Do ponto de vista temático, duas pautas devem hegemonizar as disputas no Amapá (para além da questão da violência urbana): em primeiro lugar, uma forte defesa do papel da exploração de petróleo na foz do rio Amazonas como uma possível via de desenvolvimento para o estado (pauta que, aliás, unifica praticamente todos os campos ideológicos amapaenses: do PT, do senador Randolfe Rodrigues e do deputado federal Paulo Lemos, ao PL, de Luciana Gurgel, candidata a vice-governadora na chapa de Antônio Furlan); e, em segundo lugar, um debate (ainda que sem contornos muito evidentes) a respeito de qual o modelo de desenvolvimento para o Amapá, dividindo, de um lado, um campo que aposta numa combinação entre o papel do agronegócio tradicional pari passu com o papel da bioeconomia e do agroextrativismo de base familiar e ecológico (caso do campo liderado pelo governador Clécio Luís), e outro que aposta na defesa aberta do agronegócio como a via de desenvolvimento possível para o Amapá, evocando o clássico argumento de incompatibilidade estrutural entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental – e fortemente apoiado na experiência de Rondônia e do Mato Grosso (caso do campo liderado por Antônio Furlan).
Eleições e questão ambiental no Amapá
O Amapá ocupa uma posição bastante privilegiada em comparação a outras unidades federativas da Amazônia Legal. Com 62% do seu território sob modalidades especiais de proteção, a legislação ambiental amapaense ainda apresenta freios importantes ao avanço do desmatamento verificado na região especialmente durante o governo Bolsonaro. Ainda assim, essa legislação foi foco, ao longo de, pelo menos, as duas últimas legislaturas da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá (ALAP), de disputas importantes no sentido da sua flexibilização – disputas, aliás, que possuem forte conexão com um fenômeno mais amplo: o avanço eleitoral e organizativo das novas direitas, mais diretamente vinculadas à pauta antiambiental (Silva; Teston, 2023).
O conceito de novas direitas se refere aos novos movimentos sociais e grupos políticos surgidos, na arena pública brasileira, em meados da década de 2010, na esteira de manifestações de grande magnitude, como as Jornadas de Junho de 2013 e as marchas pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff entre 2014 e 2016 (Rocha, 2018). Sua condição de novidade se justifica a partir da conjugação de cinco características fundamentais: um framework metapolítico, ou seja, a compreensão da arena cultural como lócus privilegiado de disputa política, e a sua hegemonia nessa arena enquanto uma condição ex ante para a disputa de espaços institucionais; o anti-intelectualismo, compreendido tanto como a rejeição aberta e frontal das instâncias tradicionais de produção, legitimação e reprodução dos regimes de verdade – notadamente, as universidades, centros de pesquisa e escolas; o antielitismo, politicamente traduzido como a valorização ética, estética e epistemológica do cidadão médio e do senso comum como instrumento de apreensão do real; a instrumentalização do discurso politicamente incorreto como arma de uma retórica antissistema; e a síntese entre liberalismo econômico e conservadorismo moral, aglutinados a partir da elevação da família patriarcal ao posto de categoria ordenadora do mundo social (Silva, 2021).
Nesse contexto, a agenda ambiental é compreendida pelo discurso político das novas direitas, de modo geral, e do bolsonarismo, de modo mais específico, como arma política de dois movimentos subversivos: o movimento ambientalista e a organização política dos povos originários. A agenda ambiental também é apresentada como um instrumento privilegiado de disputa política das esquerdas (e, em termos internacionais, do chamado globalismo) para corroer os fundamentos da nacionalidade brasileira e da própria soberania nacional, inviabilizando o desenvolvimento econômico do Brasil e comprometendo a segurança das suas fronteiras, criando enclaves supranacionais (as Terras Indígenas) (Leirner, 2020).
Seja do ponto de vista ideológico, a partir da compreensão do ambientalismo e da organização política dos povos originários como arma política de uma “esquerda globalista”, ou do ponto de vista concreto, a partir da aliança com frações do capital vinculadas ao agronegócio e ao extrativismo, a reversão da legislação ambiental protetiva – construída a duras penas no país – e a reconversão da Amazônia à condição de zona de expansão da fronteira do agronegócio, se apresentaram como eixos fundamentais do bolsonarismo – que também encontrou na região um espaço bastante fértil para seu enraizamento eleitoral e social (Silva; Teston, 2023).
Há, ainda, um fator importante: embora a Amazônia tenha se colocado como um dos principais biomas brasileiros a sofrer com os efeitos das queimadas e do desmatamento durante o governo Bolsonaro, a questão climática não se apresenta de modo concreto como uma preocupação central do eleitorado da região na composição do voto. Ao longo do ano de 2022, o Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (Legal) realizou três rodadas de grupos focais (conduzidos pelos pesquisadores Carolina de Paula e João Feres Jr.), realizados tanto nas capitais como no interior dos estados, buscando as percepções dos cidadãos da Amazônia Legal com relação ao clima, meio ambiente e eleições. As questões abordadas incluíam o conjunto de preocupações definidoras da escolha das candidaturas e as respostas foram similares com relação à temática: com a exceção do interior do Mato Grosso (vinculada às queimadas), a questão ambiental não apareceu nenhuma vez de maneira espontânea – ainda que, uma vez provocadas, as pessoas também tenham sido, em geral, unânimes ao apontar as mudanças climáticas como um problema concreto (De Paula; Feres Jr., 2022a, 2022b).
Ainda assim, os campos políticos fundamentais no Amapá historicamente se diferenciaram, ideologicamente, quanto à questão ambiental: seja durante a hegemonia da disputa entre as famílias Góes e Capiberibe, seja a partir da reconfiguração eleitoral do Amapá a partir do seu ocaso, direita e esquerda se diferenciavam profundamente quanto à pauta ambiental (Silva, Teston, 2023). Essa clivagem mais evidente, todavia, é reconfigurada a partir do debate em torno da exploração do Petróleo na foz do rio Amazonas.
Considerações finais: a questão do petróleo
Embora os campos políticos que estruturaram as disputas mais importantes desde 2018 possuíssem na questão ambiental um importante elemento de distinção – a despeito, claro, do evidente aceno ao agronegócio por toda parte –, mimetizando, sobretudo, a disputa eleitoral nacional de 2022 (Silva; Teston, 2023), desde meados de 2023 (de modo mais evidente), o surgimento da possibilidade de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, enquanto estratégia de desenvolvimento para o Amapá, produziu um rearranjo nessa clivagem discursiva.
Os grupos políticos que tradicionalmente se posicionaram à direita e à esquerda do espectro ideológico guardavam posições marcadamente divergentes quanto à questão ambiental, na medida em que a direita historicamente defendeu uma perspectiva dicotômica entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental – compreendida, aqui, como um empecilho ao progresso, necessariamente concebido em uma matriz predatória (Sachs, 1986).
O processo eleitoral de 2022 parecia aprofundar essas diferenças entre os campos ideológicos no Amapá, sobretudo considerando o processo de mimetização da disputa nacional. As duas últimas eleições para a Presidência da República e, em especial, a de 2022, foram dotadas de uma característica razoavelmente sui generis: em meio a uma tradição, desde a consolidação da Nova República, marcada pela trajetória descendente da diferenciação ideológica entre as principais forças políticas em disputa – guardadas as diferenças de ênfase – as duas candidaturas que mobilizaram sobremaneira o eleitorado brasileiro não apenas apresentaram claras e inequívocas diferenças ideológicas e programáticas como, ainda, fizeram destas diferenças parte constitutiva de sua plataforma discursiva.
Essas diferenças estiveram presentes nos programas de governo e nas bandeiras defendidas por cada um dos polos da disputa de 2022, como foi o caso da agenda ambiental. Igualmente central para o governo Bolsonaro – que fez da desestruturação da legislação ambiental brasileira e de sua inviabilização sistêmica (por meio de desmontes e cortes orçamentários) um dos núcleos de sua plataforma presidencial –, o avanço das queimadas (em especial na Amazônia e no Pantanal), do garimpo ilegal e da exploração ilegal de madeira (com o consentimento das estruturas estatais) se converteram em símbolos inequívocos do grupo político que conquistou o Executivo federal em 2018. Pari passu, a candidatura liderada pelo presidente Lula (eleito para um terceiro mandato) teve, na construção de uma antítese ao modelo representado pelo presidente Bolsonaro, também um dos núcleos de sua plataforma – da qual a aliança com a ex-ministra Marina Silva (Rede) (mundialmente reconhecida por sua atuação na preservação ambiental) e a promessa de criação de um Ministério dos Povos Originários, a ser liderado por um(a) indígena – são exemplos emblemáticos.
Contudo, apesar da trajetória de diferenciação dos campos políticos quanto à temática ambiental no Amapá, a ascensão do debate em torno da exploração do petróleo na foz do Amazonas – que centralizou a agenda discursiva da política amapaense enquanto uma “bala de prata” para a superação dos históricos problemas locais – colocou do mesmo lado lideranças políticas de campos opostos. Em favor de uma articulação em defesa da exploração petrolífera, uniu não apenas o governador Clécio Luís e Jaime Nunes (seu adversário principal na eleição de 2022), mas também os três senadores amapaenses – Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo Lula, Davi Alcolumbre (União), presidente do Senado, e Lucas Barreto (PSD), do campo bolsonarista, além do prefeito de Macapá e adversário de Clécio Antonio Furlan (PSD) e o ministro e ex-governador Waldez Góes (licenciado do PDT).
A despeito do relativo consenso entre as elites políticas amapaenses, a pauta não é consensual do ponto de vista social, e encontra forte oposição de movimentos sociais e organizações políticas, tais como o Conselho de Caciques do Oiapoque, a Comissão Pastoral da Terra e ONGs como a Mapinguari.
O mais provável é que a disputa deste ano seja marcada não por uma clivagem ambiental mais marcada entre direita e esquerda, mas, por um lado, por uma hegemonia de partidos de direita (ainda que a esquerda amapaense esteja compondo a chapa do governador Clécio), e, por outro, por uma briga generalizada pelos espólios eleitorais daquilo que, hoje, se apresenta apenas como a promessa futura de uma bala de prata incerta: o petróleo no Amapá.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referências bibliográficas
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DE PAULA, Carolina; FERES JR., João. Clima, meio ambiente e eleições 2022: percepções dos cidadãos da Amazônia Legal (residentes no interior dos estados), maio de 2022. Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (Legal), 2022b. Disponível em: https://legal-amazonia.org/wp-content/uploads/2022/07/QUALI_AMAZONIA- LEGAL_INTERIOR-2.0.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.
LEIRNER, Piero. O Brasil no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. São Paulo: Alameda, 2020.
ROCHA, Camila. “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018). 2018. 233 f. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
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SILVA, Ivan Henrique de Mattos. Da Nova República à nova direita: o bolsonarismo como sintoma mórbido. Revista Sociedade e Cultura, v. 24, p. 1-37, 2021.
SILVA, Ivan Henrique de Mattos; TESTON, Luci Maria. Political dynasties, bolsonarismo and the environmental agenda during the 2022 elections in the Brazilian Legal Amazon. Brazilian Political Science Review, v. 17, n. 1, p. 1-19, 2023.
Fonte: Wikimedia Commons. Palácio do Setentrião. 6 jun. 2028. Fotografia de Levy Headbanger. Disponível aqui. Acesso em: 10 set. 2026.
- Doutor em Ciência Política pela UFSCar, professor adjunto de Ciência Política na UNIFAP e vice-coordenador geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL). E-mail: ivansilva@unifap.br. ↩︎
