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O que sabemos sobre saques?

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Guilherme Figueredo Benzaquen1

11 de março de 2026

Saques são hoje tema adormecido. Refiro-me às ações coletivas de expropriação de mercadorias, não aos saques de vôlei, aos saques em caixas-eletrônicos, aos saxes, os instrumentos, ou aos SACs, os serviços de atendimento ao cliente – como tinha que elucidar comumente quando fazia minha tese doutoral. Os saques, esses primos um tanto espetaculares dos roubos, entram e saem dos ciclos de atenção midiática e acadêmica e agora não há nenhum evento que atraia os holofotes. Não há nada que inste vozes peritas a darem suas opiniões sobre as verdadeiras causas desse processo que, se suficientemente grande, sempre causa certo espanto, a ponto de esquecermos sua recorrência. É quando o tema desperta, que surgem especialistas, em colunas ou entrevistas, para explicarem o porquê de aquilo estar ocorrendo daquela forma, naquele momento e com aqueles sujeitos. Esses minutos de atenção exigem análises rápidas que invariavelmente recaem em simplificações, pois o tempo do jornal não é o tempo da crítica e, somente depois de muita análise e muitos dados, é que as interpretações tendem a ultrapassar as estigmatizações usuais que se valem de termos como “instinto”, “irracionalidade”, “consumismo” e “animalidade”.  Neste texto, busco sintetizar algumas das reflexões críticas que ajudam a escapar dessas condenações e que expus mais longamente em artigo recente publicado na Caderno CRH. 

É válido começar com o que dizem os pesquisadores que escolheram esse objeto de análise no Brasil. Grosso modo, reproduzimos até hoje uma clivagem que nasce quando o proletariado aparece como sujeito político no século XIX europeu. Em uma revisão bibliográfica com 42 textos, percebi que ainda olhamos para os saques procurando condená-los ou legitimá-los. De um lado, temos uma tradição herdeira da psicologia das multidões francesa que retoma os enquadramentos do impulso, imitação, irracionalidade, anonimato, decadência ética, animalidade ou primitivismo dos participantes (ver, por exemplo, Góis, 2020; Rodrigues; Capozzoli; Figueiredo, 2017). Nesse conjunto minoritário há uma limitação do político – entendido apenas como ações racionais e intencionais – e uma superestimação dos impactos dos saques – vistos como causas únicas ou prioritárias de desordens sociais ou anomias. Do outro lado do pêndulo, e como resposta às recorrentes estigmatizações do senso comum, há uma literatura inspirada nos estudos marxistas ingleses sobre multidões (ver, por exemplo, Ferreira, 2009; Neves, 2000). Essa tradição, mais consolidada nacionalmente, enquadra os saques como processos de resistência através da revolta. Em comparação com a outra versão analítica, os avanços são significativos: a explicação não recorre ao argumento de uma resposta natural ou apolítica à fome ou escassez. Em vez disso, são priorizados os processos culturais que legitimam ações entendidas como classistas. Isso me parece acertado em vários dos casos analisados, como nas secas no Sertão nordestino em meados do século XX, porém é difícil encaixar essa perspectiva quando os saqueados são sujeitos pobres periféricos que tiveram que abandonar suas casas por conta de deslizamentos de terra – tipo de evento que essa literatura não aborda.

Entre Le Bon (2013) e Thompson (1998), a literatura nacional recai comumente em um dualismo com muitos pressupostos que não lidam bem com a heterogeneidade dos saques. A condenação pela irracionalidade e a legitimação pela resistência acaba por achatar a realidade fenomênica dessas ações coletivas. A heterogeneidade que escapa a essas perspectivas está explícita nas 67 ocorrências e três tentativas que encontrei em notícias da Folha de S. Paulo entre 2010 e 2023. Há, obviamente, os vieses do jornalismo e aqueles próprios à Folha – como o fato de 40% dos casos noticiados serem de São Paulo –, mas ainda assim vale nos determos nesses eventos. O pico de ocorrências foi em 2013, com 18 eventos, o que pode ser explicado duplamente por um aumento das ações coletivas contenciosas de rua e por uma intensificação do ciclo de atenção midiática. No total, foram registrados saques em protestos (27), desastres ambientais (17), despejos (15), greves policiais (6), estradas (2), contextos de precariedade (2) e contextos criminais (1). Essas formas têm particularidades de acordo com as relações sociais que as determinam. É bem diferente saquear o STF nas tentativas golpistas do 8 de janeiro de 2023 e saquear uma carga tombada de um caminhão no interior do Paraná em 2012. Cada caso tem uma série de sobredeterminações que exigem análises aprofundadas, a fim de evitar generalizações apressadas. 

Ainda assim, parece-me possível defender que há três formas predominantes nesse conjunto heterogêneo: (1) ação direta estratégica, (2) expressão de ruptura, e (3) reação territorializada. Em muitos casos, essas formas aparecem combinadas, o que reforça a ideia de que os saques operam a partir de lógicas múltiplas em contextos específicos. A primeira forma, as ações diretas, refere-se a episódios nos quais o saque é mobilizado como parte de uma lógica estratégica inserida em dinâmicas de protesto. Elas aparecem como recurso tático em processos de radicalização que compõem uma intencionalidade política de desafio ao regime político. A segunda forma, a expressão de ruptura, diz respeito a ações que emergem em contextos de interrupção imediata do cotidiano e de mediação institucional, como em casos de desastres ambientais ou tombamentos de cargas. Geralmente ocorrem sem um fim político explícito, mas a forma que assumem – quer seja na coordenação dos sujeitos ou nos alvos escolhidos – evidencia os antagonismos estabelecidos. Por fim, as reações territorializadas se inserem em contextos de coexistência de disputas entre Estado, mercado, organizações criminosas e populações vulnerabilizadas. Os saques se inscrevem como uma prática localizada de lógica retaliatória difusa contra agentes percebidos como inimigos ou responsáveis diretos por situações de exclusão e violência. Essa forma engloba, por exemplo, despejos em periferias urbanas e os casos ocorridos em um contexto de intensificação das disputas entre forças policiais e o Comando Vermelho no Rio de Janeiro.

Para lidar teoricamente com essa diversidade precisamos parar de nos perguntar se são “certos” ou “errados”, “justos” ou não, e passar a entendê-los como uma violência coletiva inserida em políticas contenciosas (Tilly, 2003). Essa forma de ação coletiva é uma entre as muitas possíveis no repertório contencioso, ou seja, no conjunto de ações conhecidas que podem ser efetivadas em situações conflitivas (Tilly, 2006). Os saques não ocorrem no vácuo. Entendê-los significa articulá-los com todas as suas sobredeterminações e analisar o modo como transformam ou reforçam as relações sociais cotidianas. Há, portanto, uma política que se evidencia na articulação com as disputas presentes nas relações sociais e nos regimes políticos – ainda que isso nem sempre seja formulado explicitamente pelos sujeitos participantes dos eventos. Quando esse tipo de repertório contencioso aparece, existem relações recíprocas entre violências coletivas e a política rotineira. O grande desafio analítico reside em compreender o que essa relação implica. Isso significa aceitar muitas contradições que materializam rupturas e continuidades. Por exemplo, a paixão cotidiana pela mercadoria se mantém, mas sua posse é viabilizada com a ruptura da mediação típica do capitalismo, a venda e a compra.

Quando iniciei meu doutorado, em 2016, buscava dar uma resposta ao que vi nos jornais sobre os saques em Abreu e Lima durante a greve da Polícia Militar de Pernambuco, em 2014. Escolhi esse tema porque estava interessado em pensar a política quando feita por outros meios, distantes das institucionalidades, dos projetos e da construção duradoura de identidades coletivas. Passados dez anos, os saques se mantêm um tema de interesse porque percebi que revelam o cotidiano conflitivo que nos cerca e a sua suspensão relativa. Com o passar dos anos, percebi que saque é um tema de encruzilhada, no qual se encontram não só a política e o crime, mas também a fome, a moral, a violência coletiva, a propriedade, a desigualdade, a catástrofe, o conflito cotidiano… É por essa multiplicidade que os saques seguirão reivindicando, ocasionalmente e de forma fugaz, a atenção social. O tema deve despertar mais uma vez quando vier a próxima “onda” – e estou certo de que ela virá, tanto quanto Marx (2012) estava certo do surgimento de uma nova crise ao analisar as lutas de classes na França em 1850. 

Referências

BENZAQUEN, Guilherme. A política dos saques: reflexões a partir da bibliografia brasileira e das ocorrências recentes. Caderno CRH, 38, 2025.

FERREIRA, Cassiana Buso. Representações de intolerância na imprensa escrita: saques e quebra-quebras em São Paulo (abril de 1993). 215 p. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

GÓIS, Ana Paula. Crimes e criminosos: Administração da justiça na província do Rio Grande do Norte durante o século XIX. 113 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais e Humanas) – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, 2020.

LE BON, Gustave. Psychologie des foules. Paris: PUF, 2013.

MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2012.

NEVES, Frederico de Castro. A multidão e a história: saques e outras ações de massas no Ceará. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

RODRIGUES, Ana Claudia Batista; CAPOZZOLI, Débora Adriana Sá; FIGUEIREDO, Pedro Paulo Viana. O fenômeno de massa: uma perspectiva psicanalítica freudiana na análise dos saques ocorridos em Abreu e Lima/PE. Revista Hum@nae, v. 11, n. 1, p. 1-16, 2017.

THOMPSON, Edward P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TILLY, Charles. The Politics of Collective Violence. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

TILLY, Charles. Regimes and repertoires. Chicago: University of Chicago Press, 2006.

  1. Doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente realiza estágio pós-doutoral no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), com bolsa do CNPq. E-mail: benzaquenguilherme@gmail.com. ↩︎

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