Acza Rodrigues1
Carolina Weber2
10 de abril de 2026
Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Acza Rodrigues e Carolina Weber das mudanças de referências culturais com os questionamentos sobre o “American Way of Life”. O texto foi originalmente publicado em 2 de abril de 2026, no site do OPEU.
***
Recentemente, viralizou a expressão “o baiano tem o molho”, utilizada para se referir ao ator Wagner Moura e aos seus feitos no cinema internacional. Há quem chame de “borogodó”, e outros, de “ginga”. Trata-se de um conceito subjetivo, mas seria uma mistura de autenticidade, improviso e alegria, bem como de uma confiança em si mesmo que remete ao “jeito brasileiro”. Dizer que alguém “tem o molho” é fazer o outro olhar e pensar: “essa pessoa sabe viver”. No dia 15 de março, dia do Oscar, uma campanha publicitária da Heinz levou a expressão “o baiano tem o molho” a um outdoor em Hollywood, na Sunset Boulevard, no trajeto da cerimônia do Oscar.
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum observar elementos da cultura brasileira, circulando com força no cenário internacional. De tendências estéticas associadas ao chamado Brazilcore à crescente presença de artistas, produções audiovisuais e destinos turísticos brasileiros em rankings globais, o Brasil passou a ocupar um espaço de destaque no imaginário cultural contemporâneo. Embora haja quem considere esse fenômeno passageiro, não se pode ignorar que existe uma estrutura que sustenta essa visibilidade, sugerindo uma mudança nas referências simbólicas valorizadas globalmente e abrindo espaço para uma maior projeção do Brasil no cenário internacional.
Esse movimento ocorre em um contexto marcado pelo questionamento de modelos tradicionalmente associados à ideia de sucesso, prosperidade e organização social, especialmente aqueles vinculados ao American Way of Life. Historicamente construído como um ideal de liberdade, mobilidade social e realização individual, esse modelo tem sido confrontado, no século XXI, por transformações econômicas, sociais e políticas que evidenciam seus limites e contradições.
Diante desse cenário, observa-se não apenas um processo de desgaste do poder de atração dos Estados Unidos, mas também a abertura de espaço para novas referências culturais e formas de sociabilidade no sistema internacional. É nesse contexto que o Brasil passa a ser percebido, ainda que de maneira inicial e por vezes contraditória, como um possível contraponto simbólico, associado a valores como diversidade, coletividade, autenticidade e capacidade de diálogo.
Declínio do American Way of Life
Pesquisas indicam que, para a maioria dos norte-americanos, o American Dream não desapareceu completamente, mas deixou de ser uma promessa amplamente acessível para se tornar uma expectativa cada vez mais distante. Apesar de ainda ser valorizado como ideal, ele passa a ser percebido como de difícil alcance diante de um contexto marcado por desigualdades crescentes, alto custo de vida e redução da mobilidade social. Nesse cenário, o American Way of Life deixa de representar segurança e prosperidade garantidas e passa a refletir uma experiência marcada por incerteza econômica, pressão individual e dificuldades estruturais. Compreender esse processo de transformação exige retomar as bases históricas e conceituais que sustentaram esse modelo ao longo do século XX.
O American Way of Life (“Jeito americano de viver”) faz referência a um estilo de vida que envolve valores econômicos e culturais que estruturam a identidade nacional dos Estados Unidos a partir do século XX. São pilares desse estilo de vida: autossuficiência, individualismo, consumo como expressão de liberdade e privacidade. A base simbólica desse conceito se encontra no American Dream (“Sonho Americano”).
O conceito foi formulado por James Truslow Adams em 1931, quando buscou compreender os impactos da Grande Depressão. Ademais, nessa época, a ascensão do autoritarismo na Europa estava desencadeando, nos norte-americanos, certo flerte com as ideologias totalitárias. Por isso, Adams concluiu que os Estados Unidos estavam valorizando o sucesso material acima de todos os outros valores. Para Adams, tratava-se de um sonho, em que as pessoas teriam acesso a uma vida melhor, mais rica e mais feliz. Tratava-se, sobretudo, de um ideal de caráter moral coletivo. Adams também alerta para as falhas desse modelo, denunciando os perigos do capitalismo desenfreado, do consumo em massa e da devoção à acumulação de riqueza sem considerar o bem da sociedade.
A ideia do Sonho Americano tem raízes mais profundas, fincadas na Declaração de Independência do país, a qual afirma que “todos os homens são criados iguais, são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre eles a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”. O filósofo francês Alexis de Tocqueville já havia abordado essa temática após sua viagem aos Estados Unidos, em 1831, que acabou se tornando um estudo sobre o estado social democrático norte-americano. Esse estudo deu origem a sua obra A democracia na América (Edipro, 2019), um dos pilares da Ciência Política moderna.
Nessa obra, Tocqueville apresentou a jovem democracia norte-americana como uma experiência histórica singular. Ele admirava a relativa igualdade de condições, as instituições locais e o espírito associativo dos cidadãos. Para Tocqueville, esses hábitos fortalecem a liberdade e fazem da democracia estadunidense um modelo dinâmico. Ele também identificou perigos estruturais. O filósofo alertou para o avanço do individualismo democrático, que levava os indivíduos a se retraírem para a esfera privada. Também preveniu sobre o risco de um materialismo extremo, capaz de gerar apatia cívica, degradação da alma e perda do vigor criativo. Por fim, advertiu sobre a possibilidade de um “novo despotismo”, no qual um Estado centralizador exerceria um “poder tutelar” que infantiliza os cidadãos, esvazia sua autonomia política e lhes oferece apenas a ilusão da liberdade.
Como antídoto, Tocqueville sugeriu o fortalecimento das associações civis, da participação local e da descentralização administrativa, além do cultivo de costumes e práticas que mantivessem os cidadãos engajados na vida coletiva. Para ele, a democracia só se preserva quando a liberdade política é sustentada por vínculos sociais ativos.
O século XXI mostra que nem Tocqueville nem James Adams estavam errados. No contexto do neoliberalismo, uma economia orientada pelo consumo e pela maximização do lucro enfraqueceu o poder de negociação dos trabalhadores e deslocou investimentos da produção para a esfera da financeirização e a da privatização de serviços públicos. Esse processo contribuiu para o enfraquecimento dos mercados locais, para a ampliação das desigualdades e para a exploração crescente dos recursos naturais. Nesse cenário, a lógica do capitalismo desenfreado acabou prevalecendo, deixando em segundo plano o bem comum, diante das exigências do mercado e da acumulação de riqueza.
A consolidação dessa lógica econômica também contribuiu para uma crescente crise de confiança nas instituições políticas e democráticas dos Estados Unidos. Tal contexto abriu espaço para lideranças que mobilizam frustrações sociais por meio de discursos polarizadores, como ocorreu com a ascensão de Donald Trump. Durante seu governo, políticas e narrativas fortemente individualistas foram, com frequência, direcionadas à proteção dos interesses de segmentos específicos da sociedade, em detrimento de uma agenda mais ampla de inclusão social. Como consequência, intensificaram-se tensões já presentes no tecido social norte-americano, especialmente no que se refere a questões raciais, migratórias e de gênero.
Para além das consequências econômicas e políticas, observam-se impactos significativos nos planos social e psicológico. Para compreender essa dinâmica, é necessário retomar a formação histórica do país.
Ao apagar ou marginalizar a herança das comunidades indígenas, apagaram-se, também, práticas que favoreciam a cooperação e o desenvolvimento de atividades comunitárias. Nas colônias do Sul, os colonos se dedicavam ao comércio e competiam entre si em um sistema dominado por uma aristocracia agrária de plantação. A produção era intensa, voltada prioritariamente para o lucro, e baseada no uso de trabalho escravo. Já nas colônias do Norte, a cultura dos colonos puritanos, com raízes no calvinismo, prevaleceu. A teologia determinista do calvinismo afirma que o destino de alguém é predeterminado por Deus.
Somado a isso, a ética do trabalho protestante, conforme analisada por Max Weber, também foi incorporada ao pensamento coletivo da sociedade norte-americana. Em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Martin Claret, 2013), Weber argumenta que, para determinadas vertentes do protestantismo, como o calvinismo, o trabalho árduo era virtuoso e engrandecia o homem. Essa valorização do esforço individual contribuiu, ao longo do tempo, para a consolidação da ideia de meritocracia, segundo a qual o sucesso ou o fracasso dos indivíduos dependeria fundamentalmente de seu próprio desempenho, disciplina e dedicação. Juntos, esses fatores tornaram os norte-americanos cada vez mais competitivos e individualistas.
Esses elementos históricos não produzem, de forma direta e imediata, os fenômenos sociais contemporâneos, mas ajudam a compreender a formação de uma matriz cultural que, ao longo dos séculos, foi sendo reconfigurada e aprofundada em diferentes contextos econômicos e políticos. Nesse sentido, muitos dos processos e conflitos que se manifestam no mundo contemporâneo podem ser interpretados à luz de estruturas historicamente enraizadas na sociedade estadunidense, ainda que mediadas por transformações próprias de cada período.
Um exemplo disso pode ser observado no que hoje as autoridades de saúde consideram uma “epidemia de solidão”. Nas últimas décadas, estudos indicam o crescimento da solidão, da ansiedade, da depressão e das taxas de suicídio em diferentes segmentos da sociedade norte-americana. A cultura que exalta a autossuficiência (“o homem feito por si mesmo”) e a competição (“da pobreza à riqueza”) como caminhos privilegiados para o sucesso individual reforça a ideia de que prosperar depende exclusivamente do esforço pessoal (a lógica meritocrática). O resultado é uma sociedade em que muitos indivíduos, apesar de inseridos em uma economia altamente desenvolvida, experimentam a ausência de pertencimento, comunhão, empatia e participação cívica. Nesse sentido, o individualismo, antes celebrado como motor da liberdade e da prosperidade, revela também seu efeito negativo: o de fragilizar os vínculos sociais que sustentam tanto o bem-estar dos cidadãos quanto a vitalidade da democracia.
Do isolamento interno ao isolamento internacional
Os processos de fragmentação social e de enfraquecimento da coesão interna, discutidos anteriormente, manifestam-se de forma concreta em uma série de desafios estruturais enfrentados pela sociedade norte-americana contemporânea. Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos têm enfrentado desafios significativos em sua posição hegemônica. A ascensão inicial dos EUA como potência global foi impulsionada pelo Plano Marshall (1948-1951) e pela reconstrução do Pós-Guerra, consolidando sua influência em diversos aspectos do cenário internacional. Para além de sua superioridade econômica e militar, essa liderança também foi sustentada por um forte poder de atração cultural e político, frequentemente descrito como soft power, que projetava o país como modelo de prosperidade, liberdade e mobilidade social.
No entanto, uma série de transformações geopolíticas, econômicas e sociais contribuíram para o questionamento dessa hegemonia. A influência dos EUA na formulação da agenda política internacional e sua capacidade de impor regras às nações que compõem sua esfera de influência têm sido objeto de debate, à medida que emergem sinais de declínio relativo desse domínio. Argumenta-se que uma economia liberal mundial depende de um país estabilizador, e a crise hegemônica dos EUA levanta questionamentos sobre a eficácia contínua desse papel estabilizador.
Nesse contexto de crise global de lideranças, a instabilidade da hegemonia dos Estados Unidos assume um papel relevante. A erosão gradual da influência norte-americana, destacada por analistas contemporâneos, não apenas questiona a capacidade do país em manter seu papel de estabilizador global, mas também lança dúvidas sobre a eficácia da liderança internacional em um cenário marcado por profundas transformações na ordem mundial. A ascensão de outras potências, as mudanças nas dinâmicas econômicas e as crescentes interdependências entre nações desafiam a concepção tradicional de liderança global.
O desgaste da imagem internacional norte-americana, associada aos desafios internos de polarização política, desigualdades sociais e transformações econômicas, contribui para o questionamento da hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional. Nesse contexto, o chamado American Way of Life deixa de operar como uma referência universal e passa a ser percebido como uma experiência marcada por tensões e contradições. Assim, torna-se evidente que o país enfrenta um momento de inflexão histórica, no qual sua capacidade de manter liderança global passa a depender de sua habilidade em responder a esses desafios internos e externos de maneira eficaz.
Oportunidade estratégica: Brasil como tendência
Nesse contexto de questionamento da hegemonia norte-americana e de desgaste do seu poder de atração internacional, abre-se espaço para a emergência de novas referências culturais e simbólicas no cenário global. O “estilo brasileiro de viver” é uma das mais novas tendências culturais em circulação no cenário internacional. Em meio ao desgaste do ideal de prosperidade individual associado ao American Way of Life, observa-se, no cenário cultural internacional, uma busca crescente por referências associadas à coletividade e à autenticidade. Nesse sentido, o Brasil passa a ser percebido não apenas como tendência cultural, mas como uma possível alternativa simbólica, associada a valores como diversidade, sociabilidade e abertura ao diálogo.
O termo Brazilcore, que se refere à estética brasileira, aparece no exterior como forma de traduzir o imaginário coletivo da identidade brasileira em imagens concretas e funciona como uma maneira de expressar a ideia de que “o Brasil está na moda”. Compõem essa estética cores vibrantes, com predominância do verde e do amarelo, vídeos de moda, fotos de paisagem, musicalidade, memes e símbolos que estão entre o popular e o estereótipo, como o futebol, os chinelos da marca Havaianas e o funk. A tendência transita entre a valorização de elementos culturais e de identidade brasileira — o que pode servir como um convite para olhares mais atentos e curiosos sobre o país, reforçando seu soft power — e o risco de se tornar uma exportação cultural vazia de significado, baseada em estereótipos ou mesmo marcada por traços de apropriação cultural. Nesse contexto, a cultura digital e as redes sociais desempenham papel central na difusão e ampliação dessas narrativas, projetando globalmente imagens e referências associadas ao Brasil.
Outra área, na qual o Brasil tem ocupado espaço relevante nas discussões internacionais, é o cinema. O jornalista e crítico de cinema Hebert Neri afirmou, em entrevista à revista Veja, que acredita que o Brasil esteja passando da condição de convidado à de protagonista na grande festa que é a indústria cinematográfica internacional. Em 2025, o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, tornou-se o primeiro título brasileiro a vencer o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar. Além disso, o filme obteve outros reconhecimentos, como o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza de 2024, enquanto Fernanda Torres recebeu o prêmio de Melhor Atriz de Filme de Drama no Globo de Ouro de 2025.
Neste ano, o filme que está ganhando destaque é “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Dentre os prêmios conquistados, destacam-se Melhor Direção e Melhor Ator, para Wagner Moura, no Festival de Cannes, além do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, também para Wagner Moura. Para além desses reconhecimentos, o filme foi indicado ao Oscar em quatro categorias, Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Escalação de Elenco.
Hebert Neri também argumenta que a força desse movimento decorre do amadurecimento da cinematografia brasileira. Segundo ele, nossos profissionais têm conquistado reconhecimento global, e nossa capacidade de produzir narrativas universais, com base em experiências locais, tem-se consolidado. Isso indica que o cinema brasileiro está evoluindo e encontrando uma abordagem própria, construindo sua identidade dentro de uma indústria que opera, historicamente, segundo os moldes e padrões hollywoodianos.
Em outro momento, Adolpho Veloso, premiado pelo trabalho de direção de fotografia em “Sonhos de Trem“, disse à CNN Brasil que esse reconhecimento não é resultado apenas da qualidade das produções, mas também do crescente engajamento do público brasileiro. De acordo com o diretor, o diferencial está no fato de o Brasil ter passado a ocupar espaço nas discussões internacionais, gerando impacto para além de suas fronteiras, impulsionado também pela força de mobilização nas redes sociais.
Outro setor em que o Brasil tem ganhado visibilidade internacional é o turismo. O Brasil encerrou 2025 com recorde no turismo internacional: cerca de 9,3 milhões de estrangeiros visitaram o país. Entre os principais fluxos emissores, destacam-se os países latino-americanos — especialmente a Argentina, que lidera o ranking, seguida por Chile, Paraguai e Colômbia —, além dos Estados Unidos, que ocupam a segunda posição, e de países europeus, como França, Portugal, Alemanha e Itália. O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, explicou que o aumento do fluxo de visitantes fortalece a economia, consolidando o turismo como vetor de desenvolvimento, capaz de gerar empregos e renda nas diferentes regiões do país. Ademais, os dados indicam que o Brasil está ascendendo como um dos destinos turísticos que mais crescem no mundo. Para Freixo, isso é consequência de um Brasil que se apresenta ao mundo como um país aberto à diversidade, comprometido com a sustentabilidade e capaz de oferecer experiências únicas aos visitantes.
A analista Carolina Sass de Haro disse à BBC Brasil, que, diante de uma demanda global crescente por natureza, autenticidade (em outras palavras, a rejeição dos padrões associados ao American Way of Life) e melhor relação custo-benefício, o Brasil passou a adotar políticas públicas no setor turístico que deixaram de focar apenas no tradicional modelo de “sol e praia”. Sass explica que a estratégia tem buscado apresentar um país mais associado à sustentabilidade, à diversidade cultural, à gastronomia e a experiências turísticas autênticas.
Em adição, artistas, influenciadores e veículos internacionais especializados em viagens também têm atuado como importantes divulgadores do Brasil. Artistas como Dua Lipa, Ed Sheeran, Shawn Mendes, assim como o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton — que recebeu o título de cidadão honorário brasileiro —, são exemplos recentes de figuras internacionais que demonstraram apreço pelo país, contribuindo para projetar uma imagem do Brasil como destino acolhedor, seguro e repleto de experiências que vão além dos estereótipos tradicionalmente associados ao turismo nacional. Atrelado a isso, publicações internacionais especializadas em viagens, como a Condé Nast Traveler e a National Geographic, têm destacado destinos brasileiros em listas de lugares imperdíveis para visitar.
Para além da dimensão cultural e simbólica, essa projeção internacional do Brasil também se articula com elementos de sua atuação política externa. Tradicionalmente, o país construiu uma imagem associada à mediação de conflitos, à valorização do multilateralismo e à defesa de princípios como a não intervenção e a solução pacífica de controvérsias. A participação em missões de paz, o engajamento em fóruns internacionais e a atuação em agendas relacionadas aos direitos humanos, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável reforçam essa percepção de um país voltado para a cooperação.
Essa atuação, marcada pela busca de equilíbrio entre diferentes interesses e pela valorização do diálogo, contribui para consolidar a imagem do Brasil como um ator relacional no sistema internacional. Nesse sentido, em um cenário no qual se observam sinais de retração e de maior seletividade no engajamento internacional por parte dos Estados Unidos, o Brasil passa a ser percebido, ainda que de forma limitada, sobretudo em razão de suas restrições materiais e de sua posição no sistema internacional, como um ator capaz de dialogar com diferentes polos e contribuir para a construção de consensos.
Assim, enquanto os Estados Unidos enfrentam desafios relacionados à sua coesão interna e à forma como seu modelo de organização social é percebido, observa-se, paralelamente, a emergência e a valorização de outras referências culturais e modos de vida no cenário internacional. Nesse contexto, o Brasil passa a ser associado, ainda que de forma inicial, a uma capacidade de dialogar e construir pontes em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.
Mais do que uma relação direta de causa e efeito, esse movimento parece refletir uma inflexão mais ampla no imaginário global, marcada pela abertura a múltiplas formas de sociabilidade, que valorizam não apenas o sucesso individual, mas também a coletividade, a autenticidade e a experiência compartilhada. Nesse sentido, as transformações no alcance simbólico do American Way of Life não necessariamente implicam seu desaparecimento, mas indicam sua coexistência com outros referenciais, em um cenário progressivamente mais plural.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!3
- Mestranda em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança (PPGEST/UFF) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe de mídias sociais. Contato: silva.acza@gmail.com. ↩︎
- Pós-graduanda em Jornalismo Digital e Comunicação pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e graduada em Defesa e Gestão Estratégica Internacional no Instituto de Relações Internacionais e Defesa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ). É pesquisadora colaboradora no OPEU e faz parte da equipe do Instagram e LinkedIn. Tem expertise em Comércio Exterior. Contato: carolinaweberds@gmail.com. ↩︎
- Referências imagéticas: O Brasil está na moda. De novo (Crédito: Bia Santana) ↩︎



