Celi Scalon1
Matheus Alves Lira2
Manuela Peclat3
Lançando um olhar sobre um passado não tão distante, quando linhas telefônicas eram um investimento declarado no imposto de renda e possuir uma televisão colorida era um nítido marcador de classe e status social, a classe média urbana brasileira reflete, na atualidade, de que maneira se redesenham suas fronteiras à medida em que bens de consumo se tornaram mais acessíveis nos últimos anos com a expansão de acesso ao crédito.
É nesse contexto que se insere nossa recente pesquisa, realizada com grupos focais formados por residentes das capitais do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, com idade entre 40 e 64 anos, ensino superior completo, ocupação nos estratos profissionais de administradores e pequenos proprietários, e renda individual igual ou superior a R$ 8.000,00.
Os resultados revelam uma mudança importante nas dinâmicas de distinção de classe, indicando o lazer — associado principalmente a viagens e assimilação cultural — como um elemento remanescente de reivindicação identitária para esse estrato social.
O fim da exclusividade dos bens
Durante muito tempo, o pertencimento à classe média brasileira esteve associado ao acesso a bens que os mais pobres não podiam comprar. No entanto, a democratização do consumo nas últimas duas décadas tornou mais tênues as fronteiras que protegiam essa identidade de classe. Em nossos grupos focais, os participantes foram categóricos: o consumo de bens materiais perdeu força em sua capacidade de diferenciação.
Nesse sentido, os entrevistados apontaram diversos fatores que constituem hoje o perfil da classe média, como níveis de renda e escolaridade, acesso a plano de saúde, local de moradia em áreas mais afluentes da metrópole e, entre eles, o acesso à cultura e ao lazer, sobretudo por meio de viagens. Elementos que se traduzem, nas palavras de um dos entrevistados, “pela capacidade de suprir e equilibrar as necessidades básicas e as supérfluas”.
“O que separa a gente do cara mais pobre que tem um iPhone? É as viagens. É as viagens, é a qualidade de vida.” (Márcio, 57 anos, Rio de Janeiro)
“[…] Hoje eu vejo classe média como aquela pessoa que tem acesso a viagens, que tem acesso a bons restaurantes, que tem acesso a cultura […] Antigamente, no meu ver, tá?, eu acho que a gente via muito pela questão de quem tinha um carro, de quem tinha um telefone, de quem tem uma televisão colorida, eu acho que era mais pela questão do bem […].” (Rejane, 49, Rio de Janeiro)
“Diga-me para onde viajas…”
Para a classe média urbana, o lazer é visto como uma “válvula de escape” necessária para expandir a experiência de vida e atingir a ideia de bem viver, e, nesse sentido, diferentes atividades são consideradas. No entanto, o que se destaca é que viajar aparece como a prática mais valorizada e considerada como a mais característica desse estrato social.
Mas não basta apenas viajar. As dinâmicas dos grupos focais revelam um diferenciação entre o lazer de descanso e o lazer cultural, este último dotado de maior prestígio e caracterizado como símbolo máximo de distinção. Existe, assim, uma hierarquia sutil baseada no tipo de lazer escolhido: mais do que um reflexo de poder aquisitivo, valoriza-se que as viagens expressem o “capital cultural” acumulado:
“Você perguntou que tipo de viagem, eu faço muita viagem cultural, eu tenho um hobby, eu fotografo porta, e eu tenho uma grande inclinação pelas portas da América Latina, conheço muita coisa da América Latina, ano passado eu viajei três vezes para países latino-americanos. Nos últimos três anos eu fiz, só pro México, sete viagens.” (Tomás, 51 anos, Rio de Janeiro)
“A viagem da classe média é diferente da viagem de uma classe mais baixa, eles vão pra Disney. A classe média mais alta, que tem uma cultura, […] vai pra Europa.” (Joanna, 47 anos, Rio de Janeiro)
Dessa maneira, o lazer se apresenta não apenas como um elemento capaz de diferenciar a classe média dos estratos mais baixos, mas também de evidenciar heterogeneidades no interior do próprio grupo, reforçando o campo do lazer como uma forma de ser e estar para o outro, capaz de produzir conexões simbólicas e valores coletivos que geram dinâmicas de aproximações e distanciamentos (Simmel, 2006, p. 59-61) nas quais sujeitos são endossados ou negados em suas “reivindicações de pertencimento”, em um movimento característico das disputas de formações de classe (Salata, 2015, p. 113-14).
Viver vale mais do que ter? O lazer como prioridade entre as novas gerações
Na perspectiva dos entrevistados, o lazer parece assumir ainda mais protagonismo entre os jovens, indicando uma mudança notável nas prioridades das gerações mais novas.
De modo geral, os interlocutores ressaltaram o aprendizado herdado dos pais, que valorizavam a estabilidade (marcada pela posse de bens como carro e casa própria) e o “estabelecer-se na vida” antes de qualquer outra coisa. Ideia que, na perspectiva deles, parece não fazer tanto sentido para juventude atual, que prioriza, antes de tudo, experiências de vida:
“A primeira coisa que você pensava era um carro e uma casa; eles [os jovens] não, eles querem viajar.” (Mônica, 50 anos, São Paulo)
“Mas hoje em dia é isso, eu vejo elas falando, é só é dinheiro, dinheiro, dinheiro, é isso muito o que importa, entendeu? O pessoal vê muito isso, o que conhece, o que não conhece, pra onde foi, pra onde não foi. […] As experiências da vida.” (Leila, 54 anos, São Paulo)
Nesse sentido, registramos que, na perspectiva dos participantes, entre os jovens, o lazer se configura como uma via ainda mais relevante de performar o seu status de classe, marcando, possivelmente, uma transição de identidade mais baseada nas vivências do que nas posses. Para muitos, a casa própria e o carro deixaram de ser prioridade — ou são até vistos como desnecessários em um mundo com imensa disponibilidade de aplicativos de transporte e hospedagem temporária, que tornam possível o usufruto sem a posse.
“[…] ouço muitas pessoas falando que não querem comprar casa própria, que preferem morar de aluguel e investir o dinheiro, ouço muitas pessoas falando isso.” (Cristina, 46 anos, Rio de Janeiro)
“Então, por exemplo, na época dos nossos pais, né? O acesso se dava pela posse, então preciso ter um carro pra viajar. Se eu não tiver um carro, não tem outra opção, né? Então eu preciso ter a posse de alguns bens para eu poder ter o acesso. Hoje, basta você ter o acesso.” (Anderson, 49 anos, Rio de Janeiro).
O lazer sob pressão: quando a crise aperta
Apesar da importância simbólica do lazer, a difícil realidade econômica do Brasil no período pós-2014, aprofundada pela pandemia, impôs barreiras severas ao seu exercício. Nossa pesquisa captou diferenças regionais marcantes na forma como essa crise foi vivenciada e como essa restrição frustrou, em alguma medida, as expectativas de um padrão de vida idealizado de classe, cada vez mais difícil de alcançar.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, houve adequações: as famílias passaram a optar por formas de lazer gratuitas, além de destinos e acomodações mais modestos, em um movimento de resistência ao corte total do lazer e das viagens. Em Recife, o impacto foi mais brutal — muitos participantes relataram cortes drásticos, ao passo que o lazer se tornou quase impraticável diante da necessidade de arcar com saúde e educação privadas.
“Isso é, é uma coisa que quase todo mundo tá, tá cortando hoje. Porque você vai na churrascaria e você fala ‘Pô, com esse dinheiro aqui dava pra comprar uns 3 quilos de carne pra passar uma semana’.” (Fernando, 45 anos, Recife).
Nesse contexto, os participantes apontam que o pertencimento à classe média é incompatível com a necessidade de um grande esforço para usufruir de viagens ou de lazer em geral. Isso evidencia a importância do rendimento — compatível com o grupo de renda AB — para se perceber como integrante da classe média (Salata, 2015).
“Custando para conseguir uma viagem tá se achando classe média? Pra mim classe média é aquele cara que: ‘Eu estou a fim de viajar, vou pra Amsterdã. Tchau!’” (Leandro, 42 anos, Recife)
O que o lazer nos ensina?
Mais do que simples momentos de descanso e diversão, o lazer, para a classe média urbana brasileira, se mostra como um campo de disputas simbólicas e reivindicação de pertencimento. Trata-se de um elemento de expressão identitária e de reflexo do repertório cultural capaz, em determinados momentos, de separar “o joio do trigo”, tanto intra quanto extraclasse.
Essas percepções dialogam com as conclusões de diversos trabalhos da literatura sociológica (Skeggs, 1997; Savage et al., 2001; Reay, 2005; Sayer, 2005), segundo os quais a consciência ou identidade de classe perpassa aspectos subjetivos e moralmente carregados, que imprimem processos de diferenciação e reconhecimento social hierarquizados.
Sobretudo, o lazer representa uma busca voraz de indivíduos que esperam que seu esforço e trabalho sejam capazes de expandir suas experiências de vida para além do campo da sobrevivência, em um diálogo constante entre as expectativas pessoais e as limitações da realidade.
“Eu acho que classe média hoje é pessoas que vivem, e não que sobrevivem.” (Gabriel, 44 anos, Recife)
Essa complexidade de elementos convoca o olhar para o lazer como uma via abundante de análises e uma lente privilegiada para compreender os fatores objetivos e subjetivos que atravessam trajetórias, vulnerabilidades, êxitos e dimensões simbólicas de um estrato social historicamente associado à ideia de progresso no país.
O artigo convida o leitor a acompanhar, a partir de vozes e experiências concretas, como valores, expectativas e limites se cruzam nas trajetórias da classe média brasileira através das lentes do lazer [Leia aqui o artigo completo].
Referências
REAY, Diane. (2005). Beyond consciousness? The psychic landscape of social class. Sociology, 39(5), 911–928.
SALATA, André Ricardo. (2015). Quem é classe média no Brasil. Um estudo sobre identidades de classe. Dados, 58(1), 111–149. https://doi.org/10.1590/00115258201540.
SAVAGE, Mike; BAGNALL, Gaynor; LONGHURST, Brian. (2001). Ordinary, ambivalent and defensive: class identities in the Northwest of England. Sociology, 35(4), 875–892.
SAYER, Andrew. (2005). Class, moral worth and recognition. Sociology, 39(5), 947–963.
SIMMEL, Georg. (2006). Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.
SKEGGS, Beverley. (1997). Formations of class and gender: becoming respectable. California: Sage.
*Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
- Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Socióloga, professora titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). celiscalon@gmail.com ↩︎
- Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mestrando em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UERJ. matheus.uerj.ppcis@gmail.com ↩︎
- Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Estudante de graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). manuelapeclat.mrpa@gmail.com ↩︎



