Maria da Glória Gohn1
Claudio Penteado2
Ernesto Morales3
19 de maio de 2026
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O texto a seguir apresenta o dossiê “Coletivos: espaços públicos de ativismos sociopolíticos e culturais”, publicado na revista Civitas.
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As Jornadas de Junho de 2013 deram visibilidade a atuação dos Coletivos sociais como novo modelo de ação e organização social, que tiveram protagonismo nas mobilizações nas ruas e nas redes sociais de internet. Apesar de não serem novidades na cena da ação coletiva, o protagonismo dos Coletivos despertou uma agenda de estudos na teoria social que busca “desvendar” suas dinâmicas, características e inovações no campo de ativismo sociopolítico. O dossiê “Coletivos: espaços públicos de ativismos sociopolíticos e culturais”, apresenta uma coletânea de artigos com estudos que trazem uma contextualização da emergência dos coletivos como forma de organização e ação coletiva contemporânea e suas diversidade de abordagens.
A maior visibilidade dos coletivos dentro da agenda da ação coletiva contemporânea se insere no ciclo de protestos globais que tiveram início da década de 2010 com a eclosão de manifestações sociais em diferentes contextos, como as manifestações da Primavera Árabe, Occupy Wall Street (EUA e grandes cidades em diferentes países), os Indignados (Espanha), além de outros protestos em diferentes regiões do mundo, que apresentaram aos observadores uma nova configuração do ativismo contemporâneo, marcada pela expressão de demandas, formas de mobilização e organização diferenciadas dos modelos tradicionais. Os manifestantes saíram às ruas para expressar sua indignação contra os partidos e políticos, contra políticas econômicas de austeridade e em defesa das pautas ambientalistas e de reformas sociais. Diferentemente de outros momentos históricos, essas manifestações já não dependiam da intermediação direta de organizações políticas clássicas, como partidos políticos, sindicatos ou movimentos sociais clássicos. Muitos demonstraram recusa em relação a essas formas de ação coletiva e a busca por novos modelos organizacionais para a ação política (Clemens 2010) em um contexto de crescente desenvolvimento das redes sociais de internet e de novas formas de ação coletiva (Bennet e Segerberg 2012; Gerbaudo 2021), o que abriu espaço para a atuação dos Coletivos.
Esse novo ciclo, no Brasil e no mundo, com fortes críticas aos sistemas e modelos de representação político e social, estabeleceu também um contexto de ambiguidades: de um lado, criou oportunidades para formas de ativismo mais horizontais e inclusivos, em defesa das lutas feministas, antirracistas, em prol dos direitos para a população LGBTQIA+, povos originários, e moradores de regiões ribeirinhas e periferias urbanas ao mobilizarem ativistas de suas causas e inaugurar novas experiências associativas que encontram nos coletivos sociais um modelo organizacional adequado para suas demandas; por outro lado, houve um crescimento da atividade política de grupos conservadores e reacionários, radicais de extrema direita, que se aproveitaram do período de contestações, atuaram intensamente via redes online e assumiram ruas e praças como local de ação direta, dando luz e visibilidade a suas pautas.
Nesse contexto de ambiguidade, os coletivos emergem como alternativas de organização social que se diferenciam das formas tradicionais de organização, que se caracterizam pela adoção de métodos, formas e práticas organizacionais pautados nos valores e ideais de coletividade, colaborativismo, construção de mecanismos internos baseados na horizontalidade e na desconstrução da ideia de liderança formal e vertical , o que lhes confere uma estrutura mais fluida quando comparados a outras ações coletivas (Gohn 2017 e 2022; Perez, Silva Filho 2017; Perez 2019; Marques; Marx 2020; Faria 2020), que tem no uso das tecnologias digitais importantes ferramentas para sua organização, atuação e mobilização social (Penteado, Valiengo e Oliveira, 2023).
A percepção dessa “novidade em cena” não significa uma aceitação tácita de uma causalidade direta entre a multiplicação dos coletivos e os ciclos de protestos pelo qual passou o país entre os anos de 2013 e 2016 – época de grandes manifestações nas ruas pelo impeachment da presidenta Dilma, mas também de reativação de movimentos e novos coletivos de secundaristas, nas ocupações das escolas ante as reformas então propostas pelo poder público; e entre 2018-2022, com atos, de um lado de resistência da novo regime político de desdemocratização do país (Gohn, 2019); e de outro, com atos de grupos antidemocráticos e de desmonte ou enfraquecimento de políticas públicas progressistas.
A “novidade”4 dos coletivos começa a ganhar visibilidade e se fazer presente no cotidiano das universidades, expresso na multiplicação de coletivos de jovens universitários organizados nas mais diversas demandas, formação de coletivos que passam a ocupar as arenas públicas na defesa de pautas raciais, de gênero e outros marcadores sociais da diferença, também se fazem presentes dentro de partidos políticos, principalmente pela inovação de “mandatos coletivos”. Os coletivos passam a ocupar espaços dentro de sindicatos, incorporando demandas interseccionais aos tradicionais espaços de representação dos trabalhadores. Além de outras formas de organização social, com forte influência do ideal de horizontalidade dos coletivos, que se espalham pelos diversos espaços da vida social contemporânea.
Contudo, é inegável que foi naqueles contextos, em especial a partir de Junho de 2013, que ficou mais perceptível aos analistas a estruturação de novas estratégias, performances, discursos e padrões de mobilização societária, o que revigorou debates e fomentou novas agendas de pesquisa (Gohn; Penteado; Marques 2020; Gohn, 2017). Os Coletivos têm indicado mudanças nas experiências organizacionais e nas formas de (inter)ação política contemporânea, desafiando tanto analistas como o poder público.
É neste debate que a presente proposta de dossiê se inscreve, tendo como objetivo reunir trabalhos que contribuem com a análise da diversidade dos coletivos contemporâneos e com a expansão e solidificação dessa agenda de pesquisa. Os artigos foram agrupados em três blocos com subtemas do universo dos coletivos: Coletivos e ação coletiva; Coletivos, Cultura e Política; e Tecnologias: formas de uso e apropriações das tecnologias digitais pelos coletivos .
No primeiro bloco, “Coletivos e ação coletiva”, formado por três artigos, tem início com o texto Coletivos: novas formas de expressão dos jovens no associativismo contemporâneo no Brasil, de Maria da Glória Gohn, que aborda as inovações, reconfiguração e mudanças no associativismo civil da sociedade brasileira explicitando o processo de renovação política que está se operando, especialmente entre os jovens. Dá-se ênfase a mudança geracional e cultural de jovens ativistas na atualidade, com práticas de pensar e agir diferentes de gerações anteriores, não se importando em criar unidades, mas em criar pautas e eventos que deem visibilidade às suas causas, atuando em redes com uso intenso das mídias tecnológicas. A força que move as ações dos coletivos é a sociabilidade alicerçada no engajamento às causas solidárias, que exigem cooperação para terem êxito.
O artigo de Olívia Cristina Perez Democratização das instituições por meio da inclusão das diversidades entre os coletivos analisa a questão da inclusão das diversidades na construção do campo dos coletivos e como esta pauta está colaborando para democratizar as instituições e gerando aprendizados. Argumenta que a ideia de interseccionalidade, presente principalmente nos movimentos sociais feministas negros, considera as desigualdades sociais como múltiplas e inter-relacionadas e está sendo incorporada em organizações políticas contemporâneas que se definem como Coletivos.
Luiz Inácio Gaiger, no artigo Sentidos dos coletivos de ação: contribuições de um estudo multilocal, apresenta um texto que tem a finalidade de apresentar as singularidades das formas de organização e atuação dos coletivos, que expressam uma nova razão de ser que evidenciam novos propósitos e modos de engajamento, da “agenda viva” que se constituem os coletivos. A partir de uma base de dados sobre coletivos em diferentes regiões do mundo (multilocal), destaca uma tipificação dos coletivos, a partir das características encontradas na pesquisa. A principal contribuição do artigo é identificar duas lógicas estruturantes de atuação dos coletivos: a lógica de confronto e a lógica de construção alternativa. Essa nova forma de ativismo valoriza a autonomia individual e a intersubjetividade dos ativistas, que “apostam nas virtudes da sua dispersão e atomização, sua instabilidade e imprevisibilidade, às vezes sua não institucionalização”.
O segundo bloco sobre “Coletivos, Cultura e Política” agrupa dois textos. O artigo de Taísa Amendola Sanches, Museus sociais e territoriais: abordagens conceituais em diálogo, contribui para o conhecimento dos Coletivos no campo de estudos do associativismo urbano na atualidade, de tipo novo, expresso em coletivos que unem preservação da memória de territórios, especialmente em comunidades periféricas, e criação e desenvolvimento de identidades e sociabilidades. Articula saberes do campo do social, do cultural, do histórico/memórias e do planejamento urbano. São investigadas 10 iniciativas que se autodenominam Museus ou Ecomuseus sociais e/ou territoriais localizados na cidade do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. Eles se se unem em diferentes iniciativas, destacando-se a Rede Favela Sustentável, a Rede de Museologia Social e o grupo Memória Climática nas favelas. A existência dessess museus na atualidade se constitui como rede que conecta saberes e memórias da cidade, oferecendo existência física e infraestrutura aos grupos ativistas, fatores fundamentais à experiência da diferença, tida como central à construção identitária de sujeitos e sujeitas periféricas.
O artigo de Marcelo de Souza Marques, Crítica à política tradicional e posição diferencial: algumas considerações sobre a emergência dos coletivos culturais contemporâneos, focaliza os coletivos culturais. Os coletivos se apresentam como experiências organizacionais mais flexíveis, dinâmicas e descentralizadas, informando uma alternativa para aqueles que buscam uma participação mais inclusiva e dinâmica de representação e de participação política, especialmente das juventudes, a partir de uma demarcação discursiva diferencial em relação a outras experiências organizacionais e (associ)ativistas, por meio da construção de novos significados aos discursos político-organizacionais.
O terceiro bloco focaliza os “Coletivos e Tecnologias: formas de uso e apropriações das tecnologias digitais pelos coletivos” e contém três artigos. O primeiro, Negociación sociotécnica. Una aproximación teórica desde las prácticas tecnopolíticas, de Dafne Calvo e Daniel H. Cabrera Altieri, apresenta um estudo sobre coletivos (comunidades) sociotécnicas na Espanha, que desenvolvem o ativismo tecnopolítico (uso de tecnologias para a ação política, defesa de softwares livres, liberdade de informação, etc), destacando os processos de negociação na formação de consensos especialmente em relação aos usos e apropriações das tecnologias digitais. As especificidades do tema de atuação dessas comunidades sociotécnicas insere novos elementos associados às tensões existentes em relação às formas de apropriação das tecnologias, que envolve discussões e negociações sobre alternativas de uso e desenvolvimento de softwares e hardwares e a privacidade dos dados. Os resultados revelaram que a negociação entre os agentes está relacionada com as diferentes formas de apropriação assimétrica das tecnologias, muitas vezes associadas a ideologia e identidades dos coletivos.
O artigo “Espaço público digital e ativismo dos coletivos: (re)definindo fronteiras entre público e privado”, de Fernando Lima Neto, apresenta uma reflexão sobre as transformações da esfera pública destacando, dentro de uma perspectiva weberiana, o nexo causal do processo de digitalização da sociedade e a mudança da estrutura de comunicação com a emergência e multiplicação dos coletivos e suas práticas e repertórios. As condições estruturantes da comunicação pelas plataformas digitais criam condições sociotécnicas para que a “ênfase subjetiva do ativismos dos coletivos” produza importantes mudanças nas dinâmicas da vida social e uma mudança das fronteiras entre os espaços públicos e privados. Nesse novo contexto, surge o desafio para a sociologia política explicar como essas mudanças impactam não somente nas formas de organização da ação coletiva, mas também no sentido subjetivo da ideia de democracia e da luta política. O autor argumenta que as novas práticas e significados que os coletivos introduzem na esfera pública digital a politização da vida privada, ampliando a concepção de democracia e cultura política no Brasil e desafia o pensamento sociológico a revisitar suas teorias do século XX.
Por fim, para encerrar o dossiê, o artigo Caracterização dos feminismos negros: dos coletivos da geração MNU às coletividades virtuais, de Dulcilei da Conceição Lima faz uma leitura, a partir de um recorte histórico, sobre o feminismo negro contemporâneo, em especial os coletivos de mulheres negros que atuam nos espaços da internet. A autora destaca que dentro do feminismo negro é possível identificar a existência de coletivos de mulheres negras dedes os anos 1980, como alternativa de organização frente as restrições masculinas de organização feminista. Os coletivos de mulheres negras vão se espalhar pelo Brasil e se institucionalizar nos anos 90, sendo que muitos deles vão se tornar ONGs e/ou receber apoio de instituições privadas. Nos anos 2000, muitas ativistas oriundas dos coletivos vão assumir cargos em governos e promover encontros para discutir a formulação de políticas voltadas para atender as demandas do feminismo negro. Ao estudar os coletivos de mulheres negras contemporâneos, a autora identifica dois grandes segmentos: um feminismo negro liberal ou de consumo, protagonizado por influenciadoras que promovem estilo de vida de mulheres negras urbanas, e um segundo que a autora chama de feminismo negro colaborativo, orientado pela busca da justiça social, organizado principalmente em coletivos, que atuam dentro dos princípios de horizontalidade. Com forte atuação nos espaços da internet, os coletivos de mulheres negras contemporâneos além de incorporar as pautas tradicionais do feminismo negro nas gerações anteriores, inserem questões ligadas as demandas LGBTQI+, a interseccionalidade e a difusão de conteúdos produzidos por intelectuais negras brasileiras e internacionais, inclusive por meio de traduções e produções de conteúdos voltados para explicação e promoção de uma epistemologia feminista negra nas redes e nas ruas.
Referências bibliográficas
Bennett, Lance W.; Segerberg, Alexandra. 2012. “The Logic of Connective Action”. Information, Communication & Society 15 (5): 739-68.
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Faria, Flávia. 2020. “Ativismo, instituição e repertório autonomista: uma etnografia sobre coletivos políticos”. Revista Brasileira de Sociologia, v. 8 (20): 177-198.
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Gohn, Maria da G. 2019. Participação e Democracia no Brasil. Da década de 1960 aos impactos pós-junho de 2013. Petrópolis: Vozes.
Gohn, Maria da G. 2022. Ativismos no Brasil. Movimentos sociais, coletivos e organizações sociais civis: como impactam e por que importam? Petrópolis: Vozes.
Gohn, Maria da G.; Penteado, C.; Marques, M. de S. 2020. Os coletivos em cena: experiências práticas e campo de análise. Simbiótica, Vitória, v. 7 (3): 1-7.
Marques, Marcelo de S.; Marx, Vanessa. Os coletivos em cena: algumas contribuições para o debate. Simbiótica, v. 7, n. 3, 2020, p. 8-32.
Penteado, Claudio L. C.; Valiengo, Caio B.; Oliveira, Marília J. 2023. Tecnologias e ação coletiva: usos e apropriações das tecnologias digitais de informação e comunicação. In Paiva, Angela; Lima Neto, Fernando; Sanches, Taísa (orgs). Movimentos e coletivos sociais: categorias em disputa. Rio de Janeiro: PUC-Rio; Numa.
Perez, Olivia C. 2019. “Relações entre coletivos com as Jornadas de Junho”. Opinião Pública, v. 25 (3): 577-596.
Perez, Olivia C.; Silva Filho, Alberto L. A. 2017. “Coletivos: um balanço da literatura sobre as novas formas de mobilização da sociedade civil”. Latitude, v. 11 (1): 255-94.
Valiengo, C. B., & de Oliveira, M. J. (2020). Coletivos e o ciclo de protestos dos anos 2010: reflexões sobre horizontalidade e as tecnologias digitais da informação e comunicação. Simbiótica. Revista Eletrônica, 7(3, jul.-dez.), 74-97.
- Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Colaboradora do INCT Observatório das Metrópoles e do INCT/ Participa. https://orcid.org/0000-0001-5791-6114 ↩︎
- Universidade Federal do ABC (UFABC), Santo André, SP. Brasil. https://orcid.org/0000-0002-8279-3643 ↩︎
- Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), Barcelona, España. https://orcid.org/0000-0002-2659-1502 ↩︎
- A forma de organização denominada coletivo não é uma novidade em termos históricos. Já nos anos 1980 há registros da existência de coletivos de cultura promovendo formas de intervenção na rua, contudo somente no começo do Século XXI essa forma de ação coletiva vai se popularizar, associada às práticas horizontais e uso das TICs (Valiengo e de Oliveira, 2020). ↩︎
- Referência imagética: Manifestantes protestam no Congresso Nacional. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=+junho+de+2013+brasil&title=Special%3AMediaSearch&type=image ↩︎



