Francisco de Oliveira1
18 de agosto de 2026
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Como parte das celebrações pelos 50 anos do Cedec, o Boletim Lua Nova dá continuidade ao especial dedicado a revisitar textos que ajudam a reconstruir a trajetória intelectual da instituição. O escrito que segue reúne a intervenção de Francisco de Oliveira no seminário Pensar o Brasil, realizado em 2001 por ocasião dos 25 anos do Cedec e posteriormente publicado no número 54 de Lua Nova. Sua fala integrou a mesa “Como pensar?”, ao lado de Carlos Nelson Coutinho e Fábio Konder Comparato.
Partindo de uma saudação ao Cedec, instituição que afirma acompanhar desde o nascimento, Oliveira revisita intérpretes como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes e Celso Furtado para refletir sobre os desafios de compreender uma sociedade periférica em meio às transformações do capitalismo. Ao final, associa diretamente esse exercício intelectual a uma urgência cívica e política, convocando o Cedec, em seus 25 anos, a renovar uma tradição crítica capaz de interpretar o país sem abrir mão de suas particularidades históricas.
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Minha saudação ao aniversário do CEDEC, que acompanho desde o nascimento e onde tenho grandes amigos. Com muito carinho e muita satisfação, vejo que esse centro continua impávido, dando uma notável contribuição a, exatamente, como pensar o Brasil.
Acho que não é muito difícil propor como pensar o Brasil, embora passar da sugestão para chegar a novas interpretações com poder explicativo seja uma tarefa hercúlea. São duas as condições que é preciso tomar em conta, seguindo a sugestão de Antonio Candido. A primeira, eu diria, seria pensar com radicalidade. É da tradição brasileira, como todos sabemos, o minueto intelectual na política, é até menos que um minueto porque é menos nobre. Na produção intelectual aí sim é o minueto a forma dominante: dois passinhos pra cá, dois pra lá, uma voltinha no meio, e assim o debate intelectual no Brasil é sempre – como Sérgio Buarque definiria – cordial, cordialidade no sentido forte. É um minueto em que os dois passinhos pra cá consistem numa compassividade acrítica, enquanto os dois passinhos pra lá desatam uma agressividade personalizada contra o que ousou discordar do consenso. É preciso outra vez romper com a cordialidade, com essa falta de radicalidade.
A segunda condição é de pensar a especificidade. Como a geração de 30 o fez. Como se deu a formação dessa sociedade, desse Estado; o que têm de próprio, de específico, de singular, evitando, evidentemente, a falsa autarquia, o isolamento das grandes correntes das ciências humanas e sociais em particular. Inscrita como especificidade no movimento mais geral do capitalismo, como fez Caio Prado Jr. e posteriormente Celso Furtado.
Temos bons exemplos. A geração de 30 aceitou o desafio de pensar o Brasil, com radicalidade e especificidade. Desde um Gilberto Freyre, nostálgico, conservador, melado de mel de engenho da cabeça aos pés. Entretanto, é forçoso reconhecer que Gilberto articula a denúncia mais vigorosa do que foi o escravismo, explicando-o até pelas relações sexuais, o que era um escândalo para a época e para as ciências sociais. Na linha de seu mais vigoroso inspirador, Joaquim Nabuco, a formação da sociedade é um estupro. Esse radicalismo, que é surpreendente quando se fala de um autor como Gilberto Freyre, e pensar o específico para alguém que vinha de uma educação protestante é de novo uma ousadia. Gilberto educou-se como um protestante, no Colégio Americano Gilreath em Recife. Depois completa sua formação na Inglaterra e nos Estados Unidos. Quem vai recuperar esse veio explicativo décadas depois é Richard Morse, que fará o elogio da miscigenação e da plasticidade católica, do iberismo para resumir. Acho que Gilberto constrói essa especificidade não abdicando, evidentemente, do seu patrimônio teórico/metodológico, para alguém criado e educado na tradição anglo-saxã, mas dentro dela ele acha um modo, surpreendentemente novo, de interpretar a sociedade brasileira.
O segundo da tríade, aquela nomeada por Antonio Candido, é precisamente Sérgio Buarque, que faz também um trabalho com o mesmo sentido de radicalidade e o mesmo sentido de especificidade. A radicalidade neste caso consiste precisamente em romper com o padrão cordial. Ao trabalhar o tema de uma sociedade patrimonialista, ele recusa o tratamento cordial, e ao contrário, acusa a chamada cordialidade brasileira como um problema e um estigma que acompanha a formação da sociedade, é sua própria estruturação e nos perseguirá, como provam os escândalos do Senado, por muito tempo. Escolhe um caminho que não se dilui na grande tradição da literatura patrimonialista, e encontra uma forma que é peculiar, extraída evidentemente do mundo ibérico, mas que no Brasil, com o cruzamento das tradições ibéricas com o escravismo como base do sistema produtivo – uma espécie de repetição da Antigüidade clássica –, ganhará um caráter muito particular. Logra a segunda grande feliz interpretação da sociedade brasileira nessa geração. Sérgio Buarque é possivelmente o único de nossos clássicos que aposta, decisivamente, na democracia.
O terceiro é Caio Prado, que navega num terreno mais ou menos infértil do ponto de vista do partido teórico que toma, ancorando-se no marxismo, numa cultura que não havia produzido até então nada muito inovador na utilização do ferramental marxista. Não se desconsidera aqui a luta política que operários e outros cidadãos haviam travado, pelo menos desde o começo do século, com as grandes greves, mas evidentemente a contribuição teórica para a ação prática foi muito minguada. Caio Prado, nesse terreno um tanto árido, elabora uma interpretação original, que bebia numa tradição historiográfica muito rica, desde o século XIX, com Taunay, Varnhagen, um Capistrano de Abreu, ao contrário da tradição que os grandes sociólogos e antropólogos como Gilberto e Sérgio herdaram. Não podiam absorver o que os clássicos do autoritarismo produziram, posto que para estes a “especificidade” brasileira era a bárbarie e a radicalidade era copiar o desenvolvimento europeu. Caio, ao contrário, com uma forte herança historiográfica onde se apoiar, forma toda uma escola de pensamento sobre a história brasileira que tem nele, com toda razão, seu patrono. O radical em Caio Prado Jr. será inscrever a história brasileira na história mundial: a colônia é uma obra da expansão capitalista e a ela estará ligada definitivamente. Combina-se em Caio o movimento geral da expansão capitalista e o “específico” nacional, que será o escravismo: enquanto no centro o capitalismo está liqüidando o trabalho servil, sua forma colonial assenta-se sobre o trabalho escravo.
Eu acrescentaria a essa tríade, para mostrar como trabalharam com radicalidade, com especificidade, Florestan Fernandes, em quarto lugar porque é de uma geração posterior à de 30. Falo para um auditório que tem muitos formados pela USP, e para todos que conhecem a obra de Florestan. Talvez estejam conosco alguns dos melhores conhecedores da obra de Florestan. Minha leitura desta obra pode ser enviesada, mas para mim, até A revolução burguesa no Brasil, Florestan não havia produzido uma síntese de interpretação da história da formação da sociedade brasileira com o vigor da A revolução burguesa. Todas as suas obras são, de alguma maneira, uma preparação para A revolução burguesa, mas acho que é com esse livro que ele logra, finalmente, entrar no panteão dos demiurgos do Brasil. De novo aí observa-se radicalidade. Talvez o livro mais radical dessa coleção de obras-primas seja A revolução burguesa, ao apontar os limites e os problemas da democracia numa específica periferia capitalista.
A eles eu acrescentaria Celso Furtado, pela contribuição à teoria do subdesenvolvimento. De novo aí temos radicalidade e especificidade. Radicalidade em romper com o padrão acomodatício da interpretação brasileira. Radicalidade em despojar-se de uma certa retórica comum ao pensamento social brasileiro, pelo menos até a geração de 30. Especificidade, que é o seu forte, precisamente porque, embora permaneça um certo dualismo na interpretação furtadiana, ele elabora uma interpretação singular, notável, que rompe tanto com o ramerrão das interpretações conservadoras, quanto rompe também, é forçoso reconhecer, com a incapacidade que o marxismo teve até aquela época de dar um salto até uma teoria que tratasse países da periferia com a complexidade exigida pela situação de ex-colônias. Furtado dá esse salto, que é precioso sob todos os pontos de vista, encontrando assim uma explicação que faz do subdesenvolvimento não um elo numa cadeia contínua entre o não desenvolvido e o desenvolvido, mas uma criação específica do capitalismo na sua periferia, no modo histórico portanto, e não uma seqüência de fases. Caio já havia sentado as bases para essa especificidade, mas é necessário reconhecer que seu trabalho é completado teoricamente por Furtado, que ajuda a criar uma nova categoria teórica para explicar um processo histórico novo, que não era, simplesmente, a extensão da colônia.
DESAFIO MAIOR E MAIS COMPLEXO
Esses cinco demiurgos fornecem a chave para pensar de novo com radicalidade e com especificidade. Não vale a pena e nem é produtivo, nem se chegaria muito longe, repetir a chave desses cinco grandes intérpretes. Eu diria que é o sentido com que elaboraram essas grandes interpretações o ensinamento para pensar uma situação nova, para uma nova complexidade, enfrentando desafios que não são mais os desafios do subdesenvolvimento, como por exemplo, ao me referir à obra de Furtado, enquanto um esforço de industrialização na periferia. Agora o desafio é maior, é mais complexo; não se trata só de industrializar. A inserção numa gama nova, mais densa, mais complexa, mais desafiadora, das relações internacionais, o que por economia de discurso podemos chamar de globalização, mas é necessário que aceitemo-la como desafio. Nesse momento a questão não é mais saber, como nos anos 30, se podemos ou não nos industrializar, nem se trata de perseguir a quimera de que a industrialização produziria novas relação sociais, produziria um novo padrão político no sentido da democracia liberal. Temos agora o direito a todas as dúvidas.
O desafio é também mais complexo porque o desenvolvimento capitalista não só rompeu em muitos sentidos as velhas estruturas patriarcais e patrimoniais, mas repôs, sob formas mais difíceis, mais intrincadas, tais estigmas. A indistinção entre público e privado continua e os escândalos de senadores estão aí só para confirma-las como regra e não exceção. O difícil é pensar agora essa trama de um capitalismo globalizado que torna funcional, pro domo suo, as práticas que numa perspectiva tipo “capitalismo e ética protestante” pareciam ser disfuncionais. Portanto, não se trata agora de repetir Gilberto ou Sérgio Buarque, mas de tomar suas indicações, que eu não chamaria propriamente de método porque todos são muito divergentes metodologicamente, e isso soa pedante, mas as indicações para tratar a nova complexidade. Mesmo a postura de Florestan, que foi mais longe na radicalidade, mesmo ela precisa ganhar nova densidade para avançarmos na interpretação da sociedade brasileira. Se já no seu trabalho os limites e problemas da democratização numa sociedade periférica apareciam bloqueados por uma espécie de permanente “via prussiana” ou “iberismo” como o Werneck Vianna tem elaborado, se já em Florestan esses limites apareciam, agora o problema repete-se como uma espécie de fuga para a frente, que terminou sempre, na história brasileira, em autoritarismos e em ditaduras. É importante não esquecer que nos 60 anos em que se celebra a industrialização nos padrões da segunda revolução industrial, nesses 60 anos de 1930 a 1990, este país foi governado durante 35 anos por ditaduras abertas, não disfarçadas, o que repõe o tema de Florestan com enorme força e, por que não dizer, com enorme pessimismo. Além disso, os 25 anos que sobram, deduzidas as ditaduras, fazendo-se as contas, foram marcados por tentativas de golpe a cada três anos.
DECIFRAR DE NOVO A REPÚBLICA
Se era assim até o momento em que a industrialização periférica, evidentemente ligada aos capitais internacionais e aos centros dinâmicos do capitalismo, já apresentava problemas para a democratização das relações sociais e para a democratização da sociedade, o que é que nos ocorre agora quando, nos termos de Celso Furtado, os mais importantes centros de decisão que haviam sido parcialmente internalizados nesses 60 anos de industrialização retornam quase que totalmente para o exterior? O tema volta com força, volta com propriedade. É preciso decifrar de novo esse enigma, decifrar de novo a república. Qual é, para dizer num termo caro aos economistas, qual é a produtividade teórica da república, o que ela nos ajuda a pensar o Brasil, ou ela é apenas uma figura e uma imagem? O que nos ajuda a pensar a Federação, acossada violentamente por uma integração subordinada à nova divisão internacional entre forças imperialistas. O que significa “federação”? O que significam as diferenças entre São Paulo e o Piauí? Uma federação pode resistir a essa tensão, de uma diferença de 10 para 1? A elaboração teórica e prática de um país que, corrijam-me todos os que aqui estão, que se faz federação sem federalistas, reparo que devemos ter em conta: falando dos clássicos demiurgos da interpretação brasileira, nenhum deles, salvo Celso Furtado, prestou atenção à questão da federação. A federação, do ponto de vista das ciências sociais brasileiras, das ciências humanas, não existe. Talvez eu que sou do Nordeste, talvez porque só olhamos para o próprio umbigo! Talvez porque, como dizia a oligarquia paulista até anos 30, talvez porque este país seja uma locomotiva puxando vagões vazios. Mas do ponto de vista da produtividade teórica para as ciências sociais, o que quer dizer federação no Brasil?
São temas, a meu modo de ver, que voltam com força, repõem problemas que as interpretações clássicas não haviam resolvido, mas haviam encaminhado admiravelmente. Com a vantagem de que dispomos hoje de uma enorme acumulação, de um patrimônio teórico, metodológico, muito mais rico, mais diversificado. Já a geração de 30 tinha uma vantagem sobre a geração anterior, que moldou também uma interpretação muito forte da sociedade brasileira, que permanece parcialmente até nossos dias. Quando o general Geisel dizia: “o povo ainda não pode votar, porque não está educado”, ele ecoava estigmas apontados pela geração dos autoritários clássicos, segundo os quais um povo surgido de clãs bárbaras que se digladiavam numa tendência fortemente centrífuga só podia ser conformado por um Estado forte. Esse é todo o tema da ditadura.
Temos todas as vantagens do ponto de vista de patrimônio teórico, histórico, metodológico, sofisticação. Basta comparecer às reuniões das nossas principais associações científicas – para não permanecermos só nos nossos departamentos – para verificar que as ciências sociais brasileiras e as ciências humanas, de forma ainda mais ampla, estão ao compasso da produção teórica e metodológica mundial, com o avanço das pós-graduações, com o avanço do conhecimento de línguas, que permitiu entrar em contato direto com as fontes vindas de outras tradições culturais e teóricas.
Não podemos nos queixar do ponto de vista da mendicidade de nossos recursos teóricos interpretativos; pelo contrário, estamos mais preparados desse ponto de vista. Como diziam os evangélicos, é preciso aproveitar as riquezas da iniqüidade, e portanto, na tradição dos nossos cinco grandes demiurgos, retomar com radicalidade e trabalhar com especificidade. Isso é muito importante não apenas para nos regalarmos com as nossas próprias presentes, contemporâneas ou futuras criaturas. Isso é importante do ponto de vista cívico e importante do ponto de vista político. Podemos olhar ao lado e ver o desastre de políticas econômicas conduzidas, erguidas e trabalhadas sob a ótica da perda da especificidade. A mendicidade da política econômica é um decalque perfeito de qualquer manual da teoria econômica convencional. Segundo essa pobre e reducionista interpretação, que não é, a rigor, interpretação, havíamos ultrapassado o último piso do subdesenvolvimento e, portanto, as variáveis econômicas atuariam aqui como atuam em qualquer parte. Do ponto de vista teórico/metodológico essa é a essência da política econômica praticada hoje no Brasil, na Argentina e alhures, em quase toda parte. Só que na periferia, exatamente porque perdeu-se a capacidade de encontrar o que é específico de nossas sociedades, na América Latina e na África – que talvez esteja mais penalizada do que nós – essa teoria convencional que tornou-se pensamento único no mundo todo faz um enorme desastre.
URGÊNCIA CÍVICA E POLÍTICA
Portanto, pensar com radicalidade e com especificidade não é apenas para nos regalarmos com nossas produções teóricas; isso tem uma urgência cívica e uma urgência política, pois o efeito da negação da especificidade pode ser devastador, pensar sem radicalidade e sem especificidade, tal como a própria experiência latino-americana está mostrando e ainda com mais dor e com mais pesar a experiência africana. É a isso que estamos chamados. Eu espero que os 25 anos do CEDEC nos reanimem e nos lancem para frente nessa herança que recebemos e que às vezes mal soubemos reproduzir e ampliar.
- Sociólogo e professor emérito da FFLCH-USP. Trabalhou na Sudene ao lado de Celso Furtado, integrou o Cebrap e foi um dos fundadores do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic-USP). ↩︎



