por Ronaldo Tadeu de Souza1
16 de julho de 2026
Para a coluna de hoje do Boletim Lua Nova, Ronaldo Tadeu de Souza entrevista Mayra Cotta2, advogada, consultora em compliance de gênero e doutoranda em política na New School for Social Research, em Nova York, sobre a violência direcionada a mulheres e meninas no Brasil, da implementação da Lei Maria da Penha às assimetrias de poder no mundo do trabalho, passando pela violência política de gênero e pelos impasses da teoria crítica contemporânea.
Boletim Lua Nova (BLN): Como tem percebido, a violência contra as mulheres, especificamente, nos últimos 18 meses, quando diversos casos apareceram na mídia?
Mayra Cotta (MC): Tenho percebido que, nos últimos 18 meses, houve um aumento importante da visibilidade da violência contra as mulheres, com casos que antes eram silenciados passando a ocupar espaço no debate público. Isso é positivo porque mostra que mais mulheres estão conseguindo denunciar e encontrar respaldo social. Ao mesmo tempo, esses casos também revelam o quanto ainda precisamos avançar em prevenção, acolhimento e responsabilização. Ainda vemos instituições despreparadas, ambientes de trabalho sem protocolos claros e uma enorme dificuldade em interromper violências antes que elas escalem. Acho que avançamos na capacidade de reconhecer o problema, mas ainda estamos atrasados na construção de estruturas realmente comprometidas com a proteção das mulheres.
BLN: Quais são os tipos de dificuldades que as mulheres vítimas de violência enfrentam no âmbito do direito?
MC: As mulheres vítimas de violência ainda enfrentam muitas dificuldades no âmbito do direito, principalmente porque as instituições do sistema de justiça seguem, em grande medida, despreparadas para compreender as especificidades das violências de gênero. Muitas vezes, a vítima encontra desconfiança, minimização do relato, inversão de culpa e procedimentos conduzidos sem qualquer compreensão sobre trauma, dinâmica de poder ou violência psicológica. Ainda existe uma tendência de tratar essas violências como conflitos interpessoais comuns, ignorando contextos de desigualdade, hierarquia, dependência econômica e perseguição. Além disso, há pouca integração entre acolhimento, proteção e responsabilização, o que faz com que muitas mulheres desistam no meio do caminho por medo de exposição, retaliação ou revitimização institucional.
BLN: Em termos específicos, como promotores, promotoras, o Ministério Público em geral, têm atuado no combate à violência contra as mulheres?
MC: Estruturalmente, ainda precisamos avançar muito na forma como o sistema de justiça enfrenta a violência contra as mulheres, inclusive dentro do próprio Ministério Público. Ainda existem dificuldades de formação, sensibilização e compreensão adequada das dinâmicas da violência de gênero. Mas, ao mesmo tempo, tenho visto cada vez mais promotores e promotoras profundamente comprometidos com o tema, atuando de forma séria na proteção das vítimas, na responsabilização dos agressores e na construção de respostas institucionais mais qualificadas. Também percebo um avanço importante na incorporação da perspectiva de gênero, especialmente entre profissionais que entendem que enfrentar a violência contra as mulheres não é um tema lateral, mas uma questão central de direitos humanos e de defesa da própria democracia.
BLN: Qual sua avaliação sobre a Lei Maria da Penha vinte anos depois de ser promulgada? No que ela precisa melhorar?
MC: A Lei Maria da Penha é uma das legislações mais importantes já produzidas no Brasil e, vinte anos depois, continua sendo extremamente avançada do ponto de vista jurídico e institucional. Ela foi fundamental para transformar a violência doméstica de um problema privado em uma violação de direitos humanos que exige resposta do Estado. Sinceramente, não acho que o principal problema hoje esteja no texto da lei. O que ainda precisamos melhorar, e muito, é sua implementação. Ainda faltam estrutura, formação adequada, integração entre os serviços, acesso à proteção em cidades menores e preparo institucional para acolher as vítimas sem revitimização. A lei criou ferramentas muito potentes e o desafio é fazer com que elas funcionem plenamente na prática.
BLN: Vamos tratar de política, no sentido mais estrito do termo. Acredita que a ascensão da direita intransigente fez com que a disposição para a violência de gênero aumentasse, ou são os números que hoje são mais publicizados do que antes?
MC: Acho que existe uma combinação das duas coisas. Houve, sem dúvida, um aumento da visibilidade e da disposição das mulheres para denunciar violências que antes permaneciam silenciadas. Mas também é impossível ignorar o impacto político e simbólico da ascensão de lideranças que normalizaram discursos violentos contra mulheres. Jair Bolsonaro ganhou projeção nacional, ainda como deputado, ao dizer para a deputada Maria do Rosário que “não a estupraria porque ela não merece”. Quando uma figura pública ascende politicamente a partir de uma fala desse tipo, isso produz efeitos concretos na sensação de permissibilidade da violência de gênero e no fortalecimento da cultura do estupro. Discursos públicos importam porque ajudam a definir os limites do aceitável dentro de uma sociedade.
BLN: Como você avalia o papel da esquerda no combate à violência contra as mulheres? O que o atual governo federal poderia ter feito quando assumiu em 2023 para melhorar esse combate?
MC: Acho que a esquerda teve um papel fundamental nos avanços legislativos e institucionais no combate à violência contra as mulheres, inclusive na criação e fortalecimento de políticas públicas muito importantes. Mas também acho que uma parte significativa da esquerda ainda trata a pauta das mulheres como uma questão identitária, secundária, e não como um problema estrutural e central para a democracia e para a organização da sociedade. Falta prioridade política real. Muitas vezes, o tema aparece no discurso, mas não se traduz em orçamento, estrutura, transversalidade ou enfrentamento concreto das resistências institucionais.
BLN: Nos últimos anos tem aumentado o número de representantes mulheres nos parlamentos (federal, estadual e municipal) e contraditoriamente a violência também aumentou; qual sua avaliação sobre esse paradoxo e como superá-lo?
MC: O aumento da presença de mulheres nos espaços de poder é um avanço democrático muito importante, mas ele também produz reações e resistências de setores que percebem estar perdendo espaço, influência e privilégios históricos. A violência política de gênero cresce justamente porque mais mulheres passaram a ocupar lugares dos quais foram excluídas durante séculos. Existe uma tentativa de expulsá-las desses espaços por meio de intimidação, humilhação, ataques digitais e violência simbólica. E isso acontece porque muita gente ainda enxerga a ampliação da participação das mulheres como uma disputa de soma zero, quando na verdade se trata de uma transformação democrática que melhora a qualidade da representação política para toda a sociedade. Superar esse cenário exige responsabilização efetiva da violência política de gênero, fortalecimento institucional e, principalmente, uma mudança cultural profunda sobre quem pode exercer poder e autoridade na esfera pública.
BLN: Acredita que os casos de grande visibilidade como o da Luiza Brunet contribuem ou prejudicam (dada a espetacularização e efeito de normalização pela indústria cultural, para falarmos na linguagem da Escola de Frankfurt) a luta e a conscientização do problema da violência de gênero?
MC: Não acho que exista uma resposta simples ou uma posição a priori sobre isso. Também não acredito que nenhuma mulher deva ser transformada em mártir para que a sociedade reconheça a gravidade da violência de gênero. Na maioria das vezes, inclusive, a exposição pública desses casos sequer é uma escolha da própria mulher. O que acho importante é entender que casos de grande visibilidade acabam abrindo uma janela de debate público sobre violências que normalmente permanecem invisíveis ou naturalizadas. O desafio, para os movimentos feministas e para a sociedade, é conseguir se apropriar criticamente desses momentos para produzir conscientização, discussão qualificada e transformação institucional, em vez de apenas consumir esses casos como espetáculo ou entretenimento.
BLN: Os casos de assédio moral e assédio sexual nos ambientes de trabalho, aumentaram ou diminuíram? Tem havido processos contra coordenadores, chefes, gerentes, diretores, CEOs etc., ou ainda é um terreno difícil para as mulheres, decorrente de assimetrias de poder e prestígio? E nas universidades, o que você tem observado?
MC: Eu trabalho diariamente com esse tema, tanto no setor público quanto no privado, e a minha percepção é que os casos em si provavelmente não aumentaram na mesma proporção em que aumentaram as denúncias. O que mudou foi que mais mulheres passaram a reconhecer determinadas condutas como violência e encontrar algum grau de respaldo institucional para relatar o que viveram. Ainda é um terreno muito difícil por causa das assimetrias de poder, prestígio, dependência econômica e medo de retaliação, especialmente quando os acusados ocupam cargos de liderança. Mas também vejo uma mudança importante. Hoje, empresas, universidades e instituições públicas estão mais preparadas do que estavam alguns anos atrás para lidar com esses casos, criando protocolos, canais de denúncia, treinamentos e mecanismos internos de responsabilização. Ainda há muito despreparo e resistência, mas existe hoje uma pressão institucional muito maior para que esses casos não sejam simplesmente ignorados.
BLN: Você é pesquisadora em Teoria Crítica da Sociedade, como tem acompanhado as contribuições da teoria social e política na luta contra as opressões às mulheres? Quais os avanços? Quais as debilidades que ainda necessitam serem superadas?
MC: Acho que houve avanços muito importantes da teoria social e política, especialmente na incorporação das contribuições feministas para compreender como as opressões de gênero estruturam o trabalho, a política, a família e a própria ideia de cidadania. Mas, ao mesmo tempo, ainda temos desafios teóricos muito relevantes. Um deles, que é justamente o centro da minha pesquisa atual, é que ainda não conseguimos teorizar adequadamente aquilo que costumamos chamar de “trabalho de cuidado”. Inclusive, acho que o próprio nome já é insuficiente, porque não se trata apenas de cuidado. Existe toda uma dimensão de formação, sustentação e produção cotidiana da vida social que ainda escapa das nossas categorias. Tenho trabalhado com a ideia de “building”, até por falta de uma lexicologia melhor, para tentar pensar esse conjunto de atividades e relações que constroem sujeitos, vínculos e condições de existência. Acho que esse ainda é um desafio central para a teoria crítica contemporânea.
BLN: Os cursos de direito pelo país deveriam ter disciplinas específicas tratando de legislação, montagem de processos judiciais contra agressores, dinâmica do sistema judiciário ao tratar das violência de gênero? Qual sua opinião?
MC: Acho que os cursos de Direito ainda estão muito atrasados na incorporação das discussões de gênero. Claro que disciplinas específicas sobre violência de gênero, legislação e funcionamento do sistema de justiça são importantes, mas, para mim, o principal desafio é mais profundo. Uma ideia muito mais transformadora seria incorporar teoria crítica de gênero já nas disciplinas propedêuticas, para que gênero deixasse de ser um tema isolado e passasse a funcionar como uma categoria crítica presente organicamente em toda a formação jurídica. Isso mudaria a forma como futuros profissionais pensam direito penal, processo, trabalho, família, teoria do Estado e até produção de prova. Enquanto gênero continuar sendo tratado como um assunto especializado ou periférico, o sistema de justiça continuará tendo dificuldade de compreender adequadamente essas violências.
BLN: Você está envolvida em alguns projetos, poderia nos dizer e explicar quais? E como eles se articulam com sua luta pela vida das mulheres no Brasil?
MC: O principal projeto em que estou envolvida neste momento é a série “Afiadas”, que mistura humor, ficção e entrevistas para discutir questões centrais da vida das mulheres no Brasil contemporâneo. A série se passa em um salão de beleza em Brasília e acompanha as conversas, contradições, violências e dilemas que atravessam o cotidiano feminino, sempre a partir de uma perspectiva muito humana e bem-humorada. Além da ficção, cada episódio recebe uma convidada para uma conversa sobre temas como misoginia nas redes, consentimento, política, trabalho, maternidade e esporte. Acho que o projeto se articula profundamente com a minha trajetória porque parte da ideia de que enfrentar a violência de gênero também exige disputar cultura, linguagem e imaginário social. Não basta atuar apenas no sistema de justiça ou nas políticas públicas. É preciso transformar a maneira como a sociedade fala, enxerga e naturaliza determinadas violências contra as mulheres. A estréia é dia 26 de junho, na TV Brasil e YouTube.
* Este texto não reflete necessariamente as opiniões do Boletim Lua Nova ou do CEDEC. Gosta do nosso trabalho? Apoie o Boletim Lua Nova!
- Professor no departamento de ciência política no IFCS-UFRJ, pesquisador no Cedec-Centro de Estudos em Cultura Contemporânea, no GPDET-Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria (UFRJ-CNPq) e coordenador do LIEPPC-Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Política e Pensamento Crítico (DCP-UFRJ). ↩︎
- Mestre em direito criminal pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora nos departamentos de Politics e Global Studies na Eugene Lang College of Liberal Arts. Já trabalhou como assessora jurídica da Comissão de Direitos Humanos no Congresso Nacional e como assessora especial na Secretaria-Executiva da Casa Civil da Presidência da República. ↩︎



