As redes sociais estão transformando a democracia. Como?

Por Otávio Z. Catelano. Quanto a isso, podemos concordar: as novas tecnologias de comunicação estão transformando a democracia representativa. No entanto, precisamos discutir de forma mais aprofundada sobre quais são os mecanismos dessa transformação. Não basta dizer que “a internet facilitou o acesso a notícias falsas” e, por consequência, essas notícias estariam influenciando as pessoas a tomarem decisões políticas que não tomariam. Na verdade, as pesquisas mais recentes têm apontado a necessidade de considerarmos que as pessoas somente acreditam em conteúdos falsos quando já têm uma predisposição política anterior. Logo, não são influenciadas a alterar uma decisão, apenas a reforçam. Como?

Revisitando Virgínia Bicudo e Hiroshi Saito: o Projeto Tensões da UNESCO na história das ciências sociais brasileiras

Por Gustavo Taniguti. A história das ciências sociais brasileiras abrange a participação de seus pesquisadores em atividades coordenadas pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) desde meados do século vinte. Na realidade, em países latinoamericanos como o Brasil, Argentina, México e Chile, seria difícil conceber o estabelecimento profissional das ciências sociais alheio à força impulsionadora dessa organização.

Eleições de 2022 e a presidencialização das disputas estaduais

Por Vitor Vasquez. De 1994 a 2014, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) protagonizaram as eleições presidenciais no Brasil. No entanto, a competição entre os dois não se restringiu ao âmbito federal, pois ajudou a estruturar também as estratégias de candidatura para os governos estaduais (BRAGA, 2006; CORTEZ, 2009; LIMONGI; CORTEZ, 2010; MELO, 2007; MELO; CÂMARA, 2012; MENEGUELLO, 2010; SANDES-FREITAS, 2015). O fim dessa estabilidade da competição para a presidência da República ocorreu em 2018, quando PT rivalizou a disputa não com o PSDB, mas com o Partido Social Liberal (PSL), ao qual era filiado Jair Bolsonaro.

Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina

Por Carolina A. Gomes de Brito e Thiago da C. Lopes. Em artigo publicado no número 115 da revista Lua Nova, intitulado “Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina”, os autores analisam o pensamento de Carlos Alberto de Medina e sua inserção no campo das ciências sociais no Brasil. Assim, indicam como a obra e a trajetória do sociólogo, ainda pouco conhecidas e estudadas, constituem uma rica fonte para a compreensão dos debates, característicos dos anos 1950 e 1960, sobre as relações entre doença, pobreza, subdesenvolvimento e autoritarismo.

Há democracia interna nos partidos políticos brasileiros?

Por Soraia Marcelino Vieira. Quando se fala em eleição não se pode deixar de falar em partido político, um ator central no processo eleitoral e fundamental nos regimes democráticos. Geralmente, as preocupações acerca deste ator giram em torno de seu comportamento frente à competição política, mas é importante, também, voltar o olhar para sua estrutura interna, principalmente para questões relacionadas à transparência, ética e processos de escolha de candidatos/as. O que se pretende destacar aqui é a importância de dialogar com questões referentes à democracia interna dos partidos políticos brasileiros, especialmente em ano eleitoral.

O que torna uma decisão legítima? Um argumento contra as teorias da última palavra

Por Renato Francisquini. Nos últimos anos, o regime democrático tem sido desafiado de inúmeras maneiras. Em países onde, até há pouco tempo, ela parecia consolidada, a democracia sofre toda sorte de retrocessos e descontinuidades. Embora o fenômeno tenha se tornado mais evidente em governos como os de Donald Trump, Viktor Orbán e Jair Bolsonaro, não é de hoje que as instituições políticas são alvo de ataques por movimentos políticos e da desconfiança de uma parte da sociedade.

O Senado Federal e a representação de minorias

Por Bruno de Castro Rubiatti. Nas últimas décadas, o debate sobre a representação de minorias têm ganhado destaque no Brasil. Desde a promulgação da Lei 9.504/1997 que definiu uma cota de candidaturas para mulheres (25% nas eleições de 1998 e 30% nas seguintes), os resultados dessa política estão abaixo do esperado: apesar do crescimento na representação feminina na Câmara dos Deputados, o número de candidatas eleitas ainda se mantém baixo – em 2018, 32,2% das candidaturas foram de mulheres, mas apenas 15,0% das cadeiras em disputa foram ocupadas por elas.

O evangelismo empreendedor: o entrepreneurship na ação política das organizações não-governamentais transnacionais da nova direita (Parte II)

Por Renato Ortega. Na primeira seção do texto, foram revistas algumas concepções relacionadas ao empreendedorismo, propostas por distintos autores vinculados ao pensamento neoliberal. Cabe agora verificar em que medida elas podem ser observadas nas próprias atividades promovidas por organizações transnacionais vinculadas à nova direita, bem como também informam a respeito do contexto social e político que possibilitou a emergência dessas entidades. Elege-se como objeto de análise a Alliance Defending Freedom (ADF), criada em 1993 em Scottsdale, Estados Unidos, e mais especificamente seu braço internacional, a ADF International, surgida em 2010.

Eleições brasileiras 2022: sinais de um teste institucional

Por Juliana de S. Oliveira e Lucas D. Pereira. Brasil, 1954, uma eleição polarizada entre UDN e PSD. Fraude é a tônica da discussão, de tal modo que a palavra golpe está presente no vocabulário político corrente. A UDN, um dos pólos da competição, investe no discurso de que as eleições seriam fraudadas. A premissa da acusação se concentra no método de votação: a inexistência de cédula oficial . Anteriormente a 1954, a UDN nunca havia tocado no assunto da cédula. Não obstante, para a eleição daquele ano, o discurso udenista sustentava que o resultado eleitoral não traria a verdade das preferências do povo às urnas.

O evangelismo empreendedor: o entrepreneurship na ação política das organizações não-governamentais transnacionais da nova direita (Parte I)

Por Renato Ortega. Na gramática política contemporânea, poucas palavras mobilizam o imaginário coletivo com o mesmo alcance do termo “empreendedorismo”. De Donald Trump a Emmanuel Macron, figuras de diversas colorações políticas e regiões do globo buscaram revestir-se com a imagem do empreendedor de sucesso perante o eleitorado, ao apostar na acolhida calorosa que a retórica celebratória do empreendedorismo encontra junto a parcelas da população. A lógica do discurso pinta o empresário bem-sucedido como o sujeito mais apto a conduzir os processos de modernização e moralização do aparelho estatal, em contraposição à incontornabilidade dos males da burocracia, ineficiência e corrupção que assolam a administração pública (Washington Post, 2017).