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Divulgação do dossiê Pensamento Social Negro: (des)centralidades, (in)visibilidades e reconhecimento

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1 de abril de 2026

O Boletim Lua Nova tem a satisfação de divulgar o dossiê Pensamento Social Negro: (des)centralidades, (in)visibilidades e reconhecimento, recém-publicado pela revista Pós (PPGSOL/UnB)1 e organizado por Jacqueline Moraes Teixeira (USP)2; Layla Daniele Pedreira de Carvalho (UnB-MIR)3;  Stefan Fornos Klein (UnB)4 e Matheus Felipe Gomes Dias (PPGSOL/UnB)5.

Republicanos abaixo o texto de apresentação escrito pelos próprios organizadores, que oferece um panorama detalhado da coletânea. O dossiê reúne artigos, ensaio, conferências, entrevistas e resenha que colocam no centro do debate as contribuições, os silenciamentos e as resistências que marcam a trajetória de intelectuais negras e negros nas ciências sociais brasileiras, com destaque para as obras de Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento e Sueli Carneiro, entre outras referências fundamentais. Trata-se de uma leitura indispensável para quem acompanha os debates sobre epistemicídio, interseccionalidade e os caminhos de transformação da universidade pública no Brasil. 

***

Antirracismo e práticas de resistência intelectual no pensamento negro

É com grande alegria que a revista Pós publica o dossiê Pensamento Social Negro: (des)centralidades, (in)visi-bilidades e reconhecimento, que foi proposto, conjuntamente, pelas professoras Jacqueline Moraes Teixeira e Layla Pedreira de Carvalho e pelo professor Stefan Klein, todas – à ocasião – parte do corpo docente do De-partamento de Sociologia da Universidade de Brasília (SOL/UnB), em colaboração com a equipe editorial da revista, mais especificamente na figura de seu editor-chefe, Matheus Felipe Gomes Dias, doutorando no Pro-grama de Pós-Graduação em Sociologia da UnB. A iniciativa nasce, em parte, no esteio do projeto realizado no âmbito do Programa de Educação Tutorial (PET) vinculado ao departamento referido acima, intitulado Pensando invisibilidade e resistências nas trajetórias de intelectuais negras e negros nas Ciências Sociais, sob a tutoria de Jacqueline e Stefan. Alimenta-se, ainda, da atuação fundamental de Layla junto ao Ministério da Igualdade Racial (MIR), primeiramente integrando a Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas e, a partir de dezembro de 2023, tornando-se Diretora de Políticas de Ações Afirmativas desta mesma Secretaria.

Nesse  sentido,  a  proposição,  organização  e,  agora,  a  publicação  deste  dossiê  podem  ser  lidas  na  chave  de  constituírem parte das práticas de combate ao racismo no espaço acadêmico. No entanto, como se mostra frequentemente,  as  contradições  que  permeiam  o  referido  espaço  exigem  a  distinção  entre  esses  esforços  e, ao mesmo tempo, a persistência de práticas de racismo acadêmico (Almeida, 2021) que ainda marcam e contaminam  a  universidade  no  Brasil.  Elas  se  expressam,  por  exemplo,  em  falas  no  dia  a  dia,  em  decisões  acerca da abertura de concursos públicos docentes ou das nomeações (ou não-nomeações) de candidatas/os, do lugar do debate étnico-racial em planos de ensino, etc. Reflete, em certa medida, o fato de que esforços institucionais exigem continuidade e engajamento individuais, uma vez que a tendência, no cotidiano acadêmico, é a norma da branquitude e do sexismo prevalecerem nas mais variadas instâncias e contextos.

Conforme  indicado  pelo  primoroso  trabalho  de  Sueli  Carneiro  (2023),  a  efetividade  do  dispositivo  de  racialidade, e o modo como o epistemicídio – explicitamente tematizado em mais de um dos textos do dossiê – marca, em especial, porém não exclusivamente, a cultura e a sociedade no Brasil, estão subjacentes às preocupações das organizadoras e autorias. Nesse sentido, a oportunidade de conferir o espaço a essa amplitude de  intelectuais  negras  e  à  miríade  de  temas  que  vieram  sendo  pesquisados  permite  constatar,  novamente,  as mudanças pelas quais o espaço acadêmico no Brasil vem passando. A presença e, sobretudo, a crítica do conjunto  de  trabalhos  aqui  publicados  –  bem  como,  evidentemente,  de  todos  aqueles  outros  trabalhos  de  pesquisa que se dedicam a questões semelhantes – também expressa as formas de resistências às quais Lélia Gonzalez (2020 [1979]) se referia quando pensava acerca dos modos de luta, tão plurais quanto necessários, das populações negras escravizadas.Para chegarmos a esse momento contamos com uma chamada aberta de submissão, que recebeu uma elevada quantidade e variedade de peças, desde artigos, passando por resenhas, entrevistas, ensaios – textuais e  imagéticos  –  até  duas  conferências.  Isso  tanto  alegrou  as  proponentes  quanto,  também,  tornou  o  nosso  trabalho  mais  difícil,  na  medida  em  que  acabou  sendo  necessário  se  atentar  mais  estritamente  aos  textos  que dialogavam de maneira próxima com a proposta do dossiê. Por isso, algumas das submissões recebidas foram encaminhadas ao fluxo regular da revista, na medida em que certamente atendiam ao que se esperava em termos do escopo e do alcance da Pós, porém extrapolavam o recorte que propusemos para o dossiê.

O dossiê abre com o artigo “Intelectualidades negras: pós-graduação e processos coletivos de resistências”, de Suzana Cavalheiro de Jesus, professora da Universidade Federal do Pampa e Andresa Cristina Xavier de Souza, mestranda em Ensino pela Universidade Federal do Pampa, e Luciano Pereira dos Santos, professor da Universidade Federal do Pampa. Ela se apoia sobre uma pesquisa, por meio de grupo focal, realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGE) no campus Bagé da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA).  A  proposta  de  pensar  as  intelectualidades  negras  se  deu  com  base  nos  processos  de  apagamento da presença, da atuação ativa na construção e, depois das formas de resistência de populações negras em Bagé. Tomando por referência, entre outras, as reflexões de Sueli Carneiro acerca das formas de epistemicídio e o (possível) papel da educação em seu enfrentamento, o artigo aponta uma concepção ampliada de intelectualidade, que extrapola a qualificação estritamente acadêmica. Considerando as experiências de violência nos espaços acadêmicos enfrentados por essas mulheres, os diálogos ao longo dos grupos focais também  aumentam  a  importância  redobrada  de  ocuparem  esses  espaços  na  universidade,  questionando,  muitas  vezes  apenas  por  estarem  presentes,  a  branquitude  arraigada  enquanto  retrato  da  superioridade.  Trazer para o cerne autorias e produções negras constitui, portanto, uma prática intelectual de resistência vital, e que também precisa ser articulada com as cotas epistêmicas, conforme enunciado ao final do artigo.

O segundo artigo do dossiê é “A interseccionalidade desde o Brasil: teias de resistência entre o pensamento de feministas negras brasileiras”, de Marília Passos Apoliano Gomes, professora da Universidade Federal do Piauí e Jhêniffer Lopes da Silva, Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Piauí. A pesquisa que resultou neste texto buscou abranger os diálogos entre as produções de Lélia Gonzalez, tomada como a primeira referência desse conjunto de reflexões, e as obras de Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carla Akoti-rene, Juliana Borges e Letícia Nascimento. A proposta busca compor um panorama das análises brasileiras sobre  desigualdades  interseccionais,  tendo  sido  guiada  pela  pergunta:  como  essas  autoras  tratam  as  dinâmicas de opressão interseccional relacionadas à raça, classe, gênero, identidade de gênero e sexualidade no Brasil? O texto contribui de maneira indelével ao conferir maior relevo às formas de opressão relacionadas à sexualidade, e em especial às formas de transfobia e afronecrotransfobia. Destaca-se, igualmente, o cuidado analítico na articulação (interseccional) das diferentes questões postas. Ela encerra sugerindo a importância de pensar uma “democracia social de base americana”.

Por  sua  vez,  o  artigo  “Silenciamento  e  resistência:  Lélia  Gonzalez  e  o  apagamento  epistemológico  de  intelectuais  negras  no  pensamento  social  brasileiro”,  de  Izabele  Caroline  do  Nascimento  Canario,  mestranda  em sociologia na Universidade Federal da Bahia, busca problematizar o lugar relegado de Lélia Gonzalez no pensamento social brasileiro. Tomando por base a crítica de Sueli Carneiro baseada no conceito de epistemicídio e o debate proposto por Syed Alatas em torno dos discursos alternativos, a autora elabora pesquisa que  mapeia  três  eixos  centrais  em  sua  produção,  a  saber:  (i)  a  crítica  à  democracia  racial  como  mito  fundacional do Brasil; (ii) a formulação da amefricanidade como projeto político, cultural e identitário; e (ii) a reivindicação da mulher negra como sujeito epistêmico e agente de transformação social. Dialogando com a bibliografia secundária, instigantemente provoca as leitoras a notarem as dinâmicas de silenciamento e os potenciais de resistência.

Em  “A  divisão  racial  do  trabalho  e  do  espaço  na  obra  de  Lélia  Gonzalez”,  Sofia  Maria  do  Carmo  Nicolau  (mestra em Sociologia pela Universidade de São Paulo) e Natalino Neves da Silva (professor da Universidade Federal de Minas Gerais) realizam um breve percurso pela obra da autora no intuito de situar suas reflexões envolvendo os dois conceitos indicados no título. É um texto que, também no diálogo com outras referências – como W. E. B. Du Bois, Beatriz Nascimento e Clóvis Moura – aponta não simplesmente o uso de ambos os conceitos,  mas  avança  nos  modos  de  sua  articulação,  e  no  lugar  que  ocupam  para  se  pensar  as  formas  de  manifestação  e  expressão  do  racismo  como  constitutivo  da  sociedade  brasileira.  Desse  modo,  desvendam  o alcance da concepção do lugar de negro que está presente na obra da autora, o que implica o potencial de questioná-lo e subvertê-lo.

O artigo “Feminismo negro acadêmico: experiências de professoras negras”, de Wellington Pereira Santos, doutor  em  Estudos  interdisciplinares  Sobre  Mulheres,  Gênero  e  Feminismo  pela  Universidade  Federal  da  Bahia,  está  apoiado  sobre  uma  etnografia  com  professoras  realizada  na  Universidade  Federal  da  Bahia.  O  autor perpassa aspectos das trajetórias bem como da atuação dessas docentes e, com isso, traz os elementos da presença do racismo, ao mesmo tempo em que confere lugar relevante às iniciativas de enfrentamento dessa forma de preconceito e discriminação. Aponta, com isso, de que modo as mudanças no cenário da educação superior no Brasil se fazem sentir em termos de lidar com a permanência das práticas de branquitude, mostrando as alternativas concretas e desmontá-la

No artigo “Redes afro diaspóricas: Abdias Nascimento e o (auto)exílio”, Tailane Santana Nunes, mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), e Édvin Marlei Pereira, da Associação  de  Pesquisadores/as  das  Questões  Étnicas,  Culturais  e  Educacionais  do  Território  Velho  Chico  (Coletivo Marilene Matos), recorrem a cuidadosa pesquisa documental-bibliográfica no intuito de situar as contribuições de Abdias Nascimento. Em particular, destacam a relação ambígua dele com o exílio nos Estados  Unidos  da  América,  lançando  mão  de  seu  entendimento  de  que  já  fora  exilado  no  Brasil,  seu  país  de  nascimento, em decorrência das perseguições e repressões sofridas. Identificam o lugar ocupado pela interlocução com a negritude e o panafricanismo na organização das ideias de Nascimento. Desse modo, o texto permite compreender o alcance e as múltiplas dimensões do ativismo, tanto nas artes quanto na militância e na produção estritamente acadêmica, de uma figura ímpar como foi o caso dele.

Em “Juventude, memória e aquilombamento: todo mundo contra o epistemicídio” Bruno Vieira dos Santos, que atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado junto à Universidade Federal do Ceará, parte do assassi-nato do poeta, slammer e rapper Japa Rua, ocorrido em Recife no início de 2022, para apresentar sua reflexão sobre o epistemicídio e as possibilidades do aquilombamento. Apoiado em especial sobre a perspectiva de Sueli Carneiro, remete ao que denomina o “embarreiramento da subjetividade” a fim de pensar as manifestações do racismo. Tomando por referência a produção cultural das juventudes negras, e o lugar da rua enquanto  seu  espaço  privilegiado,  aponta  as  contribuições  que  a  memória  e  a  arte  oferecem  enquanto  ex-pressões do aquilombamento. Pensa, assim, que a preservação da memória é, também, o trabalho de manter viva aquela pessoa, resistindo ao esquecimento e, por conseguinte, ao epistemicídio.

O dossiê também traz um ensaio intitulado “Carta à minha mãe preta: um ensaio sobre o encontro de epis-temes e a condição do negro”. Nele Thiago Macedo de Carvalho, doutorando em sociologia pelo PPGSOL/UnB,  aborda,  de  maneira  didática  e  afetuosa,  o  esforço  de  compartilhar,  com  a  sua  mãe,  não  apenas  ser  a  primeira pessoa de sua família a alcançar a educação superior, como explicita o papel das ações afirmativas nesse processo. Realiza exercícios de aproximar a reflexão extra-acadêmica de críticas formuladas nos textos, apontando que a capacidade de questionar e de ler (e desvelar!) o mundo está longe de ser algo restrito à produção acadêmica, tendo como pano de fundo a figura da mãe preta conforme presente, por exemplo, em Lélia Gonzalez. O ensaio recupera elementos de ancestralidade no diálogo com autorias negras que (ainda) se encontram marginalizadas. Trata, assim, de questões do cotidiano, de estranhamentos que permeiam a necessidade de tatear esse espaço e suas regras (algumas escritas, outras não ditas). A carta encerra trazendo a importância de construção da identidade negra que, de diferentes maneiras, foi desqualificada no processo de branqueamento que marca a nossa história colonizada. O texto combina, portanto, informalidade e rigor ao trabalhar questões complexas que decorrem dos ventos de mudança que sopram sobre o espaço acadêmico no Brasil.

Recebemos, também, duas conferências proferidas em eventos acadêmicos. Ana Clara Sousa Damásio, doutora em Antropologia pela Universidade de Brasĺia, teve o privilégio de abrir o primeiro seminário discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, programa associado entre a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Refletindo sobre a sua trajetória e a prática da antropologia, o texto permite compreender diversos elementos que circundam  as  ambiguidades  das  transformações  atuais  do  espaço  acadêmico  no  Brasil  e  as  possibilidades  que, assim, se abrem a novas formas de ver e pensar a(s) ciência(s). Desse ponto de vista, no diálogo com o seu percurso, a autora destaca, também, o lugar ocupado pela divulgação científica.

Por sua vez, “Trajetórias negras, percursos, avanços e retrocessos na academia” foi a conferência proferida por  Luane  Bento  dos  Santos,  professora  da  Universidade  Federal  Fluminense,  por  ocasião  da  abertura  do  III Seminário do Coletivo Negro do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), em setembro de 2024. Também tomando por referência a sua trajetória enquanto intelectual e professora negra, situa-a criticamente no contexto das políticas afirmativas e da produção intelectual  no  âmbito  da  sociologia  da  educação.  Ao  mesclar  o  relato  crítico-etnográfico  com  imagens  desse  percurso,  ela  confere  proximidade  e  vivacidade  às  relevantes  contribuições  que  acumulou  ao  longo  desse  período e de sua inserção docente.Também  compõem  esse  conjunto  de  textos  e  reflexões  três  entrevistas.  As  entrevistas  realizadas  pelas  estudantes  do  PET-SOL  e  publicadas  neste  número  permitem  compreender  a  trajetória  e  a  formação  intelectual/profissional  de  pessoas  racializadas  no  espaço  acadêmico.  Esse  exercício  é  importante,  sobretudo,  porque, embora as trajetórias dessas intelectuais sejam particulares, há elementos comuns que perpassam a negritude como experiência coletiva.

Na entrevista “A educação como espaço de luta e esperança: entrevista com o professor Gersem Baniwa sobre cosmologias e interculturalidade no campo educacional”, realizada por Maria Luiza Bernardes, Mylena Karine Malheiros e Ricardo Silveira, é possível compreender, sobretudo, a relação entre antropologia e educação  na  formação  de  uma  prática  pedagógica  baseada  na  diversidade  e  na  interculturalidade.  A  partir  da  entrevista com Gersem Baniwa, pode-se observar que a construção de uma educação plural e diversa passa por questionar as bases do que se entende por conhecimento. A conversa nos estimula, assim, a outro olhar sobre os meandros de enfrentamento das desigualdades étnico-raciais.

Em  seguida,  a  entrevista  “Por  uma  política  externa  inclusiva:  diálogo  com  Fabrício  Prado  sobre  igualdade  racial”, produzida por Ana Terra Santana, Augusto Cesar Filgueiras, Hiann Riell da Silva e Laura Salvador Souto,  permite  compreender  os  desafios  e  as  possibilidades  que  pessoas  negras,  indígenas  e  quilombolas  enfrentam  no  âmbito  da  diplomacia.  Dessa  maneira,  Fabrício  Prado,  homem  negro,  expõe  como,  durante  muito tempo, a diplomacia brasileira foi exercida majoritariamente por homens brancos – o que possibili-tou a construção de práticas que, de um lado, deslegitimam as posições defendidas pelo Brasil no contexto das relações internacionais e, de outro, impedem uma representação internacional baseada na diversidade racial e de gênero do país.

Por fim, em “Tecendo narrativas negras: cinema, memória e criação com Mariana Jaspe”, Lucas da Mota e Clarice Maués estabelecem um diálogo aberto e instigante com a diretora e roteirista soteropolitana Mariana Jaspe, buscando compreender sua formação, atuação e experiências na produção de um cinema negro. Isso implica desvelar o lugar da produção de imagens e narrativas sobre e de pessoas negras, conforme retratadas nos filmes. A entrevista volta o olhar a como a construção de uma perspectiva negra no cinema é também um exercício político, que desconstrói e reconstrói o olhar sobre o negro — antes como coadjuvante, agora como agente-protagonista.

Trazemos,  ainda,  a  resenha  “A  crítica  marxista  negra  ao  capitalismo  racial”,  de  João  Pedro  Inácio  Peleja,  doutorando em sociologia do PPGSOL/UnB, que aborda as contribuições da obra Marxismo negro: a criação da tradição radical negra, de Cedric Robinson, publicada em tradução brasileira no ano de 2023.

Finalmente, não poderíamos deixar de mencionar a arte que ilustra o dossiê. Desenvolvida por Jediael Lucas (ou Jedi), grafiteiro do Distrito Federal e mestrando em sociologia do PPGSOL/UnB, é também resultado e reflexo das políticas afirmativas em curso e que, felizmente, receberam ampliação neste ano de 2025 com a nova legislação da reserva de vagas para o ingresso de docentes nas instituições federais públicas de educação superior.

A oportunidade de tematizar o conjunto de questões percorridas pelos textos do dossiê – entre artigos, ensaio, conferências, entrevistas e uma resenha, bem como a produção visual que também o acompanha – traz um  alento  em  meio  às  dificuldades  encontradas  para  efetivar  parte  das  transformações  necessárias.  Ao  se  pensar  a  produção  acadêmica  e  as  lógicas  pelas  quais  a  legitimação  de  autorias  e  de  textos  ocorre,  o  viés  racializado  é  premente,  e  torna-se  necessário,  conforme  refletido  anteriormente  (Carvalho;  Klein,  2023),  encontrar  maneiras  de  formular  críticas  contundentes  sem,  no  entanto,  renunciar  ao  amplo  conjunto  de  ideias, muitas vezes conflitantes, que viabilizou os atuais diálogos. Esforços de síntese que tomem este cami-nho, como presentes na categoria de amefricanidade (Gonzalez, 2020 [1988]), expressam os potenciais do pensamento social negra na problematização de questões candentes do nosso cotidiano, seja ele acadêmico–científico ou referente ao cotidiano extramuros.

Entendemos,  sem  dúvida,  que  o  acúmulo  de  críticas,  de  reflexões  e  de  elaborações  em  torno  e  a  partir  do  pensamento  social  negro,  tomado  de  modo  ampliado,  refletem  mudanças  no  espaço  acadêmico  no  Brasil.  O lugar ocupado pelo debate de interseccionalidade, fosse em sua compreensão avant la lettre, conforme se expressa nas teorizações de Lélia Gonzalez, seja na concepção mais recente de Patricia Hill Collins (2022), também atravessa o dossiê. Isso vale para o modo por meio do qual, nos textos, as abordagens são avançadas; na presença explícita do conceito em diversos momentos e, igualmente, no próprio conjunto diversos de autorias que assinam esses textos. Encontramos, assim, pessoas em diferentes momentos de sua trajetória, de  graduandas/os  até  docentes  de  universidades  públicas;  uma  participação  significativa  também  de  mulheres, bem como uma ampla maioria de pessoas negras sendo responsáveis pelos trabalhos de pesquisa e escrita. Esperamos, assim, acompanhar os efeitos que as mudanças iniciadas há décadas e ainda em curso deverão ter ao longo dos próximos anos, na medida em que permanecem refletindo movimentos iniciais de um processo que deverá se mostrar complexo e instigante.

Referências

ALMEIDA, Mariléa de.  Racismo acadêmico e seus afetos. História: Questões & Debates. 69 (2), pp. 96–109, 2021. <https://doi.org/10.5380/his.v69i2.80267>.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
CARVALHO, Layla Pedreira; KLEIN, Stefan. Contribuições para o ensino de teoria e história da sociologia: reflexões  sobre  o  presente  e  propostas  desde  o  Brasil.  Revista  Brasileira  de  Sociologia.  11(27),  pp.  103-132,  2023.
COLLINS,  Patricia  Hill.  Bem  mais  que  ideias:  interseccionalidade  como  teoria  social  crítica.  São  Paulo,  Boitempo, 2022.
GONZALEZ,  Lélia.  A  mulher  negra  na  sociedade  brasileira:  uma  abordagem  político-econômica.  In:  Rios,  Flavia;  Lima,  Márcia  (Orgs.).  Por  um  feminismo  afro-latino-americano.  São  Paulo:  Zahar.  2020  [1979],  pp.  49-64.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Rios, Flavia; Lima, Márcia (Orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano. São Paulo: Zahar. 2020 [1988], pp. 127-138.


Referência imagética: capa do dossiê publicado na revista Pós (PPGSOL/UnB)


* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!


  1. A Pós – Revista Brasiliense de Pós-Graduação em Ciências Sociais é um periódico eletrônico de acesso aberto e de publicação semestral. Este periódico é destinado a divulgar e a ampliar, para estudantes e pesquisadores em geral, o campo de circulação e o debate acadêmico nas Ciências Sociais. É organizada por estudantes de pós-graduação das unidades que constituem o Instituto de Ciências Sociais da Universi-dade de Brasília (ICS-UnB): o Departamento de Antropologia (DAN), o Departamento de Sociologia (SOL) e o Departamento de Estudos Latino-Americanos (ELA). ↩︎
  2. Professora Doutora no Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP. Foi professora adjunta no Departamento de Sociologia da UnB (SOL/UnB). Doutora em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) onde também obteve o título de mestre. Possui graduação em Ciências Sociais (USP/2008) e graduação em Teologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie/2012). É pesquisadora do Cebrap (Cen-tro Brasileiro de Análise e Planejamento) e pesquisadora colaboradora do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e coordenadora do CRESPO (Cultura, Religião, Sujeitos e Políticas). Email: jacqueline.moraes.teixeira@usp.br ↩︎
  3. Professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, atualmente Diretora de Políticas de Ações Afirmativas no Ministério da Igualdade Racial. É integrante da Rede de Pesquisas em Feminismos e Política, da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, da Colectiva Protesta e do Comitê Gênero e Sexualidades da ANPOCS. Coordena o GT Relações raciais e desafios no Brasil: desigualdades, identidades e políticas públicas da Anpocs. Possui graduação (2005) em Ciência Política pela UnB. É mestre em Sociologia (2008) pela UnB. É doutora em Ciência Política (2017) pela Universidade de São Paulo (USP). Email: layla.carvalho@UnB.br ↩︎
  4. Professor do Departamento de Sociologia (SOL) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista Produtividade do CNPq. Seus principais temas e interesses de atuação intelectual e pesquisa são as teorias sociais, em especial em perspectivas contra-hegemônicas, bem como as dinâmicas de produção e circulação de conhe-cimento e suas assimetrias. É um dos organizadores do Routledge Handbook of Academic Knowledge Circulation (Routledge, 2023). Email: sfk@UnB.br ↩︎
  5. Bacharel  em  Ciências  Sociais  pela  Faculdade  de  Ciências  Sociais  (FCS)  da  Universidade  Federal  de  Goiás  (UFG),  Mestre  em  Sociologia  pela Universidade de Brasília (UnB) e Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSOL) da Universidade de Brasília  (UnB).  Atualmente  é Editor-chefe  da  Revista  Pós-  Revista  Brasiliense  de  Pós-Graduação  em  Ciências  Sociais  da  UnB. Email: matheusdias543@gmail.com ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

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