Ruanda, Apesar de Tudo: Uma análise da série ‘Black Earth Rising’ (Parte I)

Por Marina Costin Fuser. Ao me propor a analisar a série ‘Black Earth Rising’, me deparei com questões éticas que concernem a meu lugar de enunciação, a saber, de que maneira uma judia ashkenazi (portanto, de origem europeia) é autorizada a falar de genocídios que aconteceram em Ruanda e na República Democrática do Congo? No que pese o fato de eu ser branca e pertencente a uma elite cultural num país onde a maior parte dos descendentes da diáspora africana têm pouco acesso e espaço para elaborar acerca de suas próprias origens, penso que haja um diálogo possível em torno de questões que a série suscita.

A Ciência (Política) em Crise? Um relato do VII Fórum Brasileiro de Pós-Graduação em Ciência Política

Por Andréia F. Cardoso e Sérgio M. Benedito. Neste breve relato do VII FBCP desejamos fazer uma retomada das conferências, mesas-redondas, colóquios, oficinas e grupos de trabalho que compuseram essa edição. Enquanto os grupos de trabalho refletiram a pluralidade de temas da ciência política, acompanhando os eixos temáticos do evento da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), as demais atividades revelaram duas preocupações muito atuais e pertinentes: a crise da ciência, face às opiniões e achismos que a confrontam e desafiam; e o futuro da profissão de cientista político/a, considerando o concomitante fechamento da academia e a abertura no mercado privado de trabalho.

<strong>O que faz a Drug Enforcement Administration (DEA) no Brasil?</strong>

Por Priscila Villela. Em fevereiro deste ano, foi noticiada a realização de duas operações (TURFE e BRUTIUM) em que a Polícia Federal do Brasil atuou em articulação com a Drug Enforcement Administration (DEA) dos EUA e com a Europol da União Europeia na desarticulação de um grupo criminoso envolvido no trânsito internacional da cocaína produzida na Bolívia, Peru e Colômbia (Brasil, 2022).

<strong>A despolitização dos direitos humanos na malha global: três momentos-chave e uma aposta necessária</strong>

Por Letícia Rizzotti. Na última década, a opinião pública tem experimentado um singular retrocesso no debate sobre direitos humanos, que acomete pautas nacionais e globais. Contudo, a ideia de uma pauta una e coesa de direitos humanos sofre reveses importantes e recorrentes pelo menos desde o início do século XX. Exemplos flagrantes são as disputas sobre assentamento de minorias na Liga das Nações (1919-1939), a fragmentação de conteúdo nos Pactos de 1966, e mesmo a dissidência entre pautas desenvolvimentistas e proteções ambientais nos anos 1980 e 1990.

A Faceta Desestabilizadora dos Estados Unidos na ‘Crise Russo-Ucraniana’

Por Robson Coelho Cardoch Valdez. A tensão nas fronteiras russo-ucranianas lança luz sobre uma temática mais complexa do que a difícil situação desencadeada pela deliberada decisão dos Estados Unidos de expandir os tentáculos militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em direção aos países da Europa Central e Oriental. Trata-se de um momento crucial para o sistema internacional, no qual o que se discute é, na verdade, a atual distribuição do poder entre os principais atores desse sistema.

Quando o lobby atende aos interesses progressistas: revisitando o Brasil dos anos 1980

Por Lucas Costa. Em artigo publicado na revista Lua Nova, em 2021 (volume 112), mostrei como os lobbies influenciaram a adoção de dispositivos relacionados à educação pública, aos direitos do trabalho e da saúde na Constituição de 1988 (Costa 2021). Naquele artigo não defendi que nossa constituição seria estritamente liberal (não teria acolhido nenhuma forma de direitos sociais e econômicos) caso os grupos de interesse não tivessem atuado de forma tão intensa. Embora seja muito difícil chegar a conclusões definitivas a partir deste tipo de exercício contrafactual, é razoável supor que estes tipos de direitos, ainda que a partir de formulações reduzidas, estariam presentes na constituição de qualquer forma, pois o contexto de negação do recente passado militar incluía, além da óbvia agenda democrática, o combate à desigualdade social, atribuída como mazela do regime autoritário.

Ética e Inteligência Artificial: robôs assassinos

Por Lutiana Barbosa e Gustavo Macedo. O uso crescente de IA para fins bélicos, migratórios e comerciais são objeto de uma série de três artigos nos quais abordamos desafios práticos do cotidiano gerados pela IA. Neste, refletimos sobre perguntas como: Uma máquina deve ter autonomia para decidir se usará da violência para matar ou ferir um ser humano? Nos textos vindouros, questionaremos: Deve-se confiar no julgamento de uma inteligência artificial sobre quem tem o direito ou não de entrar em um país? E, para fins de reparação de uma cobrança indevida, é possível dizer que uma máquina agiu de má-fé?

Notas para conversa com um economista à procura de um projeto nacional (Parte II)

Por Leonardo Belinelli. A importância dos intelectuais e a autoconsciência de Barbosa são indicadas já no título de Um nacionalista reformista na periferia do sistema: reflexões de economia política. A formulação, claro, remete a Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz. O recurso, no entanto, não implica similaridade. Se o título de Schwarz adianta a tese do livro e expõe sua avaliação sobre a potencialidade crítica da escrita madura de Machado de Assis, escritor periférico à altura dos melhores escritores centrais, o de Barbosa traz três informações: seu posicionamento político (“nacionalista reformista”), o lugar de onde e sobre o qual pensa e fala (“periferia do sistema”) e do que se trata, afinal de contas (“reflexões de economia política”).

Notas para conversa com um economista à procura de um projeto nacional (Parte I)

Por Leonardo Belinelli. Os países periféricos costumam ser exigentes com seus intelectuais. Primeiro: demandam deles uma invenção analítica, pois suas matérias sociais, políticas e culturais são avessas a vários dos supostos que embasam teorias forjadas em nações centrais, costumeiramente universalizadas de modo equivocado.

Militarização, crimes atrozes e direitos humanos no México: reflexões a partir do caso Alvarado

Por Bruno Boti Bernardi. O México vive, desde o final de 2006, uma grave crise de direitos humanos, marcada pela militarização crescente da segurança pública e por um aumento sem precedentes, entre outros crimes atrozes, de desaparecimentos forçados e involuntários de pessoas. Como resultado da estratégia de “guerra contra o narcotráfico” levada a cabo pelos governos Calderón (2006-2012), Peña Nieto (2012-2018) e López Obrador (2018-2024), cujos precedentes remontam pelo menos aos governos Zedillo (1994-2000) e Fox (2000-2006), os números e níveis da violência são avassaladores.