Alice Arbex1
19 de março de 2025
Durante as décadas de 1920 e 1930 no Brasil, o Integralismo, doutrina fundada pelo político e jornalista Plínio Salgado (1895-1975), projetou sua voz à nação com o Manifesto de 7 de Outubro de 1932 e oficializou sua luta por meio da criação de uma organização partidária, a Ação Integralista Brasileira (AIB). Com expressões marcadamente fascistas, o movimento tinha como missão somar as forças sociais e fundar o Estado Integral por meio de uma revolução espiritual, moral, intelectual e política. No século XXI, o neointegralismo reapareceu com novas roupagens, mas um interior comum, e organizou-se principalmente na chamada Frente Integralista Brasileira (FIB), reunindo os “patriotas da nossa terra” e a extrema-direita congregada em torno do líder Moisés Lima. O que mais interessa a este artigo, no entanto, são as mulheres integralistas: tanto as “patrícias” de 1930 quanto as modernas de 2020. Quais as similaridades e diferenças em relação ao papel que as mulheres ocupam hoje e ocupavam outrora dentro do movimento? De que modo contribuíram para a construção do Estado Integral e como se organiza sua militância atualmente?
A pesquisadora Luana Dias Santos indicou que as mulheres integralistas, também chamadas de “Blusas-Verdes”, não eram somente figurantes, mas participantes ativas na disseminação das ideias, possuindo atribuições e funções não inferiores, apenas distintas das dos homens. A AIB requeria um trabalho de organização, angariando adeptas para compor sua burocracia, além de um esforço de arregimentação de base, buscando conduzir as Blusas-Verdes a encontrarem a sua melhor versão, alinhadas aos preceitos de Deus, Pátria e Família. O próprio aparato institucional da AIB estruturava-se de modo a formalizar a participação da mulher: a Secretaria Nacional de Arregimentação Feminina e de Plinianos (S.N.A.F.P.) contemplava o Departamento Feminino, órgão ao qual competia orientar, dirigir, controlar e arregimentar o trabalho da mulher, como mostra seu Regulamento.
De acordo com a historiadora Sandra McGee Deutsch, o Integralismo era tanto revolucionário quanto conservador. Apresentava-se como a única força capaz de vencer as correntes que ameaçavam a fé, a maternidade e a propriedade privada, e, por isso, atraía mulheres que “se identificavam como cristãs ardentes e como donas de casa, mesmo que trabalhassem fora do lar” (Deutsch, 2004, p. 126, tradução minha). Ao mesmo tempo em que o movimento recrutava mulheres para a militância, defendia e honrava sua função dentro do núcleo familiar. A aparente contradição entre fomento à participação política e recatamento ocultava-se atrás de uma argumentação dedutiva que se comportava como chamamento divino. Como ilustram as palavras de Salgado publicadas na revista Brasil Feminino, de maio de 1937, se as crianças de então seriam os cidadãos do amanhã, e estes por sua vez comporiam a Pátria, “da Mulher depende o destino de uma Pátria”, já que ela seria quem educaria a prole e lhe atribuiria a primeira noção de cidadania. Em íntima associação entre Pátria, Família e Deus, na qual os primeiros não prosperam sem a unção do último, conclui-se que a mulher, ao fortalecer o lar, fortalece a nação. No “schema de theses” das Blusas-Verdes, veiculado pelo jornal Monitor Integralista em dezembro de 1937, a mulher ativista e dona de casa engrandeceria a Pátria ao “enaltecer as virtudes domésticas” e ao servir de “propagandista tenaz” da doutrina nos meios sociais nos quais circulava.
Deutsch (2004, p. 127) indica ainda que os integralistas incentivavam mulheres a trabalhar contanto que desempenhassem suas tarefas domésticas. Esse era o caráter da limitação imposta às possibilidades de atuação feminina. Seria possível que exercessem funções no mercado de trabalho, como “scientista, artista, escriptora, technica”, mas deveriam cumprir os “deveres de seu sexo e direitos de sua vocação” – lê-se no “schema de theses”. Seguindo uma tendência biologizante do cuidado, a mulher, além de mãe e esposa, teria a “vocação” de educadora, filantropa ou enfermeira. Na Brasil Feminino, a divulgação dos núcleos da S.N.A.F.P. na província carioca mostra que, em suas estruturas, havia escolas primárias, lactários e postos de saúde comandados por mulheres. Tais espaços requeriam “capacidade de renúncia, de abnegação, de altruísmo”, virtudes próprias das “missionárias do bem”, que zelavam pelos outros e por uma “Nação que está enferma”.
Haveria um caráter conciliador e contraditório entre liberdade e conservadorismo em relação ao lugar que a mulher deveria ocupar dentro da estrutura social. Para Santos (2022, p. 7), o Integralismo precisou desenvolver estratégias para lidar com as “problemáticas” liberais, como a luta por emancipação política das mulheres. Assim permitiu a incorporação de pautas que historicamente pertenciam a movimentos feministas. Na revista Anauê!, de maio de 1935, Pedro Baptista, chefe provincial da Parahyba, faz um apelo “às mães, as esposas, as irmãs, no recesso dos nossos lares, nas fábricas como operárias, nas escolas, na vida do comércio”, reduzindo a condição da mulher à sua relação com a família – mãe, esposa, irmã – e ampliando sua área de atuação para além do lar – escola, fábrica, comércio. No “schema de teses”, a orientação era para que a mulher fugisse das “liberdades” presentes fora do lar, priorizando a “santidade do matrimônio”, e, ao mesmo tempo, combatesse a “falsa ciência” que a reduziria a um “instrumento de prazer”, priorizando sua libertação.
O mesmo “caráter dual dos movimentos de extrema direita – pacíficos e violentos, cooptativos e repressivos”, (Deutsch, 2004, p. 127, tradução minha) se passa com a conquista do direito ao voto feminino em 1932. Na revista Brasil Feminino de maio de 1937 havia um chamamento para que mulheres se cadastrassem como eleitoras e alistassem suas conhecidas. Para a historiadora, as razões para a adesão do partido a uma reivindicação feminista “estão relacionadas com suas táticas de obtenção de controle”, pois o movimento “compreendeu esse novo grupo de votantes como um eleitorado em potencial” (p. 128). Havia ainda na revista a divulgação dos resultados de um concurso de escritoras, no qual, a fim de agitar “a velha questão da entrada de mulheres na Academia Brasileira de Letras”, a autoria da redação defendia a elegibilidade das vencedoras à “imortalidade” da Academia, desafiando seu “incompreensível critério” de seleção que privilegiava o homem.
As mulheres no neointegralismo
Atualmente, a propaganda neointegralista é muito menor e menos explícita. Além de Jennifer Assis, figura que assina algumas colunas no site da Frente Integralista Brasileira (FIB), a indicação de outras militantes é quase nula, e personalidades femininas, de modo geral, só aparecem em publicações in memoriam. Ainda assim, atentemo-nos à sua publicação “A mulher e o Integralismo”, que por meio da referência ao livro A mulher no século XX de Plínio Salgado, publicado em 1946, a autora enaltece as Blusas-Verdes. Na medida em que a redação se desenvolve, os eixos de mobilização da questão da mulher reaparecem e se confirmam, a saber: a sua relação com o lar e com o trabalho fora dele. Entre exemplos de personagens bíblicas, desde santas padroeiras até a Virgem Maria, reafirma-se que a mulher deve ser “dona do lar, essa mãe deve prezar pelas almas dos seus”.
O zelo com os outros reaparece como característica “natural” do gênero, e, apelando para uma missão enaltecedora, a autora infla no discurso o “ser feminino” como possuidor de algo essencial, o sagrado amor à Nação e à família, que se materializaria por meio do cuidado: “Como soldado convocado, a mãe não deve fugir às suas obrigações de educadora”. A mesma lógica dedutiva de argumentação utilizada pelos/as militantes da AIB justificaria o compromisso da mulher: “A mulher é per si a primeira grande educadora dos filhos da Pátria”. Para Matheus Batista, militante da FIB, “a grandeza de um País depende, antes de tudo, da grandeza dos seus lares”; da mulher, mantenedora do lar e educadora da prole, dependeriam os rumos da Pátria, conforme o artigo “O aborto é problema de chefes de Estado”, publicado em janeiro de 2023. Para Santos (2022), fica claro que o movimento ainda se utiliza da “mobilização das afetividades através das mensagens comoventes” para cooptar seus adeptos (Athaides, 2016 apud Santos, 2022, p. 6, grifos da autora).
Em relação aos ofícios fora do núcleo familiar, a ideia de que o homem não deveria “obrigar a mulher ao trabalho”, como mostra o “schema de theses”, reapareceria no artigo “A mulher e o Integralismo” supracitado: “Ainda viúva, solteira ou por necessidade, é lícito, é justo e é necessário que essas mulheres trabalhem fora do lar”, contanto que a “condição assalariada” não cause o “abandono da educação” dos filhos – há novamente o imperativo que condiciona o trabalho da mulher. Em frentes mais extremistas, como é o caso do grupo integralista e monarquista Ofensiva Imperial, o combate ao trabalho feminino assalariado é realizado em post na rede X, de 30 de abril de 2024, por meio de referências ao ditador António Salazar: “O trabalho da mulher fora do lar desagrega este”; “nunca houve nenhuma boa dona de casa que não tivesse muito a fazer”. Nas publicações da FIB há, principalmente, a necessidade de proteger o lar e o matrimônio de sua maior ameaça, a “cultura da morte” organizada pela “agenda do aborto”. Enquanto utilizam-se de um discurso de vocabulário agressivo, como no citado artigo de Batista, – “estamos jogando mulheres ao despenhadeiro da sua própria morte, enquanto matam seus próprios filhos” – apelam para dados científicos para “comprovar” que as mulheres pró-aborto “desenvolvem uma maior dificuldade para construir laços fortes com um parceiro masculino, como, da mesma forma, para casar-se”.
A mulher no Integralismo não luta para libertar-se das formas de opressão e violência que estruturam o modo de produção capitalista e patriarcal. Pelo contrário, reforça e reproduz o mesmo sistema perverso que a subjuga. Na coluna citada de Jennifer Assis, há a transcrição de uma fala da Blusa-Verde Maria Ribeiro dos Santos Féres: “O papel da mulher, ao meu ver, é fundamental, mas não ostensivo. Ela é como as raízes obscuras que, ignoradas, penetram a profundeza do solo para dar vida à árvore magnífica”. Há espaço para a mulher, no lugar de dar vida à planta, viver e ser ela mesma o fruto?
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referências Bibliográficas:
DEUTSCH, Sandra McGee. Christians, Homemakers, and Transgressors: Extreme Right-Wing Women in Twentieth-Century Brazil. Journal of Women’s History, v. 16, n. 3, p. 124–137, 2004. Disponível em: https://muse.jhu.edu/article/172164
SANTOS, Luana Dias. Uma análise sobre a participação das mulheres no movimento integralista através das páginas do jornal A Offensiva (1936). Revista de História da UEG, v. 11, n. 1, 2022.
Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/view/11901
Fontes Primárias:
“Uma expressão de cultura e de beleza – Ecos do concurso de ‘O Malho’ levam a Mulher à Academia”. Artigo na revista Brasil Feminino. Rio de Janeiro, maio de 1936. n. 35, p. 34
“A Creança, á Mulher e a Nação”. Autoria: Plínio Salgado. Artigo na revista Brasil Feminino. Rio de Janeiro, maio de 1936. n. 35, p. 36-37
“A enfermagem e o integralismo”. Autoria: Maria Ribeiro dos Santos Féres. Artigo na revista Brasil Feminino. Rio de Janeiro, maio de 1936. n. 35, p. 51
“O papel da mulher na causa integralista”. Autoria: Pedro Baptista. Artigo na revista Anauê!. Rio de Janeiro, maio de 1935, p. 26
“O papel da mulher no Integralismo – Schema de teses a serem desenvolvidas pelas ‘Blusas Verdes’ em todos os Núcleos na A.I.B”. Autoria: S.N.A.F.P. Artigo no jornal Monitor Integralista. Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1937. n. 16, p. 5.
Regulamento do Departamento Feminino da A.I.B. Publicado no jornal Monitor Integralista. Rio de Janeiro, primeira quinzena de dezembro de 1934, n. 8, p. 8
- Bacharel em Ciência Política e estudante de licenciatura em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). Realiza pesquisa de Iniciação Científica na área de Pensamento Social Brasileiro. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7393133006496204. E-mail: arbexdesouza@gmail.com ↩︎
Fonte imagética: A história da Ação Integralista Brasileira no acervo do Arquivo Público. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2015. Disponível em: < https://ape.es.gov.br/Not%C3%ADcia/a-historia-da-acao-integralista-brasileira-no-acervo-do-arquivo-publico> . Acesso em: 27 fev. 2025.