Os “arquivos do imperialismo” e a história do esporte cubano

Por Renato Beschizza Valentin. O presente texto consiste numa série de comentários acerca de um artigo de minha autoria, intitulado O que os “arquivos do imperialismo” nos ensinam sobre o fenômeno da deserção de atletas cubanos durante a Guerra Fria , publicado recentemente pela Revista Lua Nova e incluído no acervo digital da Assembleia Legislativa de Minas Gerais . Nesse artigo, há uma reconstrução histórica do fenômeno da deserção de atletas cubanos durante a Guerra Fria, com base em documentos outrora secretos do governo dos Estados Unidos que se encontram à disposição nos acervos digitais da Central Intelligence Agency (CIA) e dos National Archives.

Kelsen e Teoria Marxista do Direito

Por Antonio C. Wolkmer. Após a Segunda Guerra Mundial, adquiriu-se enorme interesse pelo estudo da teoria marxista do Direito, principalmente com a tradução para o inglês das principais obras dos juristas soviéticos, sua divulgação por meio das críticas contundentes feitas no Ocidente – especialmente por Hans Kelsen – e a forte incidência política da antiga União Soviética sobre a Europa em grande parte do século XX. O efeito dessa redescoberta foi não apenas despertar uma série de estudos críticos sobre os fundamentos normativos da Teoria Geral do Direito, mas, sobretudo, priorizar interpretações de cunho ideológico no Direito positivo predominante nos países de tradição liberal, dominados pelo modo de produção capitalista.

Sim, é apartheid! Ressignificando o caso palestino/israelense

Por Fábio Bacila Sahd. Já são antigas as comparações entre as práticas do regime de apartheid contra os “não brancos” e as israelenses contra o povo palestino , especialmente, a partir da ocupação e colonização da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, em 1967. A propósito, para além de acadêmicos (como, dentre tantos outros, o israelense Uri Davis e o palestino Edward Said), desde os anos 1960, lideranças sul-africanas fizeram tais alusões, tanto membros do próprio governo, como Hendrik Verwoerd, quanto da oposição, como Nelson Mandela e Desmond Tutu. Inclusive, analogias figuram também em resoluções da Organização para a Unidade Africana que, partindo do colonialismo e racismo afins, equivaleram as situações então vigentes, chegando a considerar, literalmente, a Questão Palestina como uma “causa africana”.

Propriedade e autoridade em John Locke: um estudo do Capítulo V do Segundo Tratado Sobre o Governo Civil

Por Lucas Herzog. Autor central na elaboração teórica dos princípios do liberalismo político, ou defensor da imposição de uma ordem legal baseada no chicote aos cidadãos de segunda classe? Articulador da ideia da legitimidade da autoridade política como produto do consenso, ou um crítico da fragilidade do instrumental calculista tipicamente liberal? Essas são algumas das leituras que intérpretes contemporâneos divulgaram a respeito da obra de John Locke, teórico político cujos escritos acompanharam o desenrolar do século XVII. Os diferentes diagnósticos a respeito de seus textos refletem as distintas perspectivas adotadas na compreensão dos autores clássicos. Estas variam desde interpretações anacrônicas que buscam extrair o sentido das ideias passadas a partir de expectativas ligadas ao tempo presente, até ensaios que se orientam em perspectiva oposta, ancorando o olhar sobre esses autores a partir de seu contexto histórico – tanto político quanto intelectual.

Experiência política autêntica – dinâmicas emocionais em junho 2013[1]

Por Cristiana Losekann. Na observação do contexto político desde 2013, no Brasil, fica evidente que as emoções como a raiva ganharam relevância impulsionando a ação política. Apesar disso, pouco se sabe sobre as dinâmicas que permeiam os processos afetivos da política e como eles estão conectados com outros aspectos da vida. É nesse sentido que proponho a observação das dinâmicas emocionais e afetivas para a melhor compreensão do processo político recente no Brasil. Dos protestos de 2013 às eleições de 2018, as dinâmicas políticas em diversas vertentes ideológicas, tanto à esquerda quanto à direta, envolveram jogos emocionais de alta intensidade e tensionamentos, produzindo momentos de entusiasmo e incentivos à ação. A chave para explicar o que se passou em junho de 2013 está, entre outros fatores, na compreensão do desejo por uma vivência política autêntica como elemento central de uma experiência política.

Hans Kelsen para Além da Reine Rechtslehre

Por Alex Sander Pires. O honroso convite para colaborar com o Boletim Lua Nova sobre a vida, a obra e o legado de Hans Kelsen motivado pelo meio século de sua morte, prontamente aceito, impôs um desafio: como apresentar a vasta, multidisciplinar, interdisciplinar, densa, crítica, complexa e repetitiva produção intelectual de um indivíduo emblemático, comprometido com os valores e desafios de seu tempo, além de empenhado cientificamente na pretensão de solucionar problemas sociais a partir da independência metódica do Direito visto como norma (para além da lei e da ordem) em perspectiva de fortalecimento do direito interno do Estado diante da necessária reconstrução do Direito Internacional no entre — e pós — guerras mundiais?

A antipolítica em junho de 2013: uma pequena minoria de vândalos

Por Acácio Augusto. Convencionou-se dizer, desde um ponto de vista sociológico, que as manifestações de rua naqueles dias e a sequência de atos que explodiram em todo país não foram como um raio em céu azul. Comumente busca-se expor uma compreensão verificável de que aquelas manifestações não surgiram sem prévia mobilização e que tiveram, de certa forma, um cenário político-social favorável, embora a dimensão dos atos tenha sido imprevisível e seus efeitos inesperados. Esta chave de análise interessa a identificação dos chamados “atores políticos e sociais” para derivar seus efeitos institucionais e os desdobramentos de suas ações para a política de representação.

A Filosofia Política Ainda Sonha com a Igualdade?

Por Lucas Petroni. Igualdade e distribuição tornaram-se sinônimos no vocabulário da filosofia política contemporânea. Nesse sentido, discutir o valor da igualdade equivaleria a compreender as razões que justificam a igual distribuição de algum bem ou oportunidade social entre indivíduos com reivindicações conflitantes. “Tomo como pressuposto”, assim explicava G. A. Cohen na abertura de um artigo clássico, “que existe um algo em relação ao qual a justiça exige que as pessoas tenham em quantidades iguais” . Uma série de perguntas se seguem, naturalmente, quando aceitamos o pressuposto de Cohen: O que devemos distribuir – o “algo” – igualmente entre as pessoas? Como devemos medir as distribuições relevantes, por exemplo, com base nas oportunidades abertas à cada pessoa (“igualdade de oportunidades”) ou, diferentemente, em relação ao resultado final de suas interações? Como impedir que as pessoas não se aproveitem, ou “peguem carona”, nos esforços produtivos umas das outras? Não é por outra razão que perguntas como essas definiram a filosofia política desde o final do século XX.

O que 2013 nos diz?

Por Jean Tible. Uma forma frequente de abordar e analisar os protestos, aqui e alhures, é de estabelecer um tipo de tribunal, desde cima, dos seus resultados (imediatos) . Isso significa, no contexto brasileiro (mas poderíamos também dizer no chileno, egípcio, sírio ou tantos outros), decretar o fracasso ou derrota das manifestações, ou ainda seu favorecimento da extrema direita. Percebo essa posição de julgamento como equivocada e, além disso, conservadora e ruim para pensar-lutar.

Os males da nossa política são outros: Wanderley Guilherme dos Santos e o multipartidarismo brasileiro

Por Juliana Carvalho. Professor aposentado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos fundadores do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Wanderley Guilherme dos Santos dispensa apresentações no campo da Ciência Política: é considerado um dos nomes mais importantes para a institucionalização e difusão da disciplina no Brasil. “Quem dará o golpe no Brasil?”, texto publicado em 1962 no qual antecipou o golpe militar que se daria em 1964, o notabilizou no campo acadêmico, fazendo com que muitos olhos se voltassem para as suas análises. A partir daí, a lista de publicações é extensa, entre artigos, livros, entrevistas e colunas para jornais e revistas. Há, portanto, diversos pontos dos quais podemos partir ao pesquisar o trabalho do autor e uma vasta bibliografia na qual podemos nos apoiar.