Junho de 2013 e a importância do coletivo

Por Olívia Cristina Perez. Em meados de Junho de 2013 milhares de brasileiros/as foram às ruas com pautas diversas que incluíam direito à cidade; reconhecimento de direitos para grupos mais sujeitos a opressões sociais, tais como mulheres, negros, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros; além de críticas ao Estado que seria corrupto e incapaz de garantir direitos sociais. Esse ciclo de protestos ficou conhecido como Jornadas de Junho de 2013.
Junho de 2013 e suas ambivalências: reflexões a partir do Margem-UFMG

Por Ricardo F. Mendonça e Rayza Sarmento. Quando junho de 2013 aconteceu, o Margem , grupo de pesquisa que integramos, estava interessado no processo acentuado de conversação política online que se desenrolava no país e já podia ser observado nas plataformas de redes sociais, em especial no Facebook. Estávamos àquela altura preocupados/as em compreender engajamentos discursivos, troca de razões, manifestações de desrespeito a partir de questões que envolviam minorias políticas, com foco especial nos debates que sucederam a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2011, sobre casamento homoafetivo .
A herança de Bolsonaro para o presidencialismo de coalizão

Por Rodney Amador. Após quatro meses do fim de seu mandato, o ex-presidente Jair Bolsonaro continua ocupando as páginas da imprensa especializada tanto quanto as falas institucionais do novo governo, presidido por Luiz Inácio Lula da Silva e seu partido, o PT. Seja no tema da reconstrução do Estado, que o novo presidente enfatizou desde a campanha, seja no perigo que muitos dos apoiadores do ex-presidente ainda representam à democracia, haja vista os atos do dia 08/01, no qual as sedes dos Três Poderes da República foram invadidas e vandalizadas. Porém, muito pouco dessas análises foram direcionadas a entender como as instituições – especificamente a relação Executivo-Legislativo – ficaram após seu governo, marcado por animosidades e francos ataques ao arranjo institucional que emergiu com a Constituição de 1988. O mesmo não aconteceu com os pesquisadores que, na medida do possível, já estão debruçados sobre o tema e têm produzido as primeiras análises sobre este tumultuado período.
A retórica em Mary Wollstonecraft: apropriação e inovação do conceito de tirania

Por Camila M. Corvisier, Hannah L. Ramos e João Pedro G. Balanco. A Teoria Política, bem como outras áreas de conhecimento acadêmico, sempre foi majoritariamente marcada por trabalhos masculinos, ainda que as mulheres tenham produzido trabalhos filosóficos e políticos ao longo da história (BERGÈS, COFFEE, 2016). Mais recentemente, figuras femininas e seus trabalhos têm sido resgatados, recuperando uma parte esquecida – pois obliterada – da tradição filosófica e política. Parte da justificativa para este ensaio reside, assim, na recuperação da figura de Mary Wollstonecraft e de seu pensamento enquanto filósofa e arguta observadora da política de seu momento.
Ceticismo, política e “a questão da postura adequada frente a um tirano”

Por João Paulo de Castro Bernardes. Acredito não ser impreciso, ou ousado, afirmar que, desde a publicação da clássica obra de Richard H. Popkin, em 1960, os estudos sobre o ceticismo desfrutaram de um importante revigoramento. Isso se deu, sobretudo, com a recuperação historiográfica e filosófica do pensamento cético moderno que tal obra promoveu, o qual teria sido bastante negligenciado nos anos subsequentes ao Iluminismo (NETO et alli, 2009, p. 1).
O que Isaiah Berlin tem a nos dizer (via Vico)?

Por Ronaldo Tadeu de Souza. Reunido em Estudos sobre a Humanidade, conjunto de textos que Berlin exibe uma densa erudição – tratando de Maquiavel e a história da ciência, teoria política e Herder, romantismo e Herzen – o ensaio O Divórcio entre as Ciências e a Humanidades é a lembrança de que em assuntos envolvendo seres humanos, como as artes, a literatura, a história, a nação a cultura, a moral, a religião, a linguagem e a política, são eles, e hoje elas, o núcleo existencial mesmo ao qual se deve concentrar nossas atenções. Berlin estava a admoestar sobre o destino das ciências naturais em face às ciências humanas no decurso da sociedade moderna.
Breve discussão sobre consumo e fronteiras simbólicas

Por Gabriel H. Baldan Nunes. A contribuição de autores como Marshall Sahlins, Pierre Bourdieu, Mira e Bertoncello, Arjun Appadurai e Michel Foucault é inquestionável para a compreensão de questões relacionadas ao tema “Consumo e fronteiras simbólicas”. Considerando o caráter atemporal do assunto, é possível averiguar esses dois aspectos tanto na sociedade moderna quanto na contemporânea. Os estudos acerca dessa temática permitem que a antropologia responda a indagações que vão desde os motivos pelos quais as pessoas atribuem valores a certas coisas, e a outras não, e até mesmo sobre o papel cultural envolvendo o consumo.
A mulher na recepção da sociologia no Brasil: um estudo a partir de Tobias Barreto, Tito de Castro e Florentino Menezes

Por Ivan F. Barbosa, Anna Kristyna Barbosa e Moisés Cruz Souza. Tobias Barreto, Tito Lívio de Castro e Florentino Teles de Menezes são nomes pouco conhecidos na história do pensamento sociológico no Brasil. São intelectuais à margem do cânone e que tiveram uma influência não muito marcante nos desenvolvimentos subsequentes desta disciplina no país. O estudo atento das suas obras, no entanto, pode nos levar a questões de pesquisa instigantes e a uma compreensão mais aprofundada a respeito do desenvolvimento do pensamento especializado sobre a sociedade brasileira e a maneira como esse pensamento se relaciona com os poderes dominantes em cada época e contexto.
Do antipartidarismo ao antipetismo

Por Allegra Levandoski. A ascensão da extrema direita brasileira é um fenômeno recente, que atrai os olhares de analistas das mais diferentes áreas. O intuito é o mesmo: compreender e identificar possíveis causas que explicam essa transformação da política nacional, mas também, como um deputado federal do “baixo clero” se tornou presidente da República.
John Milton e o Republicanismo

Por Gabriel de Matos Garcia. Há certa controvérsia a respeito da relação entre John Milton e o republicanismo. Em sentido “prático”, apenas tardiamente Milton se posicionou ao lado dos republicanos durante os turbulentos acontecimentos da Inglaterra de seu tempo. Como destacado por Dzelzainis, “sempre que os republicanos eram levados à oposição pelos eventos – o expurgo do exército do ‘Long Parliament’ em dezembro de 1648, o regicídio, a dissolução do ‘Rump’, a elevação de Cromwell a Protetor – Milton se apegava aos poderes constituídos” (DZELZAINIS, 2016, p. 325) . Milton se posicionou de forma manifestamente republicana apenas poucos meses antes da Restauração promovida por Carlos II, já em meados de 1660.