Pedro M. R. Barbosa1
Arthur Z. Guerriero2
1º de julho de 2026
Na última década, houve uma crescente preocupação com o recrudescimento da polarização política em diversas democracias, particularmente porque tal fenômeno passou a ser associado aos processos de erosão democrática observados nesse período. Na ciência política, uma hipótese recorrente sustenta que a polarização política constitui um reflexo do aumento da desigualdade econômica nas democracias. Essa hipótese foi inicialmente formulada a partir do caso dos Estados Unidos, que, desde a década de 1970, apresenta um processo concomitante de acirramento da animosidade entre republicanos e democratas — tanto no nível das elites políticas quanto no da sociedade — e de aprofundamento da desigualdade econômica no país. Mais recentemente, contudo, essa hipótese tem sido também explorada para entender a polarização em outras democracias, especialmente as europeias.
Introdução
Diante dessa crescente literatura, nosso trabalho (Barbosa & Guerriero, 2025) se propõe a analisá-la, sistematizando seus principais achados e identificando suas lacunas. Uma primeira constatação é que a mensuração tanto da polarização política quanto da desigualdade econômica constitui um desafio analítico central, dada a complexidade inerente a esses fenômenos. À medida que se aprofunda o conhecimento sobre cada um deles, torna-se evidente seu caráter multifacetado. Tanto “polarização política” quanto “desigualdade econômica” são expressões que, em diferentes contextos teóricos e empíricos, designam fenômenos distintos.
Qual polarização política?
Quanto ao conceito de polarização política, sua definição se relaciona fundamentalmente à distância entre as preferências de grupos políticos. O antagonismo político, contudo, pode resultar da radicalização do pólo à direita, do pólo à esquerda ou de ambos simultaneamente. Todos esses movimentos são condizentes com o conceito de polarização, embora reflitam processos diferentes. Outra dimensão desse conceito se refere à natureza do conflito: de um lado, a polarização ideológica, baseada no antagonismo entre concepções sobre políticas públicas; de outro, a polarização afetiva, fundada em sentimentos de identidade, pertencimento e rejeição entre grupos. Há, ainda, a distinção quanto ao nível em que a polarização se manifesta, seja entre as elites políticas, seja no eleitorado.
Qual desigualdade econômica?
Com relação à desigualdade, embora tenha se tornado corriqueiro o diagnóstico de que as democracias contemporâneas se tornaram mais desiguais, esse enunciado, na verdade, abrange uma diversidade de processos. O aumento da desigualdade econômica pode remeter, por exemplo, ao fenômeno enfatizado pelo influente trabalho de Piketty (2014): a concentração de renda no topo da distribuição, especialmente entre o 1% mais rico, resultante de um processo histórico de redução da tributação sobre esse grupo, que elevou de forma desproporcional os retornos do capital. Mas também pode se referir ao crescimento da desigualdade salarial, associado à crescente dualização do mercado de trabalho, em um contexto marcado por reformas de flexibilização laboral, pela transição para uma economia de serviços e por transformações tecnológicas. A maior parte dos estudos analisados, contudo, não se atenta às heterogeneidades desses processos, frequentemente condensados sob o conceito amplo de desigualdade econômica.
Duas histórias sobre como a desigualdade leva à polarização
A teoria mais tradicional que analisa a relação entre desigualdade e polarização política é baseada no modelo clássico do eleitor mediano (Meltzer; Richards, 1981), mas em sua versão partidária (Pontusson; Rueda, 2007). Tal modelo presume um comportamento racional entre os eleitores, de modo que suas preferências são orientadas para a maximização de seu bem-estar material. Mais do que isso, tais preferências são moldadas pela posição nas quais tais indivíduos ocupam na distribuição de renda de uma dada sociedade. Nessa perspectiva, a maximização de bem-estar dos setores mais pobres tange um papel redistributivo mais ativo do governo, o que envolve aumento de gastos públicos para o financiamento de políticas sociais. Partidos de esquerda tendem a ser mais responsivos às preferências dos mais pobres, e, portanto, defender políticas redistributivas. De outro lado, a preferência dos setores mais ricos alinha-se ao receio de aumento da carga tributária, de maneira que partidos de direita tendem a defender a redução de impostos e a diminuição de gastos sociais.
Nessa teoria, o aumento da desigualdade desloca as preferências do eleitor mediano em direção às dos setores mais pobres, elevando a demanda por redistribuição e, consequentemente, ampliando o apelo eleitoral dos partidos de esquerda. Assim, a desigualdade impulsionaria a polarização política pela via da radicalização da esquerda, em resposta à qual os setores de maior renda intensificariam o financiamento de partidos de direita para melhor representarem seus interesses. Embora tenha sido inicialmente mobilizada para interpretar o caso norte-americano, essa teoria tornou-se gradualmente insuficiente para explicar os desdobramentos políticos recentes. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, o fenômeno político mais saliente na última década foi a ascensão da direita radical.
Mais alinhada à busca por explicações para a ascensão da direita radical, emerge a teoria da privação econômica relativa (Burgoon et al. 2019). Essa abordagem também parte de uma concepção racional do comportamento eleitoral, segundo a qual os indivíduos orientam suas escolhas pela maximização do próprio bem-estar. No entanto, incorpora aportes da psicologia política ao atribuir ao ressentimento um papel relevante na formação das preferências e no comportamento político dos eleitores. Os mecanismos teóricos associados à privação econômica relativa operam em diferentes níveis de complexidade. Em sua formulação mais simples, o argumento sustenta que indivíduos que sofreram perda de renda — ou que passaram a perceber uma deterioração de seu bem-estar ao longo do tempo — tendem a desenvolver ressentimento em relação ao status quo, ao sistema político e às políticas públicas existentes, tornando-se, assim, mais suscetíveis a discursos radicais e antissistêmicos. Outras abordagens afirmam que esse ressentimento não decorre apenas de uma perda relativa em relação à própria trajetória individual, mas também da comparação com outros grupos. Nesse caso, a frustração emerge da percepção de que outros avançaram mais, ainda que o próprio indivíduo também tenha melhorado suas condições materiais. Um terceiro conjunto de interpretações enfatiza que o ressentimento não se explica apenas porque outros grupos obtiveram ganhos materiais superiores, mas porque esses ganhos são percebidos como uma perda relativa de status social. Um dos exemplos frequentemente mobilizados pela literatura é o de segmentos brancos, rurais e do sul dos Estados Unidos, que teriam experimentado, ou percebido, uma perda progressiva de posição social ao longo do tempo (Rodríguez-Pose et al. 2023).
Em consonância, em certa medida, com a teoria do eleitor mediano, a teoria da privação econômica sugere que setores marginalizados da base da distribuição, especialmente trabalhadores de baixa qualificação, tendem a impulsionar o voto radicalizado. Ainda assim, diferentemente da teoria do eleitor mediano, os principais mecanismos propostos não esclarecem por que esses segmentos se inclinam à direita radical e não à esquerda radical, uma vez que ambas as opções podem mobilizar discursos antissistêmicos. Tudo indica que fatores contextuais desempenham papel decisivo nesse deslocamento. Isso reforça a necessidade de explorar caminhos analíticos ainda pouco desenvolvidos na literatura. De um lado, os estudos permanecem praticamente restritos às democracias ricas, o que torna relevante ampliar a análise para além desse universo, incluindo as democracias latino-americanas. De outro, todos os trabalhos identificados em nossa revisão adotam estratégias quantitativas, o que indica a importância de investigações qualitativas capazes de compreender, com maior profundidade, os mecanismos subjetivos e contextuais envolvidos nesse processo.
O que ainda falta entender
A principal contribuição desta revisão é mostrar que o avanço desse debate exige uma abordagem mais desagregada. Não basta comparar indicadores gerais de desigualdade, como o Gini, com medidas agregadas de polarização. É necessário investigar os mecanismos intermediários que conectam experiências econômicas a comportamentos políticos. Isso implica indagar quais grupos sociais são afetados pelo aumento da desigualdade e como interpretam sua posição nessa estrutura. Desempregados, trabalhadores informais, trabalhadores de baixa qualificação, setores médios em declínio, mulheres, minorias raciais e famílias situadas na base da distribuição podem vivenciar a desigualdade de maneiras distintas.
Também é preciso distinguir com maior precisão os tipos de polarização. A desigualdade pode ampliar a distância entre partidos sem produzir hostilidade entre eleitores. Pode alimentar a radicalização da direita sem gerar uma radicalização equivalente à esquerda. Pode afetar elites políticas de forma diferente da sociedade. E pode ainda deslocar o conflito para questões morais, identitárias e culturais, em vez de mantê-lo restrito à redistribuição econômica.
Além disso, importa considerar o papel do contexto. Discursos polarizantes mobilizam elementos da história social e clivagens pré-existentes, como divisões raciais, religiosas, de classe e morais. Em outras palavras, a polarização ativa conflitos ao exacerbar clivagens já inscritas no tecido social. Por isso, é pouco razoável presumir que o aumento da animosidade política reflita unicamente um mal-estar econômico.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova! 3
Referências bibliográficas
Barbosa, P. M. R., & Guerriero, A. Z. (2025). A desigualdade econômica impulsiona a polarização política? Uma revisão de escopo de teorias concorrentes. Revista de Sociologia e Política, 33, e011.
Meltzer, A. H., & Richard, S. F. (1981). A rational theory of the size of government. Journal of Political Economy, 89(5), 914–927.
Piketty, T. (2014). O capital no século XXI (M. B. de Bolle, Trad.). Intrínseca. Obra original publicada em 2013.
Pontusson, J., & Rueda, D. (2008). Inequality as a source of political polarization: A comparative analysis of twelve OECD countries. In P. Beramendi & C. J. Anderson (Eds.), Democracy, inequality, and representation: A comparative perspective (pp. 312–353). Russell Sage Foundation.
Rodríguez-Pose, A., Terrero-Dávila, J., & Lee, N. (2023). Left-behind versus unequal places: Interpersonal inequality, economic decline and the rise of populism in the USA and Europe. Journal of Economic Geography, 23(5), 951–977.
- Pesquisador de pós-doutorado no Centro de Estudos da Metrópole da USP e pesquisador do GEEP. Email: pedromrb@usp.br ↩︎
- Doutorando e professor no Instituto de Socioeconomia da Universidade de Duisburg-Essen (UDE) e pesquisador afiliado ao RWI – Leibniz Institute for Economic Research, Alemanha. Email: arthur.guerriero@uni-due.de ↩︎
- Referência Imagética: A modern street lamp divides red and blue walls, creating a striking urban contrast. Disponível em : https://www.pexels.com/photo/street-lamp-over-blue-and-red-wall-17536451/ ↩︎



