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Início > Sem categoria

A ordem monetária e financeira internacional no pós-crise de 2008

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Debora Garcia Gaspar1

6 de julho de 2026

***

O texto a seguir corresponde à divulgação do artigo homônimo, publicado na edição número 20 da revista Carta Internacional, disponível aqui. 

***

O imediato pós-Crise Financeira Global (CFG), a partir de 2008, abriu a discussão sobre o Sistema Monetário e Financeiro Internacional (SMFI), e os elementos políticos que o ordenam, de forma bastante ampla, evocando possibilidades de transformação que pareciam interditadas até então. Iniciando com discursos políticos, tanto denunciatórios — como os de Lula e de Cristina Kirchner, na Assembleia Geral da ONU, sobre o mercado financeiro desregulado do Norte Global —, como propositivos — como o do Presidente do Banco Central Chinês sobre a necessidade de uma moeda verdadeiramente internacional para compensações financeiras entre países —, o debate aos poucos reverberou na academia, desdobrando-se em propostas teóricas. No artigo publicado na Revista Carta Internacional, recupero alguns elementos desse debate, articulando a noção de ordem monetária e financeira internacional com os mecanismos de gestão do SMFI implementados a partir da crise de 2008. 

A ideia central é que a gestão da CFG revelou uma combinação de estratégias que desafia interpretações mais tradicionais da Economia Política Internacional (EPI). De um lado, observou-se uma atuação sem precedentes do Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano), que ampliou a provisão internacional de liquidez por meio de linhas de swap com outros bancos centrais, reforçando a centralidade do dólar no SMFI. De outro, ganharam força iniciativas que apontavam para maior autonomia dos países em desenvolvimento, como a acumulação de reservas internacionais, a adoção de controles de capitais e a criação de mecanismos regionais de pagamentos e assistência financeira. Embora algumas dessas iniciativas já estivessem presentes desde o final dos anos 1990, elas se expandiram significativamente após 2008 e passaram a ser vistas com maior legitimidade. O resultado foi uma configuração mais complexa do SMFI, marcada pela coexistência entre o fortalecimento de instituições centralizadoras da ordem financeira internacional e a proliferação de estratégias voltadas à redução de vulnerabilidades externas, em especial pelas economias emergentes.

Nesse sentido, argumenta-se que, durante a crise, a disseminação de mecanismos de proteção e cooperação financeira entre economias emergentes indicou a busca por formas alternativas de gestão das vulnerabilidades externas, ao mesmo tempo em que a atuação do Fed reforçou tendências de concentração do poder monetário e financeiro em torno dos Estados Unidos (à la resolução das crises cambiais dos anos 1990). O artigo se propõe a discutir especificamente a “repaginação” (Grabel 2017) ou “administração do estigma” (Chwieroth 2015) dos controles de capitais; e a atuação do Fed como emprestador de última instância, via acordos bilaterais de swap entre bancos centrais, no contexto da CFG. O desafio analítico consiste justamente em compreender como esses movimentos puderam avançar simultaneamente, produzindo uma configuração mais complexa da ordem financeira internacional. Situá-los na literatura recente sobre ordens monetárias e financeiras internacionais, mais permeável a tais complexidades, auxilia no objetivo de navegar através de estruturas de governança do SMFI menos homogeneizantes e coerentes, se comparadas aos mecanismos de gestão de crise empregados nos anos 1990.

Controles de Capitais

Partindo de sistematizações já realizadas sobre o processo de relegitimação dos controles de capitais de curto prazo na área de EPI, argumento que um dos desenvolvimentos mais interessantes do pós-crise foi a mudança de percepção em relação aos controles de capitais, inclusive no âmbito do FMI. Durante a vigência do sistema Bretton Woods (SBW), tais instrumentos eram amplamente aceitos como parte das ferramentas de administração da economia internacional. A partir dos anos 1980, contudo, com a ascensão da liberalização financeira e do Consenso de Washington, os controles passaram a ser associados à ineficiência econômica e a intervenções indevidas sobre o funcionamento dos mercados. A livre mobilidade de capitais tornou-se um dos pilares normativos da globalização financeira. 

A CFG abriu espaço para a revisão parcial desse entendimento. Em diversas economias emergentes, a combinação entre elevada liquidez internacional, influxos de capitais de curto prazo e volatilidade financeira recolocou a discussão sobre a necessidade de instrumentos de proteção. Países como Brasil, Coreia do Sul e Indonésia adotaram medidas para administrar fluxos financeiros, sem que isso provocasse a condenação que provavelmente ocorreria nos anos 1990.

Sob uma nova terminologia — “medidas de administração dos fluxos de capitais” — os controles passaram a ser tolerados como instrumentos de proteção e de preservação da autonomia de política econômica. Sua utilização, no entanto, é aceita como recurso de última instância e como parte de um conjunto mais amplo de ferramentas macroeconômicas. Ainda assim, a maior aceitação desses instrumentos constitui um desenvolvimento importante do SMFI pós-crise, especialmente para economias emergentes sujeitas a ciclos de abundância e escassez de financiamento externo. Pode-se dizer, portanto, que a experiência pós-CFG ampliou o espaço para diferentes formas de gestão das vulnerabilidades financeiras internacionais. Essa conclusão leva os autores referenciados no artigo a articular noções como “pluricultura de modelos financeiros” (Grabel 2022), “nova heterogeneidade” (Kirshner 2014) e “descentralização cooperativa” (Helleiner 2016).

Atuação do Fed como emprestador de última instância

A segunda dimensão explorada refere-se à atuação do Fed como emprestador internacional de última instância. Partindo de uma literatura clássica sobre liquidez internacional e estabilidade financeira e de trabalhos mais recentes sobre a CFG (Helleiner 2014; McDowell 2017; Tooze 2018), argumento que a crise recolocou em evidência a centralidade da autoridade monetária norte-americana na contenção de choques sistêmicos. 

Durante a crise, o Fed reativou e ampliou sua rede de acordos bilaterais de swap com bancos centrais selecionados, disponibilizando liquidez em dólares em uma escala sem precedentes. Essas ferramentas de provisão internacional de liquidez em dólares remontam aos anos 1960, quando foram instalados mecanismos de sustentação do regime de câmbio semifixo, que se encontrava pressionado. O objetivo era proteger as reservas de ouro dos Estados Unidos, no contexto do padrão ouro-dólar. Com o fim do SBW, os acordos bilaterais de swap foram sendo menos usados, até sua desativação total no final dos anos 1990. Quando retomados, durante a CFG, o objetivo imediato era conter a escassez de financiamento em dólares e evitar que as dificuldades dos mercados financeiros se propagassem para a economia real. Países como Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura tiveram acesso a essas linhas, em um episódio que autores citados no texto descrevem como a mais contundente demonstração histórica da capacidade do Fed de atuar como emprestador internacional de última instância.

Paradoxalmente, a crise iniciada no próprio sistema financeiro dos Estados Unidos terminou por reforçar a centralidade do dólar e do Fed no SMFI. Ao assegurar liquidez aos principais atores financeiros globais, a autoridade monetária norte-americana reafirmou sua posição como principal mecanismo de estabilização do sistema. Essa interpretação leva autores como Helleiner (2014; 2016), McDowell (2017) e Blyth (2022) a enfatizarem elementos de continuidade na ordem monetária internacional do pós-crise.

Considerações Finais 

A ideia central é que o pós-crise de 2008 tornou mais complexo o debate sobre a ordem monetária e financeira internacional. Se, por um lado, a atuação do Fed como provedor global de liquidez demonstrou a permanência de mecanismos fortemente centralizados nos Estados Unidos e no dólar, por outro, a proliferação de instrumentos de proteção e cooperação financeira ampliou as possibilidades de gestão das vulnerabilidades externas. Mais do que apontar para uma substituição da ordem existente, esses processos sugerem a convivência entre mecanismos hegemônicos já consolidados e experiências institucionais alternativas.

Referências

BLYTH, Mark. The End of Social Purpose? Great Transformation of American Order. In: KATZENSTEIN, Peter J.; KIRSHNER, Jonathan (org.). The Downfall of the American Order. Ithaca: Cornell University Press, 2022.
CHWIEROTH, Jeffrey M. Managing and transforming policy stigmas in international finance: emerging markets and controlling capital inflows after the crisis. Review of International Political Economy, v. 22, n. 1, p. 44-66, 2015.
GRABEL, Ilene. When things don’t fall apart: global financial governance and developmental finance in an age of productive incoherence. Cambridge, MA: MIT Press, 2017.
GRABEL, Ilene. Post-American moments in contemporary global financial governance. In: KATZENSTEIN, Peter J.; KIRSHNER, Jonathan (org.). The Downfall of the American Order. Ithaca: Cornell University Press, 2022.
HELLEINER, Eric. The status quo crisis: global financial governance after the 2008 meltdown. Oxford: Oxford University Press, 2014.
HELLEINER, Eric. Legacies of the 2008 crisis for global financial governance. Global Summitry, v. 2, n. 1, p. 1-12, 2016.
KIRSHNER, Jonathan. 2014. American Power after the Financial Crisis. New York: Cornell University Press.
MCDOWELL, Daniel. Brother, can you spare a billion? The United States, the IMF, and the international lender of last resort. Oxford: Oxford University Press, 2017.
TOOZE, Adam. Crashed: how a decade of financial crises changed the world. New York: Viking, 2018.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


Referência imagética: US Federal Reserve Building. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AUS_Federal_Reserve_Eccles_Building_1937.jpg?t.com 


  1. Professora do Curso de Relações Internacionais da UFRRJ e docente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (PEPI/IE-UFRJ). ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

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