Quilombos, uma realidade social ainda encoberta e uma necessidade de reflexão sobre privações sociais e as políticas públicas

Por Leonardo da Rocha Bezerra de Souza. Recentemente, em parceria com o Prof. Dr. João Bosco Araújo da Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicamos o artigo “As Políticas Públicas e as Privações Sociais em Territórios Quilombolas: a comunidade da Aroeira no Rio Grande do Norte”, na revista Contraponto, do programa de pós-graduação em Sociologia da UFRGS. Esse texto é produto de uma pesquisa realizada entre os anos de 2018 e 2020, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/UFRN). O objetivo central do trabalho era demonstrar como agem as políticas públicas através do combate às privações sociais nessa comunidade. Nesse caso, temos como principal política pública a de regularização do território quilombola (RTQ), regulamentada pelo Decreto nº 4.887 de 2003, assinado pelo então presidente Lula.

Verdades perenes, mitologias e legitimação: uma abordagem a Hans Morgenthau através de Quentin Skinner

Por Paulo Bittencourt. Partindo do meu interesse nas teorias das Relações Internacionais, e considerando o papel importante que Hans Morgenthau ocupa neste campo, o objetivo deste texto é apontar alguns dos pressupostos do autor germânico para a elaboração de seu ponto de vista sobre a política. A partir disso, viso demonstrar como sua visão é passível de uma crítica na chave daquilo que Quentin Skinner chamara, em 1969, de mitologias. Ora, tendo em vista que Morgenthau elabora sua visão da “política entre as nações” a partir da teoria política, e tendo em vista também que a história das ideias políticas – ou melhor, dos argumentos e reformulação dos argumentos políticos visando a sua legitimação (PALONEN, 1997) – é a preocupação principal de Skinner em Meaning and understanding in the history of ideas, não me parece descabido combinar esse interesse pessoal ao objeto de estudo dos autores em questão.

Violência letal no Brasil: as vítimas são negras, mas o crime nunca é por raça

Por Andréa Lopes da Costa. O racismo é um organizador silencioso das relações sociais e seu impacto é como um espectro: se por um lado todos afirmam que ele existe, por outro poucos confirmam ter visto. Fácil de reconhecer na agressão verbal, mas dificilmente reconhecido como catalisador para conflitos sociais diversos, como a violência letal contra pessoas negras. No Brasil, o racismo se mantém por meio de um sofisticado mecanismo de “desracialização” da realidade, de tal forma que, utilizando ironia: mesmo quando as vítimas são recorrentemente negras, o crime nunca é por raça.

Dissenso, ontologia de nós mesmos e a sociologia do presente: alternativas teóricas para (re)pensar os direitos humanos na atualidade

Por Felipe Adão. O presente texto tem como objetivo apresentar algumas alternativas teóricas que podem ajudar a pensar os direitos humanos na atualidade (e a atualidade dos direitos humanos) e podem ser fundamentos interessantes para pesquisas e debates contemporâneos nesta área. Em resumo, desenvolvo uma abordagem histórico-crítica sobre os direitos humanos que combina elementos teóricos das obras de Michel Foucault e Jacques Rancière com a sociologia do presente de Robert Castel, propondo a interação crítica entre os conceitos de dissenso (Rancière), ontologia do presente (Foucault), problematização do contemporâneo e transversalidade (Robert Castel).

A Consequência da Textualidade: comentário sobre “O Conceito de Linguagem e o Métier d’Historien” de J. G. A. Pocock

Por Andréia F. Cardoso. Neste breve texto, nosso objetivo é abordar a característica da textualidade do campo de estudos do historiador descrito por J. G. A. Pocock em “O Conceito de Linguagem e o Métier d’Historien” (2003a [1989]), e a consequente diferenciação em relação a uma história das mentalités (história das mentalidades). Para tanto, analisamos os argumentos apresentados neste artigo com base no que o autor desenvolve em um segundo texto, “O Estado da Arte” (2003b [1995]), em que ele aborda uma vez mais a atividade do historiador do discurso político. Aqui, destacamos a articulação do discurso e da resposta em texto, que indicam que sua história do discurso é fortemente textual.

O Boletim Lua Nova em 2022: uma breve retrospectiva

Por Equipe Boletim Lua Nova. Já em ritmo de fim de ano, desejamos fazer uma retrospectiva das publicações realizadas no blog. Incorremos no risco de não conseguir destacar todos os textos publicados (afinal, foram 115 neste ano), ou não dar conta da variedade deles. Todavia, esperamos relembrar alguns, percorrendo eventos que marcaram 2022.

Democracia Equilibrista: imaginações políticas entre o autoritarismo e as regras democráticas[1]

Por Bruno Camilloto. Os autoritarismos estão na moda. De reivindicações por mais direitos a reivindicações por mais democracia, parece que as sociedades democráticas ao redor do mundo voltaram a experimentar processos de esgotamento daquelas forças sociais capazes de mobilizar potenciais emancipatórios e transformatórios em direção à realização das promessas por mais igualdade, mais liberdade, mais respeito, mais dignidade. As mais recentes crises econômicas ao redor do mundo colocaram em teste, uma vez mais, os fundamentos das sociedades democráticas e, com elas, as promessas não cumpridas da modernidade. Antes mesmo da crise sanitária/humanitária do Coronavírus em 2020, vimos surgir uma vasta bibliografia que anunciava precisamente o fim das democracias e de suas forças. Entre nós, os diagnósticos não desenharam um presente menos avassalador.

Nota sobre a Crise na CAPES

Por Equipe Boletim Lua Nova. Diante o Decreto n° 11.269, de 30 de novembro de 2022, que zerou por completo a autorização para desembolsos financeiros durante o mês de dezembro e impôs restrições orçamentárias e financeiras à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a equipe do Boletim Lua Nova manifesta grave preocupação. Somos um coletivo voluntário de mestrandos/as, doutorandos/as e recém-doutores/as da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), empenhados em divulgar produções científicas de qualidade sobre os aspectos teóricos e empíricos da democracia.

Editoração acadêmica, eleições e políticas públicas no Brasil: Entrevista com Luiz Augusto Campos (parte 2)

Por Ronaldo Tadeu de Souza. O Boletim Lua Nova entrevistou Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia e Ciência Política e Pesquisador do IESP-UERJ, Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA), do Observatório das Ciências Sociais (OS) e Editor-Chefe da Revista Dados. Nesta segunda parte, conversamos sobre o trabalho de editoração de revistas científicas e sobre as eleições de 2022, um dos temas de pesquisa do entrevistado.

A tensão entre conceitos e fatos na história a partir da abordagem de Koselleck    

Por Ana Paula Bulgarelli. Em História dos conceitos e história social (2006), Koselleck chama a atenção do leitor para a tensão existente entre os conceitos e os fatos sociais, refletida também na relação entre a história dos conceitos e a história social. Essa tensão decorreria do fato de que os conceitos não estabelecem uma relação de identidade com os fatos, isto é, não consistem numa mera “tradução linguística” das experiências concretas, como se houvesse uma convergência perfeita entre as palavras e as coisas. Ao contrário, apesar de os conceitos políticos e sociais terem sempre a pretensão de corresponder às estruturas existentes na realidade empírica, essa correspondência é muitas vezes tensa, posto que envolve relações bastante complexas.