Ir para o conteúdo
Juntos, vamos continuar a pensar a democracia.
Contribua para a manutenção do Boletim Lua Nova.
Doe e vire um apoiador
boletim-lua-nova 002203
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
Twitter Facebook-f Instagram Youtube
Criar conta
Login
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato

Início > Política Internacional e Estados Unidos | Relações Internacionais e Estados Unidos

O Xerife Sai à Ronda: “Caçar. Encontrar. Acabar.” A Nova Gramática do Poder

Download PDF 📄

Marcus Tavares1

30 de janeiro de 2026

Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Marcus Tavares das reconfigurações de poder dos Estados Unidos. O texto foi originalmente publicado em 27 de janeiro de 2026, no site do OPEU.

***

O universalismo que se consolida após a queda da URSS oferta uma narrativa que solucionava um problema de coordenação: como manter legitimidade para uma ordem que já não precisa competir com um adversário sistêmico? A resposta foi elevar princípios — democracia liberal, mercados abertos, direitos humanos — à condição de linguagem comum. Em termos gelsonianos, tratou-se do esforço de transformar poder em “espaço de proposição”: isto é, converter interesses particulares em enunciados com potencial de aceitação, por meio de argumentos explicativos na fronteira entre moralidade, direito e política. 

A gramática prometia neutralidade moral e abrangência normativa. O problema é que, ao se apresentar como universal, ela passou a exigir sacrifícios difusos — empregos deslocados, salários pressionados, comunidades desindustrializadas, guerras e vigilância doméstica — em nome de benefícios abstratos — “ordem baseada em regras”, “segurança pautada no global”, “liderança moral” e “estabilidade” prometida no longo prazo. Essa dinâmica só funciona, no entanto, quando a vida material torna crível a promessa de que o custo é temporário, e o ganho, compartilhado. 

Durante o curto “otimismo pós-Guerra Fria”, de “fim da história” e “momento unipolar”, essa condição ainda existia. A sociedade americana carregava os efeitos retardados da compressão distributiva do pós-Segunda Guerra: sindicalização elevada, tributação progressiva, expansão do salário real e acesso ampliado a crédito produtivo. Entre 1945 e meados dos anos 1970, a participação dos mais ricos na renda recuou, e o crescimento foi amplamente compartilhado. Esse lastro material tornou a abertura comercial e a projeção externa mais defensáveis: globalização e intervenções apareciam como extensão de um mundo que, em casa, parecia funcionar. 

A partir dos anos 1980, o arranjo se desloca. A desigualdade volta a crescer de forma persistente. O coeficiente de Gini dos EUA, que orbitava patamares mais baixos no pós-guerra, supera 0,41 nas últimas décadas; a fatia do 1% mais rico retorna a níveis próximos aos da década de 1920. O crescimento do PIB deixa de se traduzir em ganhos proporcionais para a renda mediana, enquanto custos essenciais — moradia, saúde, educação — avançam mais rápido que salários. O universalismo começa, então, a soar como retórica que pede sacrifício coletivo em um contexto, no qual os ganhos concentrados impossibilitam a vivência do Sonho Americano. 

Essa fratura material corrói a defesa moral da atuação internacional. Quando a promessa universal se desmente no cotidiano, torna-se difícil sustentar guerras, sanções e abertura irrestrita em nome de valores abstratos. O que antes parecia investimento civilizatório passa a ser lido como transferência de custos. Empregos são deslocados; comunidades, desindustrializadas; e dívida privada é elevada. A plateia doméstica deixa de aceitar o argumento do “bem comum global” quando o comum, em casa, encolhe, e desaparece. 

O efeito é uma mudança no padrão de consentimento. No auge do pós-Guerra Fria, a combinação entre baixa desigualdade relativa e crescimento alimentou tolerância à globalização e às ações bélicas “por princípios”. À medida que a desigualdade se desnuda, o universalismo perde poder persuasivo. A legitimidade já não vem da adesão a valores gerais, mas da demonstração de retornos concretos e imediatos. O fundamento moral se estreita, e a exigência de inteligibilidade material se impõe. 

Esse deslocamento ajuda a explicar a transição da linguagem. Onde antes se invocavam direitos universais, passa-se a invocar benefícios domésticos mensuráveis: preços de energia, controle de fronteiras, combate a redes criminais e reindustrialização localizada. Não é a moral que desaparece, mas sim o seu alcance. A gramática hegemônica entende que, sem lastro distributivo — mesmo que puramente retórico —, o universalismo convoca ressentimento ou resistência, mas não consentimento. 

O resultado é o poder americano tensionado por sua própria promessa. Ao afirmar universalidade em um mundo de desigualdade crescente, a linguagem hegemônica acabou por se desautorizar internamente. A defesa de sacrifícios em nome do universal exige uma base material que já não existe para amplos segmentos. O que se segue não é isolamento, mas reescrita da legitimação: menos princípios gerais, mais ganhos imediatos; menos abstração, mais retorno visível. É nesse hiato — entre o universal proclamado e o cotidiano desigual — que a gramática do poder se reorganiza. 

Essa ênfase contemporânea no benefício interno imediato — a ideia de que cada uso da força deve produzir prova tangível de vantagem doméstica antes de ser legitimada — leva diretamente ao que emerge hoje como um dos novos nós geopolíticos da ordem global: a questão da Groenlândia. O interesse renovado dos Estados Unidos na ilha não é um eco de sonhos expansionistas do século XIX, mas sim a expressão dessa gramática reorganizada. 

Do universal ao particular 

No segundo mandato de Donald Trump, a Groenlândia passou a ocupar espaço central nas narrativas de política externa americana. O presidente e seus aliados já não falam apenas em cooperação ou em segurança coletiva, mas sim em “adquirir” ou “anexar” a ilha como componente de segurança nacional capaz de bloquear rivais como China e Rússia no Ártico e garantir rotas e recursos estratégicos. Legisladores introduziram projetos de lei com nomes emblemáticos, como a Greenland Annexation and Statehood Act, que afirmam claramente a exigência de que o presidente empregue “o que for necessário” para transformar a Groenlândia em território ou estado dos EUA. Realçam, com isso, uma visão que combina lógica de segurança, retorno doméstico e demonstração de poder. 

O próprio tom do governo — que desconsidera restrições diplomáticas ou legais — revela que, na nova gramática, a operação externa é pensada e externada como meio direto de garantir vantagem estratégica interna, em vez de argumento retórico genérico em torno de valores universais. A argumentação não fala mais apenas de “valores” ou de “ordem internacional”. Agora, o foco recai na narrativa de territórios estratégicos, de bloqueio a potências rivais e de posições que rendem vantagem concreta à economia e à segurança dos EUA. 

Esse deslocamento é sintomático: a universalidade normativa — que, durante o unilateralismo, sustentou intervenções como peça de legitimação mais genérica — cede lugar a um realismo focado no interno, no qual as ações são justificadas pelo retorno direto a um público cada vez mais cético quanto a sacrifícios difusos. É essa mesma lógica que converte tanto a derrubada de Maduro quanto as demais atuações militares desde a posse de Donald Trump, em 2025, em prova robusta de um exercício hegemônico mais imperativo. 

Em 11 de janeiro de 2026, a sequência de ataques na Síria reaparece como exemplo quase didático do padrão. O motivo oficial volta ao eixo contraterrorista, com referência direta ao Estado Islâmico e à necessidade de neutralizar capacidades operacionais e lideranças, sob a ideia de que a ameaça, se deixada “lá”, retorna por redes, inspiração, financiamento e circulação de quadros. A gramática universalista, nesse caso, sobrevivia no plano residual do “combate ao terrorismo” como bem público internacional (aqui, o governo de George W. Bush pode ser bem ilustrativo). O ponto novo está na forma de vender o mesmo ato: custo baixo, risco político controlado, alvo com pouca simpatia pública, ganho reputacional rápido e uma narrativa doméstica que transforma projeção militar em prova de competência governamental, do tipo “atingimos quem ameaça” e “protegemos o país sem prolongar guerras”. A universalidade vira rodapé; a peça central passa a ser a promessa de segurança imediata e de ausência de sacrifício doméstico prolongado. 

O declamar da gramática 

Ao recuar algumas semanas, no fim de 2025, a Síria reaparece com o mesmo desenho: continuidade operacional sob rótulo contraterrorista, com a mesma aposta em alvos que oferecem pouca resistência política interna e permitem performance de decisão. O “universo” aqui é curto: o povo não é convocado a acreditar em uma ordem internacional baseada em regras; é convocado a acreditar que o Estado consegue aplicar força com precisão, sem transformar a operação em compromisso aberto de tempo, gastos e vidas americanas.  

Esse “universo curto” aparece quase sem mediação na fala pública do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, ao anunciar a ofensiva contra alvos do Estado Islâmico na Síria e enquadrá-la como retaliação e dissuasão, com promessa explícita de punição e custo doméstico contido: “não é o começo de uma guerra — é uma declaração de vingança. Se vocês atacarem americanos — em qualquer lugar do mundo —, passarão o resto de sua breve e ansiosa vida sabendo que os Estados Unidos vão caçá-los, encontrá-los e matá-los implacavelmente”.  

No universalismo pós-Guerra Fria, a coerção precisava ser narrada como missão ampla, com horizonte de estabilidade e democratização como justificativa geral. Na nova gramática do poder americano, a priorização do benefício interno tem por primazia provar que a máquina funciona, que a ameaça foi degradada e que o custo não encostou na vida cotidiana do eleitor, exceto como sensação de controle recuperado. 

Em 25 de dezembro de 2025, o episódio nigeriano, relatado publicamente como ataque contra afiliados do Estado Islâmico, explicita outra variação do mesmo operador. A motivação oficial invoca contraterrorismo e proteção de inocentes, com ênfase em atrocidades e em necessidade de impedir a expansão de grupos jihadistas. O que muda é o modo de localização política do ato: sai o roteiro de “responsabilidade global” e entra o roteiro de “resposta punitiva” que pode ser comunicada como força rápida e como sinal de que o governo atinge alvos “óbvios”, sem pedir autorização moral a coalizões e fóruns.  

“Eu já havia alertado esses terroristas de que, se não parassem com o massacre de cristãos, haveria consequências terríveis, e esta noite, elas vieram. O Departamento de Guerra executou inúmeros ataques perfeitos, como só os Estados Unidos são capazes de fazer. Sob minha liderança, nosso país não permitirá que o terrorismo islâmico radical prospere. Que Deus abençoe nossas Forças Armadas e um FELIZ NATAL a todos, incluindo os terroristas mortos, que serão muitos mais se o massacre de cristãos continuar”, afirmou o presidente Donald Trump, em 25 de dezembro de 2025, em suas redes sociais 

A operação se encaixa com facilidade no benefício interno, ao reforçar a imagem de dureza e reduzir o custo argumentativo, já que o alvo é apresentado como inimigo absoluto. A universalidade, quando aparece, entra como linguagem de indignação e de proteção, e não mais como promessa de transformação estrutural de uma região. 

Na mesma janela de dezembro de 2025, a costa venezuelana oferece o caso mais direto da transição do universalismo para o benefício interno. A motivação oficial foi enquadrada como campanha antinarcóticos e como necessidade de enfrentar redes de tráfico e rotas marítimas, associando o uso da força a segurança interna, crime transnacional e desordem que “entra” por fronteiras e cadeias logísticas. Nesse registro, o emprego de meios militares no Caribe deixa de precisar de uma filosofia de ordem mundial e se descreve como proteção direta do cotidiano doméstico, com linguagem de apreensão, interrupção de fluxos e neutralização de ativos que depreciam o status moral americano. 

O dado que torna esse episódio especialmente útil reside no tipo de cálculo apresentado: relatos de acúmulo de meios na região e de dezenas de ataques contra embarcações, apresentados como parte de uma campanha de pressão e de interdição. A gramática utilizada apresenta em si um inventário de resultados, porque é isso que permite justificar a escalada regional como melhoria do agora, e não como cruzada moral abstrata. Esse ponto é relevante porque revela uma mudança de “objeto narrativo”. No auge do seu poder unipolar, o objeto narrativo preferencial dos EUA era a sociedade alheia: democratizar, estabilizar, reconstruir, proteger civis, promover direitos.  

A moral dissolvida no benefício próprio 

Na virada para o benefício interno, o objeto narrativo preferencial será o circuito: rotas, fluxos, gargalos, preços, cadeias. A ação militar passa a ser descrita como gestão de tráfego e de recursos estratégicos, o que é interpretado pelo homem comum como arrefecimento da ansiedade doméstica sobre crime, drogas, imigração e custo de vida. O efeito é uma descompressão da moral em técnica. A justificativa deixa de tentar convencer que as condições internas da sociedade americana validam os EUA enquanto paladino do mundo e passa a precisar de uma equivalência simples entre ação externa e alívio interno, mesmo quando a equivalência é frágil do ponto de vista empírico. 

Ao recuar para junho de 2025, o ataque contra instalações nucleares iranianas marca um degrau distinto de magnitude e risco. A motivação pública costuma ser organizada em torno de impedir avanços nucleares e de reduzir a ameaça regional, com o subtexto de dissuasão e sinalização estratégica. Aqui, a gramática universalista tinha, historicamente, mais espaço: não proliferação como bem coletivo, estabilidade regional como interesse comum, defesa de aliados como extensão de “ordem”. Entretanto, o argumento do caso se alterou e solidifica a nova gramática do poder. 

A ênfase declaratória se desloca para a segurança física direta e a aniquilação da capacidade nuclear, focando em uma ameaça que a administração julga que não pode se tornar irreversível. Embora o risco de um choque energético e inflacionário atue como o pano de fundo estratégico que a Casa Branca busca evitar, o discurso público traduz o risco iraniano em uma escolha binária entre “paz ou tragédia”, servindo como justificativa de antecipação militar. A coerção aparece, portanto, como uma medida de força bruta para neutralizar um perigo existencial, dispensando explicitamente a necessidade de mobilizar uma narrativa universal de mudança de regime ou de longa ocupação, limitando-se ao objetivo tático de eliminar o risco iminente.  

As palavras de Donald Trump, em pronunciamento televisionado na Casa Branca em 21 de junho de 2025 — ao anunciar ataques a três instalações nucleares iranianas e condicionar novos bombardeios a um acordo rápido — explicitam com clareza o deslocamento: “se a paz não for alcançada rapidamente, atacaremos esses outros alvos com precisão, rapidez e habilidade”. 

Entre meados de março e o início de maio de 2025, a campanha no Iêmen, ligada aos Houthis e ao Mar Vermelho, fornece outro exemplo de como a gramática muda sem exigir ruptura. A motivação oficial enfatiza a proteção de rotas marítimas, liberdade de navegação e defesa de comércio global, além de segurança de forças e aliados. Esse é o tipo de justificativa, em que o universalismo sempre se sentiu confortável, porque “rotas” e “comércio” permitem falar em estabilidade internacional. 

A diferença, sob o benefício interno, está em como a proteção das rotas passa a ser narrada como proteção de preços e de abastecimento para o consumidor doméstico, como prevenção de inflação importada e como defesa de cadeias de suprimento que afetam emprego e custo de vida. A pausa e a elasticidade operacional também se tornam parte da mensagem. “Agir quando necessário” e “parar quando o objetivo imediato é atingido” se convertem em prova de racionalidade doméstica, reforçando a ideia de força como ferramenta calibrável de gestão, não como compromisso universalista de reconstrução política. 

Em março de 2025, a morte de Abdallah Makki Muslih al-Rifai, uma das lideranças do ISIS no Iraque, recoloca o padrão de “decapitação de comando” como ação de alto rendimento político. A justificativa oficial entra no registro de neutralizar lideranças e reduzir capacidade de ataques, frequentemente com linguagem de parceria local e de proteção preventiva. 

“Continuaremos a matar terroristas e a desmantelar suas organizações que ameaçam nossa pátria e o pessoal dos EUA, de aliados e de parceiros na região e além dela” – general Michael Erik Kurilla, comandante do Comando Central dos EUA 

Esse tipo de operação já vinha, há anos, servindo como ponte entre dois mundos. No universalismo, era apresentado como contribuição à segurança coletiva; no benefício interno, vira demonstração de competência e de eficiência punitiva, com pouco custo de mobilização social. A ação se adequa ao novo léxico porque dispensa a promessa de refazer sociedades e se limita a um objetivo compreensível, comunicável e mensurável: remover um líder, degradar uma rede, reduzir risco. A moralidade universal deixa de ser fundamento e vira adorno possível, acionado quando convém ao enquadramento. 

Em 1º de fevereiro de 2025, o ataque aéreo na Somália (Puntlândia), apresentado como contraterrorismo contra um dirigente/planejador do Estado Islâmico, funciona como início simbólico do período porque evidencia a preferência por teatro periférico, alvo impopular, custo baixo e retorno narrativo alto. A justificativa oficial tende a ser construída como eliminação de ameaça e proteção preventiva, com referência ao risco de planejamento de ataques e à necessidade de conter organizações jihadistas. 

“Esta ação prejudica ainda mais a capacidade do [ISIS] de planejar e executar ataques terroristas que ameaçam cidadãos americanos, nossos parceiros e civis inocentes” – Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA 

A atuação na Somália permite mostrar força sem prometer um mundo melhor. Ela permite “resolver” um problema como cena rápida, oferecendo ao público interno a sensação de que o Estado age sem prolongar guerra, sem recrutar sacrifício e sem vender um horizonte universal. É o tipo de operação que, no novo regime de legitimidade, rende capital político por sinalização de controle, e não por compromisso com valores abrangentes. 

Poder sem liturgia 

O que essa retrospectiva revela é um padrão de tradução. Em cada caso, a motivação oficial ainda recorre a categorias reconhecíveis do vocabulário pós-Guerra Fria — contraterrorismo, segurança regional, não proliferação, proteção de rotas —, porém a gramática de legitimação se reorganiza ao redor de perguntas domésticas: que vantagem imediata isso entrega? Quais os custos para o agora? Como isso evita custos internos futuros? A universalidade, quando aparece, entra como suplemento para reduzir fricção diplomática ou aplicar uma leve camada de verniz moralizador ao gesto. A engrenagem principal já opera, entretanto, com outra métrica: a do ganho comunicável, risco contido, efeito rápido e capacidade de fazer o eleitor sentir que o uso da força está a serviço da ordem interna, e não de uma missão que pede paciência, sacrifício e fé em benefícios abstratos — como uma liberdade que não se vê ameaçada se não no campo da hipótese. 

A consequência empírica desse rearranjo é que a “tradução doméstica” do uso da força deixou de ser ornamento e virou ritmo. No balanço do primeiro ano, o recorte varia conforme a metodologia, mas aponta para o mesmo sentido de aceleração: o ACLED registra 573 ataques aéreos e de drones entre 20/1/2025 e 5/1/2026, e 658, quando se incluem ações com parceiros e coalizão. Em paralelo, levantamento citado pelo Military Times fala em ao menos 626 ataques aéreos desde 20/1/2025, contra 555 em todo o ciclo Biden. Em taxa anual, é um salto para algo como 4,5 vezes o patamar médio do período anterior, sinal de que a mutação não é só de linguagem, é de volume, de pulso, de repetição que se naturaliza. 

Quando o olhar desce do número para o mapa, o desenho fica mais duro. A maior parte das ações se concentra onde o custo político é baixo, e o risco de escalada é administrável. No Iêmen, a guerra cabe no enquadramento porque fica longe e porque o retorno narrativo é rápido, mas o preço humano não desaparece. Segundo o Yemen Data Project, foram 238 civis mortos, incluindo 24 crianças, e 467 feridos. Nas primeiras 48 horas, 21 civis morreram, o equivalente ao total anual atribuído ao governo anterior. É assim que a promessa de “custo contido” se cumpre: não pela ausência de custo, mas pelo deslocamento do custo para fora do campo sensível do eleitor. 

E, quando o governo precisa dar nome a essa mecânica, a fala não pede imaginação, pede assentimento. Ao anunciar a ofensiva na Síria, Pete Hegseth condensa a legitimação como punição calibrada: “isto não é o início de uma guerra; é uma declaração de vingança”. E transforma a ameaça em política: “se você atacar americanos… os Estados Unidos vão caçar você, encontrar você e matar você sem piedade”. O ponto organizador deixa de ser a promessa de transformar o “lá fora” e passa a ser a prova de que a máquina funciona, que o gesto tem efeito rápido, que o risco parece domesticado. 

Restam, então, as perguntas que abrem o drama dos próximos anos: O que acontece quando a necessidade de provar força não diminui? O que, afinal, impede que a lógica do retorno imediato procure um palco maior — e cobre, aí sim, um preço que já não caiba fora de casa? Existe uma estratégia oculta em cada movimento que afete o jogo contra as demais grandes potências? Rússia, União Europeia, Reino Unido e China permitirão que o xerife atue livremente contra a Ordem que ele mesmo impôs ao tabuleiro?

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


Referência imagética: Imagem criada com auxílio de IA (Microsoft Copilot) e edição de Tatiana Teixeira (editora do OPEU).


  1. Pesquisador voluntário do OPEU/INCT-INEU na área de economia, doutorando e mestre em Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PEPI/UFRJ) e bacharel em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID/UFRJ). Contato: marcus.tavares1987@yahoo.com.br. ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

Direitos em Disputa

Leia em PDF
Outras edições

| Leia também

Loading...
Sem categoria
boletimluanova
31 de julho de 2026

Resultados da política externa de Trump

Sem categoria
boletimluanova
29 de julho de 2026

¿Pueden las ciudades abrir la democracia? Los Planes de Metas de Gobierno como innovación participativa en América Latina

Sem categoria
boletimluanova
22 de julho de 2026

A polícia contra Iansã na escola? Ofensiva anti-igualitária para além do gênero e da sexualidade

Todos os direitos reservados ® 2026

  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
    • Colaborações Externas
    • Cultura e Política
    • Direitos e Direitos Humanos
    • Meio Ambiente e Migrações
    • Política Internacional e Estados Unidos
    • Política Nacional
    • Sociedade, Trabalho e Ação Coletiva
    • Tecnologias Digitais e Sociedade
  • Periódicos CEDEC
    • Boletim Lua Nova
    • Revista Lua Nova
    • Cadernos CEDEC
  • Eventos
  • CEDEC
  • Contato
  • Início
  • Colunas
  • Periódicos CEDEC
  • CEDEC
  • Início
  • Colunas
  • Periódicos CEDEC
  • CEDEC

Contato

boletimluanova@cedec.org.br

boletimluanova@gmail.com

Twitter Facebook-f Instagram Youtube

Criação de site por UpSites