Tatiana Teixeira1
27 de março de 2026
Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Tatiana Teixeira sobre a vitória da Venezuela no Mundial de Beisebol. O texto foi originalmente publicado em 22 de março de 2026, no site do OPEU.
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No dia 17 de março, a Venezuela obteve uma vitória inédita sobre os Estados Unidos, ao derrotar o Dream Team, por 3 a 2, na final do World Baseball Classic (WBC). No contexto político extremamente conturbado da relação bilateral após a invasão do país e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, por parte do governo Trump 2.0, a histórica conquista venezuelana destaca o esporte como arena de afirmação nacional e transcende seu significado estritamente esportivo, convertendo-se em símbolo político.
O triunfo se transmuta em símbolo, ao trazer para o primeiro plano a alegoria da contestação da tutela e da hierarquia hemisférica. Afinal, a Venezuela venceu os Estados Unidos, em casa, no esporte historicamente mais associado à identidade americana e apesar da enorme assimetria de recursos entre um e outro lado. Atuou melhor do que os atletas do país que inventou o beisebol, trazendo para o campo estilo próprio, paixão, determinação e competência coletiva, em contraste com a confiança no talento individual. Para os venezuelanos, jogar representando seu país era mais significativo do que títulos profissionais.
Também é simbólico por deslocar a narrativa do recorrente eixo regional (latino-americano) para o nacional (venezuelano), reforçando uma identidade única, própria, com rosto, território e cultura de contornos definidos. Nas falas após a partida, os jogadores distinguem e retiram seu país da categoria guarda-chuva “América Latina”, na qual os EUA incluem tudo que está abaixo do Rio Grande (mesmo o que não se encaixa nela plenamente, como o Brasil). Ainda que comemorada de forma maciça pelos torcedores latinos em geral, a mensagem dos campeões foi inequívoca: a emoção é coletiva, mas a conquista é dos venezuelanos.
Em entrevista antes da final, o terceira base (3B) venezuelano Maikel García, eleito jogador mais valioso do campeonato (MVP), dá o tom adotado pelo grupo, do início ao fim da temporada: “Em última análise, estamos jogando pelo nosso país”. O comentário desagradou aos torcedores latinos, e ele dobrou a aposta, após a vitória, com nova polêmica, desta vez, em seu perfil no X: “A Venezuela venceu, não a América Latina”. O esporte funciona, aqui, como campo de possibilidade de demarcação da soberania e do orgulho nacionais, fragilizados e assaltados no mundo não simbólico. Enrolado na bandeira venezuelana e visivelmente emocionado, o terceira base Eugenio Suárez, um dos heróis da partida, ajoelha-se e ergue aos céus o lábaro tricolor. Na imagem (abaixo), a potência do gesto e da intenção. Em entrevista à FOX, um desabafo: “Ninguém acreditou na Venezuela, mas ganhamos o campeonato hoje. E essa celebração é para todo o país venezuelano”. A vitória também é uma compensação e um reconhecimento importantes para o jogador que teve seu pedido de cidadania cancelado pelo governo Trump 2.0 em dezembro passado.

Fonte: Eugenio Suárez agradece e dedica a vitória ao povo venezuelano (Captura de tela do WBC. Fonte: SI)
Ao lembrar que a América Latina não é um bloco homogêneo, a mensagem do time vencedor também é coerente com a diversidade de preferências esportivas na região. Em Cuba, Porto Rico, República Dominicana e Venezuela, por exemplo, o beisebol é uma paixão nacional. No caso do vencedor do WBC, o esporte chegou ao país por influência da presença americana no setor petrolífero no território, por volta da década de 1940. O mesmo não se pode dizer de Brasil e Argentina, que têm no futebol (o soccer, não o American football) um traço característico de sua identidade.
Nacionalismo em diáspora
A primeira vez a gente não esquece.
A primeira vez contra a equipe do país invasor, menos ainda.
Em entrevista, o capitão e catcher Salvador Pérez disse sentir o peso de 30 milhões de venezuelanos nas costas. E o peso se tornou alívio, com a vitória que uniu chavistas e oposição. Um fator de coesão nacional que atravessou divisões políticas profundas, em meio ao dramático contexto de crise. Celebrada em todo o país, o dia seguinte à final (18/3) virou feriado nacional “de resistência ao imperialismo”, decretado pela presidente interina em exercício, Delcy Rodríguez. A receita não é nova: recorrer a um importante título esportivo como forma de consolidar um sentimento de união nacional, algo especialmente útil para sua liderança provisória e em um momento político ainda tão incerto.
Milhares de venezuelanos tomaram as ruas de Caracas, Miami e de outras cidades do mundo. [Vale lembrar que a diáspora venezuelana é uma das maiores do globo, com cerca de 8 milhões de pessoas tendo deixado a terra natal na última década].
A final do WBC foi disputada em Miami, na Flórida, um estado onde vivem muitos compatriotas antichavistas. Em análise publicada na plataforma de conteúdo Medium, Eloy Mustard afirma que, Miami, “centro simbólico do exílio político da Venezuela”, “um espaço historicamente definido por oposição se torna um lugar de convergência nacional”. E completa: “Diáspora e identidade doméstica se alinharam”. Ao mesmo tempo, há uma certa dissonância de sentimentos em parte desses (auto)expatriados, que misturam um renovado orgulho nacional com gratidão aos EUA.
A região metropolitana de Miami tem a maior concentração de imigrantes venezuelanos nos Estados Unidos, com mais de 250 mil pessoas. De acordo com um informativo publicado em 9 de janeiro deste ano pelo Pew Research Center, “a população venezuelana nos EUA mais que dobrou nos últimos cinco anos”. Até 2024, em torno de “1,2 milhão de hispânicos de origem venezuelana vivia nos EUA”, o que faz deles o “nono maior grupo hispânico dos EUA”. Segundo a mesma fonte, mais de 40% dos venezuelanos vivem na Flórida. Os estados do Texas, Geórgia, Nova York e Illinois também têm comunidades substantivas, aglomeradas, sobretudo, nas áreas metropolitanas.
Esporte e política
A Major League Baseball (MLB) fez o possível para minimizar o elefante branco no centro do diamante. Tentou blindar seu produto, tratando a derrota do Team USA apenas como um evento esportivo. Sem sucesso. O presidente Donald Trump e os jogadores americanos, com sua falta de fairplay, fizeram questão de nos lembrar, em diferentes momentos, que esporte também é política. Uma postura de claro contraste com a da equipe venezuelana.
No decorrer do campeonato, o time campeão seguiu uma estratégia de silêncio sobre a situação em seu país. Preferiu-se adotar uma neutralidade pragmática, sem perder, contudo, o componente emocional, de vínculo com seus compatriotas. A dependência profissional pode ser um dos motivos, já que vários jogadores venezuelanos atuam na MLB, com contratos milionários, e cerca de 75% dos jogadores da Liga ainda são americanos, ou seja, o portão de entrada é estreito. Para eles, a política não era instrumento, era ruído.
As declarações durante toda a campanha e, sobretudo, após a vitória, situaram-se em um espectro temático limitado: aspectos técnicos das partidas e, principalmente, a importância da vitória para seus conterrâneos, ansiosos por boas notícias. Em entrevistas coletivas, seus principais jogadores evitaram críticas diretas (fosse aos EUA, fosse ao governo Maduro), despolitizando seu discurso. Os atletas falaram de “orgulho e família”, mas silenciaram sobre a captura de Maduro, ou sobre a crise humanitária no país, e evitaram polemizar com a equipe anfitriã.
Apesar de ser a equipe americana mais estrelada já reunida para uma edição do campeonato, o resultado ficou aquém do desejado. E a derrota caiu mal para um time que manteve uma pantomima bélica no decorrer da temporada e dava o ouro como certo. Em uma reação arrogante e contrária ao espírito esportivo, jogadores americanos removeram e descartaram a medalha de prata. O gesto desrespeitoso não apaga o fato de que, com apenas uma vitória no WBC, em 2017, os Estados Unidos estão empatados com a Venezuela. Logo após a final, o presidente Trump escreveu em sua rede, a Truth Social: “SOBERANIA!!! Presidente DJT.” (no original, Trump usa a palavra “statehood”, que também pode ser traduzida como “condição de Estado”). A menção já havia sido feita por ele, na rodada anterior, também pela Truth Social: “Uau! A Venezuela derrotou a Itália hoje à noite por 4 a 2 na semifinal do WBC (Beisebol!). Eles estão jogando muito bem. Coisas boas estão acontecendo com a Venezuela ultimamente! Eu me pergunto o que é essa mágica? SOBERANIA, #51, ALGUÉM? Presidente DONALD J. TRUMP”. Recorrendo a seu senso de humor falastrão, Trump tenta se reapropriar, simbolicamente, da derrota, minimizando o revés, para reenquadrá-lo como prova da superioridade política dos EUA, ou como uma oportunidade de expansão imperial. Não se pode descartar o hábito do escárnio, do desrespeito e da arrogância.

A fanfarronice não é de fácil execução. Ela enfrenta o dique legislativo, determinado pela “Cláusula de Admissão” do Artigo 4, Seção 3, da Constituição. De qualquer modo, dadas suas declarações, em seu segundo mandato, sobre a anexação de Canadá e Groenlândia, e sobre uma possível tomada de Cuba “para fazer o que quiser”, as quais geraram críticas e tensões diplomáticas, as mensagens sobre a Venezuela não devem ser consideradas como mera piada.
Edição histórica
O WBC é um torneio internacional que acontece, em média, a cada três anos, com 20 equipes em disputa. Nesta 6ª edição, foram 47 jogos, em 13 dias e em quatro cidades. No LoanDepot Park, palco da final, do público de 36.190 pessoas, a maioria (34.548) era venezuelana. Algo estrategicamente pensado pela MLB, dada a concentração dessa comunidade na Flórida, e que trouxe, por si só, a carga política que se pretendeu negar.
A final bateu recorde de audiência, sendo o jogo mais assistido em 20 anos de realização do evento. Conforme matéria do jornal The New York Times, que cita a Fox Sports, “um recorde de 10,784 milhões de pessoas assistiram ao torneio, somando os canais Fox e Fox Deportes, com um pico de audiência de 12,148 milhões por volta das 22h30 (horário do leste dos EUA)”. Além disso, o campeonato “atraiu audiência recorde em todas as emissoras de língua inglesa”, com “uma média de 1,294 milhão de espectadores por jogo em diversos canais da Fox”, representando “um aumento de 156% em relação à edição de 2023”. Segundo a Forbes, o WBC teve um desempenho “52% melhor do que o Jogo das Estrelas da NBA de 2026 (6.734.000 espectadores). Também se saiu bem em jogos decisivos”.
Com crescimento de audiência, patrocinadores e engajamento nas redes sociais, o WBC mostrou que esporte, entretenimento e política podem andar juntos.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!



