As leituras do empresário industrial de Fernando Henrique Cardoso

Por Daniela Costanzo Rafael Marino. A obra que resultou da tese de livre-docência do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, publicada em livro em 1964 com o título Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil, continua despertando debates, leituras e interpretações. À época da publicação isso já aconteceu, visto que o livro oferecia uma nova leitura sobre as possibilidades de uma aliança entre forças progressistas e a burguesia industrial – saída política até então trazida à baila, principalmente, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – e, ainda, fornecia o que poderia ser lido como uma interpretação ao golpe militar de 1964. Recentemente, a obra de FHC foi retomada por André Singer (2015; 2018) para explicar a derrocada do que chamou de ensaio desenvolvimentista de Dilma Rousseff. Tal utilização da tese de Cardoso despertou novos debates sobre o empresário industrial no Brasil.

Nessas eleições mais uma vez o ódio sai do armário

Por Juliana Inez Luiz de Souza. Os números, infelizmente, são velhos conhecidos. O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres (FBSP, 2022; IPG, 2016) e o que mais mata pessoas LGBT+ , principalmente pessoas trans, no mundo (ACONTECE; ANTRA; ABGLT, 2022; BOHRER, 2022; PINHEIRO, 2022). Nestas eleições não podemos banalizar a influência dos discursos de violência, ódio e medo que também foram mobilizados como “arma política” nas disputas anteriores.

Reginaldo Moraes – Palavra engajada

Por Sebastião Velasco e Cruz. Organizado poucos meses depois de seu falecimento, o livro Palavra engajada. Exercícios de crítica e pedagogia política reúne uma fração do conjunto dos textos de intervenção – artigos curtos, dirigidos ao público em geral – que Reginaldo Moraes escreveu nos últimos anos de sua caminhada. O livro foi publicado em versão eletrônica pela Editora da Fundação Perseu Abramo, em 2020, e está para sair em papel ainda este ano, em coedição da Perseu Abramo com a Editora Unesp.

A Vaza Jato como objeto sociológico

Por Amanda Lima e Lucas Pilau. “Por que a Vaza Jato não se tornou um escândalo político?”. Atentos aos noticiários e ao conteúdo das reportagens publicadas pelo The Intercept Brasil a partir de junho de 2019, essa foi a primeira questão que levantamos em nosso esforço de pensar a série de reportagens denominada Vaza Jato como objeto sociológico. Tendo observado a ausência de uma produção nas Ciências Sociais sobre esse importante evento do mundo político, começamos a elaborar um plano de trabalho que fosse capaz de tratar dos impactos da Vaza Jato e de seus desdobramentos. Mas como fazer isso?

As redes sociais estão transformando a democracia. Como?

Por Otávio Z. Catelano. Quanto a isso, podemos concordar: as novas tecnologias de comunicação estão transformando a democracia representativa. No entanto, precisamos discutir de forma mais aprofundada sobre quais são os mecanismos dessa transformação. Não basta dizer que “a internet facilitou o acesso a notícias falsas” e, por consequência, essas notícias estariam influenciando as pessoas a tomarem decisões políticas que não tomariam. Na verdade, as pesquisas mais recentes têm apontado a necessidade de considerarmos que as pessoas somente acreditam em conteúdos falsos quando já têm uma predisposição política anterior. Logo, não são influenciadas a alterar uma decisão, apenas a reforçam. Como?

Revisitando Virgínia Bicudo e Hiroshi Saito: o Projeto Tensões da UNESCO na história das ciências sociais brasileiras

Por Gustavo Taniguti. A história das ciências sociais brasileiras abrange a participação de seus pesquisadores em atividades coordenadas pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) desde meados do século vinte. Na realidade, em países latinoamericanos como o Brasil, Argentina, México e Chile, seria difícil conceber o estabelecimento profissional das ciências sociais alheio à força impulsionadora dessa organização.

Eleições de 2022 e a presidencialização das disputas estaduais

Por Vitor Vasquez. De 1994 a 2014, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) protagonizaram as eleições presidenciais no Brasil. No entanto, a competição entre os dois não se restringiu ao âmbito federal, pois ajudou a estruturar também as estratégias de candidatura para os governos estaduais (BRAGA, 2006; CORTEZ, 2009; LIMONGI; CORTEZ, 2010; MELO, 2007; MELO; CÂMARA, 2012; MENEGUELLO, 2010; SANDES-FREITAS, 2015). O fim dessa estabilidade da competição para a presidência da República ocorreu em 2018, quando PT rivalizou a disputa não com o PSDB, mas com o Partido Social Liberal (PSL), ao qual era filiado Jair Bolsonaro.

Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina

Por Carolina A. Gomes de Brito e Thiago da C. Lopes. Em artigo publicado no número 115 da revista Lua Nova, intitulado “Saúde, desenvolvimento e interpretações do Brasil: uma análise da perspectiva sociológica de Carlos Alberto de Medina”, os autores analisam o pensamento de Carlos Alberto de Medina e sua inserção no campo das ciências sociais no Brasil. Assim, indicam como a obra e a trajetória do sociólogo, ainda pouco conhecidas e estudadas, constituem uma rica fonte para a compreensão dos debates, característicos dos anos 1950 e 1960, sobre as relações entre doença, pobreza, subdesenvolvimento e autoritarismo.

Há democracia interna nos partidos políticos brasileiros?

Por Soraia Marcelino Vieira. Quando se fala em eleição não se pode deixar de falar em partido político, um ator central no processo eleitoral e fundamental nos regimes democráticos. Geralmente, as preocupações acerca deste ator giram em torno de seu comportamento frente à competição política, mas é importante, também, voltar o olhar para sua estrutura interna, principalmente para questões relacionadas à transparência, ética e processos de escolha de candidatos/as. O que se pretende destacar aqui é a importância de dialogar com questões referentes à democracia interna dos partidos políticos brasileiros, especialmente em ano eleitoral.

O que torna uma decisão legítima? Um argumento contra as teorias da última palavra

Por Renato Francisquini. Nos últimos anos, o regime democrático tem sido desafiado de inúmeras maneiras. Em países onde, até há pouco tempo, ela parecia consolidada, a democracia sofre toda sorte de retrocessos e descontinuidades. Embora o fenômeno tenha se tornado mais evidente em governos como os de Donald Trump, Viktor Orbán e Jair Bolsonaro, não é de hoje que as instituições políticas são alvo de ataques por movimentos políticos e da desconfiança de uma parte da sociedade.