Victor Ferreira de Almeida1
8 de junho de 2026
Passados cerca de 1 ano e seis meses da posse de Donald Trump na presidência dos EUA, podemos ter uma interpretação sobre a sua política externa para a América. Com sua direção antecipada por diversos analistas brasileiros, a Estratégia de Segurança Nacional, publicada em novembro de 2025, representa uma política imperialista de dominação com o que entendem “nosso Hemisfério”, parte do seu “interesse nacional central”.
A chamada Doutrina Donroe tem como fontes de inspiração a doutrina Monroe de 1823, que propõe a América como uma região livre da presença de grandes potências, e o corrolário Roosevelt à doutrina Monroe de 1904, que estabelece a América como zona da influência dos EUA. Os princípios já anunciam a inspiração numa reformulação do ditado romano “se queres a paz, prepara-te para a guerra”.
PRINCÍPIOS E PRIORIDADES DA NATIONAL SECURITY STRATEGY
Em linha com a base MAGA, inspiram-se em um “realismo flexível” segundo o qual a promoção da paz democrática está encerrada e agora a grande estratégia busca preservar o equilíbrio de poder global e regionais, bloqueando o surgimento de “adversários dominantes” por meio de “intervenções justificadas” sem “gastar o sangue e tesouro”. Também sinalizam o rompimento com o papel de paymaster [pagador] da ordem internacional, com uma ordem internacional institucionalizada e com o combate às opressões sobre minorias sociais, enquanto se busca fomentar a reindustrialização por meio do re-shore que consiste em atrair indústrias que foram deslocadas para países com mão-de-obra mais barata.
A partir desses princípios o governo Trump estabelece prioridades, destacamos as relevantes para o Hemisfério Ocidental. Como primeiro destaque está o bloqueio da influência de outras grandes potências na América, seguido do combate aos fluxos migratórios e ao narcotráfico vindos da América Latina. Também é prioridade a proteção da internacionalização do Direito norte-americano em países terceiros (como as interpretações MAGA de “liberdade de expressão, liberdade religiosa e liberdade política”) e o fortalecimento do que chamam de “segurança econômica”.
Sobre essa última prioridade há mais detalhes. Esta é composta pela busca na relação com outros países por reduzir os déficits no comércio exterior; pela oposição a terceiros que imponham barreiras às exportações estadunidenses ou que pratiquem políticas que os EUA identifiquem como dumping; pela garantia de acesso a recursos naturais críticos, a cadeias de suprimentos e a avanços tecnológicos; pela reindustrialização dos EUA por meio do re-shore; pela “revitalização da base industrial de defesa” dos EUA e de países aliados; pelo investimento na produção de energia (petróleo, gás natural, carvão e nuclear); e pela preservação da dominância financeira dos EUA.
Considerando essas prioridades a partir dos princípios propostos e as manobras da diplomacia estadunidense em direção a América Latina no período sob análise, identificamos táticas recorrentes.
SECURITIZAÇÃO DOS IMIGRANTES E DO NARCOTRÁFICO
A tática discursiva mais importante implementada para a América Latina é a securitização da imigração e do tráfico transnacional de narcóticos oriundos da região. Ao elevar esses temas a ameaças à segurança nacional, o governo Trump desloca essa agenda da política democrática para a política do pânico e assim justifica o uso da violência excepcional do Estado. A medida de securitização mais importante foi a assinatura, em 4 março de 2026, de uma declaração conjunta com diversos governos da América (Argentina, Bahamas, Belize, Bolivia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago) a qual criou uma coalizão militar para combater o “narco-terrorismo” e “proteger infraestruturas críticas” no Hemisfério.
Em janeiro de 2025 o governo Trump intensificou a militarização da fronteira com o México; designou 8 cartéis de El Salvador, México e Venezuela como organizações terroristas; e iniciou um programa de deportações em massa de imigrantes sem documentação. Em fevereiro de 2025, o governo Trump reativa o acordo de Safe Third Country Agreement com El Salvador para transferir imigrantes capturados. O mesmo acordo foi assinado ao longo do ano com Panamá, Honduras, Guatemala, Paraguai e Belize e em 2026 com a Costa Rica. Em abril destinou 175 bilhões de dólares ao longo de dez anos para o Department of Homeland Security conduzir o programa de deportações em massa e o DHS concedeu à CoreCivic um contrato de US$ 45 bilhões ao longo de dez anos para operar um novo centro de detenção de imigrantes com 30 mil leitos.
EMPREGO DE PODER MILITAR
As “intervenções justificadas” que evitam o envio de tropas para uma invasão anfíbia, contarão com a esmagadora superioridade de poder naval e poder aéreo, empregados pontualmente a partir das informações obtidas pela Agência Central de Inteligência (CIA). Sinalizando o fim da política de cooperação com a região, começou a destruição da agência federal USAID, que destinava milhões de dólares anuais para promover os direitos humanos e a democracia na região.
Já no primeiro mês do mandato redesignou Cuba como país promotor de terrorismo e reimpôs sanções retiradas por Biden. E ameaçou economicamente e militarmente o Panamá a afastar a presença empresarial chinesa no canal, que cedeu se retirando da Iniciativa Cinturão e Rota e rompeu o contrato com a empresa CK Hutchison de Hong Kong. Em julho o governo Trump intensificou a coerção econômica em Cuba, restringindo relações econômicas de estadunidenses com o conglomerado militar cubano que administra o setor hoteleiro. Em janeiro de 2026 impôs um bloqueio naval em Cuba, que logo entrou em uma crise de abastecimento de alimentos e petróleo.
Em julho de 2025, o presidente do Equador, Daniel Noboa, assinou um acordo com uma agência federal do DHS para aumentar a vigilância área e costeira e recebeu 8 milhões de dólares em equipamentos militares e de comunicação do Comando Sul. Em setembro de 2025 o presidente Noboa convocou um referendo para remover a proibição constitucional sobre a instalação de bases militares estrangeiras no país, proposta que dois meses depois foi rejeita por 60% dos votantes. A partir de dezembro de 2025 os EUA obteve autorização para o destacamento temporário de tropas no Equador e no final do mesmo mês uma operação equatoriana apreendeu o estimado em 98 milhões de dólares em cocaína. A partir de março de 2026 começam operações militares conjuntas em diversas províncias, inclusive com ataques de mísseis americanos.
Em dezembro de 2025 o governo paraguaio assinou um tratado com os EUA que concede imunidade diplomática, isenção para importação de equipamentos militares, direitos de porte de armas, de uso de uniforme e de livre movimentos para tropas americanas no território, ganhando acesso ao ponto geoestratégico da tríplice fronteira com o Brasil e a Argentina. Em janeiro de 2026 o Peru foi designado como aliado prioritário dos EUA e recebeu a aprovação do Departamento de Estado para o envio de um pacote de equipamentos militares para modernizar a base naval peruana em Callao. Em abril de 2026, após uma crise política que levou à troca dos ministros da Defesa e das Relações Exteriores peruanos, foi assinado um acordo para a compra de 24 F-16 Block 70 dos EUA.
A política para a Venezuela levou a ação militar mais significativa do governo Trump na região. Em 24 de março de 2025 o governo Trump ameaçou impor uma tarifa de 25% para importação de todos os produtos de países que comprassem petróleo venezuelano, que não foi aplicada. Em 8 de agosto a situação escalou para o nível militar quando Trump autorizou o Pentágono a preparar operações militares contra cartéis designados como organizações terroristas, mencionando o venezuelano Tren de Aragua. Além disso, deslocou 7 embarcações militares e um submarino para o mar do Caribe e dobrou para 50 milhões de dólares a recompensa por colaboração na captura do presidente Maduro. Em setembro esse contingente no Caribe iniciou execuções sumárias de pequenos barcos supostamente de narcotraficantes vindos da Venezuela.
Grupo de ataque do USS Gerald Ford bloqueando a Venezuela

Obs: localização aproximada em 16 de dezembro de 2025. Fonte: https://www.newsweek.com/venezuela-blockade-map-us-navy-11224588
Em outubro Trump confirmou publicamente que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas na Venezuela e o porta-aviões USS Gerald R. Ford foi deslocado para as proximidades da costa venezuelana. Em 6 de novembro, senadores democratas e dois republicanos votaram uma resolução para exigir que o governo Trump tenha autorização do Congressoo para novos ataques à Venezuela, a resolução foi rejeitada por 49 votos a 51. A partir de 10 de dezembro impôs um bloqueio naval às exportações de petróleo venezuelano, interceptando petroleiros que transportassem carga da Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA). E em 3 de janeiro de 2026 foi realizada a operação de decapitação que sequestrou o presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Após a captura, o Tesouro dos EUA emitiu a Licença Geral 46 que permitiu que empresas americanas retomassem a exploração, refino e comércio do petróleo venezuelano, controlando a renda em bancos estadunidenses e restringindo as exportações venezuelanas para países aliados, como Israel. O governo venezuelano inicia um expurgo no alto escalão do governo, das Forças Armadas e da PDVSA, um processo de libertação de presos políticos e em 29 de janeiro concede a reforma da Lei de Hidrocarbonetos dentro dos termos impostos pelos EUA.
COERÇÃO ECONÔMICA
Entre os meios menos violentos. Instrumentalizaram a vulnerabilidade assimétrica de outros países em regimes internacionais de comércio, ao impor barreiras tarifárias em países assimétricamente interdependentes. Também instrumentalizaram os ganhos absolutos do comércio com base em vantagens comparativas, aprofundando a dependência de países em processo de desenvolvimento. E direcionaram investimento estrangeiro direto em setores estratégicos como infraestrutura, telecomunicações e minerais críticos.
Já em 1 de fevereiro de 2025 a administração Trump emitiu uma ordem executiva impondo uma tarifa de 25% nos produtos do México. Vulnerável a uma mudança no regime de comércio por ter institucionalizado no USMCA sua dependência econômica dos EUA. Em 3 de fevereiro, o governo de Sheinbaum conseguiu negociar o adiamento da tarifa para março em troca de deslocar 10.000 tropas da Guarda Nacional para sua fronteira ao Norte.
Quando essa tarifa geral entraria em efeito no início de março, Trump emitiu outra ordem, em 6 de março, isentando produtos mexicanos incluídos no USMCA, a maioria dos produtos da pauta de exportação. A tarifa geral de 50% sobre importações de aço, alumínio e cobre, entretanto, permanece. Além disso, foi fixada uma tarifa de 25% sobre a importação de automóveis produzidos no México, protegendo a produção desses produtos nos EUA. O governo mexicano, pressionado diplomaticamente a bloquear a entrada de veículos elétricos chineses no mercado norte-americano, também fixou uma tarifa de 50% sobre a importação desses veículos. Está prevista uma revisão dos termos do USMCA em julho de 2026, do qual Trump já ameaçou se retirar.
Em julho, foram anunciados um aumento de tarifas alfandegárias para 50% em produtos brasileiros e a revogação do visto de oito dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, justificadas sob alegações de que a suprema corte brasileira censura estáas redes sociais e está violando os direitos humanos do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado. O governo brasileiro conseguiu negociar a retirada das tarifas sobre produtos de primeira necessidade e de baixo valor agregado, que são grande parte da pauta de exportação, porém foram mantidas as tarifas sobre os produtos de alto valor agregado (aço, alumínio, cobre, peças de aviões, equipamentos de construção, veículos e autopeças).
Ao contrário do que foi veiculado na mídia, o Estado brasileiro “sofreu dano” do ataque tarifário. Quando uma das duas maiores superpotências te ataca, são poucos os Estados no planeta que tem condições de resistir sem prejuízos. No caso brasileiro, o custo imposto pelo tarifaço somou 16 bilhões de reais no programa Brasil Soberano (que foi estendido em 2026), para auxiliar grupos empresariais afetados pelo tarifaço. Dinheiro que fez falta em 2026 com um contingenciamento de 4 bilhões de reais para a Defesa, atrasando por exemplo os projetos estratégicos do submarino de propulsão nuclear, das fragatas tamandaré e dos caças Gripen.
Em março de 2026 o governo dos EUA assinou acordos comerciais com os estados federados de Goiás e Minas Gerais para facilitar que empresas americanas assumam a liderança da exploração de minerais críticos no Brasil. Em maio do mesmo ano o presidente Lula e o presidente Trump se reuniram nos EUA, mas a decisão sobre as tarifas em produtos brasileiros de alto valor agregado foi adiada em 30 dias e assim seguem em efeito. O Brasil manteve uma posição de autonomia, reafirmando que manterá relações com a China e que também busca boas relações com os EUA.
AOS AMIGOS DO REI
Apesar do governo Trump estar se retirando de instituições multilaterais, as instituições de Bretton Woods são preservadas por estruturarem a dominância financeira dos EUA. E a administração utilizou suas capacidades organizacionais no Fundo Monetário Internacional para favorecer governos aliados e para desarmar outros Estados das ferramentas necessárias para o desenvolvimento. Em abril de 2025 o FMI, no qual o governo dos EUA tem desproporcional poder de estabelecer a agenda e de voto, aprovou um pacote de 20 bilhões de dólares para o governo aliado de Javier Milei (maior devedor do fundo, com uma dívida de 40 bilhões de dólares). Em outubro o secretário do tesouro Scott Bessent aprovou um swap cambial de 20 bilhões de dólares para estabilizar o peso e aumentar as chances de vitória do governo Milei nas eleições argentinas no final do mesmo mês.
Além disso promoveram o american way of life por meio de políticas de prestígio, demonstrando poder. Também em abril do mesmo ano o presidente Trump recebeu Nayib Bukele, o presidente de El Salvador, e o reconheceu como um aliado nas suas ações contra o narcotráfico e contra imigrantes sem documentação apesar das acusações de violações sistemáticas de direitos humanos. Esse foi um padrão ao longo do período analisado, a administração Trump recebeu visitas de governos aliados para demonstrar poder e ganhar a atenção da opinião pública.
Entre novembro de 2025 e março de 2026 foram assinados acordos-quadro comerciais com Argentina, Equador, El Salvador e Guatemala. Não sendo tratados de livre-comércio, os acordos estabelecem isenções tarifárias para setores específicos. Abrindo o mercado norte-americano para produtos de baixo valor agregados desses países em troca da abertura desses mercados a produtos industrializados dos EUA. Os acordos também estabelecem proteções jurídicas para as Big Techs estadunidenses nesses países, impedindo a tributação dessas empresas e das suas transações digitais, as protegendo de leis anti-monopólio e estabelecendo a jurisdição americana para litígios envolvendo os fluxos de dados. Além disso, os acordos possuem cláusulas com intenção geopolítica de afastar ou impedir investimentos chineses em infraestruturas críticas e tecnologias sensíveis.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após analisar a estratégia e as táticas previstas na Estratégia de Segurança Nacional do segundo governo Trump e rastrear a sua implementação nos primeiros 15 meses de mandato, é possível afirmar que a política externa americana no período analisado seguiu essas diretrizes, como é de costume para o Estado americano. Por meio da securitização dos imigrantes e do narcotráfico vindos da América Latina, o governo dos EUA criou justificativas para a política de deportações em massa, para a intensificação da militarização da fronteira com o México, para o deslocamento do poder naval em direção à América e para as operações especiais contra cartéis e governos que sejam associados ao narcotráfico (sejam essas associações reais ou não).
Também ficou clara a implementação de tarifas alfandegárias para coagir os Estados mais poderosos da região, como o Brasil e o México, aplicadas especialmente sobre setores industriais estratégicos. No Panamá, um Estado fraco, a coerção diplomática e econômica conseguiu impor a doutrina Donroe no canal ao afastar a presença empresarial chinesa desse ponto geoestratégico, e em menor escala também foi imposta no setor automotivo mexicano com as tarifas sobre veículos elétricos chineses. Os acordos-quadro comerciais com países alinhados da região (Argentina, Equador, Guatemala e El Salvador) institucionalizaram uma relação centro-periferia e impõem a doutrina Donroe, impondo desafios para a presença empresarial chinesa em setores estratégicos como infraestrutura, minerais críticos e cybercomunicações.
Além disso e por fim, o governo Trump mobilizou suas capacidades em organizações internacionais para ofertar ajuda financeira substancial para governos aliados ganharem vantagens eleitorais. Como no caso do empréstimo de 20 bilhões de dólares do FMI ao governo de Javier Milei. Obteve acesso militar aos territórios do Equador e do Paraguai e atrelou o Peru aos sistemas de defesa dos EUA. Enquanto terminávamos esse relatório, foi revelada pela mídia latino-americana Canal Red mensagens de voz de um ex-presidente hondurenho em que são expostos planos americanos e israelenses para desestabilizar os governos do México e do Brasil.
Estamos sob cerco imperialista e a grande estratégia autonomista recomenda que as política externa dos países da esquerda latino-americana busquem fomentar a diversificação das relações internacionais (hedging), a construção da unidade latino-americana, a preservação das instituições multilaterais para praticar soft-balancing, e o balanceamento do poder americano com o desenvolvimento das capacidades materiais (econômicas e militares) dos países mais fortes da região.
Referência imagética: Donald Trump durante o encontro “Shield of the Americas”, realizado no Trump National Doral, em Miami, em 7 de março de 2026. Foto oficial da Casa Branca: Daniel Torok / The White House. Imagem em domínio público, conforme política de direitos autorais da Casa Branca. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/gallery/president-donald-j-trump-delivers-remarks-during-the-shield-of-the-americas-summit/
- Doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no PPGCPRI-UFPB. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001. Contato: victorfdalmeida@gmail.com ↩︎



