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Início > Sem categoria

A disputa pelo tempo: Disciplina temporal e luta de classes, do relógio ao algoritmo

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Erik Chiconelli Gomes1

22 de julho de 2026

Poucos temas organizam tão bem o mal-estar do presente quanto a queixa a respeito do tempo. Há o entregador de aplicativo que soma doze, catorze horas em movimento para fechar uma diária que mal cobre o combustível e a manutenção da moto. Há o assalariado que responde mensagens da chefia às onze da noite porque o aparelho no bolso não distingue expediente de descanso. Há a escala seis por um, de volta ao centro do debate público brasileiro porque milhões de pessoas trabalham seis dias para folgar um e percebem que a vida inteira se molda ao calendário da empresa. Há o esgotamento que deixou de ser diagnóstico raro e virou linguagem corrente, com nome importado, burnout, e sintomas bem nacionais. Por baixo de todas essas cenas pulsa uma única pergunta, e ela é mais velha do que parece. Quem controla o tempo da vida?

A resposta mais difundida é tecnológica. O smartphone teria criado a disponibilidade permanente, o algoritmo teria inventado uma forma de comando sem precedente, a conexão ininterrupta seria a assinatura de uma era nova. Proponho ler a coisa por outro ângulo. O que se apresenta como ruptura absoluta é um capítulo recente de um processo longo, e esse processo tem nome. Trata-se da disputa pelo controle do tempo, que acompanha o capitalismo desde a sua formação. O relógio de ponto, a sirene da fábrica, a repressão policial ao trabalhador pobre e a gestão por aplicativo são formas distintas de um mesmo conflito. Interessa-me menos celebrar a novidade do algoritmo do que devolvê-lo a essa duração, porque é a duração que revela o que está em jogo.

Convém dizer desde já o que entendo por disputa pelo tempo. Não falo apenas da duração da jornada, embora ela esteja no centro. Falo do poder de definir o ritmo, de decidir quando se começa e quando se para, de separar ou misturar trabalho e descanso, de marcar o que vale como tempo produtivo e o que se descarta como tempo morto. Esse poder nunca foi neutro. Ele se reparte de modo desigual entre quem compra e quem vende força de trabalho, e é nessa desigualdade que a luta de classes encontra uma de suas formas mais constantes. Quem domina o tempo alheio domina boa parte da vida de outrem, e os trabalhadores sempre souberam disso, mesmo quando ainda lhes faltava a linguagem para dizê-lo.

A ferramenta para fazer isso vem de E. P. Thompson. Tomo-o como método de leitura, não como objeto de comentário. Foi Thompson quem mostrou que a classe trabalhadora não é um dado pronto, mas algo que se forma na experiência, na luta e no costume (Thompson, 1987), e foi ele quem demonstrou que a relação dos trabalhadores com o tempo tampouco é natural, e sim um resultado histórico, imposto e conquistado em meio a conflitos. Parto da experiência concreta de quem trabalha; desconfio das explicações que reduzem tudo à técnica ou à economia, e procuro nas práticas cotidianas o terreno em que a disputa se decide. É dessa postura que a pergunta sobre o tempo da vida deixa de ser lamento e se torna problema histórico.

Antes do relógio

Nas sociedades anteriores à grande indústria, o trabalho seguia a tarefa, não o ponteiro. Foi Thompson quem nomeou e descreveu esse regime.

A notação do tempo que surge nesses contextos tem sido descrita como orientação pelas tarefas. Talvez seja a orientação mais eficaz nas sociedades camponesas, e continua a ser importante nas atividades domésticas e dos vilarejos. Não perdeu de modo algum toda a sua importância nas regiões rurais da Grã-Bretanha de hoje. (Thompson, 1998, p. 271)

O que regulava a jornada era a colheita a recolher, a maré a aproveitar, o rebanho a conduzir, a peça a terminar. O dia se alongava ou encurtava conforme a necessidade do que havia para fazer, e o ritmo alternava esforço concentrado e ociosidade sem que ninguém visse nisso desperdício. Trabalho e vida não ocupavam compartimentos separados. A conversa, o canto, a refeição, o cuidado com as crianças e a labuta misturavam-se na mesma duração, num tecido em que era difícil dizer onde terminava uma coisa e começava a outra.

Essa porosidade aparecia nos costumes. A santa segunda-feira, o hábito de esticar o descanso do domingo pela segunda e às vezes pela terça, compensando depois com jornadas longas no fim da semana, expressava um tempo que pulsava em ondas e não em linha reta. Para o olhar disciplinado que viria a seguir, aquilo era preguiça a corrigir. Para quem vivia segundo a tarefa, era a maneira sensata de distribuir o esforço ao longo da semana. Recupero esse mundo para tornar estranho o que hoje parece natural. Não se trata de nostalgia de um passado idealizado, que aliás tinha as suas próprias durezas. A questão é lembrar que a ideia de um tempo correto, medido, uniforme, ao qual o corpo deve se ajustar, tem data de nascimento e não acompanha a espécie desde sempre.

A grande indústria mudou o terreno. Quando a produção passou a depender da reunião de muitos trabalhadores sob o mesmo teto e do funcionamento sincronizado das máquinas, o tempo virou medida e mercadoria. Thompson localizou nessa passagem um deslocamento profundo na percepção, da distinção entre o tempo da natureza e o tempo do relógio até a vitória deste último sobre a vida cotidiana (Thompson, 1998, p. 268). O empregador deixou de comprar uma obra pronta e passou a comprar horas de trabalho, e horas precisam ser contadas, vigiadas, comparadas. A sirene, o apito, o portão que fecha na hora exata, o livro de registro de entrada e saída, tudo compôs uma engenharia cuja função era converter vida em quantidade vendável.

A passagem ao trabalho assalariado inverteu a antiga relação com o relógio, e Thompson a registrou com precisão.

Aqueles que são contratados experienciam uma distinção entre o tempo do empregador e o seu “próprio” tempo. E o empregador deve usar o tempo de sua mão de obra e cuidar para que não seja desperdiçado: o que predomina não é a tarefa, mas o valor do tempo quando reduzido a dinheiro. O tempo é agora moeda: ninguém passa o tempo, e sim o gasta. (Thompson, 1998, p. 272)

A mudança não foi só de instrumento, foi de concepção. Sob a tarefa, o tempo era vivido como o meio em que a vida acontecia. Sob o relógio, passou a ser tratado como moeda, algo que se gasta, se poupa, se perde. Para que essa percepção virasse senso comum foi preciso desmontar o calendário antigo, com as suas festas, feiras e folgas, tratadas a partir de então como atraso a ser suprimido em nome da regularidade produtiva.

O aprendizado foi imposto. Houve campanha moral contra o ócio, pregação sobre a virtude da pontualidade, escolas que ensinavam crianças a obedecer ao sino antes de qualquer ofício. A disciplina do tempo precisou ser internalizada, transformada em segunda natureza, até que o próprio trabalhador medisse o seu valor pela quantidade de horas entregue. Quando ele passa a sentir culpa diante do tempo ocioso, a vigilância externa pode afrouxar, porque o controle se transferiu para dentro. É nesse ponto que a história do tempo se torna também uma história da subjetividade, dos modos como cada um aprende a se cobrar.

A mesma medida que servia ao comando foi apropriada pela resistência. Quando os trabalhadores aprenderam a contar o tempo, passaram a exigir que ele tivesse limite. A luta pela jornada de oito horas, as greves pela redução do expediente, a regulamentação legal do descanso semanal, tudo isso empunhou o relógio do patrão como arma contra o patrão. A disputa nunca foi só por salário. Foi também, e talvez sobretudo, por quem decide a que horas o dia de trabalho termina.

O Brasil do pós-abolição

A história que Thompson contou para a Inglaterra industrial não se transplanta sem mediação para o Brasil. Aqui a disciplina do tempo ganhou contornos próprios, moldados pela escravidão e pela maneira como ela terminou. A obra de Sidney Chalhoub permite enxergar esses contornos. Numa sociedade que durante séculos extraiu trabalho pela violência do cativeiro, a passagem ao trabalho livre não trouxe a liberdade de dispor do próprio tempo. Trouxe a invenção de mecanismos novos para garantir que a população recém-liberta e os pobres em geral seguissem disponíveis ao trabalho nos termos de quem os contratava.

O instrumento central foi a criminalização da vadiagem. Não trabalhar, ou não comprovar ocupação regular, tornou-se caso de polícia. A ociosidade, que no mundo da tarefa pertencia ao ritmo, passou a figurar como ameaça à ordem e como justificativa para a prisão. Em “Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque”, publicado em 2001, Chalhoub reconstrói o cotidiano dos trabalhadores do Rio de Janeiro e mostra como os seus espaços de convívio foram vigiados, o botequim entre eles, lido pelas autoridades como antessala da vadiagem e do crime. Em “Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial”, a reforma urbana e o combate às epidemias aparecem também como reordenamento dos corpos e dos usos do espaço, com a expulsão dos pobres das áreas centrais e a regulação de onde e quando podiam circular (Chalhoub, 1996). Em “Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte”, o que está em jogo são os sentidos disputados da própria liberdade, com senhores e libertos a entender de maneiras opostas o que significava deixar de ser escravo (Chalhoub, 1990).

A repressão à vadiagem não atuava sozinha. Ela se combinava com a política de atrair imigrantes europeus, vistos pelas elites como trabalhadores já afeitos à disciplina da fábrica, num cálculo que era também racial. A população negra liberta foi em boa medida empurrada para as ocupações mais instáveis e para a vigilância mais cerrada, enquanto se construía a imagem do imigrante como trabalhador ideal. A historiografia recente reforça essa leitura, ao mostrar como a associação entre população negra, ociosidade e trabalho se inscreveu nas leis e nas práticas do processo de abolição numa moldura abertamente racial (Terra, 2021). O mercado de trabalho livre que então se formava já nascia hierarquizado, e a maneira de comandar o tempo de cada grupo variava conforme o lugar que lhe era reservado.

Há aqui uma diferença que merece ser sublinhada, porque ela costuma se perder quando se importa o modelo inglês sem ajuste. Na Inglaterra, o relógio domava trabalhadores já separados dos meios de produção e já lançados ao mercado. No Brasil do pós-abolição, a disciplina temporal teve primeiro de produzir o próprio trabalhador disponível, fazendo-o por meio da ameaça policial e pela conversão do trabalho em dever moral. A cor dessa história pesa. A suspeita de vadiagem recaía com mais peso sobre a população negra recém-saída do cativeiro, de sorte que controlar o tempo dos pobres foi, entre nós, inseparável de controlar os corpos que a escravidão havia marcado. Reconhecer isso impede que se leia a disciplina do tempo como um processo único e universal, que se repetiria igual em toda parte. Ela se realiza em formações sociais concretas, e a brasileira carrega a herança escravista na própria maneira de comandar o tempo do trabalho que se dizia livre.

Esse retrato ficaria pela metade se parasse no lado do controle. Os trabalhadores pobres do Rio de Janeiro não receberam a disciplina sem resposta. Chalhoub (2001) insiste na agência desses sujeitos, nas estratégias com que preservavam margens de autonomia dentro de um cerco que se apertava. O botequim, que a polícia enxergava como foco de vadiagem, era para eles espaço de convívio, de troca, de organização informal da vida. Recusar o trabalho em certos dias, escolher para quem trabalhar, negociar ritmos, tudo compunha um repertório de pequenas resistências que a repressão tentava abafar e nunca eliminava de todo. A disputa pelo tempo, no Brasil como na Inglaterra, teve sempre dois polos, e o polo dos de baixo deixou marca na forma que o próprio controle precisou assumir.

Do relógio ao algoritmo

Volto ao presente munido dessa história. O trabalho por plataforma costuma ser descrito como liberdade. O trabalhador escolheria os seus horários, seria dono do próprio tempo, ligaria e desligaria o aplicativo à vontade. Ludmila Costhek Abílio desmonta a imagem. O que ela chama de “uberização” é a consolidação de um trabalhador que se autogerencia sob comando, disponível de modo permanente, despojado de garantias e de direitos, definido como trabalhador just-in-time (Abílio, 2020). A empresa se apresenta como simples intermediária entre oferta e procura, quando o que opera são novas formas de subordinação e de controle. O algoritmo distribui as tarefas, calcula as rotas, fixa os preços, mede o desempenho e pune a recusa. A gestão não desapareceu. Ficou difusa, automatizada e ininterrupta.

Vale descer ao concreto, porque é nele que Abílio ancora a sua análise. A pesquisa que sustenta o conceito de uberização nasceu do estudo de revendedoras de cosméticos e de motofretistas; trabalhadores que arcam sozinhos com os custos, os riscos e a administração do próprio esforço (Abílio, 2014, 2020). A revendedora que carrega o catálogo e cuida da própria clientela e o entregador que cobre a cidade de bicicleta ou de moto partilham uma condição: o trabalho se espalha pelo dia inteiro sem horário definido, e cabe a quem trabalha converter em renda o tempo que de outro modo se perderia. O aplicativo apenas levou essa lógica ao limite e a vestiu de modernidade tecnológica. O ranqueamento, a nota do cliente e a ameaça de bloqueio operam como um capataz invisível que nunca dorme, e o trabalhador interioriza a cobrança do mesmo modo que o operário do século dezenove interiorizou o sino.

A novidade está no deslocamento da disciplina, não na sua ausência. No regime da fábrica, o tempo de espera dentro do portão era pago, ainda que mal pago. No regime do aplicativo, a espera pela próxima corrida ou pela próxima entrega corre por conta de quem trabalha. É preciso estar conectado, atento e pronto durante horas que não entram na conta da remuneração. A disponibilidade tornou-se condição não paga do trabalho pago. O trabalhador não conhece o critério que distribui as corridas nem o que rebaixa a sua pontuação, e essa opacidade faz parte do controle. Abílio (2020) observa que a uberização generaliza traços antes confinados ao trabalho feminino e periférico: a informalidade, a ausência de fronteira entre o que conta e o que não conta como trabalho, a administração do próprio esforço transformada em problema individual. O que parecia exceção das margens virou forma geral, e essa inversão diz muito sobre o rumo do trabalho contemporâneo.

Ricardo Antunes (2018) inscreve esse processo na transformação mais ampla do mundo do trabalho. Em “O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital”, o autor descreve um novo proletariado submetido a uma precarização que se veste com a linguagem do empreendedorismo (Antunes, 2018). A promessa de ser patrão de si encobre a perda de direitos arrancados ao longo de um século de luta. Nick Srnicek (2017) chama a atenção para a base econômica dessa configuração. As plataformas extraem e processam dados em volume sem precedentes, e é desse fluxo que retiram poder e lucro, posicionando-se como infraestrutura de intermediação que captura valor sem assumir os custos do emprego (Srnicek, 2017). Reunidas, essas leituras compõem um quadro em que a velha disputa pelo tempo reaparece com nitidez. O trabalhador de plataforma luta para que as horas de espera contem, para que a desconexão seja possível, para que o algoritmo não decida sozinho quando o seu dia começa e quando acaba.

Há um nó jurídico nessa configuração, e é nele que a disputa se trava hoje nos tribunais. O direito do trabalho nasceu reconhecendo a subordinação como marca da relação de emprego, e foi em torno dela que se ergueu a proteção do trabalhador. As plataformas apostam em dissolver a aparência da subordinação, apresentando o comando algorítmico como mera intermediação técnica e o trabalhador como prestador autônomo. O que Abílio (2014, 2020) descreve em termos sociológicos tem tradução direta nesse terreno. A subordinação não sumiu, mudou de forma, tornou-se difusa e contínua, exercida por métricas e notas no lugar de ordens diretas. No Brasil, esse confronto já chega aos tribunais superiores e ao Congresso, e o que se decide ali não é uma questão técnica menor, é a definição de quanto da vida o trabalho pode reclamar. Reconhecê-la ou negá-la define se milhões de pessoas terão ou não os direitos que um século de luta amarrou ao emprego, e é nesse ponto que a história do tempo encontra a história do direito do trabalho.

A captura do tempo livre

A pressão sobre o tempo não se detém nas horas de trabalho. Ela avança sobre o que resta. Jonathan Crary (2016) descreveu um mundo montado para funcionar sem interrupção, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, em que o sono se tornou uma das últimas zonas da existência a resistir à lógica da valorização contínua. O sono encurtado, a vigília que se prolonga, a atenção fatiada em telas concorrentes, tudo isso compõe um regime em que mesmo o repouso é disputado. O capital não pretende abolir o sono. O que ele captura é tudo o que rodeia o descanso, a atenção, o desejo, o tempo livre, submetidos à exigência de permanecer conectado, de responder, de consumir. A própria atenção virou matéria-prima, e as plataformas lucram com cada minuto que conseguem reter.

O smartphone condensa essa captura. A notificação que chega a qualquer hora, a expectativa de resposta imediata, a rolagem sem fim que troca atenção por dados, a dissolução da fronteira entre o expediente e a intimidade. A separação rígida entre trabalho e vida, que a era industrial impôs a duras penas, agora se desfaz por outro caminho. A linha que a fábrica traçou entre o dentro e o fora do portão é apagada pela conexão permanente. O resultado é uma porosidade nova, bem distinta daquela do mundo pré-industrial, em que a vida inteira fica exposta à demanda do trabalho e do consumo.

A captura do tempo livre cobra um preço que Fraser e Jaeggi (2020) ajudam a nomear. O capitalismo depende de um tempo que não paga e tende a tratar como inesgotável, o tempo do cuidado, do afeto, da reposição das energias, da formação das novas gerações. Esse tempo recai historicamente sobre as mulheres, e a sua exploração silenciosa sustenta a ordem que se diz produtiva. Como argumentam Fraser e Jaeggi (2020, p. 49), “historicamente, a separação entre trabalho assalariado ‘produtivo’ e trabalho não pago ‘reprodutivo’ sustentou as formas capitalistas modernas de subordinação de mulheres”.Quando a conexão permanente invade o tempo da reprodução, a fonte de que o capital se alimenta começa a secar. O esgotamento difundido, a queda da disposição para cuidar, a impressão de que nunca se descansa de verdade são sintomas dessa contradição, em que o sistema corrói a base de que vive. Vale lembrar que o descanso semanal e o fim de semana, hoje tomados como evidências, foram conquistas arrancadas no conflito, e não dádivas. Fronteiras de tempo podem ser traçadas porque já foram traçadas antes. O que se traçou pode ser apagado, e o que se apagou pode voltar a ser traçado.

A história do capitalismo pode ser lida como uma história da disputa pelo tempo, e essa leitura ilumina o presente. Do relógio que converteu vida em horas vendáveis, passando pela polícia que perseguia a ociosidade do trabalhador pobre e negro no Brasil do pós-abolição, até o algoritmo que exige disponibilidade sem pagar a espera, o que se repete é o conflito em torno de quem manda no tempo. A forma se transforma. A substância resiste.

Há uma tensão que prefiro deixar em aberto, porque ela é real. A insistência na continuidade cobra um preço. Ao mostrar que o algoritmo prolonga uma história antiga, arrisca-se a subestimar o que ele traz de inédito. A gestão algorítmica não se reduz ao relógio com outra roupa. Ela coleta dados em escala que o ponto eletrônico jamais alcançou, personaliza o comando trabalhador a trabalhador, ajusta incentivos em tempo real e opera com uma opacidade que nenhuma sirene teve. Entre afirmar a continuidade e reconhecer a ruptura não existe síntese cômoda, e talvez a tarefa seja sustentar as duas pontas ao mesmo tempo, sem ceder ao deslumbramento com a técnica nem ao conforto de proclamar que nada mudou.

A redução da jornada não é utopia sem lastro. Ela já aconteceu. A passagem das catorze ou dezesseis horas diárias do início da indústria para as oito horas que se firmaram como padrão ao longo do século vinte foi obra de greves, leis e organização, contra a resistência patronal que a cada etapa anunciava a ruína. O argumento de que a economia não suportaria limites ao tempo de trabalho é tão velho quanto a própria reivindicação de limitá-lo, e foi desmentido a cada conquista. Se o ritmo de hoje fosse a única forma possível de organizar o trabalho, não haveria história a contar. Há, e ela mostra alternativas que existiram e que podem voltar a existir.

Se a disputa pelo tempo é antiga, as armas para travá-la também o são, e podem ser reaprendidas. A redução da jornada, hoje encarnada na contestação à escala seis por um, retoma a bandeira histórica de que o dia de trabalho precisa ter limite. O direito à desconexão responde à captura do tempo livre pela conexão permanente. O controle democrático sobre as tecnologias de gestão recoloca a pergunta de quem programa o algoritmo e a serviço de quê. Nenhuma dessas pautas é tecnicamente impossível. Todas dependem de organização e de conflito, que foi sempre o modo como a jornada se disputou. A pergunta com que abri permanece a mesma com que encerro, e não é figura de retórica. Quem controla o tempo da vida? A resposta não está escrita no código. Continua em aberto, como sempre esteve, entregue à luta.

Referências

ABÍLIO, Ludmila Costhek. Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos. São Paulo: Boitempo, 2014.
ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização: a era do trabalhador just-in-time? Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 98, p. 111-126, 2020.
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução de Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Ubu Editora, 2016.
FRASER, Nancy; JAEGGI, Rahel. Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica. Tradução de Nathalie Bressiani. São Paulo: Boitempo, 2020.
SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
TERRA, Paulo Cruz. Racismo, trabalho e ociosidade no processo de abolição: o Brasil e o Império Português numa perspectiva global (1870-1888). Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 41, n. 88, 2021.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.
THOMPSON, E. P. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In: THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 267-304.

* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!  


  1. Doutor e Mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados na Faculdade de Direito da USP e no Instituto de Economia da Unicamp. Coordenador Acadêmico da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP. Sua tese de doutorado recebeu o III Prêmio CNJ Memória do Poder Judiciário (2024). ↩︎

Revista Lua Nova nº 120 - 2023

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