Igor Serejo Vale Arcos1
3 de março de 2026
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Esta Série Especial do Boletim Lua Nova reúne, ao longo dos próximos meses, reflexões produzidas pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em Política Externa (GEPEX), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), coordenado por Cristina Pacheco. Criado em 2009, o GEPEX dedica-se à formação e à pesquisa em Relações Internacionais, com ênfase, desde 2020, no campo das Potências Médias e nas articulações entre economia, diplomacia e segurança na formulação de estratégias nacionais. Os textos do Especial podem ser conferidos aqui.
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A evolução dos estudos sobre Grande Estratégia ao longo dos séculos XX e XXI revela uma combinação de dinâmicas e elementos novos e tradicionais. Um dos primeiros autores a cunhar o termo “Grande Estratégia” foi Liddell Hart, em 1954, em sua obra “Strategy”. Embora não tenha desenvolvido uma teorização sistemática acerca do conceito, apresentou diversos elementos basilares, ao distinguir Grande Estratégia de conceitos como estratégia e tática.
Inicialmente centrado na gestão de recursos militares e econômicos, o conceito de Grande Estratégia passou, com o tempo, a abranger a administração coordenada de recursos intangíveis, incorporando as transformações na balança de poder ocorridas no período, bem como as revoluções tecnológicas e comerciais. Nesse contexto, a cultura, enquanto instrumento de afirmação de valores e de projeção da identidade nacional, passa a ser mobilizada, ainda que de maneira incipiente por alguns Estados, como um novo componente da Grande Estratégia, frequentemente operando de forma tangencial aos demais. Diante disso, o objetivo deste ensaio é discutir o papel da arte como um elemento da Grande Estratégia de Estados no século XXI.
Desse modo, o primeiro passo é apresentar a evolução do conceito de Grande Estratégia. Como já mencionado, Liddell Hart foi o primeiro teórico a apresentar o termo. Para ele, o papel da Grande Estratégia é coordenar e direcionar todos os recursos de uma nação para a obtenção do objetivo político da guerra, levando em consideração e aplicando o poder de pressões financeiras, diplomáticas, comerciais e éticas; desse modo, o poder militar seria apenas um dos meios para alcançar o objetivo da Grande Estratégia (Hart, 1954).
O foco de Liddell Hart está concentrado em questões que envolvem conflitos, em especial a guerra; razão que, talvez, explique a redução do conceito de Grande Estratégia a essa categoria. Ainda assim, o autor menciona um elemento fundamental para o desenvolvimento da disciplina: a visão de longo prazo. Hart (1954) é categórico ao afirmar que a Grande Estratégia não está preocupada apenas com a guerra, mas deve olhar além dela, para a paz subsequente. Desse modo, ela não deve apenas combinar os diversos instrumentos, como também regular o seu uso, com a finalidade de evitar danos para o futuro estado de paz, buscando um ambiente seguro e próspero para a nação.
Paul Kennedy retoma os principais conceitos de Liddell Hart em seu trabalho “Grand Strategy in War and Peace”, de 1991, o que inclui os objetivos claros de longo prazo e as dimensões política, econômica e militar. O ponto em questão é que o autor já entende que a Grande Estratégia não parte mais da guerra para a paz, mas o contrário, tendo em vista que os períodos de paz são maiores que os períodos de guerra, o que pode dar à dimensão política uma centralidade maior na Grande Estratégia (Kennedy, 1991).
Como Hart, Kennedy desdobra os estudos de Grande Estratégia a partir da ótica de Grandes Potências (Hart analisou a Grã-Bretanha, e Kennedy, os Estados Unidos), embora tenha deixado margem para a possibilidade de Estados pequenos ou intermediários, como Potências Médias, também apresentarem, em sua política externa, características de Grande Estratégia. Kennedy afirma que todas as Grandes Potências, ao longo do tempo, enfrentaram desafios no sistema internacional que iam contra seus interesses (situação essa que se pode ampliar para os demais Estados), e nunca há Forças Armadas suficientes para resguardar esses interesses em todos os locais. Portanto, devem-se definir prioridades. Mesmo em períodos de paz é preciso pensar e se preparar para a guerra, e, para isso, é necessário integrar a dimensão militar da Grande Estratégia com as demais dimensões não militares; e nesse ponto Kennedy (1991) adiciona duas dimensões para além das que já foram mencionadas: tecnologia e cultura.
Já no século XXI, a Grande Estratégia vem ganhando destaque ao se observar o sistema internacional e identificar elementos em Estados que não se configuram como Grandes Potências. Ao identificar essa dinâmica, autores como William Martel (2016), Nina Silove (2018), Stephen Worman (2021), André Carvalho (2021) e Ramon Pacheco Pardo (2023) começam a teorizar a Grande Estratégia para os demais Estados, em especial para Potências Médias. As configurações basilares permanecem, e outras características começam a aparecer, como a busca pelo desenvolvimento, o multilateralismo, o debate entre médio e longo prazos para a execução da Grande Estratégia, as formas pelas quais ela pode se apresentar (um Grande Princípio, um Grande Comportamento ou um Grande Plano), dentre outros elementos que vão ao encontro de acadêmicos mais tradicionais dos estudos estratégicos.
Kennedy (1991), já mencionado acima, considera que a identificação da cultura como uma dimensão da Grande Estratégia possibilita a operacionalização do poder para além do material, incorporando o que Nye (1990) denomina Soft Power, ou seja, a utilização de meios para influenciar o comportamento de outros atores, bem como o próprio sistema internacional, sem a necessidade de coerção por vias militares ou econômicas. No contexto estratégico, a arte funciona como a principal manifestação da indústria cultural empregada na execução desse poder. Desse modo, embora o agente do Soft Power possa ser difuso, seu objetivo, quando integrado à Grande Estratégia, é claro: a modulação do comportamento do destinatário, buscando fazer com que o outro aja conforme a vontade do emissor. Entretanto, a eficácia do Soft Power cultural está sujeita à recepção criativa do público.
O processo de assimilação não é passivo; o público receptor, dividido em subculturas e situado em contextos socio-históricos específicos, constitui e reconstitui ativamente o significado das formas simbólicas (Muñoz, 2012). Contudo, Estados mais poderosos podem utilizar seus recursos para tentar forçar uma assimilação de sua cultura e de seus valores a Estados mais fracos. Isso se reflete em vários aspectos da cultura: língua, moda, estilo de vida e arte. Conforme explica Águilla (2012) a respeito do modelo assimilacionista, para que uma sociedade seja coesa e estável, é necessário que se compartilhem crenças e valores amplamente difundidos. No sistema internacional, isso se manifesta na tentativa de Grandes Potências (ou mesmo Potências Médias) de transmitir seus valores, por meio de recursos culturais, a Estados mais fracos, visando manter seu domínio hegemônico em nível regional e/ou global e instrumentalizar tal processo por meio da Grande Estratégia no que tange à dimensão cultural.
O exemplo mais emblemático desse processo é o dos Estados Unidos da América (EUA). O cinema, a música e a teledramaturgia produzidos pela indústria cultural estadunidense estabeleceram um padrão hegemônico de Soft Power. Essa indústria produz uma “produção irresistível de diversões e informação” que veicula atitudes e hábitos prescritos. Por meio da repetição e generalidade de seus produtos, o sistema doutrina e manipula, promovendo uma falsa consciência ao longo do tempo (Ouriveis, 2013). A ascensão global de Hollywood foi inseparável da Grande Estratégia estadunidense. A Segunda Guerra Mundial consolidou a indústria dos EUA, que, diferentemente das concorrentes europeias colapsadas, pôde produzir e exportar filmes em grande quantidade, ocupando o vácuo de mercado e mantendo seu domínio (Gama, 2011).
A política externa dos Estados Unidos tem atuado de forma estreita com Hollywood. Organizações de produtores, como a MPAA (Motion Picture Association of America), funcionavam como uma espécie de “pequeno Departamento de Estado”, pressionando ativamente para derrubar barreiras protecionistas e garantir o acesso aos mercados estrangeiros (Gama, 2011). Em tempos de crise ou conflito, como destaca Gonçalves (2016), Hollywood é amplamente utilizada para fins de propaganda, seja para a propagação de sentimentos nacionalistas e de sacrifício, seja para a ridicularização de inimigos, consolidando sua função como geradora de Soft Power e sua importância para a política externa dos EUA.
Embora a indústria tentasse ressaltar sua independência criativa, essa aliança estratégica foi fundamental para manter as receitas e garantir sua posição como a maior força de formação da opinião pública mundial (Monteiro, 2011). Além disso, produções cinematográficas hollywoodianas pós-11 de setembro normatizaram o contraterrorismo estatal e a guerra preventiva, difundindo a narrativa de constante ameaça terrorista. O Pentágono inclusive influencia enredos, alterando a mensagem de filmes para promover gastos militares e normalizar a intervenção (Santana, 2015; Soares, 2018).
Mais recentemente, a Coreia do Sul também instrumentalizou a arte como um elemento marcante de sua Grande Estratégia. Pardo (2023) afirma que, por meio do Hallyu (Onda Coreana), o Estado tem buscado aumentar seu prestígio e influência internacional. Filmes, música pop e k-dramas surgiram de criações de indivíduos, mas vêm sendo instrumentalizados pelo governo para perseguir seus próprios objetivos. Inicialmente, o governo viu o Hallyu como uma oportunidade de impulsionar a economia sul-coreana, que apresentava dificuldades devido à crise econômica asiática de 1998, buscando utilizar a arte como um meio de recuperação pós-crise
No entanto, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o Hallyu passou a ser visto como uma importante ferramenta de Soft Power, de modo que agências governamentais passaram a apoiar, e até mesmo organizar, exibições de filmes, shows de k-pop, exposições e outras atividades para promover a cultura sul-coreana e fortalecer a imagem do país. Em 2020, foi lançada pelo governo sul-coreano a Divisão de Apoio e Cooperação do Hallyu, consolidando o papel da arte na política externa do país (Pardo, 2023).
O Brasil possui um vasto acervo cultural, considerado um pilar essencial para o reconhecimento internacional. Contudo, a utilização desse acervo para fins de inserção internacional e prestígio acaba sendo subutilizada, como explicam Azambuja e Seiler (2022). Os autores afirmam que a cultura precisa ser interpretada como um investimento, não como uma despesa, e, desse modo, tornar-se um ativo essencial na política externa brasileira. A Grande Estratégia brasileira no campo cultural é marcada por dois obstáculos primários: a descontinuidade e a incoerência. Esforços de fomento a uma imagem favorável do Brasil no exterior, que exigem uma visão de longo prazo, historicamente careceram de continuidade. Essa falha institucional em manter políticas de Estado, em contraste com a Coreia do Sul, impede que o Soft Power se consolide como um ativo estratégico.
Dhenin (2024) afirma que a operacionalização da Grande Estratégia de qualquer Estado envolve, dentre outros fatores, aspectos culturais. Logo, utilizar-se da arte como um elemento de Grande Estratégia pode parecer uma escolha óbvia. Entretanto, muitos Estados parecem não ter a intenção de utilizar a arte para alcançar fins maiores, ou então parecem não saber utilizar seus recursos para isso. O sucesso de uma projeção cultural global (como o Hallyu, por exemplo) resulta de uma escolha ativa feita por atores estatais que alocam recursos de forma estruturada para moldar a percepção global e o futuro desejado. A arte, nesse sentido, é instrumentalizada como um recurso nacional legítimo sob a ótica da Grande Estratégia total.
A evolução da Grande Estratégia ao longo dos séculos XX e XXI, de um modelo mais duro e pensado em guerra, até a incorporação de elementos simbólicos, como é o caso da arte, reforça ainda mais a relação entre política e arte. Essa relação não é algo novo, como afirma Chaia (2007). A arte tem sido constantemente utilizada como um instrumento para legitimar narrativas e projetos de poder. Percebe-se que é uma dimensão que permeia constantemente as outras dimensões da Grande Estratégia, moldando a opinião pública, validando ações e gastos militares, fomentando e fortalecendo a economia.
Desse modo, a eficácia da arte, enquanto um elemento da Grande Estratégia, parece estar diretamente ligada à capacidade de gerar Soft Power, modulando a imagem que se tem do Estado no sistema internacional. Assim, a Grande Estratégia no Século XXI requer uma visão que integre as formas simbólicas da cultura e da arte com as dimensões tradicionais da GE (político, econômico e militar). Logo, a questão é como os Estados optarão por mobilizar o recurso artístico, de maneira coordenada em uma perspectiva de longo prazo, para alcance dos objetivos desejados para o futuro, reconhecendo a cultura como um investimento e a arte como um instrumento geopolítico.
REFERÊNCIAS
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CARVALHO, André Luiz Viana Cruz de. Middle powers grand strategy: the case of Brazil from Cardoso to Lula. 2021. 95 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) — Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021.
CHAIA, Miguel. Arte e política: situações. In: CHAIA, Miguel (Org.). Arte e política. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007. p. 13-39.
DA GAMA, Pedro Nogueira. Cultura, economia e política: um estudo comparado sobre a relação da indústria cinematográfica com o poder do Estado na Alemanha e nos Estados Unidos no contexto da II Guerra Mundial (1939-1945). 2011. Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.
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GONÇALVES, Bernardo Bomfiglio Moreira Dalfollo. A geração de Soft Power americano durante a Guerra Fria: a vilanização da URSS a partir de Hollywood. Revista Novas Fronteiras, v. 3, n. 1, 2016.
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PARDO, Ramon Pacheco. South Korea’s grand strategy: making its own destiny. New York: Columbia University Press, 2023.
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SOARES, Jaíne Luiza. Hollywood no Pós-11 de Setembro: o papel do cinema nos governos George W. Bush (2000-2009). 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) — Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018.
WORMAN, Stephen M. The grand strategies of middle powers: organizational determinants and constraints. 2021. Tese (Doutorado em Relações Internacionais) — University of Pittsburgh, Pittsburgh, 2021.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referência imagética: Liddell Hart, autor proeminente no campo da Estratégia Militar.
- Doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Federal da Paraíba, mestre em Relações Internacionais, pela Universidade Estadual da Paraíba, Bacharel em Engenharia de Produção (UEMA) e Relações Internacionais (UEPB). Pesquisador membro do Grupo de Estudos sobre Política Externa é Grande Estratégia (GEPEX) e do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Deslocados Ambientais (NEPDA). ↩︎



