Luiz Eduardo Soares
20 de janeiro de 2026
***
O Boletim Lua Nova publica um ensaio sobre o novo livro de Luiz Eduardo Soares, Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso). Agradecemos ao autor pelo texto e pela reflexão indispensável que oferece para compreender o cenário político nacional.
***
O livro “Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso)”1 gira em torno de algumas perguntas: Como chegamos até aqui? Por que o Rio de Janeiro foi o berço do neofascismo? O que isso tem a ver com a perda de controle sobre as polícias e a emergência das milícias? Por que segurança pública é uma questão política central para o país? Como se relacionam a moeda, o fetichismo da mercadoria, a violência e o capitalismo? Qual o nexo entre genocídio racista e compulsão à repetição? Direito e psicanálise se escutam? Por que 2013 ainda é uma esfinge? Quais os obstáculos ao diálogo intergeracional no ambiente de intelectuais e ativistas? Como pensar o humanismo depois de sua derrocada? Ou, em outras palavras, como escapar tanto do humanismo universalista, quanto das armadilhas do relativismo, exorcizando, na medida do possível, o senso comum, inimigo do conhecimento e da reflexão crítica?
O presente artigo, posto tratar-se não de uma apresentação sintética do livro, mas de um diálogo com temas que o cruzam, vai se restringir à primeira indagação, a mais abrangente e ambiciosa, até porque oferece o contexto para as outras: como foi possível a emergência, o fortalecimento e a vitória eleitoral do bolsonarismo, três décadas depois da promulgação da Constituição cidadã, que inaugurava um período otimista para quem apostava na estabilização da democracia no Brasil e em seu aprofundamento?
Em retrospecto, percebe-se que dois tempos econômicos e culturais se confrontavam, na passagem dos anos 1980 para os anos 1990: um deles, marcado pela dinâmica da integração e regido pela confiança em políticas públicas de inspiração social-democrata, declinava, no mundo e no imaginário das elites (permanecendo como horizonte supostamente realista para as lutas sociais, que não enxergavam viabilidade no salto sem mediações ao socialismo); outro tempo, em franca ascensão, oriundo dos programas neoliberais de Tatcher e Reagan, anunciava e provocava o tsunami feroz da globalização sob hegemonia do capital financeiro, no contexto de derrocada da União Soviética.
A Constituição de 1988 teve origem na vitória da resistência à ditadura e expressava um compromisso entre as classes, por meio de seus representantes, supervisionado como sempre pelo olhar severo do imperialismo (nesse momento relativamente discreto). O pacto celebrava a resignação de quem, embora sonhando com transição ao socialismo, reconhecia a adversidade da correlação de forças e a necessidade de acatar prerrogativas da propriedade privada, contentando-se com a profusão de direitos e garantias: assistência, salário mínimo, aposentadoria, saúde e educação públicas universais, participação, etc. As elites, em contrapartida, aceitavam limitar sua voracidade predatória, e admitiam (relutantemente) a inconveniência de desigualdades estruturais tão dramáticas (legado da ditadura), embora exigissem manter privilégios estratégicos (o sistema político individualizante, a blindagem das Forças Armadas e das polícias, entre outros) para preservar o comando, mesmo sem projeto para o país -sobretudo porque os setores industriais da burguesia já reduziam seu peso.
Mais uma transição pelo alto, típica de nosso capitalismo autoritário, mais um acordo para mudar conservando. De todo modo, a promulgação da Carta Magna foi um acontecimento notável e impôs inflexão positiva (restrita, mas significativa) em nossa história recente.
Entretanto, vale insistir, é interessante perceber que não se tratava apenas de uma conciliação de classes, uma provisória e parcial neutralização (ou domesticação) da luta de classes, mas de um arranjo híbrido entre tempos mundiais em colisão -tempos materiais e espirituais, acentue-se. Portanto, nosso pacto constitucional erigiu-se como obra coletiva frágil e instável, fadada à erosão progressiva, condenada a sofrer o desgaste provocado por forças poderosas transnacionais, ideológicas, econômicas e (geo)políticas.
Em suma, a Constituição se inscreveu no entrecruzamento mundial entre o passado social-democrata e a explosão neoliberal, entrecruzamento que se sobrepôs (sem encaixe perfeito, dadas as especificidades das diferentes situações) ao choque interno, brasileiríssimo, entre, por um lado, a tradição patriarcal, hierárquica e militarizada do mandonismo provinciano, do arcaico patrimonialismo, empapado no racismo estrutural, e, por outro, as potencialidades disruptivas do capitalismo modernizante que se beneficiava da espoliação do trabalho barateado na grande migração rural-urbana, instada pela superexploração do trabalhador rural, que, rechaçada a reforma agrária, o expelia.
É verdade que o choque interno foi resolvido na subsunção ao capital, como demonstrou Chico de Oliveira, mas não nos esqueçamos que esses processos sócio-econômicos combinados e desiguais sempre deixam sobras nos afetos, nos valores, nos símbolos e nas relações sociais. Sendo assim, continua sendo legítimo falar em choque.
Contemplando retrospectivamente as últimas décadas, conclui-se que era previsível a desestabilização do pacto social-democrata, sintetizado na Constituição. Seria mesmo insustentável a coexistência de duas realidades antagônicas: o predomínio neoliberal na economia -com todas as suas implicações- e a preservação de uma estrutura normativa fundada em direitos universais e traduzida em saúde, educação, aposentadoria e assistência públicas. Os governos do PT forneceram as arenas políticas do enredo agonístico.
As polícias foram, desde o primeiro dia do período pós-88, o sintoma talvez mais ostensivo e trágico dessa incongruência: um Estado de direito de alma social-democrata matando jovens negros nas periferias, sem qualquer apreço pelo chamado “Rule of Law”. Os governos estaduais e federais do período democrático, mesmo aqueles identificados com o campo das esquerdas, se mostraram incapazes de mudar o modo tradicional de lidar com a violência e com as polícias, que se autonomizaram e se converteram -as fluminenses à frente, estabelecendo o paradigma- em enclaves institucionais, refratários à autoridade política, civil, e aos mandamentos constitucionais. O Ministério Público, responsável pelo controle externo das atividades policiais, não cumpriu seu dever constitucional. Confusas, perdidas, as esquerdas têm mimetizado orientações da direita, com raras e tópicas exceções. Ante o fracasso das vias adotadas, as temos reproduzido, com crescente e paradoxal convicção -compreende-se, punitivismo e vocabulário belicista, na ausência de disputa entre projetos, dão votos.
Prisioneiros de um labirinto, parece que estamos destinados a repetir. Recusando-nos a lidar com nossa verdade, isto é, com a violência fundadora de nossa história, constitutiva do capitalismo autoritário, a recalcamos e repetimos sua trama. O recalque se dá sob a forma de uma espécie de exorcismo (cumprido, no limite, pela aniquilação física) e a repetição se realiza como se fora uma dinâmica compulsiva. Tudo se passa sob o radar da consciência. Apesar dos resultados desastrosos, encarceramento em massa, proibição das drogas e execuções extra-judiciais continuam a ser praticados. A impressão inicial seria a de aversão a princípios elementares de racionalidade e à mera consideração de evidências empíricas. Entretanto, a evidência do fracasso é amplamente reconhecida por gestores e pela opinião pública, os quais se empenham, quase em uníssono, em aplicar e apoiar os mesmos métodos e as mesmas pseudo-soluções, como se a simples repetição pudesse transformar fracasso em sucesso. Há algo nesse fenômeno que resiste ao arsenal crítico usualmente mobilizado (cf. Soares, 2025).
Uma interrogação lateral é pertinente: o referido recalque, quando invade a esfera das ciências sociais, não sob a forma de apoio a políticas de segurança deletérias, mas como negação da centralidade do tema, guardaria alguma relação com o abandono dos estudos sobre a natureza orgânica dos vínculos entre a via de desenvolvimento do capitalismo e o autoritarismo, aquém ou além da institucionalidade política? Suponho plausível a hipótese de que o reconhecimento do caráter intrínseco da violência estatal talvez contribuísse para realçar a relevância sociológica e política da brutalidade das polícias, das iniquidades da Justiça criminal e da perversidade do sistema penitenciário. A subestimação dessa perspectiva analítica ocorreu, curiosamente, na sequência de um período especialmente criativo, que demonstrava sua fecundidade. Cientistas sociais e historiadores, a despeito de suas diferenças, aproximavam-se de algum consenso, embora os conceitos variassem: via prussiana, revolução passiva, modernização conservadora, capitalismo autoritário. Coincidindo com a transição democrática, a reconfiguração do mercado de trabalho, o predomínio de novas linhas de financiamento e o processo de institucionalização das ciências sociais precipitaram a substituição dos interesses anteriores por novas agendas. Valeria a pena pensar se essa guinada correspondeu ou não ao prestígio ascendente do neoliberalismo e à influência dos think tanks que o difundiam (cf. Soares, 2019).
Além das polícias, as Forças Armadas e seus esgares autonomistas se revelariam outro sintoma dramático quando as contradições se tornaram mais agudas, sob Bolsonaro, talvez porque ele fosse o terceiro elemento, o termo (a incógnita) que faltava à equação.
Explico: o tempo social-democrata e seu rosário de direitos se bateu, como vimos, contra o tempo neoliberal e sua devoção ao mercado -isto é, sua disposição potencial de aniquilar proteções, limites, regulações e direitos para (supostamente) devolver a energia do trabalho ao livre exercício dos interesses, instaurando assim a nova versão do estado de natureza, a distopia hobbesiana atualizada. Enquanto o embate se dava entre dois contendores, a institucionalidade democrática -oscilando entre cooptação e capturas político-corporativas- e o desejo liquidacionista neoliberal, o cabo de guerra mantinha os dois polos amarrados entre si. A ordem do Estado de direito não se rompia.
De um lado, o neoliberalismo avançava por meio de um recurso extravagante, que compensava sua impopularidade: seus portavozes, representantes de classe, subtraíam a economia do espaço de deliberação pública, sequestravam as decisões sobre política econômica da ágora democrática -tornando-as objeto de “ciência” e avaliação “exclusivamente técnica”. Quem tivesse a audácia suprema de abrir o debate, sofria ataque furioso das elites, que abriam fogo contra o que denominavam “populismo”. O avanço do neoliberalismo implicava, reitere-se, revogação de direitos, dilapidação progressiva do pacto constitucional.
De outro lado, desde que o neoliberalismo não fosse confrontado, desde que as lideranças no poder concordassem com as regras informais impostas por chantagens sucessivas, a institucionalidade democrática, apesar de crescentemente esvaziada de seu conteúdo social, não seria hostilizada. As chantagens são viabilizadas por conta do alcance do poder econômico que, conjugado ao caráter individualista (e fratricida) do modelo eleitoral, reduz sobretudo as eleições proporcionais a um mercado.
***
O terceiro termo, que Bolsonaro encarnou, viria a alterar o equilíbrio instável desse cabo de guerra, introduzindo a mobilização popular ideológica neofascista e um projeto próprio de poder. A emergência do terceiro elemento correspondeu à irrupção do novo tempo transnacional, em que se alinham o crescimento meteórico da extrema direita e a supremacia do capitalismo de plataforma, liderado pelas BigTechs, graças a cujos algoritmos a comunicação passa a ser regida pela possibilidade de customizar mensagens, gerando nichos que, somados, produzem maiorias, deslocando a importância moderadora do centro e dos consensos. Por isso, candidaturas extremistas podem conquistar a maioria de votos e lideranças sectárias podem ampliar apoios sem necessidade de fazer concessões.
O terceiro tempo global não tem anulado o neoliberalismo, mas parece tê-lo confinado à periferia -manobra que atingiu inicialmente, e de forma obscena, a negociação da dívida grega. O torniquete fiscal e a demonização dos “gastos públicos” atrofiam veleidades neo-desenvolvimentistas e distributivistas, eventualmente aliadas a projetos “populistas” de soberania. O neoliberalismo parece cumprir papel cada vez mais político do que econômico. Na sede do Império, o Federal Reserve injetou bilhões de dólares no sistema bancário, em 2008, para evitar sua implosão, sem provocar inflação ou ranger de dentes ortodoxos, assim como Trump se permitiu explodir a OMC (e não apenas) com seu arrogante balé tarifário sem provocar a insurreição do “mercado” e de seus acólitos.
***
Fazendo par com a afirmação do bolsonarismo, a direita tradicional, antes encurralada pelo caráter demofóbico do neoliberalismo -impopular, portanto-, logrou produzir uma novidade, na verdade inspirada em peças antigas do museu de fantasmagorias conservadoras (back to the fifties, a campanha sobre “o mar de lama”, que Getulio secou com o tiro no peito). O “novo” foi a moralização do discurso anti-Estado, ou melhor, a infusão de valores morais no discurso sobre o modelo de organização social representado pelo mercado. Essa moralização forneceu, por sua vez, uma ponte para a adesão do cristianismo evangélico neopentecostal, segmento cultural popular de enorme relevância. Assim, surpreendentemente, a burguesia da Faria Lima e do Leblon se aliavam às favelas. Decisivo foi o modo como a comunicação de massa em torno da Lava-Jato, servida diariamente como espetáculo caricato e maniqueísta, redefiniu o Estado e seus funcionários, desde a burocracia aos políticos, assim como a rede normativa formada por direitos e deveres. Este “sistema” tornou-se inimigo do povo, como se fora uma cadeia de entraves à prosperidade coletiva, bloqueando o empreendedorismo, a produtividade, a criatividade, a liberdade dos indivíduos e de seu trabalho, drenando a energia da sociedade em benefício de interesses particulares, perdulários, parasitários e corruptos. Libertada a sociedade do jugo da roubalheira estatal -cujas linguagens desacreditadas seriam a política, os direitos, os impostos e as regulamentações-, os esforços individuais encontrariam recompensas segundo seus méritos2.
O mercado seria então o retrato de uma sociedade regida pela meritocracia. Desigualdades, iniquidades, injustiças, tudo isso acabaria corrigido e reparado pelo reino da liberdade individual, o mercado. Estranho apelo anarquista (anarco-capitalista) vocalizado por um candidato a tirano, que jamais omitiu suas convicções autoritárias e seu apreço pela ditadura. Curioso pleito anarco-despótico por um Estado simultaneamente forte e anti-estatal. Não por acaso Bolsonaro dizia que sua missão era destruir. Destruir o que a Constituição construira, bem entendido. Se os tripulantes das instituições do Estado são corruptos e vampirizam a energia popular, a versão mais radical do mercado (libertária), abatendo regulações e direitos, representaria a expressão laica da teologia da prosperidade -eis aí o Deus do Primeiro Testamento, fiador do neoliberalismo. Com as bênçãos dos militares, o Brasil embicou para o abismo, do qual nos salvamos por um triz, em 2022, provisória e parcialmente.
Essa paradoxal e momentânea afinidade eletiva entre neoliberalismo e o sentimento popular foi coesionada politicamente pelo posicionamento de Bolsonaro, em cujo discurso se justapuseram a exaltação do mercado, altar da meritocracia, e o repúdio radical à alteridade. O rechaço pleno de ódio ao Outro, fazia-o englobar o sistema, a política -especialmente o PT- e tudo e todos que simbolizassem os mais diversos tipos de corrupção, fosse no serviço público, fosse na vida privada. Nesse caso, tratar-se-ia de corrupção da natureza humana, cuja única forma de expressão legítima e conforme à moralidade seria a família heteroafetiva, pilar da ordem patriarcal. A comunicação bolsonarista, aí incluídas as performances coreográficas do candidato, simulando o uso de armas, passou a ser formulada com a linguagem “máscula” da guerra, incorporando imagens e ideias de eliminação dos oponentes e destruição do mundo que representavam. O Outro deixava de ser adversário, compartilhando limites e regras do jogo, convertendo-se no alvo de uma guerra a travar. Bandidos, comunistas, indígenas, políticos corruptos, o universo LGBTQIA+, feministas, militantes antirracistas, ambientalistas, etc… Eis o elenco dos que não teriam lugar no país sob o signo da limpeza neo-higienista.
***
Ocorre que, na história, há tendências e contra-tendências, reorganizações do poder e diferentes modalidades de resistência. Por isso, mesmo que o neoliberalismo e a precarização do trabalho tenham intensificado o individualismo, e esvaziado muitas lutas sociais, a luta de classes não cessou, movimentos sociais persistem e novos tipos de individualidade surgiram, transcendendo os limites do figurino moldado pela economia, na medida em que precisavam, para se viabilizar, de ações coletivas e acolhimento mútuo. Essas individualidades originais que transbordavam o capitalismo neoliberal (e foram se constituindo em meio a saltos e recuos, encontros e desencontros, graças às mobilizações feministas e LGBTQIA+) exerciam uma estética de si que pressupunha inusitado campo de liberdade e apontava para alianças não apenas táticas com movimentos antirracistas e aqueles assentados na luta de classes: à sua coragem libertária devemos a conquista extraordinária que correspondeu à dissociação entre corpo, gênero e sexualidade. Assim, a anatomia deixou de ser um destino; o gênero se rendeu à vontade política e às sinuosidades do desejo, explodindo a camisa de força das classificações e suas canalizações institucionais, familiares e sociais; e o sexo abriu-se à arte indeterminada das experimentações (cf. Soares, 2019 e 2025).
Por óbvio, não estamos diante do velho personagem: o indivíduo-consumidor de mercadorias, que aluga a força de trabalho, ou do agente utilitarista que calcula. Estamos frente a frente com a persona gestada em um complexo processo político consciente e inconsciente, em (re)construção permanente, que usa o discurso da identidade como instrumento provisório, na primeira etapa de uma dinâmica que tende à radical explosão dos narcisismos neoconservadores -embora essa dinâmica, inicialmente, apele à origem e ao Mesmo para se firmar, ante a agressividade dos ataques (cf. Soares, 2025 B).
As novas personae tendem a evocar crescentemente a linguagem da solidariedade, da liberdade, da participação aberta, generosa e inclusiva, assim como tendem a adotar protagonismos cívico-políticos inusitados. Não se trata de novas fixações ou de novas identidades substancializadas, o que conduziria a avalanche emancipadora a novas sedimentações empobrecedoras e a novos corporativismos. Trata-se, ao contrário, da instauração de um novo campo de experimentações e sentidos, inaugurando novos jogos imprevisíveis entre sujeitos lacunares, linguagens porosas, alteridades e alterações em vertigem. Há riscos, no caminho, por óbvio, muitos riscos. Mas qual tem sido o preço da velha pseudo-segurança ontológica, ancoragem do patriarcalismo? As novas individualidades não são fantoches produzidos pelo neoliberalismo, nem seu apelo político radical à individualidade corresponde, insisto, ao que se convencionou denominar individualismo. Como procuro demonstrar em O Brasil e seu duplo (SP: Todavia, 2019), a gestação das novas individualidades significa, do ponto de vista do capital, uma anomalia, justamente porque realiza uma de suas tantas contradições estruturais.
***
Assinale-se que, no cenário descrito, as elites atuam no espaço da desindustrialização, da ascensão do agro, sob a supremacia do capital financeiro, e que as esquerdas mais influentes permanecem imersas no taticismo eleitoral, da mão para a boca, sem apresentar projeto estratégico alternativo crível: a correlação de forças supostamente justificaria, para garantir a governabilidade, o endosso à política econômica neoliberal da direita, a qual, entretanto, jamais se satisfaz e, ainda mais grave, mantém-se disposta ao pacto fáustico, isto é, a vender a alma da democracia brasileira, desde que o cão respeite o “equilíbrio das contas públicas”: tudo pelo “fiscal”.
Em síntese, o ímpeto social-democrata não se completou, o neoliberalismo não completou seu trabalho sujo, apesar do golpe parlamentar de 2016 -oportunidade em que Bolsonaro, então deputado federal, pronunciou o mais abjeto discurso de nossa história republicana-, e o tempo apocalíptico do neofascismo aportou nos trópicos, prenunciando um salto sobre essas etapas contraditórias, trazendo consigo inescapável sabor regressivo, como se a sociedade se visse instada a recuar aquém da transição democrática, embora com as questões do século XXI, e sem ter resolvido os contenciosos históricos.
Qual o lugar da violência urbana e rural, da insegurança pública, das polícias, nesse quadro cambiante, tensionado pela conjunção de três tempos materiais e espirituais em conflito, no contexto de reconfigurações geopolíticas, em meio à gravidade da questão climática?
A meu juízo, a problemática policial ou da segurança é chave para o destino do Estado democrático de direito no Brasil, cuja estabilidade por sua vez é condição sine qua non para mudanças sociais, na direção, digamos genericamente, da redução das desigualdades e do aprofundamento da participação cidadã.
Lembremo-nos: o terceiro tempo inclui a mobilização popular fortemente ideologizada, numa perspectiva belicista (operando no registro amigo-inimigo), impelindo o regime afetivo brasileiro, que transitara da compaixão à indiferença, para a centralidade do ódio, e aponta para o fortalecimento de um Estado esvaziado de conteúdo social. O que pode ser a força sem direitos, ancorada em mentes e paixões envenenadas pelo ódio, orientadas pelo signo de unidade patriótica, associada à exclusão e mesmo à destruição do Outro, fonte de perigo? Força sem direitos será a força sem o Direito, entendido em sentido democrático, cuja legitimidade se funda na soberania popular. A alternativa tirânica da extrema direita é a força que se auto-institui, que se assenta na própria força, tautologicamente, que prescinde de legitimidade, porque instaura sua própria fonte de autoridade, a qual se resume ao exercício autossuficiente do poder. Fundem-se, portanto, poder e autoridade, esvaem-se os pruridos de consciência e as inquietações relativas à legitimidade.
Nas instituições da segurança pública, quando se relacionam com a população negra e com as classes subalternas -e o diagnóstico estende-se à Justiça criminal, ao sistema penitenciário-, já é assim que a banda toca, o que engendra uma linha de continuidade quanto a procedimentos coercitivos, a qual se estende às organizações criminosas. Distinções há, apenas de grau, mesmo assim a depender de determinações de tempo e espaço. A força prescinde de justificativa e de regulação externa, ou de controles exógenos.
Vê-se que os três tempos globais, aplicados à moda brasileira, no que tange a aspectos práticos cotidianos e fundamentais do relacionamento do Estado com a sociedade -variando conforme cor e classe-, sempre foram um só e ao mesmo tempo. A vantagem do terceiro tempo, o neofascismo, a extrema direita, é que não hesita em nomear o que faz, propõe, crê e sustenta. Se é de força que se trata, e sempre foi, agora o será sem tergiversação e a serviço de uma visão de mundo teológico-triunfante, com as características expostas acima. O chefe político finalmente fala a verdade. O discurso político está desmascarado. A hipocrisia que sempre reinou, convivendo com a realidade que a negava, agora pode chegar ao fim. Onde só os fortes e espertos têm vez, ergue-se uma voz sem pudor, uma liderança política enlouquecida -soando veraz e espontânea- que aponta sua arma para a cabeça de uma institucionalidade decrépita e fantasiosa, e o faz sem pejo, conquistando a adesão dos que nasceram e cresceram no território em que a força da arma impera, com ou sem uniforme. Se é assim que a banda toca, vamos dançar conforme a música.
O comportamento brutal e racista das polícias brasileiras é a mediação simbólica entre o Brasil arcaico dos jagunços e o país moderno e democrático que a construção de Brasília anunciou -mediação que sustenta continuidade, cosmeticamente atualizada e fornalmente adaptada ao novo sistema de signos. As elites e as camadas médias pensaram que o voto direto cumpriria o papel mediador por excelência -reconectando Estado e sociedade-, assinalando mudança sem ruptura, e que a Constituição seria o apanágio do progresso. Pelas razões enunciadas ao longo deste artigo, além de tantas outras não referidas, a Constituição, que hoje está no alvo de ataque cerrado, jamais chegou a alterar o comportamento de quem, pelo uniforme que veste, é a face mais tangível do Estado para a massa popular. Nem social-democratas, nem liberais, nem ultra-liberais ou conservadores investiram nessa alteração. No tempo dos neofascistas, já não se cogita alteração. A horda neointegralista exalta a violência do Estado, convoca a adesão de outros agentes da violência e a propõe, flexibilizando o acesso às armas, como a moeda corrente de uma nova ordem social.
Por isso foi tão fácil e, por assim dizer, natural a adesão da maioria dos policiais militares e civis ao bolsonarismo -não só ao voto em Bolsonaro. Afinal, a cultura policial era bolsonarista avant la lèttre, ambos oriundos dos porões da ditadura, onde, por sua vez, apenas se radicalizaram, com desmesura gráfica, crenças e práticas derivadas do passado escravocrata. A tortura, tantas vezes elogiada por Bolsonaro, deixou de ser a dimensão oculta da violência estatal e veio à tona, graças à sua integração à ideologia que precisa da desumanização do inimigo. O neofascismo promoveu a evisceração da cultura autoritária brasileira -antes, a revelação do abjeto oculto apenas se dava a ver na arte crítica.
É disso que se trata, quando falamos em milicianização do poder e da política. Nessa disciplina, o Rio de Janeiro pontifica.
***
A vitória de Lula, em 2022, a prisão de Bolsonaro e dos principais promotores da tentativa de golpe, em 2025, assim como o retorno de Trump ao poder, nos EUA, e o apoio da ultradireita brasileira às sanções do presidente estadunidense contra o Brasil transformaram a conjuntura, mas não modificaram seus aspectos fundamentais, observados acima. As chances eleitorais da reeleição de Lula continuam dependendo de sua capacidade de formar uma coalizão ampla, o que exigirá habilidade para manter-se equilibrado entre compromissos renovados com a matriz neoliberal e a demonstração de que estará disposto a avançar no atendimento a demandas sociais. Alcançar esse equilíbrio talvez seja tão difícil quanto, para seus oponentes, montar uma chapa unitária, agregando bolsonaristas radicais, aqueles que pretendem se apresentar como mais moderados e a direita tradicional. Talvez tenham de adotar a tática empregada pela direita chilena: dividir-se no primeiro turno e aglutinar-se no segundo. Riscos há em qualquer caso, inclusive de que a fragmentação viabilize a vitória de Lula no primeiro turno. De todo modo, especulações à parte, o que parece afirmar-se como uma tendência de médio prazo é a divisão da sociedade brasileira entre os três tempos mundiais (ainda presentes sob os signos da melancolia, do ressentimento e da paranóia): a esquerda desprovida de imaginação estratégica para superar o passadismo social-democrata e propor o pós-capitalismo crível; a direita neoliberal, indiferente à insustentabilidade do modelo neoliberal; e o neofascismo mobilizador, que, no limite, poderia vir a abandonar a via neoliberal, redefinindo-se por um estatismo autoritário neodesenvolvimentista -em nome do poder, novos arranjos seriam concebíveis. Registre-se que Bolsonaro está preso, o bolsonarismo permanece ativo.
O que parece provável é que, a despeito dos mais variados esforços de resistência democrática, a sociedade continuará a ser atormentada pela fragilidade da soberania, pela instabilidade da democracia, pelas desigualdades (mitigadas ou aprofundadas), pela negligência ambiental (relativa ou absoluta) e pela milicianização da segurança pública (tácita ou explícita). Mesmo que a variação seja apenas de intensidade, os graus são consideráveis quanto aos efeitos. Portanto, é claro que o resultado eleitoral estará longe de ser indiferente.
A eventual derrota de Lula nos levaria de volta à beira do abismo -melhor trocar o esforço prospectivo pessimista pelo trabalho destinado a prevenir o desastre. Mais uma vez, o futuro civilizado do país depende da liderança de um homem que há tempos deixou para trás a juventude. Reeleito, Lula, querendo ou não, terá de enfrentar o desafio de sua sucessão. E o Brasil terá de defrontar-se com seus dilemas históricos, que não caberão mais no jogo de malabares em que rodopiam os três tempos do mundo.
Referências bibliográficas
SOARES, Luiz Eduardo. O Brasil e seu duplo. SP: Todavia, 2019.
____________________. Dentro da Noite Feroz, o fascismo no Brasil. SP: Boitempo, 2020.
____________________. Escolha sua distopia (ou pense pelo avesso). RJ: Edições 70, 2025.
____________________. “Prefigurações imaginárias do horror e a harmonização da máscara fascista”, paper apresentado no Ciclo Mutações – constelações imaginárias -, coordenado por Adauto Novaes, apresentado na Casa de Rui Barbosa, em 17 de setembro de 2025, e no SESC-SP, em 18 de setembro de 2025.
- Agradeço a Leandro Saraiva os comentários à primeira versão do presente artigo, o que não o torna responsável por meus eventuais equÍvocos. ↩︎
- A análise foi desenvolvida em mais extensão e profundidade em meus livros Dentro da Noite Feroz, o fascismo no Brasil (SP: Boitempo, 2020) e Escolha sua distopia -ou pense pelo avesso (RJ: edições 70, 2025). ↩︎



