China, PT e o socialismo

Por Pedro Giovannetti Moura. É a partir da resolução da disputa interna do Partido Comunista da China (PCCh) após a morte de Mao Zedong, em 1976, com o apontamento de Deng Xiaoping como seu sucessor e principal liderança da República Popular da China (RPC), que é possível demarcar um conjunto de transformações econômicas significativas no país – como fiz em artigo recentemente publicado na Revista Princípios, “Deng Xiaoping na Vila Euclides. As reformas chinesas de 1978 e o Partido dos Trabalhadores”. Nele, argumento que tais reformas representam um impacto, simultaneamente, no desenvolvimento chinês, na geopolítica global e na própria trajetória do pensamento socialista mundial.

Eleições e fantasmas na América Latina

Joyce M. Leão Martins. A política moderna, idealizada em nome da liberdade e da igualdade, foi pactada por um grupo seleto de pessoas: homens, brancos, proprietários. Em sua aurora, o liberalismo condenou metade da humanidade ao espaço privado e à submissão, o que Carole Pateman (1993) chamou de “contrato sexual”. O viés sexista dos acordos sociais da modernidade, que negava às mulheres o direito de serem indivíduos, isto é, de serem reconhecidas como sujeitos livres, racionais e iguais, foi denunciado desde cedo. Não à toa, Amelia Valcárcel (2001) afirmou que o feminismo foi um filho indesejado da Ilustração.

Descentramento, política e mídias digitais: contribuições da Sociologia do Inconsciente

Por Samira Feldman Marzochi. Em vez de privilegiar o modus operandi dos aplicativos e plataformas digitais, a análise da subjetivação política contemporânea exige que pesquisadores e pesquisadoras se situem um pouco além das propriedades e dinâmicas dos softwares, no intuito de resistir à colonização da sociologia pelos imperativos tecnológicos. Embora o funcionamento, a capitalização, o alcance e a potencialidade das mídias devam ser considerados, é preciso evitar a sobrevalorização da tecnologia na análise.

As origens intelectuais do fascismo e suas reinvenções: entre a “revolução conservadora” e o Tradicionalismo

Francisco T. R. Vasconcelos. Em As origens intelectuais do fascismo e suas reinvenções: entre a “revolução conservadora” e o Tradicionalismo, publicado na Revista Plural USP, abordo o fascismo a partir de suas origens intelectuais, como forma de dar visibilidade a uma perspectiva pouco elaborada na literatura sociológica e histórica, que esteve mais atenta ao fascismo como prática política enraizada em correlações de classe. Trata-se, na verdade, de uma perspectiva complementar, posto que o fascismo é marcado justamente pela falta de um sistema filosófico bem definido (Paxton, 2007).

Eleições 2022: o que está em jogo?

Por Maria do Socorro S. Braga e Johnny Daniel M. Nogueira. O Brasil atravessa uma das conjunturas mais desafiadoras de sua República após a redemocratização e promulgação da Constituição de 1988. As eleições deste ano se configuram como o acontecimento central a partir do qual o país poderá sair da encruzilhada de fortuna histórica que resultou na chegada da extrema-direita ao poder central em 2018. O processo eleitoral, por sua dimensão e seus efeitos, afeta o destino de milhões de pessoas e coloca em jogo projetos políticos de país e de políticas públicas que, tanto por sua presença ou ausência, impactam diretamente a sociedade.

A financeirização da pobreza durante o governo Temer

Por Guilherme F. Benzaquen. A cada mês, as pesquisas sobre endividamento familiar no Brasil garantem manchetes nos principais jornais por conta de seus números expressivos. Algumas vezes essas notícias são acompanhadas de julgamentos morais e da promoção da “educação financeira”. Porém, parece-me insuficiente procurar a interpretação ou explicação desse processo em propensões individuais, abstraindo o que nelas há de social. Por mais que me pareça simplista, pode até existir um componente de “irresponsabilidade” ou “falta de educação” nesses sujeitos endividados – como apregoa uma parte da literatura sobre “educação financeira”. Mas, se o processo é social, há algo a ser dito para além das acusações morais de que “o pobre compra por impulso” e “gasta com aquilo que não precisa”.

Pensar a Amazônia no Século XXI: Novos Prismas, Vozes e Perspectivas

Por Antonio A. Rossotto Ioris e Rafael R. Ioris. Pensar a Amazônia é pensar na imensidão, no superlativo e no muito mais por pensar e aprender a perguntar. Espaço de vida milenar, múltiplo e complexo, que nos remete continuamente da escala continental a problemas locais, quotidianos e setorizados, que também constituem a vida e a política da região. Muito além de imagens estereotipadas de fragilidade e incomensurabilidade, a Amazônia ocupa o centro das controvérsias globais contemporâneas sobre desenvolvimento, democracia, estado de direito e desavença entre as dimensões humanas e mais-do-que-humanas da natureza.

Política social, Bolsonaro e as eleições de 2022

Por Sergio Simoni Junior. Ainda que em 2022 participaremos da nona eleição presidencial pós-Constituição de 1988, número esse que é mais que o dobro da primeira experiência democrática em 1946-1964, o Brasil é um dos casos mais importantes da nova (ou renovada) e famosa seção editorial conhecida como “crises da democracia”. Na última disputa, a eleição de um político defensor da ditadura militar, autor de diversas frases racistas, misóginas, homofóbicas, sem estrutura partidária e nenhuma relevância nos debates sobre os grandes temas nacionais, tenderia a colocar uma das maiores democracias do mundo em retrocesso, como confirmado, por exemplo, pelo relatório de 2021 do V-DEM.

A CPI da Funai e do Incra e os ataques aos direitos territoriais e culturais    

Por Priscila Tavares dos Santos. As ações da CPI da Funai e do Incra demonstram nítido interesse em atender às demandas e propósitos próprios desse espaço semântico e social que evocam para si “o poder de influência da narrativa” (BENSA, 1998, p. 51), poder este que assegura a continuidade da realidade social, à moda da casa, inclusive legislativa. Portanto, os efeitos desses atos narrativos e a coerção mediante as ameaças de indiciamentos de antropólogos e de lideranças políticas podem ser vislumbrados em diferentes maneiras, todas convergindo para validar os estatutos sociais dos locutores, para produzir convencimento mediante alteração do curso de acontecimentos históricos, ou mesmo pela modificação de pontos de vista dos inquiridos, de suas atitudes e valores, por desvirtuamento dos acontecimentos.

Precisamos debater o direito ao aborto: diante das tentativas de retrocesso, é necessário, também, garanti-lo

Por Fabiola Fanti. Desde a redemocratização, o tema do aborto costuma vir à tona em períodos eleitorais. Nas eleições deste ano não é diferente. O presidente Jair Bolsonaro (PL) manifestou-se diversas vezes contrariamente ao direito ao aborto em qualquer circunstância. Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recentemente afirmou que o aborto deveria ser tratado como questão de saúde pública, mas, após repercussão negativa, declarou-se pessoalmente contrário.