Ronaldo Tadeu de Souza
10 de março de 2026
Para a coluna de hoje no Boletim Lua Nova, Ronaldo Tadeu de Souza1 entrevista as pesquisadoras Flavia Loss2 e Marsílea Gombata3 sobre os desdobramentos do segundo mandato de Donald Trump e seus impactos sobre a América Latina e o Brasil. As especialistas discutem as diferenças entre as campanhas e governos de 2016 e 2024, a radicalização política e social nos Estados Unidos, e o papel da América Latina na política externa trumpista, com destaque para a ameaça de intervenção militar na Venezuela e a instrumentalização da pauta do “narcoterrorismo”. A entrevista aborda ainda a relação entre trumpismo e bolsonarismo, o debate sobre a decadência da hegemonia norte-americana frente ao avanço chinês, e as possíveis respostas do governo Lula ao tarifaço imposto por Washington. Com perspectivas nem sempre convergentes, Loss e Gombata oferecem um olhar analítico e rigoroso sobre um dos momentos mais tensos da política internacional contemporânea.
Boletim Lua Nova-Cedec: Como vocês avaliam a segunda vitória de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos? O que há de diferente no último processo eleitoral com o de 2016? E o que há de diferente entre este governo e o de 2016 a 2020?
Flavia Loss: A principal diferença da campanha de 2016 foi o elemento da novidade. Apesar de Donald Trump transitar na política dos EUA desde a década de 1980 (sem ter assumido nenhum cargo público), ele representava ideias radicais que estavam nas franjas do espectro político e era considerado pelos adversários muito extravagante para conquistar a presidência. Os democratas menosprezaram a ameaça naquela campanha e apostaram na experiência de Hillary Clinton, familiarizada com a máquina pública e que já havia ocupado cargos políticos de destaque.
Outra novidade daquela época e que hoje é parte da realidade da política internacional é a aproximação com o presidente russo Vladimir Putin, figura amplamente elogiada por Trump durante a campanha e que supostamente esteve envolvido no escândalo do vazamento de e-mails privados da candidata democrata e de outros membros do partido. Por último, considero a massiva propagação de notícias falsas nas redes sociais como um fato marcante daquela campanha e que se tornaria padrão nos anos seguintes em todo o mundo. Em contraste, os elementos que citei já eram conhecidos na campanha de 2024 e Trump repetiu várias das promessas e estratégias eleitorais de 2016. O seu triunfo pode ser creditado a uma sequência de problemas que os democratas enfrentaram, como o declínio da saúde de Joe Biden e a grande insatisfação dos americanos com o seu governo, fruto da dificuldade do partido de comunicar a recuperação econômica pós-covid. A situação não melhorou com a substituição de Biden por Kamala Harris, visto que a sua campanha teve como foco a mera contraposição da sua imagem em relação a Trump, sem endereçar os problemas que mais preocupavam o eleitorado. Visto que as estratégias de Trump já eram conhecidas, é surpreendente a incapacidade dos democratas de reagir.
Sobre a diferença dos dois mandatos, Trump e a sua equipe mais próxima assumem o governo em 2025 com muito mais experiência e uma estratégia muito mais ousada, expressa na agenda chamada de “Projeto 2025”. Trata-se de um compilado de propostas formuladas por think tanks de extrema direita que, apesar de não ser o plano de governo oficial, pautam a maior parte das ações do segundo mandato de Trump.
Marsílea Gombata: Por um lado, a vitória de Trump não surpreende, dado que o governo Biden não vinha sendo bem avaliado, o que reacende o debate sobre a desconexão dos democratas com as bases/ a classe média e média baixa. Mas muitos autores, como Ferguson, mostraram que não necessariamente eles foram ligados a essas bases, ao longo da história. Ele mostra como a agenda dos democratas na verdade estava muito próxima à das empresas, no New Deal, e como esse apoio das empresas foi crucial para esse projeto ir adiante pós crise de 30. Veja, estamos falando de quase 1 século atrás. Não é algo novo. Mas o que mais chama atenção na eleição em 2024 é a mudança de muitos latinos que votaram nos democratas e passam a votar em Trump. Não é apenas o eleitorado que foi impactado pela desindustrialização decorrente da globalização, como vimos em 2016. Vai além disso.
E, por fim, a principal diferença entre esse segundo mandato e o anterior, de 2017 a 2020, é justamente o caráter arbitrário e autocrático do governo. Trump chega agora sem nenhum pudor ou sutileza. Mostra nenhum constrangimento em avançar sobre instituições e regras democráticas para favorecer os seus ou fazer cumprir suas regras, muitas vezes em consonância com o modo de pensar de seu eleitorado.
Boletim Lua Nova-Cedec: Podem falar sobre a radicalização interna da política nos Estados Unidos com Trump? Marsílea, que esteve em Stanford; como estava o ambiente nas universidades?
Flávia Loss: A Profa. Marsílea pode falar com mais propriedade porque verificou o fenômeno in loco, mas gostaria de comentar que esse processo de radicalização tem uma longa trajetória na política norte-americana e que a década de 1980 foi importante como resposta dos conservadores às lutas por direitos lideradas pelos progressistas nas décadas de 1960 e 1970. É na década de 1980 que assistimos ao início das guerras culturais como reação à incorporação das pautas pelos direitos das mulheres, da população negra e dos homossexuais não apenas na cultura e nas artes, mas também nas discussões políticas e nas políticas públicas, ocasionando a indignação de setores conservadores daquela sociedade. Medidas laicizantes como o fim do ensino religioso, a introdução da educação sexual no currículo escolar e o banimento de leis que discriminavam a população LGBT, entre outras, foram o estopim para a organização de diversos setores conservadores. A chamada “Nova Direita” que reuniu esses grupos conseguiu espaço dentro do Partido Republicano e começou a mobilizar o voto cristão evangélico. Rapidamente o debate político passou a orbitar em torno de questões morais em detrimento de outras pautas de interesse da população, como as questões econômicas ou de saúde pública. A eleição do presidente Ronald Reagan (1981-1989), notório anticomunista e defensor ferrenho de valores religiosos coroou esse processo. Trump, que já ganhava influência política desde esse período, conseguiu conciliar as diversas vertentes radicais de direita e traduzi-las em um projeto de poder para o século XXI.
Marsílea Gombata: Acredito que os EUA deixam explícito com o trumpismo como que o país experiência uma polarização perniciosa. Ou seja. Quando transborda da política para a sociedade. O Brasil também vive isso – bolsonaristas matando petistas, petistas matando bolsonaristas em 2022. Vejo mais uma radicalização da sociedade e menos da política americana, exceto pela por Trump e sua entourage. Fiquei 3 meses em Stanford no início do ano para um programa de Visiting Scholar. Ainda era uma fase em que o radicalismo de Trump estava emergindo, assim como o peso de oligarcas tech em seu governo. Havia tensão, mas não como agora. Agora está claro que a liberdade de expressão e de pensamento está cerceada. As universidades estão tentando contornar, driblar novas exigências para continuar tentando oferecer um serviço de alta qualidade que marca a academia americana historicamente.
Boletim Lua Nova-Cedec: Por que a América Latina passou a ser um ponto de destaque na política externa do Trump? Algo que não havia sido, ao menos de maneira tão evidente, no primeiro mandato dele.
Flávia Loss: Para entender isso, precisamos voltar para o Projeto 2025. A América Latina aparece como uma região importante na política externa proposta pelo documento, porém, por uma pauta bastante negativa: terrorismo e narcotráfico (que foram sintetizados por Trump como “narcoterrorismo” justamente para expandir a sua capacidade de ação na região), imigração e a influência de outras potências (China, Rússia e Irã). Essas pautas foram muito repetidas em discursos e pronunciamentos de Trump desde o início do mandato, mas só no último dia 05 de dezembro foi divulgado um documento oficial com essas diretrizes (Estratégia de Segurança Nacional). O documento anuncia, inclusive, o “corolário Trump”, que significa uma continuidade e atualização da estratégia da famosa Doutrina Monroe para a política externa do país. A América Latina é entendida como uma área de influência natural dos Estados Unidos, que teriam preferência em termos de comércio e acesso à commodities frente a qualquer outra potência que tente se aproximar. Além disso, o Projeto 2025 faz menção ao combate à governos e ideologias contrários ao vigente em Washington, sinalizando que as relações diplomáticas seriam difíceis com governos de esquerda e centro-esquerda, fato que se concretizou logo nos primeiros meses de mandato.
Marsílea Gombata: Veja que a América Latina talvez não fosse tão evidente como prioridade do governo Trump no primeiro mandato, quando o foco de Trump era a China como culpado externo pela perda de empregos industriais nos EUA. Mas temos de lembrar o apoio de seu governo à iniciativa Guaidó, totalmente fracassada. Ou as sanções dos EUA contra o setor petrolífero, as mais duras sanções até então. Houve um empenho, portanto. Talvez agora seja mais explícito. Já que a ideia é tentar fazer esse justiçamento com todos os países que o Trump diz prejudicarem os EUA, incluindo o Brasil, apesar de não ter déficit comercial, ou mesmo a Venezuela, que não parece ter qualquer relação com a produção e distribuição de Fentanil.
Boletim Lua Nova-Cedec: Qual a diferença de tratamento do governo Trump entre a Europa, o Oriente Médio (Palestina), a Rússia (e Ucrânia) e a América Latina em termos de ofensiva conservadora?
Flávia Loss: Na minha análise, em todas essas relações o governo Trump defende exclusivamente os interesses estadunidenses, demonstrando uma lógica de ganhos relativos ao estilo da teoria Realista da Relações Internacionais. A diferença é que os ganhos são diferentes em cada região: a Europa é ainda vista como a principal aliada no Ocidente, mas deve ser subordinada aos EUA e ocupar um papel secundário no sistema internacional; no Oriente Médio, os interesses israelenses são defendidos incondicionalmente; Putin é um velho parceiro desde a campanha de 2016 e Trump enxerga na Ucrânia a oportunidade de acesso à terras raras; e por fim, a América Latina é um campo fértil não apenas para os interesses comerciais e de exploração de recursos naturais, mas também para a expansão de ideias conservadoras.
Marsílea Gombata: Não sei se vejo tanta diferença em termos retóricos. Parece que todos têm de se curvar aos interesses dos EUA, pelo simples fato de receberem apoio da maior economia do mundo. A diferença é que, como Trump combina vários elementos de política externa dos EUA, parece ver e tratar a América Latina como seu quintal.
Boletim Lua Nova-Cedec: Alguns analistas sustentam que mais do que políticas de espetáculo por assim dizer de Trump, como o Tarifaço para as indústrias brasileiras e o cerco militar à Venezuela, os Estados Unidos estão se reposicionando devido ao avanço da economia chinesa. Como vocês avaliam esse argumento?
Flávia Loss: Concordo totalmente cito mais uma vez o Projeto 2025, que faz menção ao avanço da influência chinesa e à adesão dos países latino-americanos à Nova Rota da Seda. Existe uma percepção por parte do governo Trump de que os Estados Unidos perderam muito espaço para a China e que essa situação deve ser revertida, especialmente na sua esfera de influência natural, também chamada de “quintal” por Marco Rubio sem a menor cerimônia.
Marsílea Gombata: Eu vejo de forma diferente. Para mim, a maneira sem sutileza ou sem soft power algum que os EUA têm feito as coisas mostra que os EUA estão abrindo mão de ser o hegemon, e entregando isso de bandeja para a China. A grande questão é saber se a China teria condições de assumir esse papel, o que não me parece. Temos de lembrar que hegemon é aquele país que tem a capacidade de definir inclusive a economia política dos outros países, segundo a definição de Susan Strange. E fazer isso por meio de persuasão e convencimento. O que a China ainda não parece capaz de fazer. O fato de a China ser um regime autoritário, obviamente, dificulta.
Boletim Lua Nova-Cedec: Como o GOP avalia as ações do Trump? E a posição dos Democratas nessa conjuntura específica?
Flávia Loss: Trump conseguiu muito poder dentro do partido, que se curvou às suas vontades. Muitas análises foram feitas sobre isso e concordo que o GOP se tornou refém do sucesso de Trump. As vozes dissidentes foram caladas em nome da vitória eleitoral. Porém, nos últimos meses alguns jornais têm divulgado informações sobre possíveis divisões na base trumpista do partido. Isso se deve aos questionamentos sobre as ações militares nas proximidades do território venezuelano, o aumento do custo de vida e a inflação. Os republicanos estão atentos ao humor de seus eleitores e começam a perceber uma insatisfação crescente com os elementos que citei. As eleições de meio de mandato (midterm election) de 2026 servirão de termômetro para a aprovação de Trump junto ao eleitorado e dentro do partido, ainda que a guinada do GOP para a direita radical seja uma tendência de longo prazo, independentemente de Trump. Da mesma forma, essas eleições serão importantes para que os democratas tentem uma reação, mesmo que eu não tenha identificado uma estratégia coesa para que possam recuperar terreno. Os democratas não encontraram o tom certo para disputar a preferência das pessoas e o tempo para isso está se esgotando.
Marsílea Gombata: Os democratas não têm outra opção senão condenar. O GOP se divide, mas com cada vez mais adesão e beija a mão de Trump.
Boletim Lua Nova-Cedec: O que vocês podem dizer sobre a esquerda norte-americana para além do liberalismo cínico dos Democratas?
Flávia Loss: Não sou especialista no tema, mas, do que observo, me parece uma esquerda muito desconectada das necessidades do povo. Refiro-me às necessidades básicas das camadas mais pobres da população dos EUA que, infelizmente, encontraram respostas para os seus problemas na retórica de Trump. A situação é tão grave que tivemos a população de origem latina votando em um candidato com discurso xenófobo e sem enxergar uma contradição nisso. Os democratas criticaram as minorias pelo voto em Trump, mas vi poucas tentativas de compreender as motivações dessa tendência. Sabemos que o eleitor e eleitora hispânicos (como chamam nos EUA e não considero o termo adequado) é conservador e crítico aos governos de esquerda da América Latina, mas esse não é o único fator. Pesquisas apontam preocupações menos ideológicas e mais cotidianas como o preço dos alimentos e os salários. O governo de Joe Biden não teve um desempenho ruim nesses assuntos, principalmente se considerarmos o cenário pós-pandemia, mas aparentemente não foi capaz de se comunicar com a comunidade latina e menos ainda de sensibilizá-los. Isso será um enorme problema nas eleições de 2028.
Marsílea Gombata: Seria liberalismo cínico ou apenas liberalismo? O que de muito diferente os democratas fizeram se não preservar o liberalismo? O que não existe é um projeto de social-democracia. Talvez esse tenha sido o cinismo. Talvez a esquerda resida nos sindicatos, movimentos sociais, em manifestações fora da elite política.
Boletim Lua Nova-Cedec: Em termos objetivos qual de fato a relação da família Bolsonaro com o círculo trumpista? Há, verdadeiramente, uma aliança política de direita para predominar no mundo, ou é mera subserviência do clã bolsonarista e de setores da elite brasileira que os dão sustentação?
Flávia Loss: O apoio político de Trump a outros governos de extrema direita é real. No caso do bolsonarismo, a família possui vínculos diretos com Trump e seu círculo mais próximo. A carta de Trump endereçada a Lula em julho deste ano não deixa dúvidas sobre o apoio a Bolsonaro e sobre as motivações exclusivamente políticas do tarifaço. No entanto, devemos recordar que Trump move-se dentro de uma lógica realista em sua política externa e que as parcerias são transitórias, possuindo validade apenas enquanto servem aos interesses dos Estados Unidos. O apoio a Bolsonaro, Milei, Órban ou qualquer outro líder de direita radical é condicionado aos eventuais benefícios e, caso a conjuntura mude, esses parceiros serão desprezados. A subserviência que você citou do clã bolsonarista e de outras elites políticas latino-americanas é ainda mais danosa para nossos países porque abandona os interesses nacionais em nome de ganhos políticos imediatos e eleitoreiros para esses grupos. Foi o caso do tarifaço contra o Brasil, que considero uma traição à pátria. Com todas as críticas que faço a essa corrente política, ao menos enxergo que a extrema direita dos EUA preserva o que considera interesse nacional, diferentemente do que ocorre com essa vertente aqui no Brasil. O suposto patriotismo não passa de uma ferramenta retórica e o que vemos na prática são ações contrárias aos nossos interesses mais básicos, como a defesa de tarifas justas para nossos produtos.
Marsílea Gombata: Não acredito que haja de fato uma aliança entre o trumpismo e o bolsonarismo para além do que vemos. Não creio que são famílias que se frequentam, são próximas em círculos íntimos. Acho que existe uma estratégia do trumpismo em apoiar o bolsonarismo. Isso fortalece sua pressão sobre o governo e as instituições brasileiras. Mas não tenho evidências para falar que há algo maior do que isso.
Boletim Lua Nova-Cedec: No entendimento de vocês a Venezuela e América Latina correm o risco de uma intervenção?4 Sabemos que militarmente os Estados Unidos é uma superpotência absolutamente inigualável e que podem agir em duas, três ou quatro frentes ao mesmo tempo. Corremos esse perigo?
Flávia Loss: Sim, entendo que a Venezuela sofrerá algum tipo de ataque militar, seja da CIA ou das Forças Armadas dos EUA em breve. Estamos testemunhando o maior deslocamento de militares dos EUA para a América Latina desde a crise dos mísseis de Cuba em 1962. Esse tipo de operação militar é extremamente dispendiosa e precisará ser justificada internamente. Logo, acredito que algum tipo de ataque será feito, ainda que não seja feita uma invasão por terra por conta do risco de uma guerra de baixa intensidade (ou seja, um conflito contra forças não-estatais que pode se tornar longo e custoso).
A Venezuela está listada no Projeto 2025 como um dos cinco principais alvos de atenção da gestão Trump, ao lado da China, Irã, Rússia e Coreia do Norte. Além do interesse no petróleo venezuelano, a questão da contenção do socialismo na América Latina é um fator determinante na pressão ao governo Maduro e serve como uma demonstração de força para toda a região.
Marsílea Gombata: É difícil prever. Apesar de muitos analistas fazerem o paralelo entre o momento atual e 1989, quando os EUA invadiram o Panamá atrás do ditador Manuel Noriega, acredito que não há interesse do governo Trump em iniciar um novo conflito. Mas certamente Trump está interessado em uma mudança de regime na Venezuela, e vem usando o que pode para pressionar nesse sentido.
Boletim Lua Nova-Cedec: Como especialistas em Relações Internacionais, Jornalismo Internacional e progressistas, vocês subscrevem a tese de setores da esquerda que os Estados Unidos atravessam uma decadência de sua hegemonia?
Flávia Loss: Respeito a Teoria dos Ciclos Hegemônicos e considero que faz muito sentido quando observamos a ascensão dos EUA desde a segunda metade do século XIX. No entanto, me parece que muitas pessoas tornam os preceitos dessa teoria em uma espécie de wishful thinking que subestima o tamanho da ameaça e, por isso mesmo, a esquerda dentro e fora dos EUA foram surpreendidas pela ascensão da extrema direita no início século XXI. Cas Mudde, um acadêmico progressista, já alertava para esse risco desde a década de 1990, sem encontrar respaldo para os seus avisos nas esquerdas europeias.
Os EUA estão em decadência e isso é um fato, mas estamos distantes do fim desse ciclo a menos que um evento disruptivo surja nos próximos anos (geralmente, uma guerra) e não significa que não haverá uma reação. Na verdade, a reação já aconteceu e se chama Donald Trump. Veremos o quanto ele conseguirá reverter a situação e deve-se ter em mente que ele foi eleito para isso, como mostra o slogan MAGA (Make America Great Again). Ou seja, existe a percepção da população que os EUA já estiveram em melhor situação e devem recuperar esse status a qualquer preço.
Em resumo, os EUA perderam poder e existem outras potências disputando espaço. Porém, a realidade que ainda vigora é que mais de 90% das transações financeiras do planeta são feitas em dólar, o país possui as forças armadas mais poderosas e lidera a corrida tecnológica. A China certamente está se aproximando de todos esses indicadores de poder em uma velocidade fantástica, mas, por enquanto, não se equipara aos EUA nesses requisitos. O poder é medido materialmente.
Marsílea Gombata: Não sei se isso ocorre há muito tempo. Acho que nas últimas décadas, especialmente depois do 11 de Setembro, ficou difícil os EUA se sustentarem como defensores dos direitos humanos em termos globais. Isso acabou prejudicando a própria defesa de sua maior bandeira, desde o fim da segunda guerra, que era a da democracia liberal. Acho que fica bem claro que essa não é a principal bandeira dos EUA hoje. O que parece curioso é que não parece haver uma preocupação em deixar de ser o hegemon do mundo. Parece que o governo atual simplesmente está entregando esse papel de bandeja, como eu já havia mencionado antes. O problema é que não há nenhum país que pareça capaz de ocupar esse lugar.
Boletim Lua Nova-Cedec: O que o governo do PT e Lula deve fazer, ou ao menos se comportar em relação ao Tarifaço? Ser mais diplomático? Baixar o tom? Estimular a soberania nacional? Se aliar com o empresariado mais prejudicado? Partir para um nacionalismo revolucionário?
Flávia Loss: Pensando no que falávamos anteriormente sobre poder material, considero que a postura cautelosa adotada pela diplomacia brasileira é o melhor caminho. O governo Lula não cedeu nas questões de soberania nacional, mantendo uma postura altiva que considero extremamente acertada quando lidamos com uma potência com as características dos EUA. Ao mesmo tempo, manteve a porta aberta para o diálogo, tradição da nossa política externa desde o Barão do Rio Branco. A busca pela resolução pacífica e diplomática de tensões considera o peso do Brasil em termos de poder e tem como objetivo preservar os nossos interesses mesmo frente a Estados mais fortes.
Apesar dessa vitória diplomática, seria importante que outras estratégias de longo prazo fossem cada vez mais incentivadas, como aberturas de novos mercados, investimentos na indústria nacional e incentivos para pesquisas em tecnologia. Em resumo, um projeto de desenvolvimento nacional que fosse modernizado para a conjuntura internacional atual.
Marsílea Gombata: Creio que o governo Lula está fazendo o que pode. Não acho que o tom está errado. Tem respondido com ênfase na soberania nacional e tentado apoiar as empresas mais prejudicadas aqui. Acredito que partir para um nacionalismo mais revolucionário seria algo naive, quando precisamos de pragmatismo. Uma lição de casa que o Brasil deveria ter feito antes e agora está tendo de correr atrás é justamente diversificar parceiros comerciais, para não dependermos só de um ou dois parceiros comerciais. O Brasil está vendo, da pior maneira, o quão isso é imperativo.
Boletim Lua Nova-Cedec: Qual é a agenda de pesquisa de vocês atualmente? E como dentro desse cenário analisado acima vocês observam os cursos, disciplinas e pesquisas nas Relações Internacionais no Brasil hoje? Quais são os principais programas de pós-graduação além dos já conhecidos PUC/SP-Unesp-Unicamp (Santiago Dantas), IRI-USP, UNB etc?
Flávia Loss: Os meus principais interesses de pesquisa são o regionalismo latino-americano, a integração europeia, a política externa brasileira (PEB) e, mais recentemente, a influência das ideologias nas PEB. As pesquisas sobre esse tema estão em ascensão na América Latina e considero um campo muito promissor, visto que as RIs demoraram para incorporar as ideologias em suas análises. Sobre os programas de pós-graduação, além dos que você citou, incluiria os programas da UFABC e da UNIFESP, que também são de excelência. Para quem tem interesse na América Latina, um programa interessante é o PROLAM USP e um grupo de pesquisa que recomendo é o Observatório de Regionalismo (ODR). Infelizmente, conheço melhor as iniciativas do estado de São Paulo, mas espero que cada vez mais programas de outros estados brasileiros ganhem relevância nacional e internacional.
Marsílea Gombata: Atualmente eu observo as crises da democracia na América Latina, com foco na economia política e na precarização do trabalho. E também sigo com a agenda focada na Venezuela, mais especificamente, na consolidação do autoritarismo no país.
Obrigado Flávia e Marsílea!
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
- Professor no Departamento de Ciência Política do IFCS-UFRJ, Pesquisador do Cedec-Centro de Estudos em Cultura Contemporânea, do GPDET-UFRJ/CNPq-(Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria) e Coordenador do LIEPPC-UFRJ/DCP-(Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Política e Pensamento Crítico). Pesquisa as áreas de teoria política, pensamento conservador, marxismo, Frantz Fanon e pensamento social brasileiro. Contribui com os sites “A Terra é Redonda”, “Boitempo” e “Outras Palavras” e edita a seção entrevistas neste Boletim.
↩︎ - Doutora pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), Professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), Pesquisadora do Observatório de Regionalismo (ODR) e do Grupo Rede de Investigação em Política Exterior e Regionalismo (REPRI), também integra o Grupo de Reflexión sobre Integración y Desarollo en América Latina y Europa (GRIDALE). Flávia Loss vem participando ativamente de debates sobre a conjuntura internacional envolvendo os Estados Unidos.
↩︎ - Pesquisadora sênior do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (NUPRI-USP) e professora de relações internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). É doutora em Ciência Política pela USP, com período de doutorado sanduíche na University of British Columbia (UBC), no Canadá. Tem extensa experiência em trabalho de campo na Venezuela, e em sua tese defendeu que com o chavismo a Venezuela passou de um regime híbrido no campo democrático para um regime híbrido no campo autoritário, transformando-se em um autoritarismo pleno a partir de 2015. Publicou recentemente artigos sobre a Venezuela como desafio diplomático para o Brasil de Lula III, o impacto das relações bilaterais Brasil-Venezuela na opinião pública e na formulação da política externa brasileira, e a consolidação autoritária pela via eleitoral no governo Maduro. No início de 2025 foi Visiting Scholar na Stanford University, nos EUA. ↩︎
- A entrevista com as pesquisadoras Flávia Loss e Marsílea Gombata foi realizada entre novembro e dezembro de 2025, portanto, antes do ataque dos Estados Unidos à Venezuela e ao sequestro de Nicolás Maduro em 03 de janeiro de 2026 ↩︎



