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Início > Sem categoria

De nietos apropiados a pessoas memoriais: uma entrevista com Aline Lopes Murillo

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Sofia Pieruccetti Gutierrez1

24 de março de 2026

O plan sistemático de apropiación de menores foi uma prática da ditadura argentina (1976-1983) que consistia no sequestro coordenado de bebês e crianças filhos de militantes políticos opositores ao regime. Parte do plano mais amplo de desaparecimento de pessoas e com o objetivo de eliminar a “subversão” em gerações futuras, o rompimento dos vínculos de parentesco buscava evitar que as crianças fossem criadas de acordo com valores defendidos por seus pais biológicos, como justiça social, comunismo ou socialismo. Para formalizar o roubo, ocorria a falsificação ideológica em documentos burocráticos: os nomes, sobrenomes, datas e locais de nascimento das crianças eram adulterados nas certidões de nascimento, fazendo com que elas “desaparecessem” para suas famílias biológicas e fossem registradas como filhos próprios dos apropriadores.

A despeito das tentativas do regime, familiares dos desaparecidos políticos reivindicavam o paradeiro de seus filhos e netos, organizando-se politicamente. Desde 1977, a associação Abuelas de Plaza de Mayo trabalha para restituir os nietos sequestrados, que cresceram sem conhecer a verdade sobre seus laços de parentesco. O processo de restitución de la identidad envolve a recuperação jurídica e social dos elementos básicos da pessoa que lhes foram usurpados: nome, sobrenome, filiação e nacionalidade. No entanto, tal processo não se encerra na retificação de documentos ou no resultado do exame de DNA. Para centenas de pessoas, essa descoberta sobre a própria origem ocorre em plena vida adulta, provocando uma ruptura profunda na percepção de si e do mundo. Dessa maneira, o impacto de descobrir que a própria biografia foi construída sobre um “sequestro de identidade” exige um complexo trabalho de elaboração, no qual o sujeito precisa reconciliar o passado vivido com os apropriadores com o passado da repressão estatal na Argentina.

Entre a história de vida e a história coletiva, a reconstituição das identidades pessoais de nietos e nietas restituidos é o terreno em que a antropóloga Aline Lopes Murillo2 situou sua pesquisa de doutorado. Na tese “Pessoas memoriais: práticas de parentesco e política na Argentina” (2023)3, ela lança luz sobre as atividades discursivas desses homens e mulheres que, ao recuperarem sua filiação, tornam-se figuras centrais na manutenção da memória da ditadura argentina.

Boletim Lua Nova (BLN): Primeiro, gostaria de saber sua experiência como uma antropóloga brasileira estudando o contexto argentino. Como foram os primeiros contatos com as Abuelas de Plaza de Mayo e com os nietos e nietas restituidos? Sua experiência de campo na Argentina a fez reconsiderar algum aspecto da ditadura militar brasileira (1964-1985)?

Aline Lopes Murillo (ALM): Realizar trabalho de campo na Argentina como antropóloga brasileira implicou ocupar uma posição simultaneamente próxima e deslocada. Eu vinha de dentro de uma história latino-americana compartilhada, marcada pela repressão articulada da Operação Condor, e, ao mesmo tempo, de fora dos consensos e dissonâncias que estruturam a memória pública argentina. Essa posição de relativa exterioridade favoreceu tanto minha entrada em campo quanto um olhar atento às formas específicas pelas quais a violência de Estado foi elaborada, narrada e politicamente mobilizada no país.

Considero que minha entrada em campo se consolidou a partir da participação nas audiências judiciais dos julgamentos por crimes de lesa-humanidade, realizadas em Buenos Aires em outubro de 2017. Embora eu já tivesse feito uma viagem exploratória em 2014 e visitado a sede das Abuelas de Plaza de Mayo (ocasião em que tive acesso a um amplo conjunto de materiais), foi a presença como ouvinte nessas audiências que possibilitou o contato direto com os nietos restituidos. A partir desse primeiro encontro, a pesquisa se desenvolveu por meio da circulação em atividades públicas, espaços de memória, tribunais, combinada à realização de entrevistas e conversas informais em diferentes contextos de convivência. Assim, o contato com os nietos e nietas restituidos não se estabeleceu por canais institucionais, mas pela circulação e presença continuada em eventos e atos públicos nos quais suas falas e atuações ocupavam lugar central.

Essa experiência me levou, sim, a reconsiderar aspectos importantes da ditadura brasileira. Ao observar a posição medular ocupada pelos familiares (e particularmente pelos nietos restituidos) na produção da memória pública argentina, tornou-se impossível não refletir sobre a ausência parcial, no Brasil, de políticas de verdade e justiça e sobre o modo como isso afeta a transmissão intergeracional da violência de Estado. A Argentina me ofereceu um espelho incômodo: um contraste que evidencia como diferentes arranjos institucionais, jurídicos e simbólicos produzem regimes distintos de memória e reconhecimento.

BLN: Sua análise aponta para a importância da comprovação da consanguinidade no caso dos nietos e nietas. Você poderia falar mais sobre o papel do exame de DNA no processo de restitución de la identidad?

ALM: O exame de DNA ocupa um lugar central no processo de restitución de la identidad como uma tecnologia de mediação entre ciência, direito, parentesco e política. Na tese, analiso como ele articula diferentes esferas institucionais e práticas sociais, produzindo efeitos que ultrapassam a identificação biológica.

Do ponto de vista jurídico, o DNA viabiliza a restitución ao permitir a comprovação da filiação em contextos marcados pelo desaparecimento forçado dos pais e pela falsificação sistemática dos registros civis. A criação do Banco Nacional de Datos Genéticos e o desenvolvimento do chamado “índice de abuelidad” constituem conquistas científicas diretamente vinculadas à luta das Abuelas de Plaza de Mayo e à formulação do direito à identidade.

Ao mesmo tempo, o exame inaugura processos delicados e prolongados de elaboração pessoal e relacional. O resultado genético desencadeia reconfigurações nas narrativas de vida, nos vínculos familiares e nas formas de se perceber no mundo. Para muitas pessoas, descobrir na vida adulta que a própria biografia foi atravessada por um crime de Estado exige um trabalho delicado e contínuo de reconstrução, no qual o conhecimento da origem biológica se articula a histórias familiares, experiências vividas e interpretações sobre a repressão estatal. Nesse sentido, o sangue opera como ponto de partida para processos de reconstituição de si, e não como elemento conclusivo.

BLN: Quero perguntar também sobre a experiência de charlar (conversar) com os nietos e nietas restituidos. O que lhe pareceu haver de peculiar nessas conversas? Como a arte de charlar relaciona-se com o processo de restitución de la identidad?

ALM: As charlas com os nietos e nietas restituidos configuram práticas narrativas densas, nas quais contar a própria vida é também uma forma de pensar, organizar e reelaborar experiências. Essas conversas fazem parte de um repertório construído ao longo de anos de militância, entrevistas e intervenções públicas, mas permanecem abertas a variações, deslocamentos e novas articulações.

Ao conversar comigo, uma pesquisadora brasileira, os nietos frequentemente assumiam um papel pedagógico, explicitando contextos históricos, cronologias e categorias que, no espaço público argentino, já se encontram amplamente difundidas. Esse esforço de explicação produzia reflexões sobre a própria trajetória e sobre os sentidos da restitución de la identidad. Charlar se apresentava, assim, como uma prática por meio da qual passado vivido, passado ocultado e presente político eram colocados em relação.

Na tese, trato essas conversas como práticas que participam ativamente da reconstrução de identidades pessoais. A palavra aparece como um modo de fazer, capaz de articular experiências singulares e processos históricos mais amplos, contribuindo para a recomposição de pessoas, parentescos e memórias.

BLN: Você elabora a noção de “pessoas memoriais” na sua tese para nomear “pessoas que carregam nas veias, nos corpos, nos nomes e nas palavras memórias sobre a Ditadura e sobre as formas como a sociedade argentina lida, no presente, com as violações cometidas no passado” (Murillo, 2023, p. 205). Poderia falar mais sobre isso? Qual é o lugar das pessoas memoriais na topografia cívica argentina?

ALM: A noção de “pessoas memoriais” emerge da observação etnográfica das práticas dos nietos e nietas restituidos e da tentativa de nomear uma condição específica produzida pela experiência da apropiación e da restitución. Trata-se de pessoas cujos corpos, nomes e palavras concentram efeitos da violência da Ditadura e, simultaneamente, participam da elaboração contemporânea desse passado.

Os nietos e nietas carregam memórias nas veias, nos nomes e nas palavras. Ao narrar suas histórias em atos públicos, escolas, museus, tribunais e meios de comunicação, produzem memórias no presente e incitam interpretações do passado. Suas falas não apenas recordam acontecimentos, mas articulam experiências pessoais à história do país, contribuindo para a produção de ideias sobre a Ditadura, a justiça e as políticas de reparação.

Na topografia cívica argentina, as “pessoas memoriais” articulam histórias familiares e do país em suas próprias trajetórias. Suas presenças compõem arranjos nos quais parentesco política e memória se entrelaçam, reinscrevendo a Ditadura no presente. Mais do que representar o passado, elas o fazem circular, convertendo experiências biográficas em pontos de condensação a partir dos quais a memória pública se pensa, se disputa e se transforma no país.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!

  1. Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo. Mestra em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas. E-mail: sofia.pieruccetti@unifesp.br ↩︎
  2.  Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo com período sanduíche na Universidad de Buenos Aires e em dupla-titulação com a mesma universidade (2023). Bacharela em Ciências Sociais (2008) e mestra em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (2011). Atualmente realiza pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo. E-mail: alinemurillo@gmail.com  ↩︎
  3. Pesquisa realizada por meio de bolsa Doutorado-GD (CNPq) e bolsa Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (Capes). ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

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