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CADERNOS CEDEC 143 – O Sistema Internacional sob Pressão: Disputas por Normas, Poder e Autoridade

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Carlos Eduardo Rezende Landim1

Julia Mori Aparecido2

Karime Ahmad Borraschi Cheaito3

8 de julho de 2026

***

Para a coluna de hoje, o Boletim Lua Nova divulga a apresentação Dossiê “O Sistema Internacional sob Pressão: Disputas por Normas, Poder e Autoridade”, publicado nos Cadernos CEDEC nº 143. Os dois volumes deste número reúnem artigos selecionados a partir do XIII Simpósio de Pesquisa em Relações Internacionais (SimpoRI 2025) realizado no entre os dias 10 e 13 de novembro em uma parceria entre o Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e o Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ). Acesse aqui o Vol.1 e Vol. 2 na íntegra. 

***

A presente edição dos Cadernos Cedec apresenta um dossiê que contém uma seleção de artigos apresentados no XIII Simpósio de Pesquisa em Relações Internacionais (SimpoRI 2025), o qual foi regido pelo tema “Sistema Internacional sob pressão: disputas por normas, poder e autoridade”. O evento foi realizado entre os dias 10 e 13 de novembro de 2025, no Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI), na Sé, em São Paulo-SP. 

O SimpoRI foi construído por e para estudantes de pós-graduação. O evento surgiu de uma parceria consolidada em 2007 entre o Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e o Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ), que alternadamente sediam as edições. Seu objetivo é promover o intercâmbio e fortalecer o debate acadêmico em Relações Internacionais entre pós-graduando(as), pesquisadores(as) e docentes que possuem pesquisas concluídas ou em andamento na área. Por prezar pela participação de diferentes instituições, países e regiões brasileiras, a 13º edição de 2025 dedicou um dos dias para atividades exclusivamente on-line e centrou as demais sessões presencialmente a fim de preservar a dinâmica de interlocução direta que caracteriza o evento. 

Em 2025, o evento reuniu mais de 300 inscritos em uma programação multitemática. Foram estabelecidas 13 áreas temáticas para submissão de trabalhos: análise de política externa; regionalismo e integração regional; economia política internacional; política internacional, cultura e instituições; estudos de defesa e estudos estratégicos; estudos para a paz e resoluções de conflitos; estudos de segurança, vigilâncias e resistências; teoria das Relações Internacionais; meio ambiente e mudanças climáticas; direitos humanos, migração e refúgio; raça, pós-colonialismo e decolonialidade; feminismos, gênero e sexualidade; e novas tecnologias e Relações Internacionais. As propostas foram acolhidas em diferentes formatos. A programação final contou com 48 Grupos de Trabalho (sessões públicas de apresentações de pesquisas concluídas e em andamento); 8 Workshops Doutorais (sessões fechadas voltadas à discussão de capítulos de dissertações e teses avaliadas por docentes); 20 minicursos; 6 mesas temáticas com professores e pesquisadores convidados e 8 lançamentos de livros. No decurso das 90 sessões do SimpoRI, que decorreram ao longo de quatro dias, foram apresentados aproximadamente 220 trabalhos, dos quais cerca de 20 foram coautorados por estudantes de graduação. Além disso, recebemos 24 ouvintes de pós-graduação, 32 ouvintes de graduação e cerca de 70 investigadores e docentes convidados no SimpoRI. 

Reforçando o caráter plural e a densidade das redes acadêmicas mobilizadas pelo evento, do ponto de vista institucional, o encontro congregou representantes de mais de 40 universidades, centros de pesquisa e escolas superiores públicas e privadas. O SimpoRI contou com o apoio financeiro da Pró-reitoria de Pós graduação (PROPG). A distribuição territorial abrangeu as cinco regiões brasileiras e fomentou o intercâmbio internacional de pesquisadores(as) associados(as) à University of Virginia (Estados Unidos), ao European University Institute (Itália), à Universidade de Coimbra e do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal), à Universidad Politécnica Estatal del Carchi (UPEC, Equador), além de participantes oriundos de países africanos como Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. As mesas também contaram com convidados do Uruguai, Argentina, Paraguai e Portugal. 

O presente dossiê nasceu, portanto, da busca de preservar a marca constitutiva do evento de funcionar como espaço de interlocução qualificada, em que os trabalhos são tensionados e aprimorados coletivamente. Dividido em dois números, reúne-se aqui uma seleção de textos indicados por debatedores e avaliadores dos Grupos de Trabalho. Trata-se, assim, de escritos oriundos de pesquisas já amadurecidas, assim como investigações em curso, apresentadas justamente como parte de um processo de discussão e refinamento. 

O primeiro número desse volume concentra textos sobre registros contemporâneos da segurança, articulando políticas de drogas, militarização, cooperação técnico-institucional e violência, em contextos de disputa territorial e de gênero. Em “Securitização da Política de Drogas: Uma Análise Sobre o Caso do Equador”, Taynah Pires Ferreira, Luana Machado de Carvalho e Mariana Amaro Gonçalves Silva recorrem à Teoria da Securitização para explicar como, mesmo ocupando um lugar secundário no narcotráfico transnacional, o Equador se destacou pela consolidação de um arcabouço jurídico repressivo, com impactos políticos e sociais. 

Em chave comparável, mas a partir de um caso que costuma ser lido como “exceção progressista”, Pedro de Almeida e Carvalho, em “A repressão às drogas no país da legalização da maconha”, mostra como a regulação da cannabis no Uruguai não eliminou dinâmicas de controle e repressão. Ao contrário, ele evidencia continuidades securitárias, incluindo seus desdobramentos na Ley de Urgente Consideración (2020) e nas formas de violência e repressão que atravessam mercados ilegais locais. 

Ainda neste eixo, em “A Militarização do Combate ao Tráfico Internacional de Drogas: uma análise das operações do Brasil entre 2011–2022”, Laísa Ribeiro Cardoso historiciza as heranças institucionais do período ditatorial e discute a busca, pelas Forças Armadas, de novas missões e legitimidades no pós-Guerra Fria, examinando se alterações legislativas e práticas operacionais recentes aprofundaram a militarização do enfrentamento ao tráfico internacional no Brasil. 

Deslocando o olhar para a infraestrutura técnica que sustenta regimes contemporâneos de controle, Luiz Henrique Barreto de Moura Costa Freitas e Josiane Souza de Lima Barreto, em “Segurança Aérea e Cooperação Técnica: o papel da CARSAMMA na geopolítica do Brasil”, analisam a atuação da agência vinculada à OACI sediada no país, explorando as tensões entre governança internacional, produção de indicadores de risco, cooperação técnica e soberania estatal, bem como suas implicações para a projeção geopolítica brasileira no Caribe e na América do Sul.

Em “Violência feminicida em áreas de disputa territorial: o caso da Amazônia Legal”, Maria Júlia Barro Improta mobiliza aportes do feminismo latino-americano e decolonial para interpretar a violência letal de gênero não como fato isolado ou doméstico, mas como instrumento de dominação territorial em áreas marcadas por conflito fundiário e exploração de recursos, articulando colonialidade, patriarcado, racismo e capitalismo. A dimensão da guerra e de suas economias políticas aparece de modo contundente em “A prostituição nos camptowns sul–coreanos (1953–1979) à luz do materialismo histórico”, em que Ariel Parrilha examina a presença militar dos Estados Unidos na Coreia do Sul e o papel estru tural da prostituição nos camptowns como componente da acumulação associada ao capital militar, destacando a mediação do Estado sul-coreano na reprodução dessas relações. 

Fechando a primeira edição, o texto “A politização da intimidade: narrativas midiáticas e engajamento digital em torno do movimento 4B”, de Nicole Paroul Cansian e Isabelle Godoy Teles dos Santos, investiga como a circulação midiática e as disputas de narrativa nas redes sociais enquadram o 4B, entre a construção do movimento como ameaça e sua compreensão, por feministas sul-coreanas, como resistência, evidenciando contrastes entre leituras da mídia internacional e da mídia local e recolocando a intimidade como terreno de conflito político no debate global. 

Volume 2

Os textos que compõem este segundo número se debruçam sobre transformações e tensões da ordem internacional a partir de três eixos principais. O primeiro aborda questões relativas à governança e à inserção internacional, examinando disputas institucionais, estratégias estatais e rearranjos de poder em diferentes escalas. O segundo eixo concentra-se nas relações entre identidades, discursos e legitimidade, explorando como narrativas, representações e categorias políticas participam da construção e contestação da autoridade no plano internacional. Por fim, o terceiro eixo reúne análises situadas no campo da economia política internacional e dos projetos de desenvolvimento, evidenciando como conflitos normativos e assimetrias estruturais atravessam agendas econômicas, modelos de desenvolvimento e formas de inserção no sistema internacional. 

Em “Capacidades estatais na paradiplomacia: a mobilização deste instrumento para o desenvolvimento local”, Fernanda de Oliveira Batista desloca o olhar para a atuação internacional de entes subnacionais e pergunta como esses atores têm operacionalizado capacidades estatais, sejam elas analíticas, operacionais ou sistêmicas para participar de fóruns globais, em especial na governança climática. Ao enfatizar a cooperação multinível, o texto sustenta que a paradiplomacia pode fortalecer o desenvolvimento local, desde que amparada por institucionalidade, profissionalização, produção de conhecimento e capacidade de atrair recursos e implementar políticas alinhadas a agendas como os ODS e o Acordo de Paris. 

No plano dos rearranjos regionais, “Integração Regional e os Desafios Contemporâneos: o Acordo Mercosul–União Europeia (2025)”, de Lisandra Marcela Oliveira da Silva, reconstitui uma das negociações inter-regionais mais longas e controversas desde os anos 1990 e analisa a retomada do processo entre 2023 e 2024, mostrando como a incorporação de compromissos ambientais e disputas regulatórias reconfigurou o desenho do acordo. Ao fazê-lo, o texto evidencia que o Mercosul–UE extrapola a dimensão comercial e condensa conflitos sobre modelos de desenvolvimento, autonomia regulatória e politização crescente da governança global em um cenário de protecionismo e rivalidade entre grandes potências. 

A disputa por legitimidade também aparece no registro do discurso político internacional. Em “Neoconservadorismo e o apelo religioso explícito no discurso político internacional de Javier Milei (2023–2024)”, Maria Eduarda Diniz de Medeiros examina o primeiro ano do governo Milei a partir do marco do neo conservadorismo e mostra como a religião opera como recurso simbólico e comunicacional em arenas internacionais, organizando justificativas de autoridade e moralização do espaço público. No campo das identidades e das lógicas de ação estatal, “Identidade terceiro-mundista chinesa e política externa: perspectivas a partir do construtivismo”, de João Pedro Matzenbacher Pinton, Martha Silveira Nummer e Laura Machado Ribas, testa hipóteses concorrentes sobre uma lógica terceiro-mundista e outra hegemônico-realista em três conjuntos de casos: sobe rania e não intervenção; desenvolvimento e investimentos; e operações de paz, com o argumento de que a política externa chinesa opera por uma lógica híbrida, combinando princípios identitários com o comportamento de uma grande potência em ascensão.

 A reflexão teórica sobre poder e norma também aparece em “Identidade, Hegemonia e Excepcionalismo: o encontro entre Grande Estratégia e a Teoria Crítica”, no qual Arthur Ferreira Alcântara critica abordagens dominantes da Grande Estratégia por seu viés “solucionador de problemas” e propõe uma leitura crítico-construtivista, apoiada em Bourdieu e em debates sobre excepcionalismo estadunidense, para compreender a Grande Estratégia como performance contínua de identidade nacional e como prática de poder hegemônico que molda regras e instituições ao mesmo tempo em que codifica a própria isenção. 

No eixo da economia política internacional, “Financeirização e desenvolvimento em África: uma análise crítica do papel dos bancos e mercados de capitais na implementação da Agenda 2063”, de Tomás Gomes João e Sintyana Emontiel de Lemos Luís, examina, a partir da Economia Política Internacional crítica, a contradição entre o princípio de soberania do projeto continental e a crescente dependência de instrumentos de mercado para seu financiamento. O texto sustenta que essa arquitetura financeira subordinada fragiliza a autonomia fiscal dos Estados, reorienta prioridades para o retorno financeiro e compromete metas de industrialização e justiça social, apontando a necessidade de alternativas endógenas e descolonizadas para que a Agenda 2063 não permaneça capturada por uma lógica neoliberal. 

“As relações entre Brasil e Iraque na década de 1970: as complementaridades e contradições das teorias de RI”, de Vitória Fernandes Carvalho Carluci, retoma o governo Geisel e o incremento das trocas com o Iraque no contexto de uma política externa voltada a posições mais independentes. O texto argumenta que abordagens metodologicamente distintas podem ser mobilizadas de forma complementar para apreender dimensões materiais, ideacionais e intersubjetivas da cooperação. 

Por fim, a relação entre política externa, cultura e “política da imagem” aparece em “A música de uma nação civilizada: a participação brasileira no terceiro Congresso da Sociedade Internacional de Música (1909)”, em que Eduardo Brasil de Mattos analisa a apresentação de Oliveira Lima, orientada por Rio Branco, como parte de uma estratégia de diplomacia cultural que seleciona “partituras da identidade” aptas a representar o país no exterior, evidenciando a ambição de projetar um Brasil “civilizado”, “moderno” e próximo das tradições artístico-culturais europeias.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova! 

  1. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNICAMP, UNESP, PUC-SP), editor do Boletim Lua Nova, pesquisador associado do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI). ↩︎
  2. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNICAMP, UNESP, PUC-SP) na área de Paz, Defesa e Segurança Internacional. Membro do conselho estudantil do “Security, Conflict and Democratization” Research Comitee da International Political Science Association (IPSA). E-mail: julia.mori@hotmail.com. Orcid: http://orcid.org/0000-0002-6386-3634. ↩︎
  3. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNICAMP, UNESP, PUC-SP) e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI-PUCSP) ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

Direitos em Disputa

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