Ir para o conteúdo
Juntos, vamos continuar a pensar a democracia.
Contribua para a manutenção do Boletim Lua Nova.
Doe e vire um apoiador
boletim-lua-nova 002203
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
Twitter Facebook-f Instagram Youtube
Criar conta
Login
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato

Início > Sem categoria

Que diferença faz? – Lançamento de coletânea sobre teorias e estudos de gênero na América Latina

Download PDF 📄

30 de março de 2026

Para a coluna de hoje, o Boletim Lua Nova republica, com satisfação, a introdução do livro Que diferença faz? Teorias e estudos sobre mulheres e gênero na América Latina, publicado pela Editora Cancioneiro e organizado por Ana Paula Vosne Martins, Cleusa Gomes da Silva, Julian Simões Cruz Oliveira e Marlene Tamanini.

O livro reúne reflexões de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes países da América Latina sobre três décadas de estudos feministas e de gênero nas universidades, com especial atenção ao contexto brasileiro. A obra nasceu das comemorações dos 30 anos do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Paraná (NEG/UFPR) e percorre, em perspectiva interdisciplinar, os campos da Sociologia, Antropologia, História, Educação, Literatura e Artes, assim articulando produção acadêmica, movimentos sociais e compromisso político antifascista. A introdução que publicamos a seguir oferece um panorama desse percurso, situando os estudos de gênero como resistência intelectual indispensável diante dos desafios do tempo presente. O livro pode ser adquirido aqui.

***

30 anos feministas

Ana Paula Vosne Martins1
Cleusa Gomes da Silva2
Julian Simões Cruz Oliveira3
Marlene Tamanini4

The world was almost won by such an ape. The nations put him where his kind belong. But don’t rejoice too soon at your escape. The womb he crawled from still is going strong.
(Bertolt Brecht, The resistible rise of Arturo Rui, 1941, Epilogue)5

Ao escrevermos a introdução deste livro, o tempo presente – segundo semestre de 2025 – nos coloca frente a uma situação incontornável para o pensamento e para a ação: o risco à vida em escala planetária e nas escalas políticas de cada país, em particular nos países da América Latina. Não que nós, da América Latina, tenhamos vivido tempos menos conturbados no passado recente, com recorrentes surtos ditatoriais, elites políticas desmoralizadas e descompromissadas com suas comunidades de origem, e crises econômicas avassaladoras para os mais vulneráveis e despossuídos. Esse é um quadro histórico bem conhecido e aparentemente cíclico, marcado por injustiças, desigualdades profundas e violência. Contudo, o tempo presente, com sua intensidade e instantaneidade, nos coloca desafios inusitados frente ao reaparecimento de antigo mal sobre o qual muito já se escreveu desde as décadas de 1930 e do pós-Segunda Guerra Mundial. Esse antigo mal tem nome, fascismo, reatualizado e rebatizado por outros nomes como “patriotismo”, “nacionalismo”, “conservadorismo”, “defesa da família e da religião”, entre outros, mas esses são os mais evocados pela retórica da violência e do ódio, dissimulada por uma evocação oportunista à prática conservadora.

O desafio das pessoas comprometidas com a defesa da diferença e da diversidade da vida é enfrentar o inimigo sem cessar, não dar trégua, por esse motivo começamos nosso texto com o famoso epílogo da peça de Bertold Brecht, The Resistible Rise of Arturo Rui, uma parábola do nazifascismo hitlerista. Com o seu brilhantismo e perspicácia, Brecht demonstra como o mal foi derrotado e, ao mesmo tempo, também nos alerta para a sua capacidade de reaparecer. Isso porque sua matriz perversa continua a gerar novos Adolfs, Arturos e outros nomes que não vamos declinar, mas quem lê esse texto poderá completar a lista perversa à sua vontade.

Uma das frentes mais salientes do fascismo é o gênero, por se tratar de uma forma de classificar, hierarquizar e dominar, intrinsecamente associada à linguagem, aos corpos, aos sistemas e às instituições. O pensamento fascista opera com o gênero num sistema de divisão de corpos binariamente sexuados e utilitários e quem não se adequa a esse sistema está sob a ameaça mesma de existir. Mais recentemente, vivemos sob essa ameaça desde a década de 1990, com o uso recorrente da fórmula “ideologia de gênero” e todas as tentativas de desmoralização e deslegitimação de políticas sociais e estudos acadêmicos de um campo que se consolidou na mesma época em diferentes países, os estudos de gênero (Kováts; Põim, 2015; Corrêa, 2017)6. Foi um processo histórico de reação não só ao conhecimento, mas às formas e expressões de viver de pessoas que desafiaram e desafiam o sistema sexo/gênero; pessoas que se identificam como homens, mulheres, gays, lésbicas, pessoas trans e tantas outras subjetividades de gênero e de sexualidades. No mundo imaginariamente binário elas são excêntricas, anômalas, pecadoras e ameaçadoras à ordem do gênero, devendo se adequar ou ser adequadas por diferentes sistemas de normalização como a família, a religião, a ciência, os códigos legais e o tribunal das redes de conexão globais. Como chegamos a essa distopia, quando tudo parecia ser possível no começo da década de 1990; quando a Internet parecia nos sorrir como a primeira e efetiva possibilidade de conexões globais instantâneas entre tantas diferenças humanas?

Difícil responder a essas perguntas, afinal elas requerem compreender a articulação entre múltiplos contextos e agentes e a aceleração do tempo histórico que desafia o pensamento. Este livro perfila na frente de ação e de resistências ao gênero como uma “forma primária de dar significado às relações de poder” (Scott, 1995,p. 86). Seu locus foi e é a universidade, não por acaso, alvo da perseguição e da violência neofascista, como temos testemunhado nas duas últimas décadas do novo século. Nossa proposta é compreender a organização do que podemos denominar de uma resistência intelectual no campo interdisciplinar dos estudos de gênero, ponto de partida das diferentes reflexões presentes neste livro. Nossa pergunta é “Que diferença faz” os estudos de gênero e as teorizações do pensamento feminista para nosso mundo, para as formas de ser e de existir em nossas sociedades e, em particular, nesse espaço histórico que é a América Latina? Não se trata de uma pergunta retórica, mas de uma pergunta fundamentalmente política, afinal os estudos de gênero não surgiram de uma área específica do conhecimento, nem de uma ação isolada de pesquisadoras e pesquisadores em torres de marfim universitárias e acadêmicas. Da mesma forma, nossa pergunta não é voltada somente para o passado, mas uma pergunta que interpela o nosso presente, em vista dos tremendos desafios colocados pelas ameaças à nossa existência como espécie, mas também como alteridades sociais, culturais e políticas.

Os estudos de gênero são indissociáveis do feminismo e o feminismo é indissociável de uma posição política antifascista. Mais do que um livro sobre estudos acadêmicos, este é um livro sobre a resistência feminista ao poder na trincheira do conhecimento, da reflexão crítica e da formação acadêmica e universitária. É importante fazer essa afirmação, pois no Brasil os estudos feministas e de gênero se organizaram nas universidades desde a década de 1980, no período da transição democrática de uma longa ditadura (1964-1985). Alguns capítulos do livro fazem um balanço histórico desse processo de organização dos estudos de gênero em diferentes áreas como a Antropologia, a Educação, a História, a Literatura e a Sociologia. São reflexões que dizem muito das diferenças e semelhanças do campo dos estudos de gênero, que é um campo de pesquisa, de produção do conhecimento, mas também um campo profundamente marcado pela experiência política do feminismo. Quando nos referimos ao feminismo, mesmo no singular, referimo-nos à pluralidade desta experiência histórica, ou seja, dos muitos feminismos que ao longo de mais de 150 anos de história não só perturbaram e questionaram a ordem do gênero, como também realizaram transformações institucionais, legais, políticas, culturais e subjetivas.

Por isso, o marco de três décadas feministas, pois a elaboração deste livro coincide com a comemoração de 30 anos ou um pouco mais, de vários grupos e núcleos de pesquisa sobre mulheres e estudos de gênero no Brasil, sendo os pioneiros ainda da década de 1980. Portanto, falar de uma história de 30 anos, é falar de um tempo dentro de outro tempo, de uma experiência dentro de outras experiências, pois não chegamos aqui sozinhas. Citamos a frase da pesquisadora Jurema Werneck, médica e fundadora da ONG Criola: “nossos passos vêm de longe”. Trata-se de uma apropriação de uma bela reflexão que Werneck faz da longa jornada de lutas e resistências das mulheres negras, para tratarmos dos 30 anos feministas de produção do conhecimento e de resistências, afinal não chegamos aqui sozinhas, mas caminhando em trilhas já percorridas por outras pensadoras que viveram e resistiram na época da ditadura, e em diálogo com outras pessoas de movimentos e organizações sociais atuando politicamente fora das universidades. Nossas histórias individuais são diferentes, mas algo nos aproximou, uma consciência, um inconformismo e principalmente nossas experiências com o feminismo, seja como leitoras, ativistas e, como registramos neste livro, como pesquisadoras e professoras feministas.

O livro não trata do processo de institucionalização dos estudos de mulheres e de gênero no Brasil, apesar de registrar esse importante processo. Ele nasceu de um evento comemorativo dos 30 anos do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Paraná, ocorrido em agosto de 2024. Durante essas décadas, o NEG/UFPR e tantos outros grupos semelhantes criados à mesma época (década de 1990), atuaram não só como espaço de reflexão e de pesquisa, mas como espaços de formação, contribuindo para a produção do conhecimento interdisciplinar na graduação e na pós-graduação. Fazemos este destaque porque o nosso principal compromisso é com a educação em nível superior, com a formação de pessoas qualificadas para a docência e para a pesquisa, visando uma atuação profissional e intelectual para compreender e enfrentar os grandes desafios sociais e políticos e, assim, contribuir com a transformação da nossa sociedade, tão profundamente marcada por injustiças e desigualdades históricas. O campo dos estudos de gênero interseccionais é fundamental para essa formação qualificada que vem sendo alvo das mais infames mentiras no que se tornou conhecido desde a década de 1990 como o discurso da “ideologia de gênero”.

Apesar de todos os ataques retóricos e físicos, nos mantivemos firmes e alertas, na UFPR e nas outras universidades brasileiras e, o mais importante, não nos acovardamos e continuamos a nos qualificar, a estudar, a nos unir e a contribuir para a formação de jovens estudantes nas diferentes áreas que estão representadas no NEG/UFPR e em outros núcleos e grupos mencionados neste livro.

Consideramos necessário mencionar alguns dados a respeito do NEG/UFPR, tendo em vista nossa vinculação acadêmica como organizadoras/organizador da coletânea. Apresentamos um breve balanço da participação de oito docentes da UFPR que atuam nos Programas de Pós-Graduação de Educação, História, Letras e Sociologia, entre 1994 e 2024. Foram 140 trabalhos finais de graduação; 55 pesquisas de Iniciação Científica; 14 trabalhos de especialização; 106 defesas de dissertação de mestrado e 62 defesas de tese de doutorado. É importante dizer que algumas professoras começaram a orientar na pós-graduação entre 2001 e 2004. O maior número de trabalhos orientados na área dos estudos de gênero foi na pós-graduação, um total de 168, em 20 anos, aproximadamente 24 trabalhos concluídos na pós-graduação para cada uma das professoras que estão associadas a um programa de pós-graduação.

Mas, números isolados não dizem muita coisa, são apenas um parâmetro que poderia aqui servir para discutirmos as áreas nas quais os estudos de gênero na UFPR, em particular, mas em outras universidades brasileiras e latino-americanas se consolidaram, pois não consideramos a produção bibliográfica das pesquisadoras e das pessoas7 formadas, que elevaria para mais de três dígitos essa conta.

Somando a graduação com a pós-graduação, foram 308 trabalhos defendidos somente nos estudos de gênero na UFPR. São números expressivos, levando em consideração que o NEG/UFPR é composto por poucas professoras e nem todas atuam na pós-graduação, ou atuam mais recentemente. Esses dados são somente de um grupo, mas expressam uma amostra da realidade acadêmica de outros grupos de estudos de gênero das universidades brasileiras que também se encontram na terceira década de existência, enfrentando dificuldades internas e externas, contribuindo para a divulgação do campo, para o acesso de discentes aos debates teóricos e à diversidade da pesquisa em gênero e sexualidades numa perspectiva interdisciplinar.

Mas, o mais importante dessa formação nos estudos de gênero, é a diferença que elas podem fazer em seus espaços de trabalho, seja formando outras pessoas, seja pela consciência política e ética que demonstram no enfrentamento de suas realidades, contribuindo para a qualificação dos debates e para o incansável trabalho de desnaturalização do gênero e a desmistificação do poder, ações indispensáveis para o trabalho na educação e nos diferentes espaços de atuação profissional, mas também para a criação de relações mais afetivas e igualitárias.

O livro apresenta uma amostra da diferença que os estudos de gênero e da teoria feminista significou para os espaços universitários, acadêmicos e movimentos sociais na América Latina nos últimos 30 anos. Nosso objetivo foi agregar diferentes realidades de pesquisa e de construção de espaços de interlocução acadêmica desse campo de estudos, bem como da sua relação com as políticas públicas, com os movimentos sociais e os diferentes feminismos latinoamericanos. Procuramos trazer a público diferentes momentos da construção de um campo de conhecimentos e de sua importância na formação de estudantes e de agentes sociais e políticos; sobre os desafios que vivemos para superar conflitos nos espaços institucionais e na sociedade; reflexões sobre os diferentes processos de expansão do campo de estudos de gênero e, sobretudo, como foi possível contribuir para produzir instituições democráticas e inclusivas a partir das perspectivas feministas.

A estrutura do livro demonstra nossa intenção de ampliar o escopo da discussão para realidades acadêmicas da América Latina. As temáticas desenvolvidas nos capítulos estão conectadas com um primoroso caminho de autoreflexão, de relatos autobiográficos e memórias individuais e coletivas, que mostram como os estudos de gênero tensionaram as epistemes nas instituições, como foram, também, tensionadas pelas mudanças sociais e os desafios políticos. Assim, apresentamos um breve resumo de cada capítulo.

“Reflexões sobre campos e cânones: a teoria feminista da segunda metade do século XX, legado e desafio”, de Miriam Adelman, é um balanço crítico e indispensável para compreender as contribuições e tensionamentos das teorias feministas no campo das Ciências Sociais. Apresenta uma crítica aos cânones acadêmicos masculinistas e analisa como as teóricas feministas demonstraram a reprodução sociológica a antropológica das visões essencialistas sobre as mulheres, relegando-as a um “segundo sexo”. Mostra como essa desconstrução permitiu repensar as categorias trabalho, família e sexualidade, inserindo-as em um marco relacional e histórico.

Com competência e síntese analisa as reflexões apresentadas pelas teorias feministas dos anos de 1980 e 1990 para mostrar como elas enfrentaram críticas internas, especialmente de mulheres negras e do Sul Global, ao apontarem para o eurocentrismo e o elitismo de muitas teorias. Autoras como bell hooks, María Lugones e Rita Segato por exemplo, evidenciaram raça, classe e colonialidade e sua intersecção com gênero, demandando abordagens mais plurais. Essa perspectiva interseccional tornou-se fundamental para uma Sociologia e Antropologia comprometidas com a descolonização do saber. Dessa maneira, a reflexão proposta por Adelman destaca que o legado da teoria feminista reside não apenas em suas críticas, mas em sua capacidade de propor novas epistemologias. Por isso, afirma a autora, a Sociologia tem aqui um papel crucial que é de fornecer ferramentas para analisar como as estruturas de gênero se reinventam nos dias atuais e, ao mesmo tempo, propor uma perspectiva de transformação, aspecto que sempre caracterizou o feminismo como teoria e prática política.

Bila Sorj, no capítulo “Estudos de gênero no Brasil: mudanças e continuidades”, analisa a dinâmica da institucionalização dos estudos de gênero no Brasil e suas mudanças ao longo dos últimos 30 anos. Localiza sua reflexão considerando como os estudos de gênero são atualmente um dos campos mais dinâmicos das Ciências Sociais brasileiras e como estes estudos foram responsáveis por uma grande renovação disciplinar. Outrossim, também analisa a ampliação dos estudos de gênero e os seus desafios para as diferentes configurações que eles assumem em locais e ritmos diversos, como espaço de expansão à pesquisa, processos de formação e para a comunidade científica e acadêmica. A autora recupera aspectos da trajetória histórica e sociológica destes estudos e demonstra como desde a sua formação na época da transição democrática, esta área foi positivamente impactada pela expansão do ensino superior no país nos anos 1990, com o aumento do número de instituições, de matrículas, de cursos e de posições docentes, contribuindo para sua expansão desde os anos de 1980. Além destes aspectos, reporta-se aos movimentos feministas e de mulheres com suas discussões a respeito das desigualdades de gênero como um fator crucial ao desenvolvimento e visibilidade da área. Discute, igualmente, o contexto social e político como decisivo para a configuração dos estudos de gênero, majoritariamente marcado pela influência dos movimentos feministas, do Estado, de agências internacionais e do sistema acadêmico-científico brasileiro.

Em “Expansões e tensões: comentários sobre o campo dos estudos de gênero no Brasil”, Adriana Piscitelli oferece uma contribuição para compreendermos a constituição do campo dos estudos de gênero, destacando as tensões produtivas entre feminismos e Antropologia. Segundo ela, as tensões têm sido constitutivas desse campo, servindo como motor para seu desenvolvimento teórico e político. Nesse sentido, a autora parte de uma perspectiva antropológica crítica e problematiza a relação entre experiência e teoria, retomando o debate clássico de Strathern sobre os riscos de reduzir a análise antropológica às categorias nativas. Na esteira dessa discussão, a autora dá especial atenção aos argumentos de Oyéwùmi sobre a pretensa universalidade dos conceitos e categorias feministas ocidentais, visto que tais enquadramentos analíticos não dão conta de explicar os vários e distintos contextos africanos.

Disso decorre refletir como essas tensões adquirem novos contornos no contexto contemporâneo, marcado pelo surgimento de epistemologias feministas decoloniais, negras e de pessoas trans. Por essa razão, Piscitelli sustenta que a consolidação dos estudos de gênero no Brasil é um processo marcado por apropriações criativas de teorias feministas internacionais, adaptadas às especificidades locais. Isso fica evidente quando a autora retoma a criação do Núcleo PAGU, na UNICAMP nos anos 1990, como uma espécie de simbolização desse movimento de institucionalização acadêmica, mas que sempre manteve diálogo estreito com os movimentos sociais. Contudo, a autora alerta para os riscos de uma narrativa linear sobre esse processo, destacando como certas vozes – particularmente de mulheres negras e trabalhadoras sexuais – foram historicamente marginalizadas.

Não à toa, a partir do contexto político recente houve uma expansão dos feminismos brasileiros na última década, em resposta ao avanço neoconservador e da extrema direita, criando novas formas de ativismo e produção de conhecimento. A popularização do feminismo entre jovens, impulsionada pelas redes digitais, e o fortalecimento de vertentes como o feminismo negro e transfeminismo representam transformações significativas no campo. Porém, Piscitelli observa que essa expansão também acirrou disputas internas, como as críticas radicais ao putafeminismo e às epistemologias trans. Em síntese, o texto se configura como uma importante reflexão sobre as possibilidades e limites de uma produção de conhecimento que busca articular crítica teórica, compromisso político e rigor antropológico.

Clotilde Proveyer Cervantes, em seu capítulo intitulado “La Sociología y los estudios de género en Cuba. Algunos apuntes sobre su institucionalización”, apresenta a invisibilização das teorias feministas no campo dos estudos Sociológicos Clássicos e a tendência a invisibilizar e criar barreiras às mulheres para justificar sua subordinação. Reflete e analisa como as teorias feministas refizeram as abordagens e seus métodos de interpretar e ensinar, criaram outros lugares reflexivos para questionar o cânone marcadamente masculino e, assim, aportar à Sociologia uma explicação estrutural da diferenciação sexual na sociedade. Deste modo, a autora desvela o caráter violento implícito no estatuto dos clássicos da teoria sociológica e mostra a necessária atividade crítica da desnaturalização.

Analisa as grandes dificuldades para o desenvolvimento dos campos reflexivos próprios da Sociologia em Cuba e o lugar ocupado pelas mulheres cubanas, particularmente no âmbito educativo, o que as converteu em força de trabalho inquestionável, sem desmontar a cultura patriarcal e sem vencer as desigualdades. Outro aspecto especialmente interessante de seu capítulo diz respeito às relações entre as pesquisas com perspectiva de gênero em Cuba e o seu desenvolvimento, em necessária conexão com a região da América Latina e dos Estados Unidos, bem como com a organização interna que resultou em cátedras de mulher nos Centros de Educação Superior do país, lideradas pela Federación de Mujeres Cubanas (FMC), sobretudo a partir dos anos 90. Apresenta os ganhos qualitativos mais recentes com a introdução dos estudos de gênero e teorias feministas nos estudos sociológicos, sobretudo no Departamento de Sociologia da Universidade de La Habana.

“Características e evolução da produção sobre mulheres negras nas últimas décadas”, de Julia Abdala, discute o feminismo negro brasileiro como um campo epistemológico e político fundamental para compreender as dinâmicas de gênero, raça e classe em nossa sociedade. De acordo com a autora, desde os anos 1970, intelectuais e ativistas como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Nilma Bentes, Sueli Carneiro entre outras tantas, articularam críticas pioneiras às estruturas de opressão, destacando a posição singular da mulher negra – subjugada pelo racismo, sexismo e exploração de classe. Suas análises, alguma delas produzidas fora da academia, anteciparam conceitos como interseccionalidade, tão em voga atualmente, demonstrando que as hierarquias sociais não operam de forma isolada, mas sim de forma histórica e articuladas.

Todavia, para Abdala, é com a institucionalização dos feminismos negros a partir dos anos de 1980, mesmo ainda de maneira um tanto tímida, que se deu a inserção de pautas antirracistas e feministas na agenda do Estado. É fato que tal processo gerou tensões entre diferentes vertentes dos ativismos. Enquanto organizações como Geledés e Criola consolidaram, por assim dizer, uma atuação política formalizada, as novas gerações de ativismos passaram a questionar essas estruturas. Isso porque, segundo afirmam as representantes dos ativismos, essa estrutura não privilegia formas horizontais de organização, como coletivos e ocupações culturais. Assim, a pluralidade trouxe à tona temas antes marginalizados, como afetividades, estética negra e direitos LGBTQI+, ampliando o escopo do feminismo negro.

O capítulo de Abdala para esta coletânea é uma excelente retomada histórica, política e epistêmica sobre os feminismos negros no Brasil. Ela nos apresenta de maneira crítica e analítica os legados, mas também os desafios que a produção acadêmica sobre mulheres negras ainda enfrenta. A tensão entre ativismo e academia revela disputas sobre legitimidade e autenticidade de atuação política e da produção de conhecimento de um movimento que precisa, a um só tempo, negociar sua inserção institucional sem perder seu caráter transformador. Dessa forma, para Abdala, o feminismo negro no Brasil não apenas desvela as contradições de uma sociedade marcadamente desigual, mas também aponta caminhos para a construção de epistemologias insurgentes, capazes de articular lutas locais e diálogos globais.

“Volviendo a Cuba, de la mano de los feminismos negros” de Rosa Campoalegre Septien, nos conduz ao debate traçando três eixos analíticos principais: primeiro, destaca uma compreensão multissituada da realidade cubana, assumida como ponto de partida a partir do lugar de enunciação das mulheres afrodescendentes, mas em diálogo com outras experiências de luta afrofeminista. Nesse sentido, a principal questão é a necessidade de interpretar novos contextos como premissa para a ação política sob o impacto da policrise. Em segundo lugar, aprofunda-se nos Feminismos Negros, avaliando suas chaves epistêmicas e políticas, desconstruindo abordagens. A autora estabelece outros pontos de vista sobre a periodização e a natureza dos Feminismos Negros, a partir de genealogias decoloniais e da epistemologia feminista antirracista.

Em terceiro lugar, a pesquisadora demonstra a tese central do artigo, a reconfiguração dos feminismos negros em Cuba, mostrando avanços e desafios da pesquisa. Mostra como esse processo complexo e contínuo se desenrola, com avanços, tensões e limitações identificados por meio de suas tendências dinâmicas. Esse panorama implica a articulação de novos objetivos e a atuação das mulheres afro-cubanas, tanto no país quanto no exterior. O foco está em mostrar como a reparação histórica, um paradigma emergente na luta contra o racismo é uma questão decisiva para a Segunda Década Internacional dos Afrodescendentes e transforma a agenda antirracista e, simultaneamente, fortalece a perspectiva afrofeminista.

A autora defende que olhar para o panorama global e focar nos Feminismos Negros não é apenas um exercício acadêmico; representa uma necessidade e um compromisso político que se tornou incontornável. No entanto, é um desafio devido à falta de informação, ao dinamismo do próprio processo, à marca da colonialidade de gênero e ao racismo sistêmico e estrutural. Para ela a reconfiguração dos Feminismos Negros em Cuba é um processo complexo e contínuo, que revela avanços, tensões e limitações. Esses feminismos não apenas crescem, mas se diversificam em diferentes áreas e esferas — especialmente comunitárias, acadêmicas e políticas — a partir da influência do movimento de mulheres negras/afrodescendentes em toda as regiões do mundo, mas particularmente no contexto dos estudos feministas negros e caribenhos conforme aponta Rosa CampoAlegre Septien na proposição do texto.

“Parede da memoria. Memoria de la esclavitud en el arte de Rosana Paulino desde el feminismo descolonial”, de Karina Bidaseca, apresenta os aspectos pós-coloniais e decoloniais do afrofeminismo no campo da arte e do artivismo. O capítulo trata da obra da artista afro-brasileira Rosana Paulino (São Paulo, 1994)8, que vive e trabalha em São Paulo. Ela é doutora em Artes Visuais e bacharel em Gravura pela Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP). A autora parte da discussão dos Feminismos na América Latina e do conceito de “Amefricanidade”, conceitos desenvolvidos pela filósofa e ativista feminista afro-brasileira Lélia González (González,1988)9 que para ela revelou a construção silenciada das mulheres negras na história oficial do Brasil, tendo influência decisiva nos estudos da América Latina e no Caribe e entre artistas afrodescendentes que hoje resgatam as memórias das mulheres afrofeministas na história.

Ao resgatar a vida e obra dessa artista brasileira, Karina nos convida a pensar na ancestralidade das comunidades afrodescendentes e afrofeministas, pois, segundo ela, a obra Parede da memória (1994), de Rosana Paulino, com as fotos de onze de seus ancestrais, fala da comunidade e da família da artista, organizada como jogo de memórias.

A contribuição desse artigo para a coletânea insere-se no resgate das mulheres brasileiras e latino americanas no recorte dos estudos afrofeministas e nos estudos pós-coloniais e decoloniais, mas também reinsere a trajetória das mulheres afrodescendentes na História do Brasil a partir do conceito de artivismo, um modo singular de pensar a arte e olhar a história das mulheres pretas na “Améfrica Ladina”.

“O campo de estudos sobre masculinidades e conexões com teorias feministas: seus desafios, problematizações e ações”, de Adriano Beiras e David Tiago Cardoso, analisa o caminho percorrido pelos estudos de masculinidades, contextualizando-os no Brasil e no Sul-global, e a partir de sua própria experiência como pesquisadores brasileiros. Apresentam problematizações e ações em conexões com as teorias feministas e pelas atividades do Núcleo Margens/UFSC. Os autores trazem para a reflexão as suas trajetórias da prática psicossocial, de pesquisa e de militância, bem como a experiência em conversas com autores e autoras para entender o processo de produção de masculinidades e de suas relações com as feminilidades. Dialogam com diferentes pesquisas e analisam sua própria prática mostrando como os estudos de masculinidades têm sido denominados de Estudos dos Homens; Estudos do Gênero dos Homens e das Masculinidades. Contemporaneamente, para além do consenso de que as masculinidades são construções sociais, lembram as importantes contribuições dos Estudos Queer. Aspectos particularmente relevantes são a atenção dada ao diálogo necessário entre estudos de masculinidades e teorias feministas e a reflexão suscitada pelo contexto latinoamericano, onde os autores se inserem, para problematizar os conceitos sobre masculinidades e os seus usos. Relevante para o contexto atual, além da reflexão dos processos já vividos, são os desdobramentos do texto, analisando os cuidados e alertas a respeito de que em “tempos de conservadorismo é preciso atentar-se que ao abordar masculinidades de forma plural, podemos cair em discursos cristalizadores, que podem ser usados para a perpetuação das violências contra as mulheres” em defesa de um Eu masculino essencializado e ocupante de posições conservadoras. Trata-se de um texto fundamental ao entendimento destes estudos que formam parte constitutiva das teorias de gênero e feministas.

Guacira Lopes Louro, no capítulo “Estudos de Gênero e de Sexualidade – uma trajetória no campo da Educação”, analisa as condições que possibilitaram a emergência do grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero, ligado ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEdu/UFRGS), no contexto do surgimento de tantos outros grupos no Brasil, ao longo dos anos 1980, especialmente na metade final daquela década. Analisa um contexto de grande conexão nacional a respeito de como esta área de conhecimento foi se constituindo. Mostra o processo vivido, desde os estudos da mulher até a complexidade envolvida com os estudos de gênero, no caso específico, sobre sexualidade e educação. Analisa aspectos das estratégias de inserção dos conteúdos na formação e como os estudos de mulheres tomaram a tarefa de tornar este sujeito visível em narrativas oficiais – da História, da Literatura, das Ciências, das Artes, e da Educação. Essas pesquisas foram produzidas num Programa de pós-graduação, comprometidas, portanto, com as exigências acadêmicas para dissertações de mestrado e as teses de doutorado. Tratava-se, igualmente, de uma conexão nacional e internacional, com centros de investigação acadêmicos ou independentes que já se firmavam como referência em vários países, como Estados Unidos, França, Alemanha, México, Espanha e Argentina. Seu texto analisa como o grupo de estudos se voltou para os estudos pós-estruturalistas e como a perspectiva de gênero se tornou, deste modo, vital para as atividades de pesquisa e os debates levados pelo grupo desde a década de 1990.

“Estudos de Gênero e Literaturas Diaspóricas: trajetórias pessoais e transculturais”, de Leila Assumpção Harris, apresenta, inicialmente, seu percurso como pesquisadora vinculada aos estudos de gênero. Sua trajetória revela, simultaneamente, o amadurecimento e a ampliação das discussões de gênero e da crítica feminista em literatura, mais especificamente, em literaturas anglófonas, numa generosa partilha de saberes.

É possível acompanhar como Leila Harris conduziu seus estudos em afluência, desdobrando-se em estudos de personagens femininas de narrativas, mergulhando nas produções pós-coloniais e investigando os atravessamentos que caracterizam a interseccionalidade. Os múltiplos diálogos que ela estabelece com pesquisadoras e pesquisadores trazem a riqueza do que ela chama de rede afetiva de pesquisa até chegar ao seu tema atual de investigação, qual seja a literatura caribenha produzida em língua inglesa.

Esse movimento realizado pelas suas discussões chega, então, à opacidade (Glissant) da cultura da região do Caribe, apontando para discussões que dialogam profundamente com o pensamento decolonial, seja em relação às questões estéticas da escrita caribenha, cujas práticas Leila descreve como marcadas por um “apagamento das fronteiras entre discurso literário e histórico, entre ficção e não-ficção”; mas também em relação a dar a conhecer escritoras e críticas literárias feministas que são sujeitos (não objetos) de suas investigações.

“Historiadoras das mulheres, das relações de gênero e dos feminismos. Uma reflexão sobre os caminhos da produção de professoras e pesquisadoras do Departamento de História da USP”, de Stella Maris Scatena Franco, visa refletir sobre as contribuições de historiadoras vinculadas ao Departamento de História da Universidade de São Paulo para a construção do campo da história das mulheres, das relações de gênero e dos feminismos no âmbito da pesquisa em História no Brasil. A autora lembra que a proposta do capítulo não é realizar um levantamento de nomes que pretenda dar conta de todas as pessoas envolvidas nessa construção, mas pretende destacar algumas trajetórias cujos trabalhos foram qualitativamente relevantes e que colaboraram para a difusão e desenvolvimento de estudos na área, como é o caso dos estudos das historiadoras Laima Mesgravi, Eni de Mesquita Samara e Maria Odila Leite da Silva Dias.

A historiadora parte da ideia de que alguns esforços individuais potencializaram a formação de historiadoras/es profissionais, e desse modo, tem contribuído para constituir um campo historiográfico. Para ela, as pesquisas dessas historiadoras, Mesgravis, Mesquita e Dias, foram responsáveis pela formação de uma “descendência” em linhas de pesquisa e investigações na área das História das mulheres e das relações de gênero. Segundo Stella Maris Scatena Franco, exatamente essas pesquisas em História realizadas nos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade de São Paulo “renderam frutos” na propagação dos estudos sobre mulheres, gênero e feminismos em outras universidades, em diferentes estados do Brasil.

Nesse sentido, a pesquisadora ressalta os trabalhos de orientação das professoras citadas, por exemplo, Eni de Mesquita Samara, que orientou trabalhos de pesquisadoras que se institucionalizaram em universidades do Norte e Sudeste, destacando a atuação de Maria Beatriz Nader, professora do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo. Para Franco, a ex-orientanda, de certo modo manteve essa “descendência” na área dos estudos das mulheres, constituindo uma segunda geração de doutoras/es que ocupam espaços na docência no ensino superior público. Maria Beatriz Nader atua como coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero (LEG), Universidade Federal do Espírito Santo e orienta trabalhos de pesquisa sobre mulheres, gênero, violência e feminicídio.

Outra trajetória destacada nesse capítulo é o da professora Maria Odila da Silva Dias. Para Stella, a historiadora orientou pessoas que se institucionalizaram como professoras em outras regiões do Brasil de modo que, muitas das suas orientandas se estabeleceram em outras universidades e foram aos poucos constituindo nesses espaços institucionais campos de estudos na área das relações de gênero. Interessante, sublinhar, as trajetórias de Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wolff, que se titularam nos anos de 1990 na USP, atuando como professoras do Departamento de História, do Programa de Pós-Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.

Para a pesquisadora, as historiadoras Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wolf desempenham papel fundamental na produção e divulgação das pesquisas no campo dos estudos de gênero, participando ativamente na organização do evento internacional Fazendo Gênero e pela Revista Estudos Feministas. Atualmente, tanto o evento, quanto a Revista são considerados polos centrais de discussão e atualização do tema em todo o país e na América Latina. Essas pesquisadoras, por sua vez, também orientam pesquisas de mestrado e de doutorado, formando pessoas, que por sua vez, tornaram-se também docentes e integrantes de programas de Pós-Graduação em diversas instituições do país.

Para finalizar o artigo, a historiadora lembra que ao percorrer as trajetórias das pesquisadoras vinculadas ao Departamento de História e ao Programas de Pós-Graduação em História Social e Econômica da USP é possível dizer, que as professoras não mantiveram (ou não desejaram) uma concentração integral e sistemática na área de pesquisa da história das mulheres, de gênero e dos feminismos. Para Stella, possivelmente essa “opção” pela descontinuidade dos trabalhos na área advém de uma tradição em se manter a diversidade no âmbito da pesquisa, refletindo também nos trabalhos formativos de orientações que se voltaram para outros temas de pesquisa histórica.

Yolanda de Paz Trueba apresenta o capítulo: “Políticas sociales y acciones femeninas: un recorrido historiográfico posible para pensar la relación público privado. Argentina, provincia de Buenos Aires, primeras décadas del siglo XX”. O capítulo oferece uma reflexão analítica de perspectiva histórica dos aportes de pesquisas que nutriram vários campos, tais como a História das mulheres, das instituições e do Estado. A autora transita pelas agências de grupos femininos e ou feministas que foram sensíveis à questão social, às questões das mulheres e da maternidade, entre o final do século XIX e o início do século XX. Seu capítulo propõe uma reflexão a respeito das diversas perspectivas de análise sobre aquele contexto e suas formas de intervenção assistencial. Uma primeira abordagem se detém a olhar o feminismo e a filantropia no início do século XX. A autora apresenta como aquelas mulheres tiveram um forte protagonismo em articulação com os feminismos argentinos do início do século XX e, conservadoras ou não, todas tiveram voz nos debates sobre a condição feminina. A autora também apresenta uma reflexão sobre as políticas públicas, em particular a forma de atuação envolvendo Estado, mulheres e instituições. Demonstra como os pronunciamentos de grupos femininos e feministas tratavam das situações que afetavam as mulheres, mas que não podem ser analisadas isoladamente da questão social. A questão social abrangia a complexidade de diferentes situações e grupos sociais, com várias interfaces, particularmente, como o Estado liberal, que desde o fim do século XIX se viu compelido a intervir para regular desigualdades e situações de conflito social. Em relação ao século XX a autora aborda o modo como o cuidado foi organizado na sociedade argentina desde as primeiras décadas do século XX, com as tarefas domésticas e de cuidado exercidas pelas mulheres, não participando publicamente da questão social. Sua reflexão nos conduz a pensarmos as relações entre o público e o privado para analisar o cuidado e a olharmos a história das mulheres pela perspectiva de gênero para estimular reflexões a respeito dos contextos envolvidos em trabalhos institucionalizados ou não. Mostra como as mulheres tiveram papel político ao tratar das ações dos feminismos argentinos do início do século XX. Independentemente de serem conservadoras ou não, todas participaram ativamente dos debates sociais e políticos a respeito da condição feminina na sociedade argentina.

Cristian Daniel Valdivieso Ojeda, Joyce Miranda Leão Martins e Cloves Luiz Pereira Oliveira em “Política de gênero e forças armadas na América Latina: resistências e mudanças”, apresentam uma reflexão sobre a presença de mulheres nas Forças Armadas na América Latina, ainda marcada por disparidades significativas. Tomando como ponto de partida para a discussão o caso do Equador, os autores mostram que, embora a política de gênero nas Forças Armadas equatorianas represente um avanço normativo alinhado à Constituição de 2008 – que consagrou o Estado plurinacional e intercultural –, sua implementação enfrenta resistências estruturais. A participação feminina não ultrapassa 5% do efetivo militar. De acordo com o que afirmam os autores, tais obstáculos derivam de um ethos militar historicamente patriarcal, que associa a figura do soldado a atributos masculinos e restringe as mulheres às funções consideradas “adequadas” ao seu gênero, como saúde e logística.

Nesse sentido, Ojeda, Martins e Oliveira sustentam que, apesar de a política promover formalmente a igualdade de oportunidades, sua abordagem permanece limitada por uma visão binária (homem/mulher). Assim, acaba por negligenciar outros marcadores da diferença como raça, classe e orientação sexual. Isso fica evidente em casos como o de Michael Arce, militar afro-equatoriano vítima de violência racial, e no de Homero Flor Freire, expulso por homossexualidade. Tais exemplos revelam que a discriminação nas Forças Armadas não se restringe ao gênero, mas se entrelaça com outras formas de opressão, exigindo uma abordagem mais complexa.

A contribuição deste capítulo está também em explicitar como a abordagem dos estudos feministas e de gênero destacam a necessidade de descolonizar as instituições militares, questionando não apenas quem é incluído, mas em quais termos essa inclusão ocorre. Com isso, a análise evidencia que a democratização das Forças Armadas exige mais do que reformas legais, demanda a transformação de culturas institucionais arraigadas e a adoção de perspectivas interseccionais. Enquanto a política de gênero equatoriana simboliza um passo importante, sua efetividade permanece condicionada à superação de barreiras simbólicas e materiais que perpetuam hierarquias excludentes.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!

  1. Doutora em História pela UNICAMP, com dois pós-doutorados em História realizados na Casa de Oswaldo Cruz (2005) e na Universidade Federal Fluminense (2015). É professora titular do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná. ↩︎
  2. Graduada em História pela Universidade Federal do Paraná (1996), mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp (2001) e doutora em Educação pela Universidad San Lorenzo (2021). ↩︎
  3. Mestre em Antropologia Social e Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP. Realizou Pós-Doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Unifesp. Atualmente é Professor Adjunto do Departamento de Sociologia, do Programa de Pós-graduação em Sociologia e do Mestrado Profissional em Sociologia da UFPR. ↩︎
  4. Professora titular aposentada (em julho de 2022) do Departamento de Sociologia da UFPR. Tem experiência de ensino na área de sociologia clássica e contemporânea, metodologia da pesquisa e epistemologia no curso de graduação em Ciências Sociais e na pós-gradua ção de Sociologia da Universidade Federal do Paraná. ↩︎
  5. O mundo quase foi conquistado por essa besta. As nações o colocaram em seu devido lugar. Mas não se alegrem tão cedo com a sua fuga. O útero de onde ele saiu ainda está firme e forte. ↩︎
  6. KÓVATS, Eszter; PÕIM, Maari. Gender as symbolic glue. The position and role of conservative and far right parties in the anti-gender mobilizations in Europe. Budapest: Foundation for European Progressive Studies, 2015; CORRÊA, Sonia. Gender Ideology: tracking its origins and meanings in current gender politics. Disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/gender/2017/12/11/gender-ideology-tracking-its-origins-and-meanings-in-current-gender-politcs/ . Acesso em: 20.jul.2025. ↩︎
  7. Tampouco estamos considerando a expressiva produção acadêmica de pessoas ligadas ao NEG, mas que são de outras instituições do Paraná e de outros estados. Levando em conta a produção de pesquisadoras e pesquisadores externos à UFPR, o número de orientações realizadas na graduação e na pós-graduação cresce exponencialmente. O mesmo se pode afirmar para a nucleação, a interiorização e a formação de novas redes de pesquisa de cada pesquisadora e pesquisador vinculada/o ao NEG, presentes em diferentes Estados e regiões do país. ↩︎
  8. PAULINO, Rosana. Parede da memória. Acervo da Pinacoteca de São Paulo, São Paulo: 1994. ↩︎
  9. GONZÁLEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro,1988 a, p. 92-93. ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

Direitos em Disputa

Leia em PDF
Outras edições

| Leia também

Loading...
Sem categoria
boletimluanova
27 de março de 2026

Entre o Símbolo e a Política: A Vitória da Venezuela sobre os EUA no Mundial de Beisebol

Sem categoria
boletimluanova
26 de março de 2026

50 anos do golpe militar na Argentina: o que ainda move o interesse pelo tema?

Sem categoria
boletimluanova
25 de março de 2026

O momento Bardella: crise política e a extrema-direita francesa

Todos os direitos reservados ® 2026

  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
  • Periódicos CEDEC
  • CEDEC
  • Início
  • Colunas
  • Periódicos CEDEC
  • CEDEC

Contato

boletimluanova@cedec.org.br

boletimluanova@gmail.com

Twitter Facebook-f Instagram Youtube

Criação de site por UpSites