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Início > Sem categoria

EUA e Israel Aproveitam Protestos no Irã para Avançar Instabilidade Regional

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Isabela Agostinelli1

23 de janeiro de 2026

Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Isabela Agostinelli acerca dos protestos no Irã e as instabilidades regionais promovidas por Estados Unidos e Israel. O texto foi originalmente publicado em 15 de janeiro de 2026, no site do OPEU.

***

O segundo ano do governo Trump começou atribulado. Em 3 de janeiro, Trump sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, após ataques e bombardeios na capital, Caracas. A ação foi acompanhada de discursos ameaçadores a Cuba e Colômbia – países que, de acordo com Trump, poderiam ter o mesmo destino da Venezuela –, além das constantes ameaças de anexação da Groenlândia. Nesta mesma primeira semana do ano, do outro lado do mundo, milhares de iranianos tomaram as ruas de diversas regiões do país para protestar contra a enorme e incontrolável inflação que desvalorizou brutalmente a moeda, prejudicando, sobretudo, a classe média e comerciantes locais. 

O que começou no final de dezembro de 2025 como demandas legítimas por ajustes econômicos, com protestos espontâneos e pacíficos, rapidamente se transformou em manifestações violentas, com ataques de pequenos grupos organizados, repressões violentas do governo e uma abundância de análises imprecisas na mídia tradicional e em redes sociais sobre a conjuntura e o possível futuro do regime iraniano. 

Neste Informe OPEU, busco destrinchar as principais causas e desdobramentos dos recentes protestos no Irã, contextualizando os eventos no marco da política externa dos Estados Unidos, e particularmente de Trump, para o Oriente Médio. Aqui, tento identificar os interesses de Estados Unidos e Israel na agitação política, bem como discutir os vislumbres da mudança de regime e alertar para as falácias humanitárias/ altruístas a respeito da defesa da “liberdade” na República Islâmica. 

A falta de informações precisas e a disputa de narrativas 

Acompanhar os desdobramentos dos protestos no Irã desde o final de dezembro de 2025 não tem sido uma tarefa fácil. Por conta de fake news, da falta de fact-checking e de blecautes de Internet, não é possível definir precisamente o número de mortos, feridos e presos nos protestos. Em 13 de janeiro, conforme dados da BBC News, foram computados mais de 2.000 mortos, 135 deles vinculados ao governo, além de mais de 16 mil presos. O próprio governo iraniano afirmou, no mesmo dia, que duas mil pessoas foram mortas. No dia 14 de janeiro, a organização de direitos humanos Human Rights Activists News Agency (HRANA), baseada nos EUA, informou a morte de 2.571 pessoas. 

Nos veículos das mídias mainstream e alternativa, assim como nas redes sociais, logo emergiram dois grandes grupos de narrativas: de um lado, aqueles que defendem fortemente os protestos, argumentando serem contra a ditadura e celebrando uma possível queda do regime iraniano com apoio dos EUA e Israel; de outro, aqueles que afirmam que foram e são totalmente orquestrados e inflados por americanos e israelenses.  

O primeiro grupo – dentro do qual aparecem pedidos de restauração da monarquia na figura de Reza Pahlavi, filho do Xá Reza Pahlavi, que instaurou uma ditadura no Irã apoiada pela Grã-Bretanha e pelos EUA entre 1953 e 1979, quando foi destronado pela Revolução Iraniana – serve de apoio, intencionalmente ou não, a uma intervenção dos EUA. Intervenções que já aconteceram em contextos semelhantes, ainda que estruturalmente distintos, como foi o caso da multidão nas ruas durante a chamada Primavera Árabe (2010-2011). Na ocasião, países como Líbia e Síria sofreram intervenções externas, da OTAN e da Rússia, respectivamente, e hoje estão política e socialmente desestabilizados, sem a democracia e a liberdade prometidas pelo Ocidente.  

Em relação aos protestos no Irã, EUA e Israel não demoraram a capitalizar em torno das demandas dos manifestantes por reformas políticas e econômicas. Trump, inclusive, publicou em sua rede Truth Social, em 13 de janeiro, as seguintes palavras: “Iran is looking at FREEDOM, perhaps like never before. The USA stands ready to help!!!” [Tradução: “Irã está buscando por LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!!”]. O presidente estadunidense se esqueceu apenas de mencionar que foram décadas de sanções e pressões ao Irã, levadas a cabo pelos EUA, que prejudicam enormemente estas pessoas que ele hoje diz querer ajudar. 

O outro grupo, que afirma que os protestos são fabricados por infiltrados internos, deslegitima as demandas genuínas da população iraniana. O próprio governo do Irã, em certos momentos, evitou usar a palavra “protesto”, preferindo, segundo o pesquisador Azizi, uma narrativa que enquadrava os eventos como terrorismo, separatismo e uma campanha externamente orquestrada de guerra híbrida. Isso poderia justificar, em alguma medida, as repressões brutais do governo, como assassinatos de manifestantes, prisões e o bloqueio digital.  

Houve, porém, uma tentativa do governo de diferenciar os manifestantes: aqueles legítimos, que pacificamente se queixavam nas ruas, e os violentos, que provavelmente seriam infiltrados, vistos, portanto, como ilegítimos e até mesmo terroristas Em 3 de janeiro de 2026, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, chegou a declarar: “Conversamos com os manifestantes; as autoridades devem conversar com eles, mas não há benefício algum em conversar com os arruaceiros. Os arruaceiros devem ser colocados em seu devido lugar”. 

Ambas as narrativas são decorrentes de uma falta de análise mais profunda sobre as causas estruturais e possíveis consequências desastrosas de uma intervenção dos Estados Unidos e aliados – sobretudo, Israel – no Irã. Para compreendermos, mesmo sob a obscuridade dos dados, o que tem acontecido nos protestos, é necessário apurar algumas variáveis históricas, variáveis que precisam estar na frente de toda e qualquer análise sóbria sobre a posição do Irã na geopolítica do Oriente Médio. Um elemento central neste sentido é o efeito multifacetado das sanções econômicas do Ocidente ao país persa. 

Os protestos no Irã: causas, atores e desdobramentos 

Inicialmente, ainda em dezembro de 2025, os protestos foram desencadeados por deterioração das condições econômicas no Irã, em particular, o colapso do valor monetário, a inflação descontrolada e a instabilidade dos preços no comércio. Não é à toa que foram os comerciantes que espontaneamente começaram os protestos, que até hoje seguem sem uma liderança ou organização central.  

Em 28 de dezembro de 2025, os comerciantes do Grand Bazaar de Teerã, grande mercado tradicional local, não abriram suas lojas, em uma tentativa de demonstrar suas queixas a respeito da falta de estabilidade dos preços. Na segunda-feira de 11 de janeiro de 2026, o rial iraniano atingiu uma desvalorização nunca antes vista: 1 dólar equivalente a 1,4 milhão de riais. Em janeiro de 2025, 1 dólar equivalia a 700 mil riais. Outros dados são igualmente alarmantes. O PIB per capita caiu de 8 mil dólares em 2015 para pouco mais de 5 mil dólares em 2024. As exportações de petróleo despencaram, por sua vez, em torno de 80%, após o fim do acordo nuclear assinado em 2015, o qual havia permitido o relaxamento das sanções. O pacto foi encerrado por Trump, unilateralmente, em 2018, durante seu primeiro mandato. 

Casos de corrupção, favorecimento de elites políticas e militares, bem como a intensificação das sanções econômicas levaram a um cenário de descontentamento geral. Seis meses após a Guerra dos Doze Dias, a moeda iraniana perdeu 40% do seu valor, e a inflação subiu em 60%, conforme o professor Vali Nasr, da Escola de Estudos Internacionais Avançados da John Hopkins University, e que atuou como conselheiro sênior do representante especial dos EUA para o Afeganistão e o Paquistão, embaixador Richard Holbrooke (2009-2011). 

A mais atingida por essa conjuntura é a classe média. Junto aos comerciantes, manifestaram-se também estudantes, trabalhadores de diversos setores, famílias inteiras, entre outros, caracterizando uma movimentação que engloba as distintas classes sociais. Isto porque os bens de consumo comuns se tornam praticamente inviáveis para milhões de pessoas. Logo, diversos protestos se espalharam para várias cidades de diversas regiões do país. 

Protestos de larga escala não são incomuns no Irã. Ao contrário das manifestações anteriores, porém, as de agora refletem uma profunda instabilidade econômica. Como nos lembra o pesquisador do Middle East Council on Global Affairs Hamidreza Azizi, os protestos de 2009 revelaram disputas em torno de legitimidade eleitoral, consolidadas no Movimento Verde que demandava a saída de Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã entre 2005 e 2013, e denunciava diversas violações de direitos humanos. Já em 2019, as manifestações foram provocadas pela alta do preço do combustível, enquanto em 2022 os protestos foram encabeçados pelo movimento das mulheres após a morte de Mahsa Amini pela polícia da moralidade por não ter usado o véu. 

Os movimentos recentes carregam uma diferença qualitativa. Para além das questões econômicas, o país enfrenta pressões externas de caráter militar. Desde o início do genocídio em Gaza, em outubro de 2023, Israel tem buscado atrair o Irã para um confronto armado direto. Isso de fato aconteceu, em junho de 2025, e ficou conhecido como a Guerra dos Doze Dias. Nela, o Irã provou ter certa capacidade de defesa, mas, ainda assim, saiu enfraquecido. Como ator mais poderoso do Eixo da Resistência, o Irã sofreu alguns baques em suas alianças, sobretudo, com a queda de Bashar al-Assad na Síria e o assassinato de lideranças do Hezbollah e Hamas. Desde outubro de 2023, Israel tem intensificado suas agressões ao Irã e a seus aliados não-estatais armados, numa expansão regional da guerra em Gaza em busca do seu próprio projeto de ordem regional. 

A centralidade das sanções econômicas 

Lideradas pelos Estados Unidos, as sanções econômicas do Ocidente são centrais na crise econômica, pela qual o Irã vem passando há décadas. O país persa é um dos mais sancionados do mundo, atrás apenas da Rússia, que desde 2022, por conta da invasão à Ucrânia, está no topo da lista. O uso das sanções visa a gerar descontentamento e, no limite, agitação interna, a fim de que os mais atingidos se rebelem contra o governo e derrubem o regime. Assim, pressões externas e internas estariam intimamente vinculadas. 

Nas últimas duas décadas, as sanções econômicas se tornaram um dos principais instrumentos da política externa dos Estados Unidos, utilizadas de forma contínua tanto por governos democratas quanto republicanos, além de seus aliados ocidentais. O controle do sistema financeiro internacional e o uso do dólar como moeda central são armas econômicas, direcionadas, principalmente, aos países do Sul Global. Não foi à toa que Trump desencadeou a guerra tarifária no ano passado. 

O histórico das sanções contra o Irã remonta à Revolução Iraniana de 1979 e à crise dos reféns na Embaixada dos EUA, quando os EUA impuseram um embargo comercial e congelaram cerca de 12 bilhões de dólares em ativos iranianos. Embora essas sanções tenham sido suspensas em 1981, por meio dos Acordos de Argel, elas foram restabelecidas em 1984, durante a Guerra Irã-Iraque, incluindo um embargo de armas e a designação do Irã como patrocinador do terrorismo. Em 1996, a Lei de Sanções ao Irã e à Líbia marcou um ponto de inflexão, ao punir empresas estrangeiras que investissem no setor petrolífero iraniano, institucionalizando as chamadas sanções secundárias, ou seja, aquelas contra países que comercializem com o país diretamente sancionado pelos americanos. 

A partir de 2006, sanções multilaterais, sobretudo, do Conselho de Segurança da ONU e da União Europeia, passaram a mirar diretamente o programa nuclear iraniano, aprofundando o isolamento econômico do país. Já a partir de 2009, no governo Barack Obama (2009-2017), sanções mais duras foram inicialmente utilizadas como instrumento de pressão para uma posterior negociação diplomática. No contexto das revoltas árabes e tendo o Estado Islâmico (ISIS) como inimigo comum, Irã e EUA avançaram nas negociações que resultaram na assinatura do Plano de Ação Global Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês), que previa a limitação do desenvolvimento do programa nuclear iraniano. Como contrapartida, as sanções ocidentais seriam suspensas de forma gradativa. 

Em 2018, o governo Trump rompeu com o acordo nuclear e instaurou a chamada política de “pressão máxima”, por meio da qual impôs sanções abrangentes e intensificou as sanções secundárias. Entre 2018 e 2020, o número de designações contra o Irã cresceu exponencialmente, e o país passou a concentrar 43% de todas as sanções a indivíduos impostas pelos EUA no mundo.  

Apesar dos efeitos de décadas das sanções e das constantes ameaças dos Estados Unidos, o Irã ainda não cedeu à pressão externa. Desde o final dos anos 2000, o país passou a adotar a chamada “Política Externa de Olhar para o Leste” (Look East Foreign Policy, em inglês), uma política externa de diversificação de parcerias internacionais voltada, em especial, mas não apenas, para países asiáticos, com o objetivo de reduzir a dependência em relação ao Ocidente. Rússia e China são fundamentais neste sentido. No entanto, ainda que tenha fortalecido parcerias econômicas e comerciais com essas duas potências – hoje qualificadas como contrapesos ao poder dos EUA na ordem mundial multipolar –, essa estratégia não se traduziu, até o momento, em apoio político ou militar ao Irã, em especial durante as agressões diretas dos EUA e Israel, como ocorreu em junho de 2025. Os Estados Unidos se mantêm superiores e sem contestação militar à altura no Oriente Médio, em geral, e no Golfo, em particular. 

Os EUA continuam usando as sanções econômicas como instrumento coercitivo de política externa. Em 13 de janeiro de 2026, Trump anunciou a implementação de uma tarifa de 25% a todos os países que tivessem relações com o Irã, o que pode ser interpretado como uma sanção secundária. Muito provavelmente, os países atingidos seriam os que compõem a fonte de renda de exportação do Irã: China (que importa 80% do petróleo iraniano), Turquia, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia. 

Quem, de fato, quer a mudança de regime? 

Com todos os percalços e ameaças, o Irã se mantém como um dos poucos Estados do Oriente Médio que ainda resiste ao imperialismo dos Estados Unidos na região. Nesse sentido, podemos compreender o Irã como a última grande fronteira da expansão imperial de EUA e Israel, fortalecido por suas alianças com os atores que compõem o Eixo da Resistência. 

Como observa o pesquisador Vali Nasr, em seu livro Iran’s Grand Strategy: A Political History (Princeton University Press, 2024), a concepção de segurança do Irã foi moldada por experiências de colonialismo, humilhação nacional, perda territorial e constantes ingerências estrangeiras. Após a Revolução de 1979, o objetivo central do novo regime passou a ser a independência geopolítica, não necessariamente a expansão da revolução para outros locais.

Nos últimos anos, como parte da “Política Externa de Olhar para o Leste”, a busca por autonomia se traduziu na diversificação de parcerias internacionais e na adoção de uma estratégia de “defesa avançada”, voltada para a proteção dos interesses nacionais e para a projeção de influência regional, especialmente por meio de alianças com atores não estatais, como o Hezbollah, no Líbano. 

Desde a Revolução Iraniana, Estados Unidos e Israel têm como objetivo estratégico, no mínimo, isolar o Irã e, no máximo, provocar a queda do regime da República Islâmica. Nos últimos cinco anos, um dos principais instrumentos dessa política tem sido o fortalecimento conjunto dos dois pilares centrais da presença americana no Oriente Médio: Israel e as monarquias árabes do Golfo. Um exemplo claro dessa articulação foi a assinatura dos Acordos de Abraão, em 2020, que normalizaram as relações entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, com mediação de Trump e articulação de seu genro e então conselheiro sênior, Jared Kushner. 

Os Acordos de Abraão e a busca por desmantelar o regime iraniano fazem parte de uma concepção específica de ordem regional por parte de EUA e Israel. Os acordos buscam institucionalizar uma nova arquitetura regional baseada em cooperação econômica, tecnológica e, progressivamente, securitária, com o Irã claramente posicionado como inimigo comum. Em 2022, durante o governo Biden (2021-2025), havia expectativas concretas de incluir a Arábia Saudita nesse arranjo. Esses planos foram interrompidos após os ataques de 7 de outubro de 2023 e a subsequente campanha genocida conduzida por Israel em Gaza. Desde então, a Arábia Saudita afirmou, categoricamente, que não retomará as negociações, enquanto não houver uma solução viável para a criação de um Estado palestino. 

Dias após a Guerra dos Seis Dias, um think tank israelense denominado Coalizão para a Segurança Regional propôs o chamado “Escudo de Abraão”, que seria uma aliança de defesa regional destinada a institucionalizar a liderança de Israel sobre as monarquias do Golfo. Promovida como um mecanismo de dissuasão coletiva “contra o Irã e seus aliados”, a iniciativa busca reafirmar uma ordem regional militarizada centrada na dominância israelense e nos interesses estratégicos dos EUA. 

Essa visão de ordem regional pressupõe a fragmentação e a instabilidade como instrumentos políticos. Para Israel e Estados Unidos, a ausência do Irã como contraponto estratégico facilitaria a consolidação de sua dominação regional. Nesse contexto, a produção deliberada de desordem aparece como uma estratégia fundamental para garantir os interesses de EUA e Israel, cujas indústrias de armas lucram com as chamadas guerras intermináveis. A despeito, é bom observar, de discursos oficiais no sentido contrário. 

Internamente, porém, a sociedade iraniana, em geral, está bem atenta à influência e aos perigos dessas dinâmicas externas. Embora exista forte insatisfação social, a maioria das demandas não se orienta, necessariamente, pela derrubada do regime, mas por reformas e condições mais justas de vida. Há uma compreensão difusa do papel contra-hegemônico do Irã e uma aversão histórica a intervenções estrangeiras. Como indicam alguns analistas, como Narges Bajoghli e Nancy Okail e Sina Toossi, muitos iranianos in loco entendem que uma intervenção externa resultariam em destruição social, muito distante da promessa de libertação nacional, democracia e direitos humanos. O que aconteceu na Líbia e na Síria, durante as revoltas árabes, e no Afeganistão e no Iraque, durante a “Guerra Global ao Terror”, são exemplos ilustres das falácias da intervenção externa a favor da liberdade dos cidadãos locais. 

Uma nova guerra entre Irã e EUA é possível? 

Ao longo das últimas décadas, o Irã demonstrou capacidade de sobreviver a sucessivas ondas de protestos internos e aos efeitos das sanções, ainda que com muitos problemas. A atual conjuntura apresenta, contudo, um elemento particularmente preocupante: o nível de interferência externa associado a essa nova fase de instabilidade. Há, hoje, uma convergência explícita entre pressões internas e sinais claros de instrumentalização política por atores externos, especialmente Estados Unidos e Israel. 

Parte da mídia mainstream norte-americana tem contribuído para esse clima de escalada, ao reproduzir narrativas alarmistas que sugerem um colapso iminente do regime iraniano, mesmo que não haja sinal algum de ruptura ou cisão na elite interna. Alguns veículos, como o jornal The New York Times, chegaram a afirmar que a República Islâmica estaria em “modo de sobrevivência” e que o líder supremo já planeja uma fuga para Rússia, assim como fez Bashar al-Assad em 2024. Essas narrativas, sem base material, fundamento ou informações precisas, cumprem um papel de inflar um apoio internacional à mudança de regime, abrindo margem, supostamente justificada, para uma agressão direta dos EUA. 

Os oficiais iranianos de relações exteriores abriram canais diplomáticos, mas, ao mesmo tempo, sinalizaram que o Irã responderia qualquer agressão à altura. Houve menção até mesmo a uma atividade preventiva. Por sua vez, os sinais dos EUA são ambíguos. Trump fez declarações que sugerem a adoção iminente de medidas agressivas contra o Irã, chegando a incentivar publicamente, em sua rede social, a continuidade dos protestos internos. Na noite de 13 de janeiro, também afirmou que fechou os canais diplomáticos com o Irã. 

Já os aliados estratégicos dos EUA no Golfo, as monarquias árabes, têm adotado uma postura bem mais cautelosa. Embora não se oponham publicamente aos protestos nem ao enfraquecimento das capacidades militares e nucleares iranianas, países, como Arábia Saudita, Omã e Catar, alertaram os EUA, nos bastidores, para os riscos de uma tentativa de derrubar o regime. O temor central desses países, alguns vizinhos do Irã, é o impacto imediato nos mercados de energia e o efeito de instabilidade interna que um colapso iraniano poderia gerar em toda a região. Isso sem falar em um ataque direto de Israel, como aconteceu em setembro de 2025, quando o regime sionista bombardeou Doha, capital do Qatar, e assassinou lideranças do Hamas. Aliás, é impossível dissociar a capitalização dos protestos iranianos por parte de EUA e Israel do contexto mais amplo do genocídio em Gaza – que, embora formalmente sob um cessar-fogo desde outubro de 2025, continua sob bombardeios constantes e bloqueio de ajuda humanitária. A centralidade do Irã no discurso político israelense funciona, em grande medida, como uma distração, deslocando a atenção internacional do genocídio ainda em curso na Faixa de Gaza, assim como da intensificação da violência de colonos israelenses e planos oficiais de anexação na Cisjordânia. Nesse sentido, a ameaça de uma nova guerra é, também, um instrumento político de gestão da (des)ordem regional.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


Referência imagética
Crédito: ID 388027623/Rokas Tenys/Dreamstime.com


  1. Professora de Relações Internacionais na Fecap, pesquisadora do INCT-INEU e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP. Contato: isagostinellis@gmail.com. ↩︎

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