Clarissa Nascimento Forner1
17 de abril de 2026
Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Clarissa Nascimento Forner da relação de Donald J. Trump com o alto escalão militar dos Estados Unidos. O texto foi originalmente publicado em 9 de abril de 2026, no site do OPEU.
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A escalada da guerra no Irã foi acompanhada pelo acirramento de outro conjunto de tensões: o processo de aprofundamento da deterioração das relações entre o governo Trump e o alto escalão militar. No episódio mais recente de uma série de eventos que já se somatizam desde o primeiro mandato trumpista, o chefe do Estado-Maior do Exército, Randy George, foi removido do posto sob recomendação do atual secretário da Guerra Pete Hegseth, cargo para o qual o general havia sido indicado durante a gestão de Joe Biden (2021-2025) e cuja validade estava prevista até 2027. Embora as causas oficiais da remoção não tenham sido detalhadas pela administração, a demissão foi seguida por demonstrações de apoio ao general na comunidade militar e por uma dura mensagem de despedida do próprio ex-comandante, circulada nos jornais e nas redes, afirmando que a instituição militar precisava de “líderes de caráter”.
O tom do recado suscitou associações ao discurso de aposentadoria de outro militar, o então comandante do Estado-Maior conjunto, Mark Milley, ao afirmar, em 2023, que as forças armadas são leais à Constituição, e não a “reis, rainhas e aspirantes a ditadores”. Assim como George, Milley também esteve no centro de polêmicas, envolvendo Trump e as forças armadas, ao ser visto caminhando ao lado do presidente na Praça Lafayette Square durante o auge da repressão interna às manifestações do grupo Black Lives Matter, em 2020.
No cenário atual, além de Randy George, outros dois oficiais de alta patente foram removidos de seus postos: o general David Hodne (Comando de Transformação e Treinamento do Exército dos EUA) e o general William Green Jr., encarregado das capelanias do Exército e o terceiro oficial afro-americano a ocupar o cargo. Em comum, os três generais compartilhavam entre si a proximidade com o secretário do Exército, Dan Driscoll, apontado pelos veículos de informação e analistas como uma espécie de “nêmesis” e contraponto a Hegseth dentro do departamento. Em consequência, estes eventos reforçaram as perspectivas que ressaltam a tendência à crescente politização militar, também observada nas duas gestões Trump.
O governo Trump 2.0 e a reformulação do aparato militar
Os conflitos descritos anteriormente têm sido acompanhados por uma reformulação de larga escala da burocracia de defesa, que envolve desde a renomeação (não oficializada) do “Departamento de Defesa” para “Departamento da Guerra” até a eliminação sistemática das políticas de diversidade e inclusão (DEI, na sigla em inglês). Estas últimas foram observadas em interferências do secretário da Guerra nos processos de promoção nas cadeias de comando, no reavivamento do banimento a oficiais transgênero e na demissão de uma dezena de militares do alto escalão, incluindo figuras femininas e oficiais afro-americanos. Os referidos desligamentos suscitaram questionamentos sobre possíveis motivações por discriminação de gênero e raça.
Em outro evento emblemático deste processo, o secretário de Guerra e o presidente Trump pronunciamentos para um conjunto de oficiais na base de Quântico, na Virgínia, em outubro de 2025. Em suas falas, ressaltaram a necessidade de resgate do “espírito de guerreiro” das tropas e dos processos de “promoção por mérito” – em contraponto ao que Hegseth descreveu como a suposta infiltração da “agenda woke” no aparato militar. Também foram defendidas reformulações na educação militar, particularmente, no que se refere ao ensino de história, visando ao apagamento de debates sobre o racismo nos manuais internos. Trump ainda aventou a possibilidade de que cidades norte-americanas fossem utilizadas como “campos de treinamento” para as forças armadas, contrariando o princípio Posse Comitatus Act, vigente desde o século XIX, e que restringe o emprego interno de militares.
A retórica foi acompanhada pelo anúncio de um aumento sem precedentes do orçamento militar para US$ 1,5 trilhão sob a proposta de modernização da base industrial de defesa e construção de uma “economia de guerra”. A proposta orçamentária ainda precisa passar pela apreciação no Congresso, mas seu conteúdo confirma a orientação militarista da administração, reforçada após a deflagração das intervenções na Venezuela e no Irã.
O militarismo como forma de organização social e política na era Trump
As referidas mudanças não devem ser lidas como contradições ou fenômenos isolados, mas como elementos constitutivos do trumpismo, que, dentre outras características, reafirma o militarismo como forma de organização interna/externa do aparato militar e da sociedade. Aqui, conforme as reflexões de Eastwood (2018), compreendemos o militarismo como um conjunto de ideologias e práticas que culminam na sobrevalorização das ideias e comportamentos associados ao modo de vida e à organização militar – por exemplo, a valorização às hierarquias, o belicismo e a mobilização constante para o conflito – como socialmente desejáveis e necessários à reprodução do ordenamento social.
Trata-se, portanto, de um conjunto de práticas que colocam a violência, em suas múltiplas formas, no centro da organização da vida em sociedade, e que transbordam para a sustentação de padrões excludentes, como o culto à masculinidade heteronormativa e à branquitude. No caso da segunda administração Trump, soma-se a este conjunto de características o forte componente religioso, mobilizado com frequência por Hegseth e por figuras do gabinete presidencial como justificativa para a guerra contra o Irã.
Parece sintomático, nesse sentido, que, apesar das fragmentações internas, o aumento do emprego interno e externo das forças militares continue recebendo apoio entre os grupos trumpistas.
Nessas esferas, as demonstrações de primazia pela força, propagadas por figuras como Trump e Hegseth, são frequentemente vistas como expressões de poder legítimas, enquanto a organização militar é percebida como um “espelho” para o funcionamento da sociedade, o que também pode ser ilustrado pelas campanhas de mobilização e recrutamento interno de agências de segurança como o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos EUA (ICE, na sigla em inglês). Os anúncios têm sido permeados pela exaltação de símbolos militares, como os uniformes, o porte de armamentos e a valorização de referenciais de masculinidade heteronormativa e da branquitude (ver figura à dir.).
Como já argumentamos em outros espaços, o militarismo não é inédito ao contexto do trumpismo, mas se intensifica como estratégia de mobilização e projeção política da extrema direita norte-americana.
O papel dos militares e a narrativa da “crise” nas relações cívico-militares
Por um lado, a reprodução do militarismo não decorre, necessária e unicamente, do aumento do protagonismo político das forças armadas. Ela envolve, também, sua legitimação nas esferas sociais mais amplas e nos espaços de formulação política. Além disso, o militarismo incide sobre a própria instituição militar, moldando seu funcionamento e os comportamentos dos indivíduos que a compõem. Por outro, a instituição militar não deve ser vista como um monolito, e sua agência política não deve ser subestimada.
Historicamente, as relações entre as forças armadas e o trumpismo têm sido caracterizadas por ambivalências e por uma espécie de “casamento por conveniências”, a despeito do aumento das manifestações recentes mais críticas às medidas implementadas pela segunda administração. Os processos eleitorais que levaram Trump à Presidência, em 2016 e 2024, foram marcados por manifestações de apoio explícitas e pesquisas de opinião que mostrava uma maior inclinação, sobretudo, entre veteranos das forças armadas, para o candidato republicano, em detrimento de Hillary Clinton e Kamala Harris, respectivamente. Pesquisas realizadas durante o primeiro mandato sugerem que o apoio sofreu reduções, especialmente entre militares da ativa, durante o governo, tendência que parece se repetir agora. Em contrapartida, as duas gestões Trump trouxeram ampliações orçamentárias e benefícios ao setor militar. Um exemplo importante, neste quesito, foi a extensão recente dos benefícios e equivalência salarial das tropas da ativa aos efetivos da Guarda Nacional.
Por estes motivos, a leitura sobre a “crise” nas relações civis-militares, amplamente reforçada em veículos de imprensa e análises acadêmicas sobre os governos Trump (Binkley, 2022), também precisa ser complexificada e problematizada em termos de seus pressupostos e efeitos.
Exemplo e boas práticas
Em primeiro lugar, a pressuposição de que há uma crise em curso parece estar assentada em um entendimento anterior, bastante tradicional na literatura do campo das relações civis-militares, que considera os EUA como um modelo exemplar e “estabilizado” de relações civis-militares. Neste quadro, o trumpismo é, em geral, apresentado como uma “ruptura” ou “desvio” do modelo vigente.
Em nossa interpretação, esta compreensão se mostra incompleta não apenas porque não reflete o histórico do crescente impacto do aparato militar na política e na sociedade estadunidenses – inclusive sob o ponto de vista decisório –, mas também porque reforça uma narrativa “sanitizada”, conforme caracterizada por Andrew Bacevich no capítulo “Elusive bargain: The pattern of US civil-military relations since World War II” (The Long War: A New History of U.S. National Security Policy since World War II, Columbia University Press, 2007) dessas relações. Ainda segundo o autor, esta narrativa tem sido instrumental, domesticamente, para a continuidade da expansão do complexo industrial-militar e suas ramificações.
Podemos adicionar a esta leitura o entendimento de que a construção e a exportação dos Estados Unidos como “modelo de boas práticas” viabilizam a perpetuação das dinâmicas de dominação externas, introjetadas, por exemplo, em programas de educação militar, treinamentos conjuntos e transferências de armamentos. Portanto, ainda que a crise vigente não deva ser ignorada ou menorizada, é relevante contextualizá-la sob a perspectiva histórica, tensionando os limites da narrativa liberal sobre o “equilíbrio” do controle civil, no contexto norte-americano.
Adultos na sala
A segunda problematização se refere às consequências analíticas da compreensão mais difundida sobre a “crise”. Além da construção do trumpismo como “ponto fora da curva”, também são frequentes as representações que patologizam e/ou infantilizam tanto a figura do presidente quanto de atores da administração. Após as demissões em massa no alto escalão, cresceram as caracterizações de Hegseth como “paranoico” e dos próprios militares como os “adultos na sala”. Como também é comum nestas situações, os noticiários foram inundados por entrevistas com ex-comandantes militares, como exemplifica o episódio recente do podcast The Daily do The New York Times, que promoveu uma conversa “entre veteranos”, com o general Stanley McCrysthal, notabilizado por sua atuação no Afeganistão e no Iraque, sobre os rumos da atual administração. Na ocasião, o general se mostrou favorável à restauração do serviço militar obrigatório, como forma de difundir ideais de coletividade e disciplina à juventude, ante os desafios da conjuntura. Este tema será objeto do segundo informe do presente dossiê.
Embora anteriores ao contexto atual, a sobrevalorização do papel e da expertise militar também são ecoadas em artigos acadêmicos recentes. Para Krebs (2026), por exemplo, a aproximação de líderes populistas como Trump com figuras militares decorre do fato de que os militares são o “veto player por excelência”, mesmo em governos democráticos, dado o seu controle sobre os mecanismos de violência e os altos índices de confiança da população em relação à instituição militar. Estas considerações não apenas parecem reforçar uma compreensão de relações civis-militares que assume a superioridade do ethos militar como pressuposto, como também de um entendimento que centraliza a instituição militar como guardiã das instituições democráticas, em última instância. Ao mesmo tempo, o foco do debate permanece restrito às considerações táticas sobre a guerra, enquanto o papel da sociedade no arranjo ou as possibilidades de questionamento ao conflito e suas causas perdem o espaço.
Problematizar essas questões não significa reduzir o impacto das iniciativas promovidas pela administração Trump. O emprego interno/externo intensificado das forças militares e de segurança, o aumento da permeabilidade do Pentágono à penetração de grupos e ideologias de extrema direita e a utilização das instituições para a promoção de suas agendas são medidas que não devem ser normalizadas, apesar de também não serem ineditismos de Trump. Mas a complexidade dos tempos também demanda o tensionamento de nossas ferramentas teóricas.
Como nos lembra Cynthia Enloe no célebre Maneuvers: The international politics of militarizing women’s lives (University of California Press, 2000), o militarismo e a militarização são fenômenos pervasivos e ordinários, que se camuflam – literalmente – em nossa linguagem, ações e visões de mundo. Nas palavras da autora, suas manobras compõem menos uma luta e mais “uma dança entre parceiros desiguais”, significando que contextos militarizados tendem a privilegiar atores politicamente já privilegiados. E reforçam que narrativas de “equilíbrio” também ensejam o desejo pela manutenção e/ou recuperação do status quo.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referência imagética: (Arquivo) Presidente Donald Trump recebe informações de altos líderes militares, na Sala do Gabinete da Casa Branca, em 23 out. 2018 (Crédito: Casa Branca/Shealah Craighead)
- Professora do Departamento de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Também é pesquisadora do INCT/INEU, do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e do Laboratório de Estudos de Defesa e Segurança (LabSEG) da UERJ. Contato: clarissa.forner@uerj.br. ↩︎



