Tatiana Teixeira1
Camila Vidal2
6 de março de 2026
Em parceria com o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), o Boletim Lua Nova republica a análise de Tatiana Teixeira e Camila Vidal da ressignificação dos 250 anos dos Estados Unidos. O texto foi originalmente publicado em 25 de fevereiro de 2026, no site do OPEU.
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O marco dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos, a ser celebrado em 4 de julho de 2026, tem sido mobilizado pelo governo Trump 2.0 como muito mais do que uma celebração histórica. Por meio de uma proclamação presidencial publicada em dezembro de 2025, transformou-se a efeméride em um “Aniversário da Doutrina Monroe”. A vinculação dessa doutrina de 1823 com a histórica data é uma operação política que não se restringe a enaltecer o passado. Ela inscreve o presente e o futuro da política externa estadunidense, de forma intencional, em termos de liderança inquestionável das Américas.
Essa reconfiguração dialoga, diretamente, com a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês), que apresenta o “Corolário Trump” como atualização do arcabouço monroísta. A mensagem é clara: as hierarquias hemisféricas nunca deixaram de existir – e não serão abandonadas. A América Latina volta, assim, a ocupar o lugar de fronteira crítica para a segurança nacional, associada ao combate ao narcotráfico, à imigração irregular, ao terrorismo e, sobretudo, à contenção da influência chinesa. Pela primeira vez em décadas, o Western Hemisphere (“Hemisfério Ocidental”) e a América Latina são recolocados, explicitamente, no centro das prioridades estratégicas de Washington. Do ponto de vista analítico, identificar como esses termos são usados e conhecer sua linha do tempo é central para compreender os fins políticos desta estratégia.
Por que, afinal, conceitos importam?
A construção e a escolha de termos como “Hemisfério Ocidental” e “América Latina” não são casuais. Como lembra o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães, no livro Quinhentos anos de periferia (Ed. da Universidade/UFRGS/Contraponto, 1999), a elaboração e a difusão de conceitos é um dos mecanismos centrais de preservação da estrutura hegemônica. Termos que parecem técnicos, ou meramente descritivos, carregam, na verdade, disputas de sentidos, hierarquias políticas e visões de mundo. Sua repetição por governos, organismos multilaterais e veículos da grande imprensa internacional acaba por lhes conferir uma aura de objetividade e de neutralidade, desnudado de interesses específicos e particulares.
Critérios como familiaridade, ressonância e elasticidade conceitual, analisados por John Gerring, no artigo “What Makes a Concept Good? A Criterial Framework for Understanding Concept Formation in the Social Sciences” (1999), ajudam a explicar por que certos conceitos se perpetuam, mesmo quando são vagos, ou contraditórios. A ambiguidade aumenta a margem de manobra para adequar significados a conjunturas e agendas, sem perder legitimidade.
Esse é o caso do “Hemisfério Ocidental”. De representação da classificação espacial europeia – o “Novo Mundo” (Américas), em oposição ao “Velho” (Europa) –, no fim do século XV, ainda como ideia, e não conceito, o termo é convertido, a partir do século XIX, em categoria política e estratégica. Com a Doutrina Monroe, seu uso se dá em um contexto defensivo em relação às Américas e às potenciais interferências estrangeiras. Com Theodore Roosevelt e seu Corolário (1904), o hemisfério se torna espaço de tutela ativa, com intervenções preventivas da América Latina plenamente justificadas da perspectiva dos Estados Unidos.
Durante a Guerra Fria, o conceito sofre mais uma transformação. Passa a designar o bloco capitalista, sob liderança estadunidense, convertendo-se em peça-chave na Doutrina de Segurança para a contenção do comunismo soviético. O sucesso de tal dinâmica pode ser medido pela assimilação dessa lógica, por parte dos países da América Latina.
Hoje, em Trump 2.0, assistimos a uma nova atualização. A Casa Branca retoma o uso da categoria como sinônimo conveniente de América Latina e Caribe, ignorando fronteiras formais e a falta de rigor geográfico do termo. O “Hemisfério Ocidental” do governo atual passa a funcionar como um dispositivo político mobilizado para justificar ações de endurecimento na fronteira com o México, instalação de maior presença militar e lançamento de operações antidrogas, assim como de políticas agressivas para manter a China fora de “seu” território.
Ao atrelar a celebração dos 250 anos à memória da Doutrina Monroe, o governo Trump reativa a gramática do hemisfério como “quintal” dos EUA. O conceito fornece base simbólica e legitimidade (interna) para um projeto que combina segurança doméstica, disputa econômica global e reafirmação do papel norte-americano na região. A “America 250” não celebra, portanto, apenas o passado dos Estados Unidos. Marca, também, o esforço de redefinir o futuro do hemisfério sob parâmetros de poder tradicionais, renovados por um trumpismo contestado em casa e por um cenário internacional em reconfiguração.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
Referências imagéticas: O mundo e os hemisférios Ocidental e Oriental (Crédito da imagem: David Rumsey Map Collection, David Rumsey Map Center, Stanford Libraries. Fonte: Internet Archive).
- Editora-chefe do Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU), pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e U.S. State Department Alumna (SUSI 2025). ↩︎
- Professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), U.S. State Department alumna (SUSI 2025) e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos sobre América Latina (IELA/UFSC).
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