Rafael Marchesan Tauil1
9 de fevereiro de 2026
Muito já se falou sobre o obscurantismo bolsonarista.2 Aqui me refiro ao bolsonarismo não apenas como um movimento que agrega eleitores de Jair Bolsonaro e seus familiares, mas também eleitores e atores políticos da ultradireita, que se identificam com o modus operandi do capitão. É importante lembrar que a palavra obscurantismo carrega uma carga semântica pesada no Brasil e está, por vezes, relacionada a seitas, rituais satânicos e até a religiões de matriz africana. O misticismo, por outro lado, está relacionado a experiências transcendentais reveladoras, às práticas holísticas de curas, entre outras.
Os dois expedientes vêm sendo mobilizados por líderes populistas3 bolsonaristas, que recorrem ao transcendental para agir e justificar suas ações. Neste caso, prefiro utilizar a palavra misticismo para me referir ao modo de agir bolsonarista e ao modo pelo qual seus asseclas políticos se comportam em relação ao eleitor médio, que tem cada vez mais aderido a pautas conservadoras e, em muitas das vezes, reacionárias.4 Esta utilização se dá porque o eleitor bolsonarista não identifica o bolsonarismo como um movimento do mal, mas sim do bem.
O misticismo pode ser entendido neste contexto como uma forma de agir e de pensar que se descola de fatos e funciona a partir da ilusão e da fantasia. O eleitor bolsonarista não entende o bolsonarismo como místico ou obscuro, pois acredita que sua vontade e autodeterminação estão prevalecendo ao exercer o direito ao voto. Mas o próprio bolsonarismo age a partir de uma lógica mística ao mobilizar o eleitor por meio de um pensamento fantasmático.5 O problema do charlatanismo não está no ingênuo que acredita, mas sim no charlatão que o engana.
Para a maior parte dos eleitores brasileiros que seguem algum tipo de religião, os problemas e dilemas profundos da vida podem ser resolvidos com a ajuda da fé em deuses, gurus ou profetas. A fé sempre serviu como elemento agregador dos mais variados tipos de sociedade e, obviamente não há nenhum problema nisso, contanto que líderes políticos não se valham desta fé e boa vontade para governar, manipular a vontade popular e macular instituições que foram pactuados por uma nação republicana, democrática e secular.
E é exatamente nesta fenda que entra o misticismo bolsonarista. Um modo de conduzir a política através do sobrenatural, da religião e da fantasia.6 É certo que, na maioria das vezes, a política envolve emoções e sentimentos, mas a questão aqui é pensar como estes sentimentos e emoções são manipulados por esta fração política radical e irresponsável. A hipocrisia e a demagogia não são privilégios da direita, mas é ela que as tem levado às últimas consequências. Um modo de agir hipócrita e demagógico se constitui como terreno fértil para a utilização do misticismo como forma de angariar apoio político e votos. É só a partir da hipocrisia, da demagogia e do cinismo que se torna possível uma forma de agir que manipula o elemento mais íntimo e sensível dos indivíduos, a fé.
A marcha em apoio a melhores condições na pena cumprida por Bolsonaro e que reuniu aproximadamente 18 mil pessoas, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) neste janeiro de 2026 não foge deste padrão. Ao convocar o ato, que teve início em MG e chegou ao DF, ele mobiliza a dicotomia que anda lado a lado com a fé, qual seja, o antagonismo místico entre o sagrado e o profano. Os indivíduos que o seguiram não enxergam a política como o terreno do real, do concreto, da razão ou do palpável, mas como a manifestação de algo muito maior. Sua crença é a de que há uma verdadeira cruzada em que o mal deve ser combatido a qualquer custo e a qualquer preço.
É só a partir do misticismo e do pensamento mágico, ativado por esta fração da extrema-direita, que um raio atingindo diversas pessoas pode ser interpretado como sinal divino. Este raio, ao invés de causar medo e mal-estar, é entendido como bênção sobrenatural ou como sinal sagrado de que o mal está sendo combatido pelo bem.
O renascimento e o iluminismo foram movimentos responsáveis, em alguma medida, pelo resgate do respeito pela razão e pela ciência. O que estes políticos populistas, hipócritas e demagógicos têm feito é o contrário disto. O bolsonarismo tem sido responsável por ativar o pensamento mágico e o misticismo ao basear no sagrado, em forma de manipulação, os seus atos e modos de governar.
Esta não é apenas uma forma cínica e suja de se fazer política em termos maquiavélicos, mas sim uma maneira de tirar dos indivíduos o que eles têm de mais precioso, a vontade e a autodeterminação. Esta forma de fazer política amputa do indivíduo a capacidade de decidir, pois transfere ao líder demagógico a tarefa de dizer o que é certo e o que é errado como verdade absoluta. É a partir da dicotomia mística entre o sagrado e o profano – mobilizada a partir de fragilidades individuais ávidas por respostas e soluções às suas angústias materiais e existenciais – que esta fração política decide os rumos de uma sociedade inteira e de seus indivíduos. Neste caso, torna-se inadiável no campo político o combate à fantasia, ao misticismo e ao pensamento mágico das respostas fáceis. É preciso, afinal, retomar a razão.
*Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
- Visiting fellow pelo departamento de governo da University of Essex, pós-doutorando pelo departamento de Ciência Política da USP e professor de teoria política da USJT. Integra como pesquisador o núcleo de conceitos políticos do European Consortium for Political Research (ECPR) ↩︎
- Ver STEFANONI, Pablo. El teórico de la conspiración detrás de Bolsonaro. Olavo de Carvalho y la extrema derecha en Brasil. Nueva Sociedad, 2019 e PINTO, Eduardo Costa. Bolsonaro e os Quartéis: a loucura com método. UFRJ Instituto de Economia. Texto para Discussão, v. 6, p. 2019 ↩︎
- O populismo, neste caso, pode ser compreendido como uma forma demagógica de governar, baseada em um antagonismo moral que divide os indivíduos entre bons e maus. ↩︎
- Ver ROCHA, Camila. Menos Marx, mais Mises: o liberalismo e a nova direita no Brasil. Todavia, 2021 e LYNCH, Christian; CASSIMIRO, Paulo Henrique. O populismo reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo. Editora Contracorrente, 2022. ↩︎
- Para a ideia de fantasia e pensamento fantasmático na política ver GLYNOS, Jason. Critical fantasy studies. Journal of language and politics, v. 20, n. 1, p. 95-111, 2021 e no caso do Bolsonarismo ver BRITZ, Eduardo Bayon; PERRONE, Claudia Maria. Fantasia e ideologia na era das redes sociais: reflexões sobre o bolsonarismo no Brasil. Teoría y Crítica de la Psicología, v. 20, 2024. ↩︎
- Para esta ideia, ver MACHADO, M. D. D. C., & BURITY, J. (2014). A ascensão política dos pentecostais no Brasil na avaliação de líderes religiosos. Dados, 57(3), 601-631 e BURITY,, Joanildo. “A onda conservadora na política brasileira traz o fundamentalismo ao poder.” Conservadorismos, fascismos e fundamentalismos: análises conjunturais. Campinas: Editora da Unicamp (2018): 15-66. ↩︎



