Populismo e o misticismo bolsonarista

Por Rafael Marchesan Tauil. Muito já se falou sobre o obscurantismo bolsonarista. Aqui me refiro ao bolsonarismo não apenas como um movimento que agrega eleitores de Jair Bolsonaro e seus familiares, mas também eleitores e atores políticos da ultradireita, que se identificam com o modus operandi do capitão. É importante lembrar que a palavra obscurantismo carrega uma carga semântica pesada no Brasil e está, por vezes, relacionada a seitas, rituais satânicos e até a religiões de matriz africana. O misticismo, por outro lado, está relacionado a experiências transcendentais reveladoras, às práticas holísticas de curas, entre outras. 

A violência e o bolsonarismo: reflexões a partir de “Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso)”

O livro “Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso)” gira em torno de algumas perguntas: Como chegamos até aqui? Por que o Rio de Janeiro foi o berço do neofascismo? O que isso tem a ver com a perda de controle sobre as polícias e a emergência das milícias? Por que segurança pública é uma questão política central para o país? Como se relacionam a moeda, o fetichismo da mercadoria, a violência e o capitalismo? Qual o nexo entre genocídio racista e compulsão à repetição? Direito e psicanálise se escutam? Por que 2013 ainda é uma esfinge? Quais os obstáculos ao diálogo intergeracional no ambiente de intelectuais e ativistas? Como pensar o humanismo depois de sua derrocada? Ou, em outras palavras, como escapar tanto do humanismo universalista, quanto das armadilhas do relativismo, exorcizando, na medida do possível, o senso comum, inimigo do conhecimento e da reflexão crítica?

Vira-latismo na Segurança Pública: Modelos Comparados Brasil-EUA

Por João Gaspar. Muito se vem discutindo no Brasil, nos últimos anos, acerca do modelo de ciclo de policiamento incompleto adotado pelo nosso país e sobre a proposta de transformação das nossas guardas municipais em polícias municipais. Não raro, defensores da implantação, aqui, do modelo de ciclo de policiamento completo e do nível local de jurisdição policial procedem a uma idealização das formas estadunidenses para justificar sua importação. 

Grande Estratégia e Potências Médias no Pós Guerra Fria: Um estudo exploratório sobre o Brasil

Famoso nas linhas traçadas por “X”, pseudônimo de George F. Kennan, em artigo publicado na revista Foreign Affairs, de 1947, que apresentou a “contenção”, a mais bem sucedida grande estratégia adotada, no caso, pelos EUA contra a URSS, o conceito de Grande Estratégia (GE) é uma categoria tradicionalmente aplicada às Grandes Potências (Kennedy, 1991; Posen, Ross, 1997; Taliaferro et all, 2013; Brands, 2014; Martel, 2015; Milevski, 2016; Silove, 2017; Gaddis, 2018; Lissner, 2018). A razão para não se considerar que potências menores desenvolvem grande estratégia inclui a falta de condições de implementar seus objetivos de longo prazo, a dependência destes países na segurança fornecida pelas grandes potências e a natureza das alianças estabelecidas entre ambas.

O Presente como problema na democracia brasileira: pesquisa e intervenção em Ciência Política e Direito Constitucional

Por Andrei Koerner, Mariele Troiano e Lígia Freitas Barros. O artigo faz uma análise da produção acadêmica sobre a democracia brasileira, focando em duas áreas de conhecimento: ciência política e direito constitucional. Ele contribui para o conhecimento dessa produção acerca da democracia constitucional brasileira atual ao evidenciar como as análises políticas e constitucionais se relacionam com o tempo, apontando formas recentes de redefinir essa relação. De modo geral, o trabalho aproxima-se de estudos da história do presente e propõe novas perspectivas de pesquisa, reflexão e ação política em prol de uma democracia constitucional mais substantiva.

Nós, os(as) desenvolvimentistas: homenagem à professora Maria da Conceição Tavares

Por Johnny Daniel M. Nogueira. O pensamento crítico e desenvolvimentista brasileiro e mundial perdeu, no dia 08 do mês de junho, uma de suas mentes mais brilhantes e criativas. Maria da Conceição Tavares é um nome que ressoa com força e respeito na academia e nos debates econômicos. Nós, sociólogos, cientistas políticos e, sobretudo, economistas, possuímos uma dívida imensurável com a sua contribuição ao pensamento e à produção acadêmica. Sua trajetória intelectual e profissional é testemunho de um compromisso inabalável com o desenvolvimento econômico do país e com a formação de gerações de economistas que carregam, ainda hoje, o ideal desenvolvimentista.  Sua formação sólida em matemática e sua capacidade analítica a levaram a desenvolver um pensamento econômico robusto, que combinava rigor teórico com um profundo entendimento das realidades sociais e econômicas brasileiras.

O Brasil na presidência do G20 Financeiro: agendas, dinâmicas e desafios

Por Jefferson Estevo e Alina Ribeiro. O Brasil assumiu a presidência do G20 Financeiro em primeiro de dezembro de 2023 com o lema “Construindo um mundo justo e um planeta sustentável”. Criado em 1999, o grupo é formado pelas dezenove maiores economias do mundo mais a União Europeia. Na Cúpula do Grupo, realizada em outubro de 2022 em Nova Déli (Índia), os 55 países da União Africana passaram a integrá-lo. O Brasil definiu como pilares da sua presidência três eixos: a luta contra a pobreza e a fome, o enfrentamento das mudanças climáticas e a reforma da governança global. Estão previstas cem reuniões oficiais, sendo vinte delas ministeriais e outras cinquenta de alto nível, além de eventos paralelos. Todo esse trabalho culminará na 19ª Cúpula de Chefes de Estado e governo do G20 (Brasil, 2023a), em novembro de 2024 no Rio de Janeiro.

Dois Brasis se enfrentam em 2022?

Por Bernardo Ricupero. Ninguém esperava os resultados do 1º turno das eleições de 2022. Provavelmente elas só foram menos surpreendentes do que os resultados do 1º turno de 2018, quando Jair Bolsonaro teve 46% dos votos e quase não precisou enfrentar o 2º turno. Na esteira do capitão reformado foram então eleitas figuras desconhecidas, como Romeu Zema em Minas Gerais e Wilson Witzel no Rio de Janeiro.

Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina

Por Carolina A. Gomes de Brito e Thiago da C. Lopes. Em artigo publicado no número 115 da revista Lua Nova, intitulado “Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina”, os autores analisam o pensamento de Carlos Alberto de Medina e sua inserção no campo das ciências sociais no Brasil. Assim, indicam como a obra e a trajetória do sociólogo, ainda pouco conhecidas e estudadas, constituem uma rica fonte para a compreensão dos debates, característicos dos anos 1950 e 1960, sobre as relações entre doença, pobreza, subdesenvolvimento e autoritarismo.

O que a literatura da crise da democracia perdeu: uma reconstrução dos usos do direito em regimes não democráticos do século 20

Por Marina S. Fraife Barreto. Acadêmicas(os) que estudam as “crises da democracia” hoje narram o uso de ferramentas legais por regimes autoritários como suposto traço inédito dos autoritarismos do século 21. Pressupor o atropelo completo do direito pelos autoritarismos do século 20, porém, é enganoso. No recém-publicado artigo Funções do direito em regimes não democráticos do século XX no Dossiê Teoria Política e Democracia da Revista Leviathan (USP), tento demonstrar o erro nesse pressuposto.