Predestinação divina e a ideologia do Destino Manifesto no Integralismo
Tabatha Rodrigues[1]
No ano de 1932, nasceu no Brasil o movimento que se tornaria o principal propagador das ideias fascistas na história do país: o Integralismo. Liderado por Plínio Salgado, escritor modernista influente na cena política e cultural paulista, o Integralismo foi, em essência, uma releitura nacional do movimento político liderado por Benito Mussolini – ainda era fascismo, mas com um toque abrasileirado.
Enquanto o fascismo italiano exaltava a modernidade industrial e discursava sobre o retorno aos dias de glória imperial, a versão brasileira ancorava-se em elementos mais locais. O discurso integralista explorava, em tom de revolta e alarmismo, o sentimento de inferioridade das nações periféricas no capitalismo global, culpando o “perigo vermelho” (ou, como preferiam chamar, o “imperialismo soviético”) e o capitalismo consumista pelo caos interno em que a sociedade brasileira encontrava-se.
A solução para a crise nacional, segundo o Integralismo, passava pela romantização das origens nacionalistas e pela construção de uma identidade nacional baseada, principalmente, na adoção de símbolos e imaginários que evocavam um Brasil puro e autêntico. Por isso, reafirmavam o “mito das três raças”, idealizando uma miscigenação “harmônica e honrosa” entre indígenas, africanos e europeus, apagando completamente a complexa história de violência, escravidão e exploração que permeia a formação do Brasil. Tudo isso enriquecido por uma retórica que idealizava a vida rural, valorizava o trabalho para os homens e glorificava a função do cuidado para as mulheres.

Mas o objetivo integralista não era apenas propagar a ideia de um Brasil autêntico, salvador da moral e dos costumes, enquanto o restante do mundo se afundava em decadência. A retórica integralista também buscava fortalecer uma visão de mundo hierárquica e cristã, sustentada por valores conservadores e pela imposição de uma suposta unidade territorial, nacional, cultural e religiosa. Para isso, apostavam em um discurso heroico e combativo, segundo o qual a nação deveria lutar contra tudo aquilo que ameaçasse sua moral e identidade.
“Deus dirige o destino dos povos”
A primeira frase do primeiro capítulo do Manifesto Integralista de 7 de outubro de 1932 – documento fundador e principal da doutrina da Ação Integralista Brasileira (AIB) – revela a suma teológica adotada pelo Integralismo, precisamente entre Deus e o destino. Mais do que uma simples releitura do fascismo europeu, o Integralismo foi adaptado às tensões e particularidades do Brasil da época, utilizando uma retórica que ecoava a ideia do Destino Manifesto estadunidense.
O Destino Manifesto é uma narrativa de 1845, escrita por John Louis O’Sullivan, que legitimou ideologicamente a primeira onda expansionista na América do Norte. Em essência, justificava como um mandato divino a ocupação de novos territórios, a dizimação de povos nativos e a imposição da ideologia e da política norte-americanas. Partia, ainda, da concepção de que o homem branco, de origem anglo-saxã e protestante (e, obviamente, estadunidense), era escolhido por Deus para disseminar as virtudes da liberdade e da democracia pelo continente. Assim, a ideia de Destino Manifesto conferia sacralidade à expansão para o oeste, à guerra contra o México e a qualquer conflito que se opusesse à “bendita democracia” norte-americana.
Resumidamente, a doutrina do Destino Manifesto baseava-se em quatro pilares fundamentais: (i) a civilidade deveria ser levada a todos os povos, fosse pela palavra de Deus ou pelo uso da força; (ii) o povo americano fora escolhido para levar a civilidade devido à sua virtude e grandeza enquanto nação, sendo exemplo de liberdade e democracia; (iii) a expansão e a disseminação da civilidade eram vistas como uma missão divina, cujo objetivo era criar um “Novo Mundo”; e (iv) o destino fazia parte de um determinismo irreversível e imutável, sendo, portanto, inevitável, independentemente da vontade humana.

Ao considerar essa doutrina, a frase “Deus dirige os destinos dos povos” ganha uma nova dimensão. Se Deus direciona os eventos históricos de uma nação, nenhuma força terrena poderia redirecioná-los. E, se um povo é escolhido por Deus, torna-se impossível renegar a missão sagrada que lhe foi atribuída.
Contudo, as semelhanças entre o Integralismo e a ideologia do Destino Manifesto não se encerram na abertura do Manifesto Integralista, mas se reafirmam ao longo de todo o documento de 1932. Ainda que se reconheça que o Destino Manifesto era uma crença voltada ao expansionismo – o que não é o caso do Integralismo, que não buscava expandir fronteiras nem colonizar outros povos –, é evidente que ambos os fenômenos compartilham elementos centrais. Entre eles, destaca-se o discurso do movimento político que, como enunciador, posiciona-se como agente de uma missão sagrada e autoritária, sustentada por uma crença no determinismo divino, visando à criação de um “Novo Mundo” (ou, no caso da AIB, um novo Brasil).
A predestinação integralista
O Integralismo, diferentemente do Destino Manifesto, não se apoiou no protestantismo, mas incorporou elementos do catolicismo, fundamentais para o imaginário nacional brasileiro da época. Reforçava, assim, uma retórica religiosa capaz de mobilizar uma população majoritariamente católica. Essa estratégia serviu para construir uma ponte entre a doutrina integralista e a tradição espiritual já enraizada na sociedade brasileira, conferindo legitimidade ao discurso político por meio dos valores cristãos.
Nesse contexto, o Integralismo assumia a forma de uma missão sagrada: uma convocação à propagação da palavra do chefe e ao sacrifício individual em nome de algo maior – a nação. Essa narrativa estruturava-se em torno da ideia de que o Brasil, enquanto pátria, precisaria ser “guiado” e “restituído à sua grandeza”. Tal concepção de predestinação divina não apenas ecoava a retórica histórica da Igreja Católica, como também se valia de um discurso que remontava aos símbolos e arquétipos da narrativa bíblica. Assim, o Integralismo bebia diretamente da tradição cristã para buscar adesão e mobilização popular, incorporando os valores de um povo que já enxergava no catolicismo a base moral de sua sociedade.
Entretanto, subentende-se que, para justificar essa missão salvadora, era necessário criar uma ameaça: se a nação precisava ser salva, era porque estava sendo atacada, corrompida ou diluída. Nesse ponto,aparece outro paralelo importante entre o Destino Manifesto e o Integralismo: o combatismo, “uma luta do bem contra o mal”. Ambos os movimentos se estruturavam sobre a ideia de que era preciso lutar contra forças que ameaçam o ideal divino e nacional. Surge, então, a pergunta central: quem são os inimigos? Quem deve ser combatido? E, em contrapartida, a quem deve ser dirigida essa missão? Quem é o “teu povo”?
Os inimigos eram anunciados no Manifesto integralista de 1932:
O cosmopolitismo, isto é, a influência estrangeira, é um mal de morte para o nosso Nacionalismo. Combatê-lo é o nosso dever.
(…)
Os nossos lares estão impregnados de estrangeirismo, as nossas palestras, o nosso modo de encarar a vida, não são mais brasileiros. Os brasileiros das cidades não conhecem os pensadores, os escritores, os poetas nacionais. Envergonham-se também do caboclo e do negro da nossa terra. Adquiriram hábitos cosmopolitas. Não conhecem todas as dificuldades e todos os heroísmos, todos os sofrimentos e todas as aspirações, o sonho, a energia, a coragem do povo brasileiro.
(…)
Desprezaram todas as nossas tradições. E procuram implantar a imoralidade de costumes. Nós somos contra a influência perniciosa dessa pseudo-civilização, que nos quer estandardizar. (AIB, 1932, p.3-4)
O trecho evidencia com clareza as respostas para as questões elaboradas anteriormente. Os inimigos do Integralismo eram externos: eram os estrangeirismos, o capitalismo consumista, o comunismo soviético, o cosmopolitismo e, de forma mais abrangente, a própria modernidade. Esses elementos eram apresentados como forças externas, inimigos que poderiam corromper a essência nacional.
Por outro lado, o povo de quem o Integralismo falava e a quem se dirigia era idealizado como formado por um “brasileiro autêntico”, cujo espírito seria essencialmente virtuoso e moralmente elevado. Essa virtude era exaltada por meio de uma celebração das diversas figuras que compunham o tecido social do Brasil, que deveriam se unir simbolicamente em um mesmo espírito, “num grande movimento nacionalista”, apagando as profundas diferenças e desigualdades históricas. Segundo o Manifesto Integralista, essas figuras eram
(…) o tapuio amazônico, o nordestino, o sertanejo das províncias nortistas e centrais, os caiçaras e piraquaras, vaqueiros, calus, capixabas, calungas, paroaras, garimpeiros, boiadeiros e tropeiros de Minas, Goiás, Mato Grosso; colonos, sitiantes, agregados, pequenos artífices de São Paulo; ervateiros do Paraná e Santa Catarina; os gaúchos dos pampas; o operariado de todas as regiões; a mocidade das escolas; os comerciantes, industriais, fazendeiros; os professores, os artistas, os funcionários, os médicos, os advogados, os engenheiros, os trabalhadores de todas as vias-férreas; os soldados. (AIB, 1932, p. 4-5)
Essa construção parte de um pressuposto semelhante ao ideal WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), que serviu aos norte-americanos como modelo idealizado de identidade nacional. Assim como o homem branco anglo-saxão protestante foi uma invenção para justificar a expansão territorial e a imposição de ideologias e políticas no Destino Manifesto, o Integralismo projetava a imagem do “homem brasileiro ideal”. Esse brasileiro seria portador dos valores e das virtudes mais elevados, fruto de uma miscigenação harmoniosa que, em sua narrativa, suprime conflitos e preconceitos como se fossem exclusivamente produto das influências estrangeiras: um homem cristão e com formação familiar, trabalhador e intelectualizado.
Essa idealização do homem brasileiro concentrava em si as qualidades nativistas, africanas e lusitanas em uma perspectiva utópica e excludente, que ignorava a complexidade e os traumas da formação do Brasil. Na prática, essa narrativa funcionava como ferramenta de legitimidade ideológica que buscava justificar a doutrina integralista ao criar um modelo de nação e de povo distante da realidade e que, ainda, ocultava as contradições históricas e sociais da identidade brasileira.
Conclusão
O Destino Manifesto e o Integralismo, ainda que originados em contextos distintos, compartilham uma lógica ideológica semelhante, fundamentada na crença de predestinação divina, na criação de uma identidade própria do povo escolhido e na identificação de inimigos externos como ameaça à realização de seus projetos. Ambos os movimentos operaram a partir da construção de uma narrativa dualista: de um lado, a exaltação de um povo escolhido – os estadunidenses, no caso do Destino Manifesto, e os brasileiros, no Integralismo –, e, de outro, a necessidade de combater forças externas consideradas corruptoras.
Nos Estados Unidos, o Destino Manifesto serviu para justificar um expansionismo agressivo, legitimando a ocupação territorial, a dizimação de populações nativas e a guerra contra outras nações, tudo sob o argumento de que o homem branco, anglo-saxão e protestante era o instrumento divino para a disseminação da liberdade e da democracia. Já no Brasil, o Integralismo recorreu a uma lógica semelhante, mas adaptada à realidade nacional, moldando uma narrativa que idealizava a unidade territorial e cultural, enquanto combatia o cosmopolitismo, o comunismo, a modernidade, o capitalismo, o governo, os partidos e o próprio Estado democrático, que eram apresentados como influências que corrompiam o “verdadeiro” espírito brasileiro e impediam o engrandecimento da nação.
Por fim, tanto o Destino Manifesto quanto o Integralismo mostram como narrativas míticas de predestinação e superioridade podem ser utilizadas como ferramenta de mobilização, exclusão e hierarquização. Ambas as doutrinas, ao idealizarem um povo e uma missão divina, ocultaram a pluralidade de suas sociedades em prol de um ideal unificador, modelo que, ao mesmo tempo em que buscava consolidar uma identidade nacional, também excluía qualquer perspectiva que questionasse a narrativa oficial.
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Referências
Fiorin, J. L. (1988) Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 6a edição, 1998. INDURSKY, F. (2012) “A construção metafórica do povo brasileiro”. In: Organon, Porto Alegre, v. 9, n. 23, 2012.
Marques dos Santos, S. Um povo eleito em uma terra prometida: o mito do destino manifesto e as raízes do nacionalismo. Revista Aedos, [S. l.], v. 14, n. 32, 2023. RAMOS, André Luiz Araújo ; Miranda, Augusto Ridson de Araújo. Religião Civil, destino manifesto e a política expansionista estadunidense. Revista Ameríndia – História, cultura e outros combates. Fortaleza, v.4, n.2 p. 1-17, 2007.
Trindade, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. 2. ed. rev. e ampliada. São Paulo: DIFEL, 1979. (Corpo e alma do Brasil, 40).
Vasconcelos, Gilberto Felisberto. Ideologia curupira: analise do discurso integralista. 1977. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1977. . Acesso em: 06 dez. 2024.
Fontes Primárias
AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA. Manifesto de 7 de outubro de 1932. Varginha: s.e. 1932.
Imagens
Imagem 1: Cartaz da AIB, para recrutamento de novos adeptos. 1930. Artista desconhecido.
Imagem 2: GAST, John. American Progress. 1872. Óleo sobre tela, 29,2 x 40 cm. Disponível em: < https://commons.wikimedia.org/wiki/File:American_Progress_(John_Gast_painting).jpg >. Acesso em: 12 mar. 2025.
[1] Estudante do bacharel em Ciência Política e Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). Realiza pesquisa na área de Teoria e Pensamento Político. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6674523520586102 . E-mail: tabatha-rodrigues@hotmail.com