Adilson Vagner de Oliveira1
17 de agosto de 2026
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Dando continuidade à série Especial Eleições 2026, Adilson Oliveira analisa a consolidação do conservadorismo e do bolsonarismo na Amazônia Legal. Com base em dados eleitorais e ambientais, além de pesquisas desenvolvidas pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL), o autor examina as transformações políticas recentes na região e o fortalecimento da direita, especialmente em estados como Mato Grosso e Rondônia.
Os demais textos da série podem ser conferidos aqui.
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Desde 2022, o Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL) tornou-se um dos principais observatórios institucionais para acompanhar a dinâmica política dessa região brasileira. Enquanto uma construção histórica de organização política de estados com ecossistemas próximos, a Amazônia Legal surge em 1953 com o objetivo de planejar políticas de desenvolvimento econômico e social para a região amazônica.
Portanto, o conceito de Amazônia Legal traz consigo uma história de desconexão econômica com o restante do país, produzindo uma imagem de abandono estatal que foi reconstruída ao longo do século XX e intensamente modificada no século XXI. A região concentra estados que se tornaram grandes produtores de commodities agrícolas, como o Mato Grosso, em consonância aos grandes estados de conservação ambiental da Amazônia, como Amazonas e Pará. Dessa maneira, a pluralidade de ecossistemas ambientais e sistemas de produção agrícola tem sido marcada pela contradição de interesses políticos, numa complexa relação entre produzir e preservar.
Trata-se de uma região de fronteira com outros países, que nas últimas cinco décadas tem sido marcada por ondas intensas de conservadorismo em termos culturais, em que o discurso da autoridade, da ruralidade e da tradição moldaram a dinâmica comportamental e os valores sociais da população. Essa mudança pode estar associada à expansão do agronegócio, ao forte fluxo migratório, à predominância evangélica e à herança militarista (Legal, 2022). O fenômeno do conservadorismo em regiões agrícolas pode ser facilmente observado em outros países como nos Estados Unidos, com estados majoritariamente republicanos no Meio-Oeste e Sul, o chamado Deep South e na França, no sul e leste, com maiores tendências em votar em candidatos nacionalistas, extremistas e conservadores. Portanto, não se refere à uma experiência unicamente brasileira.
Nos estados fortemente agrícolas, o compartilhamento de valores conservadores nunca foi uma novidade, e desde 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro do PL, os contrastes de ideologias e visões de mundo ficaram mais explícitos. Em Mato Grosso, nunca houve nenhum candidato eleito pelo Partido dos Trabalhadores ao governo do estado, dada à tendência conservadora histórica de seus eleitores e de seus políticos. Entretanto, em estados com os maiores índices de preservação florestal a força de uma idealizada consciência ambiental parecia proteger a região de candidatos ultraliberais e/ou da extrema-direita, evitando, principalmente nas últimas décadas, o princípio tradicional de desmatar para desenvolver. Uma visão intensamente praticada na segunda metade do século XX, mas que ganhou vitalidade concreta nos projetos e discursos de Jair Bolsonaro, com forte oposição aos grandes movimentos sociais ambientalistas do passado amazônico.
Os dados de desmatamento durante o mandato de Bolsonaro (2019-2022) revelam a materialização de uma perspectiva discursiva que obteve espaço e votos significativos mesmo em regiões de floresta, onde projetos de sustentabilidade tentaram se manter resistentes às demandas exploratórias do mercado produtivo.
| Ano de Referência | Desmatamento em Km² |
| 2018 | 7.536 |
| 2019 | 10.129 |
| 2020 | 10.851 |
| 2021 | 13.038 |
| 2022 | 11.594 |
Fonte: PRODES/ INPE (2019-2022)
Obviamente, a receptividade à onda conservadora do Bolsonarismo na região Amazônica deve ser explicado por vários fatores, tais como: sistemas produtivos primários de exploração e extrativismo que veem as práticas expansionistas das fronteiras agrícolas como alternativas mais interessantes de aumento econômico do que projetos tradicionais de sustentabilidade e comercialização local de produtos regionais, uma perspectiva fortemente marcada por ideologias mais humanizadoras, menos exploratórias e ambientalmente mais responsáveis. Os espaços dominados pela migração sulista tenderam a desejar a substituição de modelos produtivos mais tradicionais, percebendo na expansão produtiva de grãos e na pecuária possibilidades reais de transformação social e econômica.
As pesquisas qualitativas realizadas recentemente nos estados da Amazônia Legal pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal, por meio de grupos focais e entrevistas em profundidade, demonstraram que o pensamento amazônico tem passado por uma transição substantiva que assemelha-se muito aos das regiões do sul e sudeste, não somente pelo processo migratório sulista mais intenso das últimas décadas, mas também pela ampliação das mídias de comunicação das redes sociais, há uma homogeneização de visões econômicas no país.
Pensar o desenvolvimento econômico amazônico no século XXI não é o mesmo de cinquenta anos atrás, a própria população tradicional da região amazônica tende a mesclar perspectivas mais territorialistas com aspirações globais de crescimento e mudança estrutural de urbanização e infraestrutura. Essa visão passou a produzir um sentimento de resistência às políticas ambientais de preservação, como demarcação de terras indígenas e criação de unidades de conservação, a percepção local se transforma drasticamente ao ver essas ações políticas como obstáculos ao desenvolvimento econômico.
Além disso, a Amazônia foi um território de inúmeras missões religiosas ao longo dos séculos, com forte presença católica que foi intensamente substituída por designações neopentecostais. De acordo com Bezerra (2025), o estado de Amazonas se transformou no espaço com mais adventistas do Brasil, além da grande presença de fiéis da Assembleia de Deus, surgida em Belém do Pará, no começo do século XX. A Igreja Católica considerou por muito tempo a Amazônia como uma região periférica para evangelização, o que permitiu a expansão protestante e neopentecostal. Essas mudanças religiosas encontraram espaço para se acomodar no discurso religioso proclamado pelo bolsonarismo, fazendo com que a região norte do país se estabelecesse como terreno fértil para um projeto internacional de poder inspirado no nacionalismo cristão que sustentou a eleição e o mandato de Jair Bolsonaro de 2018 a 2022. Esse perfil religioso consolidou o conservadorismo em todo o país, mas que na Amazônia Legal se tornou mais visível devido à baixa densidade populacional, acrescidos de uma valorização da autoridade imposta pelo discurso de ordem e segurança nacional expandida pelos militares e seus apoiadores que fizeram parte do governo Bolsonaro.
O conservadorismo bolsonarista se compõe desses vários elementos: um discurso neoliberal antiestadista que demoniza políticas públicas para a população pobre e trabalhadora; aversão às práticas de sustentabilidade ambiental e preservação de rios e florestas; sustentado pelo nacionalismo cristão majoritariamente evangélico, mas também católico em termos de projeto cultural conservador estruturado num modelo único de família e valores tradicionais do passado; e por fim, uma idolatria ao autoritarismo como símbolo de poder e ordem social.
Pode-se acrescentar ao fenômeno do bolsonarismo, a oposição aos elementos simbólicos e estruturais associados à visão progressista de país, ou seja, equidade entre homens e mulheres, ascensão social da população negra e direitos civis para a população LGBTQIA+. Projetos socioeconômicos nacionais facilmente reconhecidos pelo eleitorado como agenda política da esquerda e/ou do Partido dos Trabalhadores (PT), o que forjou um antipetismo muito forte na região amazônica também, principalmente nos estados produtores agrícolas, como Mato Grosso e Rondônia, onde os números eleitorais se assemelham aos de Santa Catarina (69% para Bolsonaro no segundo turno de 2022).
Figura 1. Eleição para presidente em 2022 (1º Turno)

Fonte: Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL)
O mapa eleitoral da eleição de 2022 refletiu o fenômeno do bolsonarismo na região da Amazônia Legal, em que Jair Bolsonaro (PL) venceu a votação em cinco dos nove estados, com margem expressiva em Rondônia, Mato Grosso e Tocantins. Neste atual pleito de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na presidência, poucas mudanças reais afetaram a percepção dos eleitores locais, com tendência à manutenção de resultados semelhantes à competição anterior. A região segue com forte sentimento de antipetismo, caso o possível candidato Flávio Bolsonaro (PL) mantenha-se próximo dos índices atuais das intenções de votos, Lula (PT) poderá melhorar os resultados locais a depender dos eleitores indecisos e dos swing voters – eleitores não ideológicos que podem mudar o voto livremente.
Em 2026, Mato Grosso novamente não abre espaço competitivo para pré-candidatos filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT) concorrerem ao governo do estado. As pesquisas iniciais de intenção de votos para Governador apontam os seguintes nomes na pré-candidatura: Wellington Fagundes (PL), Otaviano Pivetta (Republicanos), Jayme Campos (União Brasil), Natasha Slhessarenko (PSD) e Rafaell Milas (Missão). Em outras palavras, a competição eleitoral para governador ocorrerá majoritariamente entre pré-candidatos conservadores.
Trata-se, portanto, de um processo de continuidade explícita da dinâmica eleitoral das competições anteriores, o que revela a consolidação da Direita brasileira no estado de Mato Grosso e em grande parte da região da Amazônia Legal.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referências
BEZERRA, César Aquino. A luz do evangelho nas águas do Rio Amazonas: protestantes em Belém e Manaus no final do século XIX e começo do século XX. Revista Último Andar. São Paulo, v. 28, nº 45, jan.-jun./ 2025
LEGAL – Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal. Disponível em: https://lhttps://legal-amazonia.org/ Acesso em 20/07/2026.
PRODES/INPER. Terra Brasilis Prodes-Desmatamento. Disponível em: https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/ Acesso em 20/07/2026.
SANTOS, Fabiano. A dinâmica eleitoras nos estados da Amazônia Legal: um quadro sintético e comparativo. Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal. Disponível em: https://legal-amazonia.org/a-dinamica-eleitoral-nos-estados-da-amazonia-legal-um-quadro-sintetico-e-comparativo/. Acesso em 20/07/2026.
Fonte imagética: Mapa Amazônia Legal. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=Amazonia+Legal&title=Special%3AMediaSearch&type=image
- Doutor em Ciência Política e docente do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) – Campus Tangará da Serra. Contato adilson.oliveira@ifmt.edu.br. ↩︎


