A tensão entre conceitos e fatos na história a partir da abordagem de Koselleck

Por Ana Paula Bulgarelli. Em História dos conceitos e história social (2006), Koselleck chama a atenção do leitor para a tensão existente entre os conceitos e os fatos sociais, refletida também na relação entre a história dos conceitos e a história social. Essa tensão decorreria do fato de que os conceitos não estabelecem uma relação de identidade com os fatos, isto é, não consistem numa mera “tradução linguística” das experiências concretas, como se houvesse uma convergência perfeita entre as palavras e as coisas. Ao contrário, apesar de os conceitos políticos e sociais terem sempre a pretensão de corresponder às estruturas existentes na realidade empírica, essa correspondência é muitas vezes tensa, posto que envolve relações bastante complexas.
As tarefas da academia hoje: Entrevista com Luiz Augusto Campos (parte 1)

Por Ronaldo Tadeu de Souza. O Boletim Lua Nova entrevistou Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia e Ciência Política e Pesquisador do IESP-UERJ, Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA), do Observatório das Ciências Sociais (OS) e Editor-Chefe da Revista Dados. Nesta primeira parte, conversamos sobre a emergência de novas temáticas nas ciências sociais e o impacto das ações afirmativas na mudança do perfil das(os) estudantes e cientistas brasileiras(os).
Contexto no singular e no plural: contextualismo e história social da teoria política

Por Sérgio M. Benedito. No campo da teoria política, de maneira geral, quando se faz referência ao contextualismo, logo entendemos que se trata da chamada Escola de Cambridge, representada com algumas variações e várias familiaridades por autores como Quentin Skinner, John Dunn e John Pocock. Não se trata é claro da única abordagem de ênfase histórica, mas daquela mais notória, por sua defesa de que autores e obras do passado devem ser situados em seu ambiente histórico para um melhor entendimento do que quiseram dizer ou sua intenção (Bevir, 2011).
Reconstruindo alguns temas da teoria crítica para uma discussão sobre o fascismo

Por Vladimir Puzone. As discussões sobre o fascismo retornaram ao debate público a partir da crise de 2008 e da ascensão de governos de extrema-direita que observamos desde então. No Brasil, a eleição de Bolsonaro em 2018 alarmou muitos e chamou atenção para a possibilidade de processos fascistas em curso no país. Os seguidores do “mito” compartilhariam muitos dos traços com os movimentos e regimes da primeira metade do século XX: ideias conspiratórias, a busca pela aniquilação dos adversários políticos, sobretudo partidos e organizações de esquerda, e o culto à violê
Da possibilidade e da utilidade de uma história dos conceitos; e de sua aplicação ao termo “cético”

Por Mateus Matos Tormin. No texto Uma história dos conceitos: problemas teóricos e práticos, Reinhart Koselleck aborda seis pontos teóricos relativos à história dos conceitos. Interessa-me, mais especificamente, a tese que surge em meio à discussão do quarto ponto proposto por Koselleck: “a diacronia está contida na sincronia” (1992, p. 141). Essa tese surge como resposta a “críticas fulminantes”, feitas à seguinte afirmação de Koselleck: “todo conceito só pode enquanto tal ser pensado e falado/expressado uma única vez. O que significa dizer que sua formulação teórica/abstrata relaciona-se a uma situação concreta que é única” (1992, p. 138). Ora, o compromisso com essa tese não tornaria inviável a própria atividade da história dos conceitos?
Rezingas de baldado

Por Andrei Koerner. O presidente Jair Bolsonaro levou 45 horas para se manifestar sobre o resultado da eleição presidencial e, quando o fez, não reconheceu a derrota, enaltecendo, pelo contrário, os manifestantes que já bloqueavam as rodovias e se manifestavam em frente a quartéis e outros locais públicos contestando o resultado da eleição e reivindicando uma intervenção militar. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamara os resultados poucas horas depois do fechamento das urnas e a correção do pleito fora reconhecida por autoridades políticas nacionais e estrangeiras, dirigentes partidários e outros atores políticos e sociais.
O lulismo e a reabilitação do populismo

Por Marco Antonio Perruso. Nos últimos anos, no Brasil e no mundo, parece haver uma intensificação do debate em torno do populismo – o fenômeno e o conceito. Não se trata apenas da crítica ao populismo “iliberal” de direita que ascendeu, em maior ou menor grau, nos Estados Unidos, Brasil, Polônia, Hungria. Até porque verifica-se um recrudescimento autoritário genérico dentro das fronteiras, por vezes estreitas, da democracia burguesa em termos institucionais – vide os casos da Inglaterra e de Israel.
Os feminismos e as mulheres nas eleições de 2022

Por Beatriz Rodrigues Sanchez. A centralidade da questão de gênero nas eleições deste ano mostra o que nós, pesquisadoras feministas, temos apontado há tempos: o feminismo não é somente uma luta cultural, cortina de fumaça ou pauta identitária. O feminismo está no centro da disputa sobre os sentidos da democracia.
O gigante acordou: as manifestações de junho de 2013 e a oposição industrial ao governo Dilma

Por Nicole Herscovici. Dilma Rousseff assumiu a cadeira presidencial em um momento em que as crises econômica e política chegavam à superfície ao redor do mundo. No ano de 2011, a zona do Euro foi fortemente atingida pela crise originada em 2008 nos EUA; paralelamente, eclodia a Primavera Árabe, uma série de manifestações de rua derrubaram governos autoritários como na Tunísia e Egito. Em terras tupiniquins, contudo, se experimentava estabilidade política e econômica. A presidenta gozava de alta aprovação popular e avançava com uma política econômica heterodoxa, que apostava na reindustrialização como forma de combater a tendência de desaceleramento econômico e fomentar o desenvolvimento do país. As brisas favoráveis duraram pouco.
Carta de Apoio ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

O Cedec divulga e subscreve a Carta de apoio ao TSE, circulada através do Coletivo USP pela democracia.