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O Catar sob bloqueio: alianças e estratégias de sobrevivência na crise do Golfo

 Bruna Bigas Rufino1

9 de setembro de 2026

A crise diplomática do Golfo iniciada em 2017 costuma ser interpretada de forma limitada como um mero conflito geopolítico entre Estados soberanos. Entretanto, uma análise focada nos grupos dirigentes revela que o bloqueio ao Catar foi o resultado da atuação de redes de elites políticas, econômicas e militares cujas conexões ultrapassavam as fronteiras nacionais. Este texto examina como as articulações entre lideranças, organizações institucionais e recursos estratégicos moldaram tanto o bloco de coerção liderado pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos quanto as táticas de sobrevivência adotadas por Doha.  

A hegemonia regional não se sustenta apenas por capacidades militares e econômicas brutas, mas também pela capacidade das lideranças em articular instituições, ideologias e alianças estratégicas. Sob essa perspectiva, a crise do Catar expõe uma disputa entre elites governantes pela preservação ou contestação da ordem estabelecida no Golfo. Ao observar quem são os atores centrais e como eles controlam posições estratégicas de poder, torna-se possível compreender o conflito a partir das redes formais e informais que sustentam os regimes políticos da região.

O primeiro nó de afiliação institucional a ser analisado é o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), fundado em 1981. Dentro dessa rede regional de poder, a elite da Arábia Saudita, representada de forma centralizadora pelo Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman (MBS), historicamente ocupou a posição de maior peso e autoridade. Essa proeminência decorre não apenas da extensão territorial e da riqueza petrolífera saudita, mas também de seu papel tradicional como guardiã dos locais sagrados de Meca e Medina. Riade utilizava essa arquitetura institucionalizada para constranger os vizinhos menores, exigindo o estrito cumprimento do status quo e um alinhamento geopolítico automático.  

Para mapear com clareza essa disputa, este estudo observa a crise através de uma rede de afiliação, cruzando os principais líderes políticos do Golfo com as instituições, recursos e alianças estratégicas aos quais eles se conectam. Diferentemente de abordagens que enxergam os países como blocos homogêneos, essa ferramenta permite identificar como os vínculos entre indivíduos e organizações criam posições de centralidade, pontes de mediação ou dinâmicas de isolamento durante conflitos internacionais.

Ao cruzar os atores políticos com as arenas de influência, forma-se um mapa em que os nós principais representam os chefes de Estado e seus ministros, enquanto os nós secundários correspondem às mídias estatais, fundos soberanos, acordos de defesa e correntes ideológicas. A partir dessas conexões, torna-se visível como determinadas elites mobilizam recursos institucionais para expandir sua capacidade de pressão ou para furar cercos diplomáticos em momentos de crise.

O foco da análise recai sobre os indivíduos que tomam decisões no topo das estruturas governamentais, compreendendo que as alianças e divergências tecidas entre esses atores são fundamentais para explicar os rumos da política internacional. Assim, mais do que listar os acontecimentos do embargo, o objetivo consiste em demonstrar como a articulação ou o rompimento desses vínculos institucionais determinaram a formação de blocos de coerção e a eficiência das estratégias de resistência.

A literatura especializada demonstra que o bloqueio de 2017 não foi um evento abrupto, mas o ápice de fissuras prévias entre as elites locais. O choque diplomático de 2014 já havia exposto o desalinhamento da liderança do Catar, sob o Emir Tamim bin Hamad Al Thani, que contestava a centralidade saudita. Em 5 de junho de 2017, essa fratura se materializou em uma nova estrutura formal de coerção: o Quarteto Árabe. Formado pelas elites da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (articulados por Mohammed bin Zayed, o MBZ), do Bahrein e do Egito (sob o regime militar de Abdel Fattah el-Sisi), este bloco dissidente impôs um severo embargo parcial, fechando fronteiras terrestres, aéreas e marítimas com Doha. Fora dessa aliança de isolamento, as lideranças do Kuwait e de Omã optaram pela neutralidade, sendo que o Emir kuwaitiano assumiu uma posição conectora vital como mediador diplomático do conflito, construindo pontes entre grupos que haviam cortado relações diretas.

A justificativa discursiva e operacional para a imposição da coerção baseava-se em uma forte percepção de ameaça ideológica compartilhada pelo Quarteto. É um erro conceitual grave classificar este embate como uma divisão sectária estrita entre sunitas e xiitas, dado que o Catar é um Estado majoritariamente sunita. O foco do conflito era eminentemente a segurança do regime. As elites de Riade e Abu Dhabi convergiam na filiação a um bloco político que enxergava o islamismo político transnacional, personificado pela Irmandade Muçulmana, como uma ameaça existencial à legitimidade de suas monarquias absolutistas, um temor maximizado pelas ondas de instabilidade da Primavera Árabe de 2011.

Enquanto o bloco do boicote criminalizava a Irmandade, a elite do Catar mantinha uma forte intersecção com o grupo, oferecendo suporte financeiro e asilo político. Essa conexão era massificada e projetada globalmente através da afiliação estatal à rede de mídia Al Jazeera. Fundada em 1996 e financiada por Doha, a emissora funcionava como um poderoso vetor de diplomacia pública e projeção internacional, ampliando a capacidade catariana de influenciar agendas e moldar narrativas regionais. Para o Quarteto, a Al Jazeera atuava como um elemento desestabilizador que dava palanque à oposição regional, minando a soberania interna das dinastias vizinhas.

Essa dinâmica explica por que, na lista de 13 exigências impostas ao Catar, o desmantelamento da Al Jazeera e o corte de laços com a Irmandade Muçulmana figuravam como condições inegociáveis para o restabelecimento das relações políticas. Tais imposições refletem tentativas diretas de desarticular os instrumentos de comunicação e as correntes ideológicas que sustentavam a projeção externa e a contestação promovidas por Doha.

Por fim, a capacidade de agência do bloco do boicote expandiu-se internacionalmente ao interceptar a estrutura de poder político em Washington. As elites de MBS e MBZ souberam articular uma aliança temporária estratégica com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Recém-chegado ao Salão Oval, Trump inicialmente endossou a narrativa do Quarteto, legitimando o isolamento sob o pretexto de combate ao financiamento do terrorismo e contenção do Irã. Esse elo transnacional buscou deliberadamente privar o Catar de suas garantias tradicionais de segurança ocidentais, ilustrando como elites regionais ativam centros de poder global para chancelar suas estratégias locais de exclusão.

Se a formação do Quarteto Árabe representou uma tentativa de reafirmação da hegemonia liderada por Mohammed bin Salman e Mohammed bin Zayed, a resposta do Catar demonstrou que a distribuição de poder no Golfo não dependia apenas da capacidade coercitiva desses atores. A figura central da resistência foi o Emir Tamim bin Hamad Al Thani, que assumiu a liderança da rede contestadora e mobilizou conexões internacionais estratégicas para impedir que o bloqueio se transformasse em submissão política, reconfigurando os vínculos do país para compensar o isolamento regional.

A estratégia de Tamim esteve fundamentada, em primeiro lugar, nos recursos econômicos controlados pela família Al Thani. Amparado pelas receitas do gás natural liquefeito e pelo Qatar Investment Authority (QIA), um dos maiores fundos soberanos do mundo, o emir conseguiu absorver os impactos iniciais do embargo. Enquanto as lideranças saudita e emiradense esperavam que as restrições provocassem uma rápida deterioração financeira, a elite catariana usou suas reservas para estabilizar o sistema financeiro, garantir o abastecimento interno e preservar a confiança de investidores globais, neutralizando o pilar econômico do boicote.

Ao mesmo tempo, Tamim transformou a crise em uma questão de defesa da soberania nacional. A continuidade dos investimentos internacionais, da preparação para a Copa do Mundo de 2022 e dos projetos de modernização do país reforçou a imagem de estabilidade do regime. Além disso, a manutenção da Al Jazeera representou a preservação de sua principal ferramenta de diplomacia pública e projeção de voz global, impedindo que o país fosse silenciado por sua limitação territorial e demográfica.

Entretanto, a sobrevivência do regime não dependeu apenas de recursos econômicos e comunicacionais. Um dos movimentos mais importantes realizados por Tamim foi a ativação de alianças geopolíticas alternativas. Nesse processo, o presidente iraniano Hassan Rouhani tornou-se um ator fundamental ao autorizar a utilização do espaço aéreo do Irã e facilitar novas rotas comerciais para o Catar. Embora Doha e Teerã mantivessem divergências regionais, a crise revelou uma convergência de interesses capaz de enfraquecer o isolamento pretendido por Riade, compensando a exclusão do Catar da estrutura dominada pelos sauditas.

Outro ator decisivo foi o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan. As relações entre Ancara e Doha já vinham se fortalecendo em razão de posições semelhantes sobre a Primavera Árabe e a Irmandade Muçulmana. Após o anúncio do bloqueio, Erdoğan acelerou a implementação de acordos militares e ampliou a presença de tropas turcas em solo catariano, elevando significativamente os custos de qualquer escalada militar contra Doha e consolidando um escudo crucial de dissuasão.

A elite catariana também se beneficiou das divisões existentes dentro da própria estrutura de poder dos Estados Unidos. Embora Donald Trump tenha inicialmente apoiado a narrativa de MBS e MBZ, figuras influentes de seu governo adotaram posição distinta. O Secretário de Estado Rex Tillerson e o Secretário de Defesa James Mattis reconheciam a importância estratégica da Base Aérea de Al Udeid, a maior instalação militar norte-americana no Oriente Médio, situada no Catar. A atuação desses atores limitou o apoio efetivo de Washington ao boicote e garantiu a Doha uma proteção diplomática decisiva.

Com o passar do tempo, tornou-se evidente que a estratégia concebida por MBS e MBZ não estava produzindo os resultados esperados. Em vez de forçar a submissão do Catar, o bloqueio contribuiu para aprofundar suas relações com parceiros externos e ampliar sua autonomia estratégica. Ao mesmo tempo, a persistência da crise gerava custos políticos para todos os envolvidos e enfraquecia a coordenação do próprio CCG, forçando uma reconfiguração forçada nas relações de poder da região.

A reaproximação começou a ganhar força graças à atuação de atores que ocupavam posições intermediárias nas redes diplomáticas regionais. O principal deles foi o Emir do Kuwait, Sabah Al-Ahmad Al-Sabah, que desde o início recusou-se a aderir ao bloqueio e atuou como mediador incansável. Sua atuação foi complementada pelos esforços de integrantes da equipe de segurança nacional dos EUA, como Robert O’Brien, que passou a defender a necessidade de restaurar a unidade entre os aliados do Golfo antes da transição para o governo Joe Biden.

O processo culminou na assinatura da Declaração de Al-Ula, em janeiro de 2021, que formalizou o restabelecimento das relações diplomáticas na região. O desfecho da crise demonstra que o poder regional não foi determinado apenas pela capacidade coercitiva de Arábia Saudita e Emirados, mas também pela habilidade do Emir Tamim em mobilizar uma ampla estrutura de alianças transnacionais. A sobrevivência do Catar evidencia que a governança do Golfo é produzida por redes complexas de atores que disputam constantemente influência, legitimidade e autonomia.

A crise do Golfo de 2017 confirma que os conflitos regionais contemporâneos ultrapassam a simples disputa interestatal, configurando-se como embates entre redes de elites políticas, econômicas e militares. O bloqueio representou uma tentativa de centralizar a ordem regional em torno de Riade e Abu Dhabi, enquanto a resposta catariana demonstrou a força das alianças alternativas. A leitura relacional do conflito permite visualizar com precisão como diferentes lideranças mobilizam instituições, mídias e acordos de segurança para expandir sua influência no cenário internacional.

A atuação de figuras como Erdoğan, Rouhani, Tillerson, Mattis, Sabah Al-Sabah e Robert O’Brien evidencia que o resultado do embate foi condicionado pela capacidade dos líderes de ativar conexões estratégicas em diferentes esferas globais. Assim, a preservação da soberania do Catar resultou da combinação entre seus recursos internos e sua inserção inteligente em redes internacionais de comércio, diplomacia e defesa.

O Acordo de Al-Ula, em 2021, simbolizou a reconstrução das relações no Golfo e expôs os limites da coerção direta como ferramenta de hegemonia. Mais do que um encerramento formal entre Estados, o conflito revelou a centralidade das elites e de suas redes institucionais na definição das dinâmicas do Oriente Médio. Sob essa perspectiva, o bloqueio deixa de ser visto apenas como uma ruptura diplomática e passa a ser compreendido como um intenso processo de reorganização do poder, no qual alianças transnacionais e conexões estratégicas desempenham papéis decisivos na política global.

Análise de dois modos evidenciando os vetos do Quarteto (linhas tracejadas) contra a rede de contrapoder e mediação do Catar (linhas contínuas e pontilhadas).

Elaborada pelas autoras pelo site Graphviz Online 

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  1. Bruna Bigas Rufino da Silva é graduanda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

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