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Início > Política Internacional e Estados Unidos | Relações Internacionais e Estados Unidos

O Xerife Sai à Ronda: “Caçar. Encontrar. Acabar.” A Nova Gramática do Poder

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Marcus Tavares1

30 de janeiro de 2026

Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Marcus Tavares das reconfigurações de poder dos Estados Unidos. O texto foi originalmente publicado em 27 de janeiro de 2026, no site do OPEU.

***

O universalismo que se consolida após a queda da URSS oferta uma narrativa que solucionava um problema de coordenação: como manter legitimidade para uma ordem que já não precisa competir com um adversário sistêmico? A resposta foi elevar princípios — democracia liberal, mercados abertos, direitos humanos — à condição de linguagem comum. Em termos gelsonianos, tratou-se do esforço de transformar poder em “espaço de proposição”: isto é, converter interesses particulares em enunciados com potencial de aceitação, por meio de argumentos explicativos na fronteira entre moralidade, direito e política. 

A gramática prometia neutralidade moral e abrangência normativa. O problema é que, ao se apresentar como universal, ela passou a exigir sacrifícios difusos — empregos deslocados, salários pressionados, comunidades desindustrializadas, guerras e vigilância doméstica — em nome de benefícios abstratos — “ordem baseada em regras”, “segurança pautada no global”, “liderança moral” e “estabilidade” prometida no longo prazo. Essa dinâmica só funciona, no entanto, quando a vida material torna crível a promessa de que o custo é temporário, e o ganho, compartilhado. 

Durante o curto “otimismo pós-Guerra Fria”, de “fim da história” e “momento unipolar”, essa condição ainda existia. A sociedade americana carregava os efeitos retardados da compressão distributiva do pós-Segunda Guerra: sindicalização elevada, tributação progressiva, expansão do salário real e acesso ampliado a crédito produtivo. Entre 1945 e meados dos anos 1970, a participação dos mais ricos na renda recuou, e o crescimento foi amplamente compartilhado. Esse lastro material tornou a abertura comercial e a projeção externa mais defensáveis: globalização e intervenções apareciam como extensão de um mundo que, em casa, parecia funcionar. 

A partir dos anos 1980, o arranjo se desloca. A desigualdade volta a crescer de forma persistente. O coeficiente de Gini dos EUA, que orbitava patamares mais baixos no pós-guerra, supera 0,41 nas últimas décadas; a fatia do 1% mais rico retorna a níveis próximos aos da década de 1920. O crescimento do PIB deixa de se traduzir em ganhos proporcionais para a renda mediana, enquanto custos essenciais — moradia, saúde, educação — avançam mais rápido que salários. O universalismo começa, então, a soar como retórica que pede sacrifício coletivo em um contexto, no qual os ganhos concentrados impossibilitam a vivência do Sonho Americano. 

Essa fratura material corrói a defesa moral da atuação internacional. Quando a promessa universal se desmente no cotidiano, torna-se difícil sustentar guerras, sanções e abertura irrestrita em nome de valores abstratos. O que antes parecia investimento civilizatório passa a ser lido como transferência de custos. Empregos são deslocados; comunidades, desindustrializadas; e dívida privada é elevada. A plateia doméstica deixa de aceitar o argumento do “bem comum global” quando o comum, em casa, encolhe, e desaparece. 

O efeito é uma mudança no padrão de consentimento. No auge do pós-Guerra Fria, a combinação entre baixa desigualdade relativa e crescimento alimentou tolerância à globalização e às ações bélicas “por princípios”. À medida que a desigualdade se desnuda, o universalismo perde poder persuasivo. A legitimidade já não vem da adesão a valores gerais, mas da demonstração de retornos concretos e imediatos. O fundamento moral se estreita, e a exigência de inteligibilidade material se impõe. 

Esse deslocamento ajuda a explicar a transição da linguagem. Onde antes se invocavam direitos universais, passa-se a invocar benefícios domésticos mensuráveis: preços de energia, controle de fronteiras, combate a redes criminais e reindustrialização localizada. Não é a moral que desaparece, mas sim o seu alcance. A gramática hegemônica entende que, sem lastro distributivo — mesmo que puramente retórico —, o universalismo convoca ressentimento ou resistência, mas não consentimento. 

O resultado é o poder americano tensionado por sua própria promessa. Ao afirmar universalidade em um mundo de desigualdade crescente, a linguagem hegemônica acabou por se desautorizar internamente. A defesa de sacrifícios em nome do universal exige uma base material que já não existe para amplos segmentos. O que se segue não é isolamento, mas reescrita da legitimação: menos princípios gerais, mais ganhos imediatos; menos abstração, mais retorno visível. É nesse hiato — entre o universal proclamado e o cotidiano desigual — que a gramática do poder se reorganiza. 

Essa ênfase contemporânea no benefício interno imediato — a ideia de que cada uso da força deve produzir prova tangível de vantagem doméstica antes de ser legitimada — leva diretamente ao que emerge hoje como um dos novos nós geopolíticos da ordem global: a questão da Groenlândia. O interesse renovado dos Estados Unidos na ilha não é um eco de sonhos expansionistas do século XIX, mas sim a expressão dessa gramática reorganizada. 

Do universal ao particular 

No segundo mandato de Donald Trump, a Groenlândia passou a ocupar espaço central nas narrativas de política externa americana. O presidente e seus aliados já não falam apenas em cooperação ou em segurança coletiva, mas sim em “adquirir” ou “anexar” a ilha como componente de segurança nacional capaz de bloquear rivais como China e Rússia no Ártico e garantir rotas e recursos estratégicos. Legisladores introduziram projetos de lei com nomes emblemáticos, como a Greenland Annexation and Statehood Act, que afirmam claramente a exigência de que o presidente empregue “o que for necessário” para transformar a Groenlândia em território ou estado dos EUA. Realçam, com isso, uma visão que combina lógica de segurança, retorno doméstico e demonstração de poder. 

O próprio tom do governo — que desconsidera restrições diplomáticas ou legais — revela que, na nova gramática, a operação externa é pensada e externada como meio direto de garantir vantagem estratégica interna, em vez de argumento retórico genérico em torno de valores universais. A argumentação não fala mais apenas de “valores” ou de “ordem internacional”. Agora, o foco recai na narrativa de territórios estratégicos, de bloqueio a potências rivais e de posições que rendem vantagem concreta à economia e à segurança dos EUA. 

Esse deslocamento é sintomático: a universalidade normativa — que, durante o unilateralismo, sustentou intervenções como peça de legitimação mais genérica — cede lugar a um realismo focado no interno, no qual as ações são justificadas pelo retorno direto a um público cada vez mais cético quanto a sacrifícios difusos. É essa mesma lógica que converte tanto a derrubada de Maduro quanto as demais atuações militares desde a posse de Donald Trump, em 2025, em prova robusta de um exercício hegemônico mais imperativo. 

Em 11 de janeiro de 2026, a sequência de ataques na Síria reaparece como exemplo quase didático do padrão. O motivo oficial volta ao eixo contraterrorista, com referência direta ao Estado Islâmico e à necessidade de neutralizar capacidades operacionais e lideranças, sob a ideia de que a ameaça, se deixada “lá”, retorna por redes, inspiração, financiamento e circulação de quadros. A gramática universalista, nesse caso, sobrevivia no plano residual do “combate ao terrorismo” como bem público internacional (aqui, o governo de George W. Bush pode ser bem ilustrativo). O ponto novo está na forma de vender o mesmo ato: custo baixo, risco político controlado, alvo com pouca simpatia pública, ganho reputacional rápido e uma narrativa doméstica que transforma projeção militar em prova de competência governamental, do tipo “atingimos quem ameaça” e “protegemos o país sem prolongar guerras”. A universalidade vira rodapé; a peça central passa a ser a promessa de segurança imediata e de ausência de sacrifício doméstico prolongado. 

O declamar da gramática 

Ao recuar algumas semanas, no fim de 2025, a Síria reaparece com o mesmo desenho: continuidade operacional sob rótulo contraterrorista, com a mesma aposta em alvos que oferecem pouca resistência política interna e permitem performance de decisão. O “universo” aqui é curto: o povo não é convocado a acreditar em uma ordem internacional baseada em regras; é convocado a acreditar que o Estado consegue aplicar força com precisão, sem transformar a operação em compromisso aberto de tempo, gastos e vidas americanas.  

Esse “universo curto” aparece quase sem mediação na fala pública do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, ao anunciar a ofensiva contra alvos do Estado Islâmico na Síria e enquadrá-la como retaliação e dissuasão, com promessa explícita de punição e custo doméstico contido: “não é o começo de uma guerra — é uma declaração de vingança. Se vocês atacarem americanos — em qualquer lugar do mundo —, passarão o resto de sua breve e ansiosa vida sabendo que os Estados Unidos vão caçá-los, encontrá-los e matá-los implacavelmente”.  

No universalismo pós-Guerra Fria, a coerção precisava ser narrada como missão ampla, com horizonte de estabilidade e democratização como justificativa geral. Na nova gramática do poder americano, a priorização do benefício interno tem por primazia provar que a máquina funciona, que a ameaça foi degradada e que o custo não encostou na vida cotidiana do eleitor, exceto como sensação de controle recuperado. 

Em 25 de dezembro de 2025, o episódio nigeriano, relatado publicamente como ataque contra afiliados do Estado Islâmico, explicita outra variação do mesmo operador. A motivação oficial invoca contraterrorismo e proteção de inocentes, com ênfase em atrocidades e em necessidade de impedir a expansão de grupos jihadistas. O que muda é o modo de localização política do ato: sai o roteiro de “responsabilidade global” e entra o roteiro de “resposta punitiva” que pode ser comunicada como força rápida e como sinal de que o governo atinge alvos “óbvios”, sem pedir autorização moral a coalizões e fóruns.  

“Eu já havia alertado esses terroristas de que, se não parassem com o massacre de cristãos, haveria consequências terríveis, e esta noite, elas vieram. O Departamento de Guerra executou inúmeros ataques perfeitos, como só os Estados Unidos são capazes de fazer. Sob minha liderança, nosso país não permitirá que o terrorismo islâmico radical prospere. Que Deus abençoe nossas Forças Armadas e um FELIZ NATAL a todos, incluindo os terroristas mortos, que serão muitos mais se o massacre de cristãos continuar”, afirmou o presidente Donald Trump, em 25 de dezembro de 2025, em suas redes sociais 

A operação se encaixa com facilidade no benefício interno, ao reforçar a imagem de dureza e reduzir o custo argumentativo, já que o alvo é apresentado como inimigo absoluto. A universalidade, quando aparece, entra como linguagem de indignação e de proteção, e não mais como promessa de transformação estrutural de uma região. 

Na mesma janela de dezembro de 2025, a costa venezuelana oferece o caso mais direto da transição do universalismo para o benefício interno. A motivação oficial foi enquadrada como campanha antinarcóticos e como necessidade de enfrentar redes de tráfico e rotas marítimas, associando o uso da força a segurança interna, crime transnacional e desordem que “entra” por fronteiras e cadeias logísticas. Nesse registro, o emprego de meios militares no Caribe deixa de precisar de uma filosofia de ordem mundial e se descreve como proteção direta do cotidiano doméstico, com linguagem de apreensão, interrupção de fluxos e neutralização de ativos que depreciam o status moral americano. 

O dado que torna esse episódio especialmente útil reside no tipo de cálculo apresentado: relatos de acúmulo de meios na região e de dezenas de ataques contra embarcações, apresentados como parte de uma campanha de pressão e de interdição. A gramática utilizada apresenta em si um inventário de resultados, porque é isso que permite justificar a escalada regional como melhoria do agora, e não como cruzada moral abstrata. Esse ponto é relevante porque revela uma mudança de “objeto narrativo”. No auge do seu poder unipolar, o objeto narrativo preferencial dos EUA era a sociedade alheia: democratizar, estabilizar, reconstruir, proteger civis, promover direitos.  

A moral dissolvida no benefício próprio 

Na virada para o benefício interno, o objeto narrativo preferencial será o circuito: rotas, fluxos, gargalos, preços, cadeias. A ação militar passa a ser descrita como gestão de tráfego e de recursos estratégicos, o que é interpretado pelo homem comum como arrefecimento da ansiedade doméstica sobre crime, drogas, imigração e custo de vida. O efeito é uma descompressão da moral em técnica. A justificativa deixa de tentar convencer que as condições internas da sociedade americana validam os EUA enquanto paladino do mundo e passa a precisar de uma equivalência simples entre ação externa e alívio interno, mesmo quando a equivalência é frágil do ponto de vista empírico. 

Ao recuar para junho de 2025, o ataque contra instalações nucleares iranianas marca um degrau distinto de magnitude e risco. A motivação pública costuma ser organizada em torno de impedir avanços nucleares e de reduzir a ameaça regional, com o subtexto de dissuasão e sinalização estratégica. Aqui, a gramática universalista tinha, historicamente, mais espaço: não proliferação como bem coletivo, estabilidade regional como interesse comum, defesa de aliados como extensão de “ordem”. Entretanto, o argumento do caso se alterou e solidifica a nova gramática do poder. 

A ênfase declaratória se desloca para a segurança física direta e a aniquilação da capacidade nuclear, focando em uma ameaça que a administração julga que não pode se tornar irreversível. Embora o risco de um choque energético e inflacionário atue como o pano de fundo estratégico que a Casa Branca busca evitar, o discurso público traduz o risco iraniano em uma escolha binária entre “paz ou tragédia”, servindo como justificativa de antecipação militar. A coerção aparece, portanto, como uma medida de força bruta para neutralizar um perigo existencial, dispensando explicitamente a necessidade de mobilizar uma narrativa universal de mudança de regime ou de longa ocupação, limitando-se ao objetivo tático de eliminar o risco iminente.  

As palavras de Donald Trump, em pronunciamento televisionado na Casa Branca em 21 de junho de 2025 — ao anunciar ataques a três instalações nucleares iranianas e condicionar novos bombardeios a um acordo rápido — explicitam com clareza o deslocamento: “se a paz não for alcançada rapidamente, atacaremos esses outros alvos com precisão, rapidez e habilidade”. 

Entre meados de março e o início de maio de 2025, a campanha no Iêmen, ligada aos Houthis e ao Mar Vermelho, fornece outro exemplo de como a gramática muda sem exigir ruptura. A motivação oficial enfatiza a proteção de rotas marítimas, liberdade de navegação e defesa de comércio global, além de segurança de forças e aliados. Esse é o tipo de justificativa, em que o universalismo sempre se sentiu confortável, porque “rotas” e “comércio” permitem falar em estabilidade internacional. 

A diferença, sob o benefício interno, está em como a proteção das rotas passa a ser narrada como proteção de preços e de abastecimento para o consumidor doméstico, como prevenção de inflação importada e como defesa de cadeias de suprimento que afetam emprego e custo de vida. A pausa e a elasticidade operacional também se tornam parte da mensagem. “Agir quando necessário” e “parar quando o objetivo imediato é atingido” se convertem em prova de racionalidade doméstica, reforçando a ideia de força como ferramenta calibrável de gestão, não como compromisso universalista de reconstrução política. 

Em março de 2025, a morte de Abdallah Makki Muslih al-Rifai, uma das lideranças do ISIS no Iraque, recoloca o padrão de “decapitação de comando” como ação de alto rendimento político. A justificativa oficial entra no registro de neutralizar lideranças e reduzir capacidade de ataques, frequentemente com linguagem de parceria local e de proteção preventiva. 

“Continuaremos a matar terroristas e a desmantelar suas organizações que ameaçam nossa pátria e o pessoal dos EUA, de aliados e de parceiros na região e além dela” – general Michael Erik Kurilla, comandante do Comando Central dos EUA 

Esse tipo de operação já vinha, há anos, servindo como ponte entre dois mundos. No universalismo, era apresentado como contribuição à segurança coletiva; no benefício interno, vira demonstração de competência e de eficiência punitiva, com pouco custo de mobilização social. A ação se adequa ao novo léxico porque dispensa a promessa de refazer sociedades e se limita a um objetivo compreensível, comunicável e mensurável: remover um líder, degradar uma rede, reduzir risco. A moralidade universal deixa de ser fundamento e vira adorno possível, acionado quando convém ao enquadramento. 

Em 1º de fevereiro de 2025, o ataque aéreo na Somália (Puntlândia), apresentado como contraterrorismo contra um dirigente/planejador do Estado Islâmico, funciona como início simbólico do período porque evidencia a preferência por teatro periférico, alvo impopular, custo baixo e retorno narrativo alto. A justificativa oficial tende a ser construída como eliminação de ameaça e proteção preventiva, com referência ao risco de planejamento de ataques e à necessidade de conter organizações jihadistas. 

“Esta ação prejudica ainda mais a capacidade do [ISIS] de planejar e executar ataques terroristas que ameaçam cidadãos americanos, nossos parceiros e civis inocentes” – Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA 

A atuação na Somália permite mostrar força sem prometer um mundo melhor. Ela permite “resolver” um problema como cena rápida, oferecendo ao público interno a sensação de que o Estado age sem prolongar guerra, sem recrutar sacrifício e sem vender um horizonte universal. É o tipo de operação que, no novo regime de legitimidade, rende capital político por sinalização de controle, e não por compromisso com valores abrangentes. 

Poder sem liturgia 

O que essa retrospectiva revela é um padrão de tradução. Em cada caso, a motivação oficial ainda recorre a categorias reconhecíveis do vocabulário pós-Guerra Fria — contraterrorismo, segurança regional, não proliferação, proteção de rotas —, porém a gramática de legitimação se reorganiza ao redor de perguntas domésticas: que vantagem imediata isso entrega? Quais os custos para o agora? Como isso evita custos internos futuros? A universalidade, quando aparece, entra como suplemento para reduzir fricção diplomática ou aplicar uma leve camada de verniz moralizador ao gesto. A engrenagem principal já opera, entretanto, com outra métrica: a do ganho comunicável, risco contido, efeito rápido e capacidade de fazer o eleitor sentir que o uso da força está a serviço da ordem interna, e não de uma missão que pede paciência, sacrifício e fé em benefícios abstratos — como uma liberdade que não se vê ameaçada se não no campo da hipótese. 

A consequência empírica desse rearranjo é que a “tradução doméstica” do uso da força deixou de ser ornamento e virou ritmo. No balanço do primeiro ano, o recorte varia conforme a metodologia, mas aponta para o mesmo sentido de aceleração: o ACLED registra 573 ataques aéreos e de drones entre 20/1/2025 e 5/1/2026, e 658, quando se incluem ações com parceiros e coalizão. Em paralelo, levantamento citado pelo Military Times fala em ao menos 626 ataques aéreos desde 20/1/2025, contra 555 em todo o ciclo Biden. Em taxa anual, é um salto para algo como 4,5 vezes o patamar médio do período anterior, sinal de que a mutação não é só de linguagem, é de volume, de pulso, de repetição que se naturaliza. 

Quando o olhar desce do número para o mapa, o desenho fica mais duro. A maior parte das ações se concentra onde o custo político é baixo, e o risco de escalada é administrável. No Iêmen, a guerra cabe no enquadramento porque fica longe e porque o retorno narrativo é rápido, mas o preço humano não desaparece. Segundo o Yemen Data Project, foram 238 civis mortos, incluindo 24 crianças, e 467 feridos. Nas primeiras 48 horas, 21 civis morreram, o equivalente ao total anual atribuído ao governo anterior. É assim que a promessa de “custo contido” se cumpre: não pela ausência de custo, mas pelo deslocamento do custo para fora do campo sensível do eleitor. 

E, quando o governo precisa dar nome a essa mecânica, a fala não pede imaginação, pede assentimento. Ao anunciar a ofensiva na Síria, Pete Hegseth condensa a legitimação como punição calibrada: “isto não é o início de uma guerra; é uma declaração de vingança”. E transforma a ameaça em política: “se você atacar americanos… os Estados Unidos vão caçar você, encontrar você e matar você sem piedade”. O ponto organizador deixa de ser a promessa de transformar o “lá fora” e passa a ser a prova de que a máquina funciona, que o gesto tem efeito rápido, que o risco parece domesticado. 

Restam, então, as perguntas que abrem o drama dos próximos anos: O que acontece quando a necessidade de provar força não diminui? O que, afinal, impede que a lógica do retorno imediato procure um palco maior — e cobre, aí sim, um preço que já não caiba fora de casa? Existe uma estratégia oculta em cada movimento que afete o jogo contra as demais grandes potências? Rússia, União Europeia, Reino Unido e China permitirão que o xerife atue livremente contra a Ordem que ele mesmo impôs ao tabuleiro?

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


Referência imagética: Imagem criada com auxílio de IA (Microsoft Copilot) e edição de Tatiana Teixeira (editora do OPEU).


  1. Pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). Contato: marcus.tavares1987@yahoo.com.br. ↩︎

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