João Carlos Sousa1
22 de abril de 2026
Há uma ideia muito difundida no debate público contemporâneo: a de que a confiança dos cidadãos nas instituições internacionais depende, acima de tudo, do desempenho dessas instituições. A lógica parece imediata. Se uma organização atua bem, o público confia; se atua mal, desconfia. Mas esta leitura, sendo intuitiva, é sociologicamente curta. Entre a instituição e a opinião pública existe sempre um espaço intermediário de mediação, interpretação e disputa simbólica. E é nesse espaço que uma parte decisiva da confiança pública é produzida.
No caso da Organização das Nações Unidas, esta constatação é ainda mais importante. A esmagadora maioria dos cidadãos não observa diretamente o funcionamento interno da organização, não acompanha de perto os seus procedimentos diplomáticos e não avalia por experiência própria os seus mecanismos de decisão. O que sabe sobre a ONU chega-lhes filtrado por mídia, plataformas, comentaristas, imagens de guerra, discursos políticos, rotinas jornalísticas e sistemas algorítmicos de distribuição da visibilidade. Por isso, a confiança na ONU não resulta apenas do que a ONU é ou faz. Resulta também do modo como ela é socialmente narrada, enquadrada e tornada inteligível no espaço público (McCombs; Shaw, 1972; Entman, 1993; Chadwick, 2017).
Foi precisamente esta questão que procurei analisar num estudo recente sobre a confiança da opinião pública europeia na ONU, com base em dados do Eurobarómetro 98.2, recolhidos num contexto particularmente exigente, marcado pela guerra na Ucrânia e por uma intensificação da desordem informacional. Os resultados são claros: a confiança na ONU não se forma à margem dos meios de comunicação; forma-se, em larga medida, por meio deles. Mais do que isso, a variável que surge como preditor mais robusto da confiança na ONU é, precisamente, a confiança na mídia (Sousa, 2026). Este dado, em si mesmo, diz muito sobre o nosso tempo.
Aquilo que ele nos mostra é que, em contextos de elevada complexidade e incerteza, os cidadãos recorrem a atalhos cognitivos, isto é, a heurísticas de credibilidade. Como não podem verificar tudo diretamente, confiam em sinais. Confiam em marcas, em fontes, em reputações, em ambientes de validação. Se acreditam que o sistema midiático é minimamente credível, tendem a transferir parte dessa confiança para as instituições que conhecem através dele. Se, pelo contrário, percebem os meios de comunicação como manipuladores, capturados, enviesados ou estruturalmente pouco confiáveis, essa desconfiança se alastra mais facilmente a outras esferas institucionais (Mayer; Davis; Schoorman, 1995; Sundar, 2008; Oreskes, 2019).
Este ponto é central porque obriga a repensar uma separação ainda demasiado frequente entre sociologia das instituições e sociologia da comunicação. Durante muito tempo, a confiança institucional foi tratada como se pudesse ser explicada quase exclusivamente por desempenho, proximidade política, identidade ideológica ou capital social. Tudo isso importa, evidentemente. Mas, no mundo contemporâneo, nada disso pode ser adequadamente compreendido sem atender à infraestrutura midiática que organiza a visibilidade pública das instituições. A legitimidade já não se joga apenas no plano da ação; joga-se também no plano da narração, da circulação e da credibilidade.
Em trabalhos anteriores, esta linha de interpretação já se tornava visível. Num estudo sobre a confiança nas autoridades locais e regionais na União Europeia, mostrei que o uso dos meios de comunicação e a confiança neles depositada tinham um peso explicativo relevante na estruturação da confiança institucional (Sousa; Pinto-Martinho, 2022). Mais tarde, ao analisar a confiança na OTAN, voltou a emergir a ideia de que mesmo organizações internacionais aparentemente distantes da vida quotidiana dos cidadãos são avaliadas a partir de disposições midiaticamente moldadas (Sousa; Pinto-Martinho; Jerónimo, 2024). E, em um trabalho mais recente sobre confiança institucional na Europa, verificou-se que os meios de comunicação têm um papel contraditório: podem reforçar inteligibilidade e integração, mas também alimentar ruído, fragmentação e ambivalência no juízo público (Carvalho; Sousa; Lapa, 2025). O estudo sobre a ONU radicaliza, de certo modo, essa evidência: confiar em uma instituição internacional é também confiar nas mediações que a tornam compreensível.
Há, neste domínio, um resultado que merece especial atenção. O uso de rádio e imprensa escrita apresenta efeitos positivos, ainda que modestos, na confiança na ONU (Sousa, 2026). Convém não romantizar o passado nem cair em uma celebração ingênua da mídia tradicional. Mas seria intelectualmente preguiçoso ignorar o que estes dados sugerem. Em ambientes marcados por rotinas editoriais mais estabilizadas, maior filtragem profissional e alguma continuidade normativa, os cidadãos continuam a encontrar referências de interpretação relativamente sólidas. Em uma esfera pública saturada por estímulos dispersos, a existência de mídias capazes de organizar relevâncias, oferecer contexto e enquadrar acontecimentos mantém um valor democrático substantivo.
Já no que respeita às mídias digitais, o quadro é mais ambivalente. O seu efeito agregado não surge como estatisticamente significativo no modelo, o que não quer dizer que seja irrelevante. Pelo contrário: significa que, dentro dessa categoria, coexistem dinâmicas opostas. No digital encontramos simultaneamente jornalismo de qualidade, maior pluralidade de acesso, circulação transnacional de conteúdos e novas formas de participação cívica, mas também opacidade algorítmica, competição pela atenção, estímulos emocionais, polarização e aceleração do ruído. O digital não produz, por si só, nem mais democracia nem mais erosão democrática. Produz antes um terreno instável em que credibilidade, visibilidade e autoridade se redistribuem de forma desigual e contraditória (Chadwick, 2017; Wardle; Derakhshan, 2017).
É precisamente por isso que a discussão pública sobre plataformas têm sido tantas vezes pobre. Uma parte dos comentários continua a oscilar entre dois extremos simplistas: de um lado, a ideia de que as plataformas democratizaram automaticamente a esfera pública; do outro, a ideia de que são apenas máquinas de manipulação e degradação cívica. Nenhuma destas posições é suficiente. O que as plataformas realmente fazem é reorganizar a arquitetura da atenção e redistribuir os mecanismos de validação pública. Não eliminam a confiança. Deslocam-na. Transferem-na, frequentemente, de instituições midiáticas mais estabilizadas para circuitos de proximidade, comunidades afetivas, influenciadores, sinais instantâneos de adesão e repertórios de confirmação identitária. Ora, para instituições como a ONU, que dependem fortemente de legitimidade abstrata e não de familiaridade cotidiana, esse deslocamento pode ser especialmente problemático.
Mas os resultados não autorizam apenas diagnósticos pessimistas. Um dos achados mais interessantes do estudo é que a participação em debates políticos online se associa positivamente à confiança na ONU (Sousa, 2026). Esta constatação deve ser lida com prudência, mas também com seriedade. Ela sugere que a participação digital não deve ser automaticamente confundida com incivilidade, hostilidade ou radicalização. Em determinadas condições, participar de discussões políticas online pode significar envolvimento cívico, atenção ao debate público e integração em circuitos de interpretação mais ativos. Isso é particularmente plausível quando o objeto da discussão não é uma figura partidária nacional, imediatamente absorvida por clivagens internas, mas uma organização multilateral cuja avaliação pode escapar, pelo menos em parte, ao confronto político doméstico.
Outro resultado importante diz respeito à percepção de liberdade de imprensa. Quanto maior a percepção de que os meios de comunicação operam sem pressões indevidas de natureza política ou social, maior a probabilidade de os cidadãos confiarem na ONU (Sousa, 2026). Este ponto é especialmente relevante porque desloca a análise do simples consumo midiático para o plano institucional da comunicação. Não basta saber qual mídia as pessoas usam; importa saber em que tipo de sistema midiático acreditam viver. A liberdade de imprensa não é apenas um princípio normativo das democracias constitucionais. É também um mecanismo de produção de segurança cognitiva. Quando os cidadãos percebem autonomia editorial, inferem maior fiabilidade do ambiente informativo e tornam-se mais disponíveis para confiar em instituições complexas e distantes.
As implicações desta discussão vão muito além da ONU. A rigor, o que está em questão aqui é a própria relação entre democracia e mediação pública. Quando o espaço midiático se torna estruturalmente opaco, fragmentado ou percebido como capturado, o custo subjetivo de confiar aumenta. E, quando esse custo aumenta, multiplicam-se formas de suspeita difusa, cinismo generalizado e adesão a narrativas que confirmam preconceitos prévios em vez de ampliar a compreensão do mundo. A erosão da confiança institucional não começa apenas no mau desempenho das instituições. Começa também na deterioração dos ecossistemas comunicacionais que as tornam visíveis, passíveis de debate e avaliação.
É por isso que a confiança na ONU começa antes da própria ONU. Começa na qualidade do jornalismo. Começa na liberdade editorial. Começa na regulação das plataformas. Começa na alfabetização midiática do público. Começa, em última instância, no modo como uma sociedade organiza a sua esfera pública e distribui credibilidade entre atores, formatos e infraestruturas. Defender a integridade informacional não é, portanto, uma agenda lateral. É uma condição da própria possibilidade de confiança democrática.
Esse argumento é particularmente relevante em um momento em que as democracias, no Brasil e em outros contextos, enfrentam pressões simultâneas de polarização, saturação comunicacional, descrédito institucional e uma disputa intensa sobre quem tem legitimidade para definir o que é real. Nestas condições, discutir a confiança em uma organização multilateral é também discutir a qualidade do nosso próprio ambiente público. Porque o problema já não é apenas saber se as instituições merecem confiança. É perceber se as sociedades ainda dispõem de meios de comunicação suficientemente críveis para reconhecer, discutir e julgar essa confiança de forma minimamente informada.
Talvez seja essa uma das questões decisivas do presente: não apenas como recuperar a confiança nas instituições, mas como reconstruir as condições sociais que tornam a confiança racionalmente possível. Sem jornalismo crível, sem liberdade de imprensa, sem ecossistemas informacionais menos vulneráveis à manipulação e sem públicos com recursos para distinguir validação de mera viralidade, a confiança tende a se tornar errática, reativa e facilmente capturável. E quando isso acontece, não é apenas a reputação de organizações como a ONU que está em jogo. É a própria densidade democrática da vida pública.
Referências
CARVALHO, Helena; SOUSA, João Carlos; LAPA, Tiago. Public opinion and institutional trust in Europe: the contradictory role of the media in the digital age. Media & Jornalismo, v. 25, n. 46, 2025. DOI: 10.14195/2183-5462_46_5.
CHADWICK, Andrew. The hybrid media system: politics and power. 2. ed. New York: Oxford University Press, 2017.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!2
ENTMAN, Robert M. Framing: toward clarification of a fractured paradigm. Journal of Communication, v. 43, n. 4, p. 51-58, 1993.
MAYER, Roger C.; DAVIS, James H.; SCHOORMAN, F. David. An integrative model of organizational trust. Academy of Management Review, v. 20, n. 3, p. 709-734, 1995.
MCCOMBS, Maxwell E.; SHAW, Donald L. The agenda-setting function of mass media. Public Opinion Quarterly, v. 36, n. 2, p. 176-187, 1972.
ORESKES, Naomi. Why trust science? Princeton: Princeton University Press, 2019.
SOUSA, João Carlos. Entre algoritmos e rotinas editoriais: confiança na ONU e opinião pública europeia. Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, v. 19, e61362, 2026. DOI: 10.1590/1983-3652.2026.61362.
SOUSA, João Carlos; PINTO-MARTINHO, Ana. Confiança e uso dos media na União Europeia: determinantes socio-mediáticas da confiança nas autoridades locais e regionais. Media & Jornalismo, v. 22, n. 41, p. 161-178, 2022. DOI: 10.14195/2183-5462_41_9.
SOUSA, João Carlos; PINTO-MARTINHO, Ana; JERÓNIMO, Nuno Amaral. NATO e opinião pública europeia: fatores mediáticos definidores de confiança. JANUS NET e-journal of International Relations, v. 15, n. 1, 2024. DOI: 10.26619/1647-7251.15.1.4.
SUNDAR, S. Shyam. The MAIN model: a heuristic approach to understanding technology effects on credibility. In: METZGER, Miriam J.; FLANAGIN, Andrew J. (org.). Digital media, youth, and credibility. Cambridge, MA: MIT Press, 2008. p. 73-100.
WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017.
- João Carlos Sousa é doutor em Ciências da Comunicação e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. Tem desenvolvido investigação sobre opinião pública, confiança institucional, mídia e desordem informacional, com particular enfoque nos ecossistemas midiáticos híbridos e no papel da comunicação na estruturação da legitimidade democrática. É professor adjunto convidado na ESAS-Instituto Politécnico de Santarém. joao.carlos.sousa@iscte-iul.pt ↩︎
- Fonte imagética: The emblem of the United Nations. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=united+nations&title=Special%3AMediaSearch&type=image ↩︎



