Arthur Alcântara1
3 de abril de 2026
Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Arthur Alcântara sobre a normalizações do improvável durante o governo Trump 2.0. O texto foi originalmente publicado em 25 de março de 2026, no site do OPEU.
***
A convicção de que algo é impossível é, paradoxalmente, muitas vezes o primeiro passo para que ela aconteça.
Em que momento uma democracia deixa de ser apenas polarizada, disfuncional ou conflitiva e passa a operar segundo uma lógica autoritária? É preciso que a Constituição seja formalmente suspensa? Que eleições sejam abolidas? Que a repressão se torne aberta e indisfarçada? Ou o ponto de inflexão ocorre antes, quando a política deixa de disputar interpretações da realidade e passa a disputar o que é realidade?
Essas perguntas não são novas. Em 1935, em meio à ascensão dos fascismos europeus, It Can’t Happen Here (Doubleday, Doran and Company), de Sinclair Lewis, imaginou um cenário desconcertante: um líder populista é eleito presidente dos Estados Unidos, prometendo restaurar a grandeza nacional, simplificar a política e falar diretamente “ao povo”. Nada de golpe clássico. Nada de ruptura imediata. As instituições permanecem de pé. O Congresso continua funcionando. A imprensa segue publicando. E, ainda assim, algo começa a se deslocar.
O título do romance carrega a convicção confortável das democracias consolidadas: “isso não pode acontecer aqui”. Lewis não descreve o totalitarismo plenamente instaurado. Ele dramatiza o momento anterior: aquele em que a normalidade institucional convive com a erosão silenciosa das bases que a sustentam. O que muda, inicialmente, não é a forma da Constituição ou da própria democracia, mas o significado prático de seus limites.
Seria nesse intervalo que a distopia começa? Estariam os Estados Unidos nesse intervalo?
Talvez o maior perigo esteja justamente na incapacidade de imaginar que ela possa começar ou de reconhecer que talvez já tenha começado. A pergunta central hoje não é os Estados Unidos vivem sob um regime totalitário nos termos clássicos. A questão mais inquietante é outra: sabemos nós identificar quando a democracia começa a morrer?
É nesse espaço – entre instituições ainda funcionando e significados gradualmente esvaziados – que a imaginação distópica deixa de ser ficção distante e se torna, possivelmente, ferramenta para olhar o mundo real.
O que um livro escrito há mais de 90 anos pode nos ensinar sobre esse momento? O que pode nos ensinar – com base em uma sequência imprescindível de coincidências – sobre o presente político dos Estados Unidos e do mundo?
Uma distopia “democrática”
Em uma versão ficcional dos Estados Unidos dos anos 1930, It Can’t Happen Here (Não vai acontecer aqui, publicado pela Cia das Letras, 2017) imagina a eleição de um presidente populista, Berzelius “Buzz” Windrip. Vencendo Franklin D. Roosevelt nas primárias pelo Partido Democrata, Windrip se posiciona como um defensor dos chamados “Forgotten Men” – os “homens esquecidos” – e dos valores tradicionais americanos na corrida presidencial. Sua promessa é simples e apelativa: restaurar a grandeza e a prosperidade nacional, combater elites corruptas e devolver o poder ao povo comum.
A expressão não era casual. Nos Estados Unidos dos anos 1930, o termo “Forgotten Man” circulava amplamente no debate público e era mobilizado por diferentes correntes políticas para se referir àqueles que se sentiam abandonados pelo governo, em meio à Grande Depressão e às transformações sociais da época. No romance, Windrip transforma essa categoria em base de mobilização política: trabalhadores empobrecidos, pequenos proprietários rurais, setores da classe média em declínio e cidadãos que se percebem excluídos das decisões políticas passam a ser apresentados como o verdadeiro “povo americano”.
Sua campanha é marcada por slogans simples e soluções rápidas para problemas complexos. Windrip mistura promessas econômicas ambiciosas com retórica nacionalista e com a construção de inimigos internos responsáveis pelos problemas do país. Minorias, estrangeiros, intelectuais e opositores políticos passam a ser retratados como os responsáveis pela decadência do país.
Em um de seus comícios, o candidato promete lidar duramente com o México, acusado de odiar os Estados Unidos, e punir banqueiros judeus por terem levado o país à crise econômica. Seu Manifesto de Quinze Pontos defende a prisão ou mesmo a pena de morte para qualquer pessoa que promova o comunismo. Propõe, ainda, reconhecer os judeus como “plenamente americanizados”, desde que apoiem os ideais nacionais.
É nesse momento – ainda na campanha – que o autoritarismo primeiro se torna visível no romance de Sinclair Lewis.
Por meio de uma combinação de carisma, retórica agressiva e manipulação política, Windrip vence a eleição presidencial, enquanto parte da elite liberal observa com apreensão, mas também com incredulidade. A verdadeira transformação começa, no entanto, após sua posse.
Uma vez na Casa Branca, uma de suas primeiras medidas é declarar o Congresso um órgão meramente “consultivo”, esvaziando sua influência e poder real. Quando parlamentares resistem, vários deles são presos, sem qualquer garantia do devido processo legal. A partir daí, o país entra em um processo acelerado de degradação institucional.
O governo reorganiza o país em setores administrativos controlados por autoridades leais ao presidente, geralmente empresários aliados ou oficiais de milícias. Esses setores substituem a autonomia protegida dos estados federados. Entre as novas instituições, está a criação dos Minutemen, uma força paramilitar encarregada de manter a ordem e aplicar as políticas do regime. Na prática, essas milícsias passam a intimidar cidadãos, atacar manifestantes e perseguir opositores políticos. Protestos são reprimidos com violência, e críticos do governo, enviados para campos de detenção, para depois serem julgados por “tribunais de fachada” (kangaroo courts), onde juízes militares têm o controle sobre a aplicação das leis.
Ao mesmo passo, o governo restringe direitos de minorias: negros são impedidos de votar, ocupar cargos públicos ou exercer profissões como medicina ou advocacia. Mulheres também veem seus direitos progressivamente restringidos. Muitos americanos fogem para o Canadá para escapar da repressão.
E, ainda assim, algo chama atenção na forma como tudo acontece.
Nada disso, à primeira vista, parece incompatível com o funcionamento de uma democracia.
E é, justamente esse, o ponto central do romance.
Windrip não chega ao poder por meio de um golpe. Ele vence eleições. O Congresso continua existindo. A imprensa não é imediatamente fechada (apesar de, já desde início, ser amplamente atacada). A Constituição não desaparece de um dia para o outro. O que muda, inicialmente, não é a forma do regime, mas a forma como ele passa a operar dentro dos limites estabelecidos.
A força do romance está em mostrar que o autoritarismo não precisa se anunciar como tal. Ele pode se instalar por meio da normalização: pequenas concessões, silêncios estratégicos, justificativas pragmáticas. Cada passo isolado parece insuficiente para caracterizar uma ruptura. Apenas retrospectivamente se torna claro que o conjunto dessas decisões produziu uma transformação profunda do regime político.
É justamente esse problema que estrutura o romance de Sinclair Lewis e que aproxima sua narrativa de uma reflexão clássica sobre a fragilidade das democracias modernas.
A normalização da exceção
Um dos aspectos mais inquietantes do romance de Sinclair Lewis não está apenas nas medidas autoritárias adotadas por Windrip, mas na forma como elas são inicialmente percebidas ou, mais precisamente, na dificuldade de percebê-las como parte de uma transformação mais profunda.
Com uma mistura de ceticismo, ironia e excesso de confiança, ao longo do romance, Lewis explora como o povo demora a reconhecer a natureza do regime que se forma diante deles. Elites políticas e econômicas subestimam o novo presidente, convencidas de que as instituições “darão conta” de qualquer exagero. A imprensa hesita entre a desconfiança e a acomodação. Muitos acreditam que as instituições americanas são fortes demais para permitir uma ruptura real. Outros preferem interpretar as declarações mais radicais do presidente como exageros retóricos, típicos de campanhas eleitorais.
A maioria dos americanos passa a aceitar essas medidas como sacrifícios necessários para restaurar a ordem e a prosperidade nacional. A repressão de repente aparece como custo inevitável da estabilidade, e a concentração de poder na figura do presidente, como resposta necessária para conter a crise. A violência não aparece como política oficial desde o início, ela se infiltra como prática tolerada.
A exceção é apresentada como necessidade, e o extraordinário começa a parecer administrável.
Essa reação desenhada pelo escritor ecoa uma observação recorrente nas análises de Hannah Arendt (Origens do totalitarismo, Companhia das Letras, 2013): processos autoritários raramente se apresentam imediatamente como tal, e há uma dificuldade inerente de reconhecê-los quando ainda estão em curso.
Em vez de destruir de forma abrupta as instituições existentes, líderes autoritários frequentemente operam por dentro delas, explorando suas fragilidades, ambiguidades legais, expandindo os poderes do Executivo e testando gradualmente os limites da tolerância social. Cada medida isolada, ao momento, parece excepcional, provisória ou justificável.
O resultado é um processo, no qual a ruptura política não aparece imediatamente como ruptura. As instituições continuam formalmente presentes, as eleições seguem ocorrendo, e muitos dos rituais da vida democrática permanecem intactos. O que se altera, progressivamente, é o modo como essas instituições passam a funcionar.
Windrip não destrói a ordem constitucional de uma só vez. Em vez disso, ele a esvazia gradualmente. O Congresso continua existindo, mas perde sua capacidade de limitar o Executivo. Tribunais continuam operando, mas passam a julgar opositores em processos controlados politicamente. A imprensa não desaparece de forma imediatamente, mas passa a operar sob intimidação constante.
É nesse espaço intermediário – entre democracia formal e autoritarismo não declarado – que a transformação do regime se torna mais difícil de reconhecer. O autoritarismo não se instala apenas quando as regras são abolidas, mas quando as normas deixam de orientar o comportamento político e passam a ser manipuladas pelo próprio poder que deveriam restringir.
It can’t happen here passa a ser menos uma afirmação de segurança institucional dos Estados Unidos e mais um sintoma de incredulidade do seu povo. E mostra a tendência de sociedades consolidadas de subestimarem processos de erosão institucional porque simplesmente não conseguem imaginá-los acontecendo ali.
“A hipocrisia interna tende a produzir formas igualmente internas de autoritarismo” – Herbert Mitgang, ao analisar a obra de Sinclair Lewis em editorial do The New York Times, em 1973
Paralelos inegáveis
Quando começou a escrever, em 1935, Sinclair Lewis reagia a um contexto político muito específico. A Europa assistia à consolidação do regime de Adolf Hitler na Alemanha e ao fascismo já consolidado na Itália, enquanto nos Estados Unidos surgiam movimentos populistas e demagógicos que levantavam dúvidas sobre a estabilidade das instituições democráticas no pós-crise.
Parte dessa preocupação estava ligada a figuras como o senador da Louisiana Huey Long, cuja retórica populista e ambições presidenciais despertavam temores de que uma liderança autoritária pudesse emergir dentro da própria política americana. Ao mesmo tempo, na rádio CBS, o padre Charles Coughlin mobilizava milhões de ouvintes com discursos nacionalistas, conspiratórios e frequentemente antissemitas.
Essas influências aparecem claramente no romance. O personagem de Windrip é frequentemente associado ao senador Huey Long, cuja retórica populista mobilizava o “americano comum” contra elites políticas e econômicas. Candidato potencial à Presidência contra Franklin D. Roosevelt em 1936, Long defendia o programa redistributivo Share Our Wealth, que prometia cinco mil dólares para cada família – essa proposta foi incorporada por Lewis na plataforma de Windrip.
O sucesso imediato do livro reflete esse contexto. Publicado em outubro de 1935, poucos meses após o assassinato de Long, o romance vendeu centenas de milhares de exemplares e foi amplamente lido como um alerta contra a possibilidade de uma deriva autoritária nos Estados Unidos. Muitos críticos atribuem o sucesso de It Can’t Happen Here menos a seus méritos literários do que ao clima político da época. Considerado por alguns um “vigoroso panfleto antifascista”, o romance ganhou leitores, sobretudo, por capturar um temor difuso: o de que os EUA, como a Europa naquele momento, também pudessem revelar forças autoritárias latentes. Uma sensação de urgência semelhante ajuda a explicar o renovado interesse pela obra hoje.
Noventa anos depois, a obra ressurgiu, em um novo contexto de polarização política, como uma analogia à ascensão política de Donald Trump. Ainda em setembro de 2015, Malcolm Harrys já sugeria que a possível candidatura de Trump ecoava paralelos com a obra. Comparações semelhantes ganharam maior destaque em 2016, com os artigos de Carlos Louzada para o jornal The Washigton Post e, alguns meses depois, Jules Stewart, no britânico The Guardian. Em 2017, tornou-se um artigo na Terrorism and Political Violence.
Apesar das ênfases distintas, essas análises destacavam afinidades no estilo político e na retórica populista de ambos os políticos: a mobilização do “americano comum”, a construção de inimigos internos e o uso de uma linguagem nacionalista e polarizadora como forma de canalizar frustrações sociais e projetar uma promessa de restauração nacional.
Após o resultado da eleição presidencial de 2016, o interesse pelo romance cresceu significativamente. As vendas do livro aumentaram, colocando-o entre os mais vendidos da Amazon, enquanto uma nova edição da Penguin Modern Classics foi lançada em 20 de janeiro de 2017, no mesmo dia da posse de Trump.
Agora, em 2025, com Trump em seu segundo mandato, comparações podem ser ainda mais latentes. No romance, Windrip é descrito como um orador “vulgar, quase iletrado, um mentiroso público fácil de perceber”, “que dá péssimos discursos”, cujas ideias são “quase idiotas”. Não obstante, é dotado de uma “capacidade notável de mobilizar grandes plateias e convencê-las de que está revelando verdades ocultas sobre o funcionamento da política”.
“Mas, debaixo desta encenação superficial, havia a sua invulgar capacidade de ficar realmente excitado com e pela sua audiência, bem como está com e por ele. Conseguia dramatizar a sua asserção de que não era nazi nem fascista, mas sim um democrata – um democrata jeffersoniano-lincolniano-clevelandiano-wilsoniano de gema – e (sem cenário nem figurino) fazer com que os outros o vissem como verdadeiro defensor do Capitólio perante as hordas de bárbaros, embora como suas invenções democráticas apresentasse inocentemente todas as loucuras antilibertárias e antissemitas da Europa. Para além desta glória teatral, Buzz Windrip era um simples cidadão. E era até bastante vulgar. Tinha preconceitos e aspirações comuns a todos os americanos… e na superioridade de quem quer que possuísse um milhão de dólares. Encarava … poesia não publicada diariamente nos jornais e todos os estrangeiros, excetuando eventualmente os britânicos, como degenerados”.
Assim como Trump tem A Arte da Negociação (Citadel Editora, 2017), Windrip tem seu ghostwritten best-seller, Zero Hour-Over the Top, um livro que mistura autobiografia, programa econômico e exaltação pessoal e que se torna leitura obrigatória entre seus seguidores:
“… Porque o amor e o patriotismo foram os únicos princípios que me guiavam na Política. A minha primeira ambição é conseguir fazer com que os americanos tomem consciência de que são, e devem continuar a ser, a maior raça ao cimo desta velha Terra“.
No romance, a campanha de Windrip é arquitetada por Lee Sarason, um operador político que compreende a comunicação não como transmissão de informação, mas como instrumento de mobilização emocional e manipulação. É ele quem redige o manifesto do candidato e defende, explicitamente, que o público não deve ser confrontado com “todos os fatos”, pois “a política eficaz depende antes da construção de narrativas simples e emocionalmente mobilizadoras”. Analistas contemporâneos frequentemente identificaram nesse personagem um paralelo com Steve Bannon, estrategista central na campanha de 2016 de Trump, destacando o papel de mediadores políticos capazes de transformar ressentimentos difusos em mensagens ideológicas coerentes.
À luz do segundo mandato, novas analogias podem surgir no imaginário de leitor.
A autoridade dada à milícia governamental, Minutemen, pode ser colocada a pé de comparação com a centralidade assumida recentemente por estruturas de enforcement quase que para-governamentais, como no caso do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).
O esvaziamento decisório do Congresso no romance ecoa debates urgentes acerca da crescente concentração de poder no Executivo e sobre a virtual subordinação do Legislativo observada, principalmente, durante o segundo governo Trump.
No plano do Judiciário, o romance dá sinais de como a preservação da formalidade e da estrutura institucional pode coexistir com o enfraquecimento real de sua autoridade e legitimidade. A estrutura permanece intacta, mas seu poder simbólico e sua capacidade de impor limites efetivos ao governo são progressivamente corroídos e questionados.
No romance, a consolidação do regime de Windrip é acompanhada pela incorporação de empresários e aliados econômicos à estrutura de governo, borrando as fronteiras entre poder público e interesses privados. Não por acaso, tão atuais quanto recorrentes são os debates sobre a presença e a influência de grandes empresários e figuras do mundo corporativo na administração de Trump.
As aspirações expansionistas aventadas por Trump em relação à Groelândia e, mais timidamente, ao Canadá, contrastam, em grau e forma, com a dinâmica mais abertamente militarizada de Windrip, que ordena a invasão do México.
Por mais que gostemos de projetar nossas experiências reais em personagens fictícios, é importante lembrar que Donald Trump não é Buzz Windrip. Apesar das semelhanças retóricas e estilísticas facilmente apontadas, o primeiro é um republicano do século XXI, e o segundo, um democrata da década de 1930. Windrip tem uma plataforma de redistribuição maciça de renda; Trump, ao contrário, tem uma agenda neoliberal forte. Windrip é um senador de carreira que emerge do próprio establishment político, enquanto Trump chega à Presidência como outsider, vindo do mundo empresarial e da celebridade midiática.
Ainda assim, tal como Windrip, Trump construiu parte importante de sua base política mobilizando trabalhadores brancos que se percebem ignorados pelas elites políticas e culturais, vendendo-se como champion of Forgotten Men, “determinado a trazer dignidade e prosperidade de volta à classe trabalhadora branca dos Estados Unidos”.
A política do regime Windrip e a retórica de Trump exploram exatamente a mesma lógica: oferecer pertencimento e status simbólico a setores frustrados da população, ao mesmo tempo em que definem novos alvos de exclusão. No romance, um apoiador de Windrip se apresenta como um “trabalhador comum” entre milhões que finalmente teriam encontrado um líder disposto a defender seus interesses. O apelo de Trump para a base eleitoral branca decorre, em parte, de sugerir que os liberais “mimaram minorias”.
A plataforma dos dois explora discursos identitários, xenófobos, sexistas e desdenhosos do estado de direito – uma combinação que lhes permitem mobilizar ressentimentos raciais e sociais, sugerindo que a perda de status desses grupos estaria ligada à ascensão de minorias e ao favorecimento político de setores considerados “externos” à comunidade nacional. Isso o próprio protagonista percebe: “uma vez que não há nada de mais edificante para um agricultor expropriado ou um operário no desemprego do que ter alguma raça, qualquer que seja, para a qual possa olhar de cima”.
“Substitua ‘muçulmano’ por ‘comunista’ e ‘hispânico’ por ‘judeu’, e surge um retrato desconfortável do que está acontecendo hoje nos Estados Unidos” – Jules Stewart
O que realmente importa
Enquanto um número imprescindível de coincidências pode ser observado entre Trump e Windrip, fato é que a narrativa de Sinclair Lewis enfatiza menos a figura individual do líder do que a combinação entre demagogia, passividade popular e erosão gradual das normas democráticas.
A história sequer acompanha o ditador, mas sim Doremus Jessup, editor de um pequeno jornal de Vermont, que observa com crescente inquietação a transformação do país. Em determinado momento, ele reconhece que a ascensão da ditadura não pode ser atribuída apenas às elites econômicas ou aos demagogos que chegaram ao poder. A responsabilidade, admite ele, também recai sobre cidadãos comuns que preferiram não reagir, enquanto ainda havia tempo.
“A responsabilidade por esta ditadura tirana não cabe ao Grande Capital, nem aos demagogos que fazem o seu trabalho sujo. Cabe inteiramente a mim, Doremus Jessup! E a todos os Doremus Jessup conscientes, respeitáveis e indolentes que deixaram que os demagogos tomassem o controlo, sem assumirem um protesto suficientemente vigoroso”.
Em sua análise dos regimes totalitários, Arendt enfatiza que a erosão da liberdade política não depende apenas da ação de líderes autoritários, mas também da desmobilização cívica e da normalização gradual de práticas que corroem as bases normativas do regime. Essa talvez seja a lição implícita em It Can’t Happen Here: que processos de erosão democrática só se tornam possíveis quando amplos setores da sociedade deixam de reagir, enquanto ainda dispõem de meios institucionais para fazê-lo.
Lewis não nos oferece uma profecia de Trump, tampouco um manual de como lidar com ele. O que nos oferece é uma alegoria distópica, incrivelmente convergente no contexto atual, para pensar em como democracias podem internalizar lógicas que corroem seus próprios pilares.
Não por acaso, o romance de Lewis já havia sido utilizado antes para alertar sobre os perigos da censura no contexto do escândalo de Watergate, bem como descrever a “ameaça autoritária” na Presidência de George W. Bush. À época, paralelos diferentes foram traçados e, por consequência, lições diferentes foram tiradas.
Como coloca Beverly Cage, no artigo “Reading the Classic Novel that Predicted Trump”, publicado no jornal The New York Times, ainda antes de Trump tomar posse: “em 1935, Sinclair Lewis estava tentando prevenir o impensável – a eleição de um candidato pseudofascista à Presidência dos Estados Unidos. Os leitores atuais, em contraste, recorrem ao romance, tentando compreender as implicações de um fato já consumado”.
No nosso caso, estamos no terceiro ato da distopia, tentando aplicar o que a obra pode ter de útil como um guia para o presente, para esse intervalo particularmente determinante para o futuro político dos Estados Unidos, mas, sobretudo, como uma valiosa reflexão sobre como as democracias morrem e são mortas, silenciosamente, por dentro.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referência imagética
Crédito: Ferramenta baseada em GPT, criada de forma independente; não afiliada nem oficialmente recomendada pela OpenAI.
- Mestrando no Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Contato: arthur.f.alcantara@gmail.com. ↩︎



